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Aljubarrota

António Sardinha

O texto analisa a Batalha de Aljubarrota e a crise da nacionalidade portuguesa no final do século XIV, destacando o papel fundamental de Nun’Álvares Pereira e as consequências políticas do reinado de D. Fernando. Reflete sobre a transição da Idade Média para a Renascença, a construção da unidade do Reino e o surgimento do espírito de expansão marítima, enquanto discute as figuras de D. Leonor Teles e D. Beatriz sob uma perspetiva histórica, defendendo que a ideia de Pátria ainda estava em formação e que os conflitos da época derivavam de interesses sociais e locais, mais do que de um sentimento nacional definido.




​ALJUBARROTA
Foi em 1385, numa segunda-feira, véspera de Santa Maria de Agosto. Os nossos tinham jejuado duramente, segundo o preceito do dia, e a violência da Canícula castigara-os com uma saraivada de fogo, queimando-lhes as gorjas e desfalecendo-lhes os alentos. Se as forças morais não valessem mais do que o exército poderoso do rei de Castela, a incerteza da vitória e a massa compacta do inimigo abateriam, logo ao primeiro encontro, a gente da nossa terra, a quem animava uma alma comum, de que a verdadeira consciência ardia na consciência do Condestabre. Os homens do bom-saber e toda a quadratura de juristas que assistia ao Mestre, já aclamado e coroado, pronunciara-se sempre abertamente, lá desde Abrantes, contra a temeridade da batalha. Só Nun’Álvares persistira – só Nun’Álvares teimara, cheio do sentido religioso de uma predestinação a cumprir. Se nós nos batíamos debaixo das bênçãos da Igreja, fiéis ao Papa Urbano, legítimo senhor da Cadeira Apostólica de Roma! Cismáticos, os castelhanos mereciam os raios da cólera de Deus. Já o fradinho de Guimarães lhes anunciara o castigo. Chegava o momento de ele cair do céu, nas pontas agudas das nossas lanças. E numa balbúrdia sem nome, numa tropelada espessa de cavaleiros e peonagem, a batalha venceu-se sem se saber como, quando desmaiava a tarde, em menos do suspiro de uma hora. Mais uma vez o milagre descera, como na alva distante de Ourique, sobre os destinos misteriosos de Portugal!

Aljubarrota rematava assim a crise orgânica da nacionalidade, a que o instinto secreto da sua existência ia lançar para as lutas maiores do nosso desenvolvimento. O país conformara-se lentamente, pacientemente, sobre o admirável trabalho dos dinastas afonsinos. Submetido o último reduto muçulmano – e com pequenas excepções nós precisamos de ver no muçulmanismo peninsular mais um facto de religião e de civilização de que um facto de raça –, submetido o último reduto muçulmano na faixa acastelada dos Algarves, a condição agrícola de Portugal começara a fortalecer-se através da sua intensa vida municipal e graças aos grandes recursos sociais da Realeza mediévica. A unidade do Reino estava conseguida, e não demoraria o instante em que, apertados entre o Atlântico de um lado e o planalto castelhano do outro, as necessidades da expansão nos obrigariam a abrir caminho – ou para nascente por terras de Espanha adentro, ou então mais naturalmente para o domínio próximo das águas.

A política de D. Fernando reflete já as exigências dessa necessidade. A obra do seu reinado não se pode julgar tão nula e tão nefasta como à primeira vista se nos manifesta, toda subordinada pelos historiadores à sua cega aventura de amor. Nem a inconstância de D. Fernando significa apenas um defeito pessoal de carácter. D. Fernando sofre na sua psicologia desencontrada as influências contraditórias de toda a criatura que nasceu numa época de transição. É numa época de transição que D. Fernando aparece.

A Idade Média, cavalheiresca e militante, vai ceder a uma outra idade do mundo em que o direito aprendido em Bolonha pelos Letrados prevalecerá com o individualismo amanhecente da Renascença contra a constituição tradicional da sociedade. Fernão Lopes apercebeu-se do fenómeno ao escrever com observação pasmada: «Porque se levantou outro mundo novo e outra geração de gentes?» É aí, no reconhecimento de uma volta brusca da história, que não só nós descobrimos a chave do carácter de D. Fernando, como também o sentido oculto da crise que Aljubarrota epilogou.

Em meia-dúzia de linhas, incisivas e fortes como os medalhões antigos, num livro que reputamos de bom, O Doutor Minerva, apesar do ar transitório do título, e de certos critérios de racionalismo hoje arcaico, eis como se exprime Manuel Bento de Sousa acerca de D. Fernando: «Uma nova lei há a cumprir-se no destino de Portugal – a expansão. Cabe isso a Fernando, o Formoso, que a sente, mas erra-a.» Erra-a, porque, formado e governado pela influência marítima dos litorais, se ao Oceano Portugal devia a sua vida e a sua independência, para o Oceano se dilataria no prosseguimento natural da sua grandeza. O engano fatal surgirá mais tarde quando ao império do Mar e à posse de Marrocos nós substituirmos a loucura do Oriente. E a psicologia da era que para a nossa pátria se estreia em Aljubarrota, ainda Manuel Bento de Sousa a traceja com uma penetração superior: «Os grandes homens que a hão-de entender (à expansão) vêm um reinado mais tarde. A expansão deve fazer-se para o mar, e D. Fernando intenta-a para o continente. As riquezas de Portugal despejam-se nas fortalezas de Castela, as boas moedas de D. Pedro vão correr no Aragão, refundidas em peças aragonesas. O rei não está à altura dos seus destinos.» E Manuel Bento de Sousa fecha o seu juízo, afirmando sensatamente de D. Fernando: «Tem o instinto, mas não tem a ideia; tem a aspiração, mas não tem a compreensão.»

A pretensão de D. Fernando ao trono de Castela não é, pois, a leviandade que geralmente se supõe. Obedecia a uma política certa do rei, que tão bem serviu em tantos pontos a causa do seu país. Basta lembrar a lei das Sesmarias e a criação da bolsa ou caixa de seguros para mareantes. Também a figura de D. Leonor Teles carece de ser examinada dentro do seu tempo. Ela não é a mulher diabólica que o romantismo dos nossos historiadores nos pintou retoricamente, nem tudo o que há escrito a seu respeito nos merece fidedignidade absoluta. A história pratica-se e estuda-se como história. Não é com mentalidade de agora que se apreciam e interpretam circunstâncias de ontem. Já Stendhal dizia dos tempos feudais que não se ser morto e ter no Inverno uma boa vestimenta de pele era para a maioria da gente no século décimo a felicidade suprema. Em breves palavras, Stendhal resolvia o problema do feudalismo contra as declamações sentimentais dos que defrontam a questão, colocando-a em relação a si próprios, centenas de anos depois. Não sucede coisa diversa com D. Leonor Teles. Primeiro, nós conhecemo-la através da opinião do partido que a venceu. Em seguida, ninguém a julga em harmonia com a corrente política de que ela foi portadora na sua ambição desensofrida.

O drama ensanguentado que se soluciona com a subida da segunda dinastia ao poder só hoje é possível olhá-lo debaixo do ponto de vista nacional. A Pátria como conceito moral e social não existia ainda então definida, nem na consciência nem no Estado. O que existia era o interesse soberano do rei realizando consigo o soberano interesse do agregado. O que existia era um estádio preliminar de nacionalismo, de que a nacionalidade consciente derivaria depois. Não é assim a indignação patriótica que atira os municípios do Sul e a populaça de Lisboa sobre o invasor castelhano. É antes o eterno dualismo que nunca nos deixou amalgamar com o povo vizinho, tomando relevo e fôlego com fogosa violência. Na atitude dos concelhos transtaganos manifestava-se igualmente a razão local, que é a base e a força de toda a nossa história. Quem meditar um pouco o Cronista verá que as alterações de 1384 traduzem até um sopro formidável de anarquia, que os limites tradicionais da Religião e da Realeza unificaram através do pensamento de Nun’Álvares e do Mestre para um desígnio que só em poucos tomava sentido e direcção. As convulsões de 1384 são os sinais do individualismo desordenado da Renascença que na crise orgânica da nacionalidade servirão para a libertar, por mercê daquelas duas formidáveis disciplinas, desviados para o exterior. Tanto é como pensamos que Basílio Teles chega a encarar a vitória do Mestre de Aviz como a sobreposição das províncias do Sul, erráticas, semitas, desenraizadas, ao Norte agrário, preso à terra e à conformação hereditária da raça.

Não me é fácil inutilizar aqui a tese do ilustre publicista. Salientamo-la unicamente para mostrar que não cabe o nome de ‘traidores’ aos partidários de D. Leonor e de sua filha a rainha D. Beatriz. A Pátria, repito, não existia então moralmente, eticamente. Ia concretizar-se mais tarde em Quatrocentos na expressão da assombrosa reciprocidade colectiva que Nuno Gonçalves fixou para sempre nas suas tábuas imortais. O que estava então em presença era, de um lado, o tumulto das vilas – com um fundamento de diferenciação histórica para com o castelhano e com um fundamento de diferenciação social para com a nobreza detentora da autoridade e da terra – e do outro lado a mesma nobreza, vivendo a sua educação medieval no culto da honra e obrigada pelo juramento aos direitos de D. Beatriz, que representava, com efeito, a legitimidade. Eis o único critério que nos entrega a compreensão desse conflito mais trágico do que nós imaginamos e a que só a missão admirável de Nun’Álvares – a missão de um herói, mandado por Deus – conseguiu encontrar a solução necessária.

Saído da nobreza, D. Nuno tira dela as virtudes precisas para acudir à crise de que depende a sorte do Portugal futuro e aproveita o vento incendiário da rebelião que nos parece devorar para assentar solidamente a independência da nossa terra. Tal é a vocação desse herói extraordinário, que, como Joana d’Arc, é um verdadeiro enviado providencial.

Portugal rompia, deste modo, do seu nacionalismo instintivo para a categoria já estável de uma nacionalidade, graças à acção iluminada do Condestabre. Os juristas conferem-lhe depois os atributos reais do Direito, assinalando-lhe um princípio e uma finalidade. Aljubarrota marca a passagem de uma fase embrionária e latente da Pátria para a sua maioridade reconhecida, de agora em diante, nos vínculos recíprocos do sangue e da terra. A Grei vai surgir do choque doloroso de uma hora mais longa do que as longas passadas de um século. E Portugal atira-se para o caminho do engrandecimento, com o seu génio já clarificado na vocação coletiva da nacionalidade se conhece e possui enfim.

Não é outra a lição de Aljubarrota, cuja lembrança Portugal nos manda que a meditemos, para honra nossa e louvor dos nossos Maiores. É hoje tão incerto como então o nosso destino. Mas um ato de fé naquele alto esforço de outrora, que dorme dentro de nós o sono do Encoberto, vivificará talvez, no sonambulismo vergonhoso em que nos estagnamos, as energias de milagre que nunca nos faltaram, sempre que para elas houve alguém que apelasse. É esse o encargo que pertence à mocidade do nosso país mais do que a ninguém.
​
Não nos amedrontem os negrumes de que se carrega o dia de amanhã! A estrada a pisar-se é só uma e já Deus nos fez a mercê de nos ensinar qual ela seja. Se os perigos, aumentando, nos procuram como ferros de espada, tanto melhor! A nossa existência encher-se-á de um sabor de virtude e de heroísmo, por onde há de regressar à nossa terra o património esquecido da sua glória e da sua grandeza. Só assim seremos dignos da pátria que nos foi transmitida como um bem de família e que, como um bem de família, é preciso defender e conservar!

In Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

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​
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