ESTUDOS PORTUGUESES
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      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
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      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
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        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
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        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
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      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
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    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
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        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
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António Sardinha

Ao Princípio era o Verbo


ÍNDICE
​
Ao Princípio era o Verbo
António Sardinha defende um nacionalismo baseado na tradição e no universalismo, sublinhando a necessidade de restaurar a ordem espiritual e moral da Pátria através da integração dos seus valores históricos e cristãos. Rejeitando tanto o nacionalismo agressivo quanto o pacifismo, aponta para o papel providencial de Portugal na dilatação da Fé e da Civilização.
​

Meditação de Aljubarrota
António Sardinha defende que a Batalha de Aljubarrota seja vista não como símbolo de divisão entre Portugal e Castela, mas como um marco do destino comum dos povos peninsulares. Para Sardinha, edificar uma nação exige mais do que nacionalismo, sendo fundamental equilibrar sentimento, razão e objetivos espirituais. Salienta os papéis contraditórios do povo e da nobreza na crise do século XIV e destaca Nun’Álvares Pereira como exemplo de coragem e de fé. A vitória em Aljubarrota afastou Portugal das disputas peninsulares e possibilitou os Descobrimentos. A vitória de Castela em Toro abriu caminho ao seu decisivo papel contra a heresia protestante e o avanço otomano. Os destinos complementares de Portugal e Castela, sugerem que a celebração de Aljubarrota inspire fraternidade e renovação espiritual face aos desafios do presente.
O drama de Fialho
Analisa a evolução das ideias políticas de Fialho de Almeida, destacando a sua crítica ao parlamentarismo português e ao republicanismo desprovido de programa concreto. Fialho, inicialmente combativo e crítico feroz das instituições, acaba por se aproximar do tradicionalismo político, sendo a sua trajetória marcada pelo desencanto e pelo desejo de regeneração nacional, refletido no seu apoio à ditadura franquista e na busca de fundamentos sólidos para o país.
​Gomes Freire (revisão de um processo)
António Sardinha revisita o processo de Gomes Freire de Andrade, criticando a sua exaltação como mártir nacional e atribuindo-lhe traços de mau caráter, indisciplina militar e falta de patriotismo. O autor destaca as ligações de Gomes Freire à Maçonaria e à causa napoleónica, sua participação ativa em conspirações contra o Estado e colaboração com interesses estrangeiros, defendendo que a sua condenação por traição seguiu os padrões jurídicos da época. Sardinha conclui que a glorificação de Gomes Freire representa uma distorção histórica alimentada por ideias maçónicas, apelando à preservação dos valores tradicionais portugueses.
​O verdadeiro Antero
Antero de Quental foi crítico da sociedade burguesa e do parlamentarismo das oligarquias, defendendo um socialismo de raízes nacionais. Apesar de antiparlamentarista, apoiou ações políticas pragmáticas, como a participação de Oliveira Martins no partido progressista, e liderou, com energia e patriotismo, movimentos como a Liga Patriótica do Norte. Era-lhe dolorosa a decadência coletiva, alimentando sempre a esperança num ressurgimento nacional. Exaltando valores comunitários cristãos, rejeitou tanto as monarquias plutocráticas quanto as repúblicas burguesas, influenciando gerações posteriores pelo seu exemplo e idealismo.
​

Monarquia e República (esboço de uma teoria)
Analisa criticamente o Absolutismo do século XVIII, mostrando como a centralização do poder enfraqueceu as antigas liberdades municipais e corporativas, e defende que apenas a Monarquia, restaurada na sua essência tradicional municipalista e descentralizadora, pode conciliar unidade com liberdade e restaurar as verdadeiras bases da sociedade portuguesa, em oposição aos efeitos negativos da centralização dos chamados regimes liberais assentes no monopólio do poder dos partidos ideológicos.

​O rei Fernando
Analisa a crise política e social no final do reinado de D. Fernando, destacando os conflitos internos e o esforço do monarca para preservar a independência de Portugal. Defende uma visão justa deste rei, reconhecendo o seu nacionalismo, o impacto das reformas económicas e a injustiça das críticas históricas que o classificaram como inconstante.

Oliveira Martins
António Sardinha analisa a trajetória intelectual e política de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, destacando a influência do pensamento alemão e do cesarismo na sua visão sobre o Estado e o liberalismo português. Apesar das tentativas de reforma e do envolvimento com o partido progressista, Oliveira Martins enfrentou fracassos políticos e desilusões, mantendo todavia um compromisso com o ideal de renovação nacional. A sua morte é aqui descrita de forma emotiva, ressaltando a sua reconciliação espiritual e legado como precursor de ideias e exemplo de dedicação à causa da continuidade da Pátria.

Alcácer-Quibir
António Sardinha entende o rei D. Sebastião como um símbolo místico e patriótico, destacando a sua educação fundamentada em valores religiosos e nacionais e a sua pureza como reflexo do espírito de sua época. O rei representa o desejo coletivo de Portugal por renovação, sendo o mito sebastianista uma força de esperança e identidade que persiste através dos séculos.
​
Teoria da Nobreza
Examina a evolução das classes sociais em Portugal, ressaltando o papel histórico da nobreza como agente de estabilidade e seleção dos melhores, baseada na honra e no serviço público, em contraste com o predomínio atual da riqueza e da especulação financeira. Critica a erosão dos valores tradicionais, a ascensão dos interesses individuais e a substituição da nobreza pelas oligarquias económicas, defendendo a restauração de princípios nobres e profissionais como caminho para o ressurgimento do país.

​Os nossos Reis
Uma análise crítica da evolução da monarquia portuguesa, evidenciando o papel dos reis e rainhas na construção e manutenção da identidade nacional. As crises políticas e as mais recentes influências externas são vistas como determinantes da decadência do país, enquanto a monarquia é defendida como a verdadeira representante e guardiã da continuidade histórica de Portugal.

O copiador de Junot
António Sardinha examina as complexas relações entre figuras portuguesas e francesas durante a primeira invasão francesa, destacando Pamplona e Gomes Freire como colaboradores influenciados pela Maçonaria, e critica o revisionismo histórico que glorifica traidores nacionais, defendendo uma análise mais justa sobre a deportação para Baiona e o papel do marquês de Penalva como contraponto patriótico.
​
A Ordem-Nova
António Sardinha reflete sobre a crise da sociedade europeia, criticando tanto o liberalismo burguês quanto o bolchevismo, vistos como faces de um mesmo processo de desordem e dissolução social. Defende uma reconstrução baseada no regresso às estruturas tradicionais – família, município, corporação – e propõe o sindicalismo ou gremialismo cristão como alternativa equilibrada, sob coordenação do Estado, para restaurar a ordem, a justiça social e a dignidade do trabalho. Sardinha enaltece o papel de Portugal no ressurgimento de uma nova civilização ocidental, assente em valores cristãos e numa ordem orgânica, face ao colapso das ideologias revolucionárias e materialistas.

D. Carlota Joaquina
Defende uma reavaliação da imagem de D. Carlota Joaquina, frequentemente difamada tanto na sua aparência quanto no seu caráter, destacando narrativas hostis e testemunhos duvidosos que, como o da duquesa de Abrantes, criaram uma “lenda negra” injusta em torno da rainha. Em 1918, baseando-se em novas pesquisas históricas e depoimentos mais imparciais, Sardinha sugere que as críticas exageradas à figura física e moral de Carlota Joaquina refletem rivalidades políticas e pessoais, e não a realidade documentada, defendendo a necessidade de justiça histórica e reconhecimento de sua inteligência e papel político.

Post-Scriptum
O texto revisita a figura de D. Carlota Joaquina, desmontando mitos e calúnias perpetuadas por relatos tendenciosos e rivalidades pessoais, como os da duquesa de Abrantes. Através de análises de historiadores como Sá Chaves e D. Antonio Ballesteros, o autor argumenta que as acusações sobre o caráter e aparência da rainha foram exageradas por motivações políticas e pessoais, defendendo uma visão mais justa e documentada da sua personalidade e papel histórico na resistência ao liberalismo em Portugal.
​
​Apêndice - Ainda Gomes Freire 
Documento que se refere a uma cópia da célebre carta de Frei Diogo de Melo e Menezes, confessor de Gomes Freire, endereçada a D. Miguel Pereira Forjaz, e inclui informações sobre a posse e a transferência do original. Acrescenta ainda, por curiosidade histórica, a transcrição de uma canção popular intitulada «O Zabumba», que satiriza os soldados de Gomes Freire, refletindo o contexto social e político da época.

Uma nova peça se traz ao processo de Gomes Freire. Mas se ela confirma o supliciado de 1817 na plena evidência do seu crime, coloca-o também, e soberanamente, na dignidade cristã do arrependimento. Trata-se da carta dirigida por Frei Diogo de Melo e Menezes, que recolheu a última confissão de Gomes Freire, a D. Miguel Pereira Forjaz. Não comentaremos o singelo e impressionante documento! Inédito até agora, o seu original achava-se em poder dos possuidores do arquivo do conde da Feira. Cedido, porém, por empréstimo, ao falecido escritor militar Claudio de Chaby, parece que se extraviou com a sua morte, não sendo mais restituído. Por uma feliz previsão, fora antes reproduzido numa cópia devidamente autenticada. É essa cópia, existente nos papéis do senhor D. António de Almada e Lencastre, morto recentemente, que trasladamos para aqui, graças à generosidade do nosso bom amigo António Rodrigues Cavalheiro, cuja dedicação aos problemas controvertidos da nossa história se abona por uma sólida e bem detalhada cultura. Segue a carta, que destrói por completo o descrédito acumulado sobre o nome de D. Miguel Pereira Forjaz, ao mesmo tempo que nos revela em Gomes Freire um outro homem – um homem inteiramente renovado pela purificação interior.
 
Cópia – Ilmo. e Exmo. Sr. Mandado eu pela Providência Divina à Fortaleza de São Julião da Barra a fim de assistir a Gomes Freire de Andrade para dirigir seu espírito e socorrer as suas necessidades espirituais, ao que dei princípio na noite do dia 15 do corrente, logo depois de lhe ser lida a sentença de pena última: e havendo hoje concluído esta obra com visível auxílio de Deus Nosso Senhor, sensível aproveitamento daquele meu dirigido filho em Jesus Cristo, e plena consolação da minha alma: é do dever do meu Sagrado Ministério não me demorar um só momento em pôr na Repeitável (sic) Presença de V. Ex.ª as súplicas que ele ontem de manhã, depois da confissão Sacramental, e pouco antes de receber o Sagrado Viático, prostrado diante de Deus banhado em lágrimas de verdadeira compunção, ansiosamente me incumbiu para V. Exa., as quais súplicas são do teor seguinte.

Amigo por quem Deus por sua Misericórdia foi servido consolar tanto o meu espírito nestes últimos instantes da minha vida, e por quem me enviou a sua Divina Luz para ver a importância do negócio da salvação, não vos esqueça cumprir por mim tudo que for necessário para que me não perca.

Ide, não esqueça, falai a D. Miguel Pereira Forjaz, pedi-lhe pelo amor de Deus, a quem brevemente vou dar contas, que me perdoe as malignidades, e calúnias com que o tenho ofendido mais que a nenhuma outra pessoa, sendo certo que hei ofendido a muitas.

Esta recomendação, Ilmo. Exmo. Sr., hoje mesmo me tornou a lembrar antes de sair do Cárcere para o patíbulo: o que tudo lhe prometi cumprir: e agora peço eu com os olhos arrazados de lágrimas a V. Ex.ª pelas chagas de N.S.J.C. o perdão para aquela alma contrita e encaminhada para o céu. E logo que o cansaço, vigílias e angústias destes três mortificados dias deixarem o meu espírito agora tão consternado e abatido irei pessoalmente, como devo receber o despacho desta tão justa petição, o que espero da Respeitável Pessoa de V. Exa., a quem Deus guarde muitos anos. Real Mosteiro de Belém, 18 de Outubro de 1817. De Vossa Exa. At.º e humilde capelão, Frei Diogo de Melo e Meneses.

Reconheço o sinal supra. Lisboa, 27 de Novembro de 1822. –Em testemunho de Verdade – lugar do sinal público – Martiniano José Vicente.

No sobrescrito: Ao Ilmo. e Exmo. Sr. D. Miguel Pereira Forjaz, do Conselho do Governo dos Negócios da Guerra dos Estrangeiros e da Marinha. G.D.m.a. De Frei Diogo de Melo e Meneses.
Está conforme, 28 de Fevereiro de 1885.

Rafael Eduardo de Azevedo Basto (palavras riscadas)

​O original deste documento fica em meu poder por cessão, sem perda de posse, da Exma. Sra. D. Maria Ana Ximenes de Azevedo e Silva, possuidora do cartório do Conde da Feira, onde o mesmo documento estava incorporado. Lisboa, 28 de Fevereiro de 1885 – Rafael Basto.
No sobrescrito, dentro do qual se acha esta cópia, lê-se:
​
Cópia da célebre carta de Frei Diogo de Melo e Menezes, confessor de Gomes Freire, a D. Miguel Pereira Forjaz. – Em poder do General Chaby (?) (D. Manuel Almada).


E, por curiosidade unicamente, trasladamos para aqui do volume recente (1921) de Francisco Serrano, Romances e canções populares, a letra e a nota respeitantes a uma canção intitulada «O Zabumba»:
​
«É uma marcha militar, divulgada entre o povo certamente pelos inimigos do mártir patriota Gomes Freire, com o propósito de o ridicularizar.
Ouvi-a a meu avô, haverá cinquenta anos, em Mação, onde era muito cantada: «Bum-bum-bum. Lá vem o Zabumba, / Bela vida militar! / Já lá rufam os tambores! / Já lá tocam a marchar! // Soldados de Gomes Freire / São tantos como os mosquitos; / Uns servem de alcoviteiros, / Outros para levar escritos. // Bum-bum-bum. Lá vem o Zabumba, etc. // Soldados de Gomes Freire, / Bonecos de papelão, / Não servem p’ra defender / Portugal, nossa Nação.»
Apesar de o senhor Francisco Serrano considerar a referida canção como divulgada pelos inimigos do mártir patriota Gomes Freire, é, ou não é, um expressivo documento?

Ao princípio era o Verbo
​
(Resumo do Prefácio)


[Ao princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. - João 1: 1]
O título do livro, retirado do Evangelho de João, abre o prefácio com a seguinte explicação: 

​" 'Ao Princípio era o Verbo...' E confessar o Verbo ao princípio de todas as coisas, é confessar o Espírito dirigindo o Mundo, é confessar a inteligência encaminhando a ação. "(p. xi). 
​​
António Sardinha reuniu aqui "algumas páginas de forte e sincera campanha nacionalista" (p. ix). A "ideia-madre" do Integralismo Lusitano é exposta desde a abertura: a defesa de um "regresso da sociedade portuguesa às condições naturais da sua formação e desenvolvimento" (p.ix).
​

Sardinha reafirma o seu tradicionalismo acolhendo a herança dos "Vencidos da Vida" em prol de um "reaportuguesamento Portugal" ao serviço da cristandade Ocidental: 

"Se o mal de que Portugal enferma deriva da influência desenraizadora da Revolução [Francesa, 1789], destruir sistematicamente semelhante influência deve ser para quantos trabalham com a pena a mais empenhada das suas preocupações. Carecemos de reparar, no doloroso momento de transição que se atravessa, o erro herdado das gerações que nos antecederam. Cabe-nos melhor de que a ninguém o grande ensinamento do neto de Renan: - "é preciso tomar o partido dos nossos Maiores contra o partido de nossos Pais". Tomar o partido dos nossos Maiores é reconciliar-nos com a essência eterna da Pátria, - é integrar-nos na sequência tradicional do nosso passado de ocidentais e de portugueses." (p. xii)

A definição do seu nacionalismo é uma das preocupações centrais do prefácio ("Ao Princípio era o Verbo", pp. ix-xxii), aí distinguindo três espécies: (1) o nacionalismo “da sôfrega dilatação que, de nacionalismo, se torna depressa em perturbadora exaltação imperialista” (o Fascismo triunfara recentemente em Roma); (2) o nacionalismo que, a exemplo da Suíça, quer ser “placa giratória” da Europa, e “não ambiciona para Portugal outras vantagens que não sejam as de um turismo promissor e condescendente”; e (3) o "nacionalismo esclarecido pelo tradicionalismo" - o seu nacionalismo - que identifica como "católico romano", apto a “reconstruir uma ordem internacional em que todas as pátrias, pequenas ou grandes, se achem naturalmente enlaçadas por uma finalidade comum.” (p. xvi)
​
António Sardinha escrevia em Fevereiro de 1923, na Quinta do Bispo, em Elvas, mas pressentindo já o aproximar de uma nova hecatombe europeia:

“Urge que, na floresta espessa dos mitos e superstições dominantes, nos não abandonemos cegamente ao encanto bárbaro da aspiração nacionalista. Acentuamos "encanto bárbaro", porque, na sua ansia impetuosa há na aspiração nacionalista que desvaira a Europa uma força de agressividade primitiva, - um total olvido da harmonia que é imperioso restabelecer nas relações dos povos, como assento sólido da Cidade-de-Deus”. (pp. xiii-xiv)

Na perspectiva de António Sardinha, "se em relação a cada pátria, o tradicionalismo supõe um nacionalismo, supõe também, em relação ao grande conjunto humano, um universalismo". (p. xiv).

Ao elucidar o seu Nacionalismo através do Universalismo, Sardinha aborda o tema da Fé e o Império e o lugar de Portugal na Civilização Ocidental. 

​
Sardinha refere-se à divisão que H. G. Wells estabelecia entre dois tipos de mentalidade humana – a mentalidade ocidental (o “homem legislativo”, edificador, dinâmico, impulsionador, revolucionário) e a mentalidade oriental (o “homem legal”, sem preocupação pelo futuro, sempre identificado com as situações criadas, conservador), contestando-a: “Atacado da avariose filosófica dos nossos tempos”, Wells esquece que esse “revolucionário” é, fundamentalmente, uma energia empenhada em subjugar o “relativo” e, por consequência, em “aprisioná-lo no individualismo das formas imediatas”, ou seja, na “legalidade” (p. xix).

O capitalismo levara a sociedade do “estado pré-económico” para o “estado-económico”. Na perspetiva de Sardinha, a mentalidade burguesa da Revolução conduziu-nos a uma “encruzilhada sinistra” - individualista, cujo objectivo é o de obter a posse completa do “relativo”. Caber-nos-ia a nós, hispânicos – portugueses e espanhóis, e povos irmãos na Ásia, África e Américas -, o papel do autêntico “homem ocidental”, na dupla posição de anti modernos e de ultramodernos: a nossa reação à modernidade coloca-nos para além da modernidade. Nos hispânicos se encontrava “a recusa de uma fácil acomodação aos limites quotidianos da Existência, - aos aspetos utilitários e materiais. A loucura de D. Quixote volve-se assim numa paixão, com tanto de dolorosa como de sublime! (pp. xx-xxi). Para Sardinha, o “elaborador constante do futuro” seria o hispânico, pelo seu apego a uma “concepção absoluta da Vida”, com “total desprezo pela ideia legal do Universo”.

A sua prosa é sempre de combate, nascida no tumulto de uma trincheira. Os textos aqui reunidos não constituem excepção, com o explicito propósito de "alimentar e desenvolver uma mística". Segundo Sardinha, em Portugal respirava-se uma atmosfera de permanente intoxicação mental, pelo que interrogava - “como romper caminho, como ganhar desafogo para a respiração, senão gritando, senão protestando, senão demolindo?
”

​[J. M. Q.]

Epígrafe da obra:


​«Quand bien même je serais incapable de porter dans les domaines philosophiques un esprit réellement créateur, il y a aussi un rôle á jouer simplement, en mêlant de la clarté dans les idées; de la clarté, de la distinction; en établissant entre elles des rapports justes et probes. Et cela aussi est une création. »
 
[ "Mesmo que eu não seja capaz de trazer um espírito verdadeiramente criativo para os campos filosóficos, há também um papel a ser desempenhado simplesmente, misturando clareza nas ideias; a clareza, a distinção; estabelecendo entre elas relações justas e honestas. E isso também é uma criação."] 
 
ÉMILE CLERMONT


SEJA EM LOUVOR DAQUELA OBSCURA ESPERANÇA
QUE DOS MEUS MORTOS HERDEI

E, CREPITANTE, COMUNICO
​A QUEM A SOUBER ACOLHER!

AO PRINCÍPIO ERA O VERBO

​[Prefácio ao Livro]
"Ao Princípio era o Verbo..." E confessar o Verbo ao princípio de todas as coisas, é confessar o Espírito dirigindo o Mundo, é confessar a inteligência encaminhando a ação. Nada mais próprio para se dizer á face do presente volume, onde se reúnem algumas páginas de forte e sincera campanha nacionalista. Por modestas que sejam, possuem história estas pobres páginas!

A ideia madre em que se inspiram e que afincadamente propagam, - o regresso da sociedade portuguesa às condições naturais da sua formação e desenvolvimento, é uma ideia hoje com eco em muito pensamento, com ressonância em muita boa vontade. Mas houve tempo em que ninguém sequer a descortinava nos negrumes da desorientação geral! Portugal morria por falta de uma doutrina, - Portugal morria ao desbarato, na feira das palavras que dividem. Um esforço se tentou, - esforço salvador! E se no deserto imenso das almas a sementeira logrou vencer, o milagre temos que agradecê-lo ao Verbo que existia ao princípio da nossa obra de ressurreição lusitana!

Na aparente dispersão do volume que se vai abrir, transparece bem nítida a unidade que o conforma. Serão variados os temas, por vezes inesperados mesmo. Mas por diferente que se revele a posição assumida pelo autor, ou no campo da história, ou nos domínios da critica, ninguém contestará que o propósito é idêntico, como idêntica é a diretriz filosófica porque se pronuncia. Se o mal de que Portugal enferma deriva da influência desenraizadora da Revolução, destruir sistematicamente semelhante influência deve ser para quantos trabalham com a pena a mais empenhada das suas preocupações. Carecemos de reparar, no doloroso momento de transição que se atravessa, o erro herdado das gerações que nos antecederam. Cabe-nos melhor de que a ninguém o grande ensinamento do neto de Renan: é preciso tomar o partido dos nossos Maiores contra o partido de nossos Pais. Tomar o partido dos nossos Maiores é reconciliar-nos com a essência eterna da Pátria, é integrar-nos na sequência tradicional do nosso passado de ocidentais e de portugueses.

Quando aconselhamos esse regresso às disciplinas sociais e morais da Tradição, bem podemos refletir com Bourget que um doente que está a 40 graus de temperatura, progride, se recupera a temperatura normal. "Tradicionalismo" não é "obscurantismo". É antes continuidade no desenvolvimento, - é, sobretudo, permanência na renovação. Contra os falsos métodos racionalistas do século findo, levantamos o método positivo, - o método histórico, como reação salutar. Porque os organismos humanos, — sem que o termo nos leve a enfileirar entre os defensores da decaída escola organicista —, não se constituem segundo o individualismo desta ou daquela corrente política ou sociológica, mas segundo as leis inscritas na sua estrutura e mais condições de vida. Tão evidente que a afirmação se nos apresente, desprezou-a por completo a orgia ideológica do Liberalismo. Donde o resultar, não só para Portugal, mas para todo o continente europeu, a instabilidade anárquica em que instituições e sistemas parecem esfarrapar-se sem remédio.

Firmada, pois, a nossa posição de tradicionalistas, definido fica o significado do nosso nacionalismo. Urge que, na floresta espessa dos mitos e superstições dominantes, nos não abandonemos cegamente ao encanto bárbaro da aspiração nacionalista. Acentuamos «encanto bárbaro», porque, na sua ânsia impetuosa há na aspiração nacionalista que desvaira a Europa uma força de agressividade primitiva, - um total olvido da harmonia que é imperioso restabelecer nas relações dos povos, como assento sólido da Cidade-de-Deus. Entende-se assim que o ‹nacionalismo» - instinto profundo de vitalidade, se completa e depura nas regras que do tradicionalismo recebe, interpretado ‹tradicionalismo» como o produto da experiência secular da humanidade. Se em relação a cada pátria, o tradicionalismo supõe um nacionalismo, supõe também, em relação ao grande conjunto humano, um universalismo. Como à raiz de cada nacionalismo estão os mandamentos do Decálogo, dependendo a inviolabilidade e o vigor dos agregados nacionais dos termos em que se professem ou respeitem tais mandamentos, o universalismo, para não ser cosmopolitismo e aflorar como uma soma dos interesses dos diversos agrupamentos de nações, só pode ser o universalismo que a Idade-Media professou e a que Auguste Comte rendia tão calorosas homenagens: a sociedade internacional restabelecida e restaurada sobre as únicas bases duradoiras, — as da Cristandade.

Se meditarmos no problema com atenção cuidadosa, verificaremos que a desaparição na Europa da sociedade internacional coincide com o "cisma das Nações", ou seja com o advento e com o alastramento da Reforma. Destruidora do princípio da solidariedade dos povos e dos indivíduos, difundido pela religião de Cristo, a Reforma inaugura em matéria religiosa o individualismo, isto é, a sobreposição da razão pessoal à razão geral, a vitória da razão imediata contra a razão eterna. O «cisma», aberto pela Reforma, com a revolução de 89 transitou da sociedade internacional para as sociedades nacionais. De modo que o triunfo obtido pelo Protestantismo em Vestefália, substituindo a antiga coordenação dos Estados pela supremacia variável do mais forte ou do mais hábil, seguiu-se de perto pela introdução, na existência das nações, do regime dos partidos, em manifesto prejuízo do regime de unidade moral, em que até à data se tinha vivido. Não é difícil, por isso, concluir que há um universalismo estreitamente vinculado ao nacionalismo, como há um cosmopolitismo, vinculado não menos estreitamente à insânia execrável do Liberalismo, sendo pelo Tradicionalismo que se opera a justa e prudente combinação desses dois elementos, - nacionalismo e universalismo.

Nacionalismo sem universalismo representa, derivadamente, ou um resíduo tumultuário do principio das nacionalidades, filho da Democracia e que hoje balcaniza a Europa, ou uma renuncia covardemente suicida à função que pertence a ​cada pátria no enriquecimento sempre crescente, do património coletivo da civilização. Encontra-se a primeira espécie de nacionalismo ao alcance das paternais admoestações, partidas de Roma recentemente. Traduz um apetite de sôfrega dilatação que, de nacionalismo, se torna depressa em perturbadora exaltação imperialista. [Fascismo] 

Quanto à segunda manifestação de nacionalismo, dimanada dum certo pacifismo enjoativamente romanesco, compõe-se ao modelo da Suíça, - placa giratória da Europa, e não ambiciona para Portugal outras vantagens que não sejam as de um turismo promissor e condescendente. Destruído, portanto, o equívoco que, à sombra do vocábulo nacionalismo. se pode originar, compreende-se já porque o nacionalismo, esclarecido pelo tradicionalismo, é fundamentalmente contrarrevolucionário, e, como tal, «católico romano». Contrarrevolucionário, porque o direito histórico dos povos se restaura das abstrações tirânicas da Democracia; «católico-romano", porque, para própria garantia da sua individualidade e prestígio de cada nação, necessita de reconstruir uma ordem internacional em que todas as pátrias, pequenas ou grandes, se achem naturalmente enlaçadas por uma finalidade comum.

Este é o sentido do verdadeiro nacionalismo. Este é o verdadeiro sentido do tradicionalismo. Insculpi-lo no pórtico do presente livro é corresponder à invocação que simbolicamente lhe damos por título: Ao Princípio era o Verbo...

Porque «ao Princípio era o Verbo», é o primado do Espírito que nós desejamos restabelecer por sobre todas as coisas. Aos direitos do pensamento confiamos os trabalhos preparatórios do reaportuguesamento de Portugal. Conhecidas são de sobejo as causas da nossa desnacionalização. As suas consequências, de tão melancólica e convincente evidencia, desenrolam-se diante dos nossos olhos num cortejo de misérias e aviltamentos. Contudo, intacta e prodigiosa, a nascente secreta das nossas energias morais espera apenas pelo golpe fulgural que as liberte!

Ninguém, como nós, no longo crepúsculo que envolve os destinos do Mundo e da Civilização, possui motivos de firme e elevada esperança. A desgraça é que vivemos como estrangeiros dentro da nossa casa! A desgraça é que vivemos como ciganos de tenda às costas, ignorando a representação gloriosa que nos cabe defender e manter! E, afinal, porquê? Porque o Verbo deixou de reinar sobre a Ação, porque o Espírito se velou perante a apostasia geral, consentindo, para nosso castigo, que ídolos grosseiros se apossassem do santuário desamparado e vazio. Mas há que despertar, como que para uma segunda fundação de Portugal! Tarefa ampla, com espinhosas impossibilidades dificultan do-nos o caminho? Nada resistirá à dedicação constante e árdua com que, hora a hora, minuto a minuto, se refaçam os trilhos perdidos da gente donde descendemos! Num momento de espantosa e criadora transformação, como é o momento presente, nós não duvidamos das forças reconstrutoras que dormem o sono do Senhor, à espera do Terceiro Dia, no subconsciente de Portugal. O que se nos impõe é restituir à Pátria sentimento da sua grandeza, - não duma grandeza retórica ou enfática, mas naturalmente, da grandeza que se desprende da vocação superior que a Portugal pertence dentro do plano providencial de Deus, como nação ungida para a dilatação da Fé e do Império.

Dilatar a Fé e o Império, equivale a sustentar o guião despedaçado da Civilização. Os motivos de luta e de apostolado que outrora nos levavam à Cruzada e à Navegação, esses motivos subsistem. Talvez como nunca, o duelo entre o «homem ocidental» e o «homem oriental» atinge um dos seus embates mais dramáticos e mais decisivos. Categoria psicológica inconfundível, o «português», comungando com o «castelhano» na mesma sede insaciável de Absoluto, contorna-se-nos perfeitamente como um exemplar representativo do «homem ocidental». «Ocidental», não como designação geográfica, mas como apelativo sociológico. Expliquemo-nos, no entanto.

Sabido é que Wells divide a mentalidade humana em dois tipos, —o «ocidental» e o oriental». O mais vulgar, o tipo mais dominante, é o tipo do «homem oriental», denominado também por Wells “homem legal”, pela sua nenhuma preocupação em frente do futuro. O “homem legal”, ou “oriental”, conforma-se com o existente, sempre identificado com as situações criadas, ao passo que o outro tipo, - o tipo do homem ocidental é, ainda segundo Wells, de natureza dinâmica, e, como tal, “legislativo”, isto é, edificador, impulsionador. Atacado da avariose filosófica dos nossos tempos, Wells contempla no "homem ocidental" um permanente valor revolucionário, esquecendo sede que o “revolucionário” é, fundamentalmente, uma energia empenhada em subjugar o “relativo” e, por consequência, em aprisioná-lo no individualismo das formas imediatas, ou seja, melhor dito, na “legalidade”. O contrário sucede com o “homem ocidental”, em minoria sobre a face do Globo, elaborador constante do futuro e que nos dois povos hispânicos encontra a sua encarnação acabada.

O que caracteriza, precisamente, a decadência das duas nações peninsulares, de modo a volverem-se numa caricatura arcaica e completamente despida de sentido, é o seu aferro à concepção absoluta da Vida e, logicamente, o seu total desprezo pela ideia “legal” do Universo. Socorremo-nos aqui, no enunciado de uma teoria que contamos desenvolver um dia com segurança, dos reforços que à nossa tese nos trazem os estudos do publicista alemão Werner Sombart sobre as origens do "espírito capitalista". Saídas da manifesta influência do Puritanismo, as modernas concepções económicas, - concepções que reinaram despoticamente durante o século passado, conduzindo-nos à vil metalização social em que nos debatemos -, denunciam-nos, por isso mesmo, a sua ascendência judaica, provado como está que todos os elementos sociais e morais transitados do Puritanismo para as teorias capitalistas são de inegável extração talmúdica. [*] Não é possível alongarmo-nos sobre tão interessante ponto. Mas, admitido que o Capitalismo tende a arrancar a sociedade do "estado pré económico", para a lançar plenamente no "estado-económico", reconhece-se sem custo que outro objetivo se não procura obter senão a posse completa do relativo". Eis no que consiste a linha psíquica do «homem oriental», - eis em que se baseia a identidade da sua ação «revolucionaria» com a sua superstição «legal», ambas demonstrativas do individualismo mais irrecusável.

Vê se, pelo que sucintamente expomos, a antinomia irredutível de portugueses e castelhanos, - de "hispanos», enfim, com tudo quanto se traduza numa fácil acomodação aos limites quotidianos da Existência, - aos seus aspetos utilitários e materiais. A loucura de D. Quixote volve-se assim numa paixão, com tanto de dolorosa como de sublime! Dai o caber-nos, na encruzilhada sinistra a que o homem oriental, arrastou a sociedade, a dupla posição de "anti modernos, e de "ultra-modernos”, - na palavra admirável de Jacques Maritain. Daí o realizarmos com tocante humanidade esse tipo superior e constante mente sacrificado do "homem ocidental, que Wells magnificamente entreviu, mas que não soube nem pôde justificar, perdido na selva escura de tanta filosofia bastarda.

Mas a que propósito tudo o que afirmamos?

A propósito da Fé e do Império, - de Nacionalismo e Universalismo, de Portugal e da Civilização. A propósito da «mística» que se acende na alma da velha Lusitânia e que, no seu modesto alcance, o presente volume intenta alimentar e desenvolver. Singelamente, humildemente, - reconhecemos. Mas para que a visão cristã do Portugal-Maior se descubra diante de nós, importa que se areje a torre fechada em que nos torcemos, - importa que se destrua nas pregas mais insignificantes da nossa sensibilidade ou do nosso conhecimento qualquer raiz daninha que para lá bracejasse. Atiradas a esmo, no fragor da batalha, as páginas que enfeixamos debaixo de tão ardorosa inquietação, - desde a dor de Antero e do purgatório de Fialho à revisão de processos, como o de Gomes Freire e de D. Carlota Joaquina -, convém que generosamente se encarem como detalhes, sem a convergência dos quais o conjunto não seria possível.

Por anémicas e desvalidas que se nos apresentem, requeiro para elas a atenção do leitor esclarecido. Se nada nos dizem já hoje, foram no instante da sua publicação atos arrojados de inteligência, porque não hesitaram em derribar a ideia feita, - o lugar-comum consagrado pelo conúbio indecoroso do Estado com a Escola. Perdoe-se-lhe a sua bem explicável veemência, - a sua mal reprimida combatividade! Numa atmosfera de permanente intoxicação mental, como romper caminho, - como ganhar desafogo para a respiração, senão gritando, senão protestando, senão demolindo? Nasceram no tumulto duma trincheira. De entre o tumulto de uma trincheira as convoco outra vez para a guerra libertadora em que me ajuramentei como soldado E como "ao Princípio era o Verbo" que o Verbo lhes insufle o seu bafejo genesíaco, transfigurando-as em pão de Espírito, para gloria de Deus e reto juízo dos homens!

Elvas, Quinta do Bispo,

Fevereiro de 1923.


[ negritos acrescentados ]


[*] António Sardinha baseou-se na obra do historiador e sociólogo Werner Sombart, publicada em 1911 - Die Juden und das Wirtschaftsleben (The Jews and the Modern Capitalism, New York, 1913)  - documentando o envolvimento judaico no desenvolvimento histórico do capitalismo. A tese de Sombart surgiu na sequência da conexão estabelecida por Max Weber, em 1904 e 1905, entre o Protestantismo (em especial o Calvinismo) e o Capitalismo - Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo). Werner Sombart, tal como Max Weber, procurou uma explicação para o desenvolvimento do capitalismo moderno no norte da Europa, colocando porém ênfase no papel aí desempenhado pelos fabricantes e comerciantes judeus que, excluídos das guildas, desenvolveram uma forte antipatia pela regulação das actividades económicas, considerando-as primitivas e pouco progressistas. Ao serem excluídos do sistema das guildas - argumentou Sombart - os judeus acabaram por promover o seu desmantelamento e substituição por uma ilimitada competição, centrada apenas no consumidor.

Fotografia

Ao Princípio era o Verbo, Lisboa, Portugalia, 1924 (pdf)
Ao Princípio era o Verbo, 2ª edição, Edições Gama, 1940 (pdf)

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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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