A lição do aqueduto
António Sardinha
Reflete sobre o aqueduto de Elvas como elemento central da sua paisagem, símbolo de ordem, continuidade e ligação entre o humano e o eterno. Sardinha contempla o aqueduto como obra dos homens, que une gerações e séculos, transmitindo valores de disciplina, equilíbrio entre inteligência e sentimento. Evoca o pensamento de Maurice Barrès sobre a importância de unir Classicismo e Romantismo e afirma a importância de construir e afirmar-se perante a instabilidade da vida. Inspirando-se na Bíblia, vê no aqueduto a confirmação da permanência e resistência, mesmo diante da passagem do tempo e da transformação da paisagem; no final, o aqueduto é transfigurado pelo poente, tornando-se símbolo do infinito e da aspiração à beatitude eterna.
A LIÇÃO DO AQUEDUTO
Toda a minha paisagem é agora, à maneira latina, regida pela linha geométrica e nobre de um aqueduto. A vinha estende-se, poeirenta e farta, até ao esbater do muro, enquanto para lá, sobre uma mancha enrugada de restolhos e algumas oliveiras cristianíssimas, o aqueduto galopa a sua caminhada infatigável, colocado impassivelmente entre a Terra e o Céu. Através da sua arcaria sobreposta, o olhar mergulha como que no Infinito, vendo só o azul – um azul imenso, o azul puríssimo dos quadros dos Primitivos. Parece que o mundo se suspende ali e, no entanto, gravado à tarde na chapa esbraseada do poente, ou espectralizado à noite pela claridade defunta do luar, o aqueduto, soberano e mudo, dir-se-ia que conhece o segredo das Estações, que comanda a marcha do tempo, que conversa de perto com a Eternidade.
No renovar incessante das forças naturais, a paisagem floresce ou desbota, agoniza ou esplende vitoriosa. É como uma sensibilidade sem regra, divagando às cegas nos jardins da emoção, que foram para Maurice Barrès, professor de lirismo, o horto de Berenice. Pois, sentado em frente do aqueduto, eu creio que Barrès repetiria o diálogo da Ermida com a Campina na sua Colline inspirée: «O que é o sentimento, se o amor da disciplina o não coordena e fortifica? O que é a disciplina, se a fonte permanente de um sentimento a não fecunda e rejuvenesce? Nem o Classicismo nem o Romantismo! Mas o abraço equilibrado das duas formas profundas da vida, que são a Inteligência e o Coração.»
Não é outra a filosofia do aqueduto, colocado impassivelmente à orla da existência, para lá da vinha, uma vinha de écloga que se estende, poeirenta e farta, de encontro ao esbater impercetível do muro. Se a noite reina, detrás do aqueduto se abismam as constelações, no turbilhonar misterioso dessa poeira de universos que se esfarelam sobre a nossa cabeça.
Se o dia enorme – o dia canicular – empasta as coisas num deboche sangrento de luz, é ainda o aqueduto que marca o limite do céu e da terra, do visível e do invisível, como que medindo a paisagem, como que traduzindo a sua consciência.
Obra dos homens, ele é a continuidade viva, ligando as gerações com os séculos até à consumação final de quanto palpita e avança para a goela insaciável da morte. Por isso eu o amo, ao velho aqueduto, que é todo o meu horizonte – horizonte restrito, sim, mas cheio de incontáveis sugestões de um pensamento que se conhece, que se possui, que tem uma finalidade e um ritmo.
Na instabilidade dolorosa de tudo o que é quotidiano e instintivo, o aqueduto ensina-me a mim a beleza incomparável de construir. Não sejamos nós como aquele povo estranho do fabulista que apenas articulava por linguagem única, o terrível monossílabo: «Não!» Construir é afirmar. E quem afirma, sobrevive-se, quase que atinge os limiares da verdadeira Imortalidade, triunfando da aniquilação caduca do ser.
Recorde-se como na Bíblia são louvados os Fundadores, os que praticavam a arte difícil de edificar as cidades. Detestemos o nómada, que tanto é o que habita nas tendas, como o que mal se adapta à servidão nobilíssima de uma ideia. Entre a terra e o céu, o aqueduto é o primeiro a lançar-lhe a sua excomunhão venerável. Durar! Resistir! E enquanto a Paisagem desbota e desfalece, o aqueduto é como que a confirmação da sua permanência, limite erguido entre o visível e o invisível, à orla da vida, à margem do Tempo. Ou espectralize-o a claridade defunta do luar, ou seja, um traço fundo sobre a chapa esbraseada do poente, obra dos homens, é dos homens que o aqueduto nos fala, pelo menos, dos homens que passavam na vida, praticando a arte difícil de construir, como esses grandes fundadores de cidades, de que a Bíblia a cada página entoa o louvor.
*
Entardece. Para lá da vinha, a minha vinha virgiliana e quieta, o aqueduto arranca de uma restolhada angustiosa, onde algumas oliveiras cristianíssimas põem uma nota branda de caridade. O poente é agora uma labareda crepitando ao largo, nesta agonia de Agosto calcinado e sem água. E o aqueduto transfigura-se, como que animado por uma subida anunciação do fogo criador e primitivo. Já não o vejo entre a terra e o céu – vejo-o como se fosse o átrio do próprio Infinito rasgado de par em par, com um Arcanjo alongando por toda a rosa do firmamento a sua espada ígnea e terrível. E porque dentro de mim – eu que sou da linhagem moral dos que nasceram para afirmar e construir – não se apaga nunca o desejo de sobreviver a mim mesmo, eu traço, lento sobre a minha fronte, o sinal da Cruz, como se avistasse, para além, muito para além, onde já não há aqueduto, nem Paisagem, nem Princípio, nem Fim, aquela beatitude eterna em que o exército inumerável dos Santos confessa o nome tremendíssimo do Senhor!
No renovar incessante das forças naturais, a paisagem floresce ou desbota, agoniza ou esplende vitoriosa. É como uma sensibilidade sem regra, divagando às cegas nos jardins da emoção, que foram para Maurice Barrès, professor de lirismo, o horto de Berenice. Pois, sentado em frente do aqueduto, eu creio que Barrès repetiria o diálogo da Ermida com a Campina na sua Colline inspirée: «O que é o sentimento, se o amor da disciplina o não coordena e fortifica? O que é a disciplina, se a fonte permanente de um sentimento a não fecunda e rejuvenesce? Nem o Classicismo nem o Romantismo! Mas o abraço equilibrado das duas formas profundas da vida, que são a Inteligência e o Coração.»
Não é outra a filosofia do aqueduto, colocado impassivelmente à orla da existência, para lá da vinha, uma vinha de écloga que se estende, poeirenta e farta, de encontro ao esbater impercetível do muro. Se a noite reina, detrás do aqueduto se abismam as constelações, no turbilhonar misterioso dessa poeira de universos que se esfarelam sobre a nossa cabeça.
Se o dia enorme – o dia canicular – empasta as coisas num deboche sangrento de luz, é ainda o aqueduto que marca o limite do céu e da terra, do visível e do invisível, como que medindo a paisagem, como que traduzindo a sua consciência.
Obra dos homens, ele é a continuidade viva, ligando as gerações com os séculos até à consumação final de quanto palpita e avança para a goela insaciável da morte. Por isso eu o amo, ao velho aqueduto, que é todo o meu horizonte – horizonte restrito, sim, mas cheio de incontáveis sugestões de um pensamento que se conhece, que se possui, que tem uma finalidade e um ritmo.
Na instabilidade dolorosa de tudo o que é quotidiano e instintivo, o aqueduto ensina-me a mim a beleza incomparável de construir. Não sejamos nós como aquele povo estranho do fabulista que apenas articulava por linguagem única, o terrível monossílabo: «Não!» Construir é afirmar. E quem afirma, sobrevive-se, quase que atinge os limiares da verdadeira Imortalidade, triunfando da aniquilação caduca do ser.
Recorde-se como na Bíblia são louvados os Fundadores, os que praticavam a arte difícil de edificar as cidades. Detestemos o nómada, que tanto é o que habita nas tendas, como o que mal se adapta à servidão nobilíssima de uma ideia. Entre a terra e o céu, o aqueduto é o primeiro a lançar-lhe a sua excomunhão venerável. Durar! Resistir! E enquanto a Paisagem desbota e desfalece, o aqueduto é como que a confirmação da sua permanência, limite erguido entre o visível e o invisível, à orla da vida, à margem do Tempo. Ou espectralize-o a claridade defunta do luar, ou seja, um traço fundo sobre a chapa esbraseada do poente, obra dos homens, é dos homens que o aqueduto nos fala, pelo menos, dos homens que passavam na vida, praticando a arte difícil de construir, como esses grandes fundadores de cidades, de que a Bíblia a cada página entoa o louvor.
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Entardece. Para lá da vinha, a minha vinha virgiliana e quieta, o aqueduto arranca de uma restolhada angustiosa, onde algumas oliveiras cristianíssimas põem uma nota branda de caridade. O poente é agora uma labareda crepitando ao largo, nesta agonia de Agosto calcinado e sem água. E o aqueduto transfigura-se, como que animado por uma subida anunciação do fogo criador e primitivo. Já não o vejo entre a terra e o céu – vejo-o como se fosse o átrio do próprio Infinito rasgado de par em par, com um Arcanjo alongando por toda a rosa do firmamento a sua espada ígnea e terrível. E porque dentro de mim – eu que sou da linhagem moral dos que nasceram para afirmar e construir – não se apaga nunca o desejo de sobreviver a mim mesmo, eu traço, lento sobre a minha fronte, o sinal da Cruz, como se avistasse, para além, muito para além, onde já não há aqueduto, nem Paisagem, nem Princípio, nem Fim, aquela beatitude eterna em que o exército inumerável dos Santos confessa o nome tremendíssimo do Senhor!
In De Vita et Moribus - Casos & Almas, 1931.
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