ESTUDOS PORTUGUESES
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        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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No dia de Camões

António Sardinha
...Se os Lusíadas não representam a grandeza da pátria tradicional, da pátria dos concelhos e das Cortes Gerais, tão vivas nas tábuas de Nuno Gonçalves, eles representam, contudo, a grandeza do nosso sacrifício pela Civilização.

​- António Sardinha

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"Sem nós, o Turco, atacado na Ásia pelas costas, avançaria decerto pela Europa, esfacelada nas guerras religiosas. Nós, por outros meios – evangelizando, missionando, servindo enfim o ideal da Cristandade –, trouxemos à mesma comunhão civilizadora, impondo-lhe o nosso primado, os mais divergentes e impossíveis povos. É formidável o papel de Portugal no desenvolvimento do mundo! O pincel de Miguel-Ângelo o fixou para sempre no seu Juízo Final. Quem em Roma visita a Capela-Sixtina, contemplará, ao lado dos Arcanjos soprando as trombetas do Apocalipse e separando os eleitos da multidão dos danados, um mancebo musculoso, com as formas soberbas de uma soberba criação do «Gran-Michael», que eleva para o céu, suspensos de um rosário, um índio e um moiro. É a alegoria do esforço redentor de Portugal. Paga-nos bem do esquecimento em que o sepultaram depois. Tal é a claridade a que o poema de Camões necessita de ser encarado. " - António Sardinha

​António Sardinha propõe uma análise crítica da personalidade de Camões, defendendo que esta deve ser compreendida no seu contexto renascentista, sem mitos ou instrumentalizações políticas. Sardinha rejeita visões romantizadas e interpretações nacionalistas de Os Lusíadas, sugerindo que o poema representa o sacrifício de Portugal pela civilização europeia dentro do ideal universalista da época. Na perspectiva de Sardinha, impõe-se valorizar o contexto histórico e religioso, ligando Camões à Contra-Reforma e ao papel da Europa cristã, e refutar leituras superficiais que reduzem a sua riqueza filosófica, religiosa e cultural. O autor destaca ainda que o protagonismo português nos Lusíadas marca o início da decadência nacional, salientando o universalismo da alma portuguesa.
Rejeição de leituras superficiais e políticas.
  • Sardinha critica as interpretações que veem nos Lusíadas um hino nacionalista ou um instrumento político, reduzindo a riqueza filosófica, religiosa e cultural do poema. O culto maçónico promovido pela República ignora a profundidade cristã e contra-reformista da obra.
O poema como expressão de sacrifício e universalismo.
  • Ao invés de um simples exaltação patriótica, Sardinha interpreta os Lusíadas como testemunho do sacrifício de Portugal pela civilização europeia e expressão de um ideal universalista da Renascença. O poema reflete o papel de Portugal na história mundial, reconhecendo Sardinha que esse protagonismo coincide com o início da decadência nacional. 
Contexto histórico e religioso.
  • Sardinha destaca que o poema deve ser entendido no contexto da Contra-Reforma e da unidade moral e cultural da Europa cristã. Ele vê Camões como intérprete dos sentimentos contemporâneos, incitando a defesa da Cristandade e da civilização europeia contra ameaças externas, como o avanço turco.
Crítica à utopia renascentista.
  • Sardinha argumenta que o Poema representa mais o sacrifício de Portugal pela civilização do que uma exaltação da pátria. Considerando que o patriotismo excessivo é contrário à influência moral e filosófica, Sardinha defende que os Lusíadas devem ser lidos não apenas como um símbolo nacional mas como expressão do universalismo da alma portuguesa. 

Fotografia
... "ao lado dos Arcanjos soprando as trombetas do Apocalipse e separando os eleitos da multidão dos danados, um mancebo musculoso .... eleva para o céu, suspensos de um rosário, um índio e um moiro. É a alegoria do esforço redentor de Portugal." - António Sardinha


​NO DIA DE CAMÕES
Não há melhor oportunidade para falarmos de Camões do que hoje, aniversário da sua morte, tornado louvavelmente pela Câmara de Lisboa em dia de festa municipal. Apesar de bem vivo e bem contornado no seu poema, Camões é talvez das glórias portuguesas mais perturbadas na compreensão do seu justo significado por toda a mitologia literária que em torno do seu nome se vem secularmente engrossando. As tintas românticas conseguiram sobrepor-se à realidade da figura do Poeta, varão insigne de Quinhentos que refletiu no desencontrado da sua psicologia todo o desvairo magnífico da Renascença.

É certo que das Chancelarias a pouco e pouco os documentos têm surgido, por mãos pacientes de estudiosos, esclarecendo com miudeza a aventura dramática do grande Épico. Estamos, todavia, ainda longe de uma reconstituição completa da sua existência e do quadro verdadeiro em que ela se desenrolou. Os pormenores faltam, rareiam os detalhes, continuando a lenda a persistir nas camadas teimosas de uma lenta e estratificada acumulação. Para prova, um facto nos basta. E é o que se refere às descobertas de um moço alentejano, o senhor Mário Sá, cuja inteligência, notavelmente apurada para os trabalhos históricos, se há de afirmar num futuro bem próximo, tão depressa encontre a posse plena do seu equilíbrio.

Os Camões deixaram largas raízes no Alto Alentejo, havendo ainda hoje em Avis uma herdade de Camões, sem dúvida seu antigo solar. Há nessa herdade, sita na freguesia do Maranhão, uma torre em ruínas. Corre por ali a tradição de que nela viveu um fidalgo desterrado da corte. Ora, ligando a reminiscência local a resultados de longas pesquisas nos arquivos, o sr. Mário Sá dispõe-se a demonstrar, num estudo que prepara, ser o fidalgo em questão o nosso Luís de Camões.

Camões realmente devia manter relações apertadas com os seus parentes do Alentejo. Em alguns deles até aparece o seu nome por inteiro – Luís Vaz de Camões. Assim sucede com um, morador em Cabeço de Vide, e ali proprietário de um pequeno ofício de governança concelhia. Diz o sr. Mário Sá que os biógrafos do poeta nos falam do seu desterro para o Maranhão, no Brasil.

O erro surge nesta interpretação – elucida o senhor Mário Sá. Camões foi desterrado, mas, à sua escolha, talvez para casa dos seus parentes, no Maranhão, mas do termo de Avis. A Camões se refere deste modo a tradição agarrada à torre em ruínas. Nada mais à flor das coisas, efetivamente. As conclusões do senhor Mário Sá são vigorosas e eu apresso-me, com toda a simpatia pátria, a subscrevê-las em absoluta concordância de espírito.

De forma que, por um traço, tão diminuto como o que aí fica, se avalia bem o que são as biografias escritas do poeta. Quanto a mim, na sua extraordinária intuição, quem se pronunciou sobre ele com veracidade foi Antero em carta de 10 de Janeiro de 1891, dirigida a Máximo Formont: «Eu creio que há ainda uma boa parte de lenda e romantismo na ideia que se faz da vida de Camões, porque, bem julgado, Camões foi mais um homem feliz do que propriamente um desgraçado. A felicidade burguesa e tranquila não lhe agradava; ele teve a vida de aventura e de fortes emoções que mais quadrava ao seu génio e que todo o verdadeiro poeta, estou certo disso, preferiria sempre não importa a que felicidade calma e monótona.»

Não nos falta agora nenhum lascarim das vielas do pensamento, gritando com declamações postiças, que nós insultamos a memória do Épico. Procuramos unicamente ressuscitar em todo o seu sentido a existência que ele glorificou para que melhor o amemos, amando-o no entendimento humano da sua obra. De resto, varão da Renascença, tomado de mais a mais pela loucura oceânica da Conquista e da Navegação, Camões levaria no Indostão os dias acidentados dos nossos fidalgos da carreira da Índia. Repartido entre os carinhos de «Bárbara-Escrava» – essa da «pretidão de amor» – e a balbúrdia, por vezes sangrenta, dos prazeres orientais, o poeta furtou-se a tempo das influências torpes do meio para ir, no sossego de uma boa situação em Macau, compor serenamente o seu poema. De volta ao Reino, não vejamos na pobreza com que regressa senão as consequências do seu perdularismo de descuidado e de sonhador. Camões é uma figura representativa da sua época. Espelhou-lhe as virtudes e os defeitos. Não esqueçamos, por isso, que a Renascença, descobridora do individualismo, encontraria nele o individualista máximo.

Não se toque mais na sua miséria, na sua fome, na sua morte infeliz! Pensionado do Paço e com amigos valiosos tanto no eruditismo da corte como nos conventos, se Camões abalou para a cova num lençol emprestado não seria porque, morto de peste, assim se enterravam os pestíferos, afastando solicitudes afetuosas com receio no contágio? Eis uma hipótese que é necessário meditar, rompendo com as sensaborias melodramáticas vulgarmente desfiadas à roda do nome de Camões. Tão indignas são elas, como o culto maçónico que a Républica pretendeu estabelecer em honra do Épico, não lhe avultando a intenção íntima do seu poema e fingindo ignorar que Camões encarnara na sua musa cristianíssima a voz severa da Contra-Reforma, da doutrina definida e assente no concílio de Trento. O resultado bem cedo se recolheu. Camões, popularizado em estatuetas pintalgadas de verde e vermelho, veio a divulgar-se de maneira tal que eu o encontrei uma vez, de loiros na cabeça, livro debaixo do braço e espada à cinta, lá para as bandas de Algés, caminhando por sobre lama ao som dos cavaquinhos, no alegre convívio de uma cegada.

Mas afastemos da lembrança o cómico de semelhante sacrilégio e pensemos um pouco na significação exacta dos Lusíadas. Pensar na significação dos Lusíadas é pensar na significação da Renascença. Logo no título o poema de Camões invoca o humanismo, invoca mestre André de Resende, que criara o vocábulo, ao filiar-nos a origem em Lísias, filho de Baco, todo embebido na fascinação da antiguidade clássica. As inspirações humanistas traduzem-se em Camões não só na compreensão larga da Epopeia, mas ainda mesmo na linguagem. Faria e Sousa ofereceu-nos uma lista de «palavras raras», quase bilingues, que Camões, repassado de classicismo, introduzira na nossa expressão literária, tais como «obsequentes», «amaro», «dino», «plúmbeo», «lácteo», etc. É esta uma das consequências desastrosas da Renascença. A sintaxe latina impõe-se-nos despoticamente e a frescura da língua nunca mais se humedece da gracilidade singela das Crónicas e dos Cancioneiros do passado.

É esse o período em que nos desviamos do rumo natural da nacionalidade. Exatamente porque nos desorbitamos sem remédio nem apelo, atirando connosco para regiões fabulosas, é que nós vivemos dentro da nossa carne e com a nossa alma a utopia doida da Renascença, a utopia do Uomo universale, visto que chegaríamos lá aonde ninguém ainda chegara, subindo mais alto em fama que a própria fama dos antigos: «Cessem do sábio grego e do troiano / ... / Calem-se de Alexandre e de Trajano...»

A Itália, lareira do Renascimento – e, eu escrevo «Renascimento», servindo-me do termo consagrado, porque a Renascença não foi de forma nenhuma um «renascimento» – a Itália, lareira do Renascimento literário, dizia, debalde o sonhou, esse pregão eterno da nova idade do mundo. Com Ariosto e com Tasso, se o possuiu, possuiu-o nos domínios exclusivos da ficção poética. Maiores do que nenhum outro povo, os Lusíadas não são mais que a exaltação heróica dos nossos feitos, a tuba anunciadora do triunfo que nos imortalizaria para sempre. Da plena luz da realidade, o Poeta transpunha-nos para os domínios da «oitava rima», donos em vida ainda dos favores da fama, aclamados soberanamente nas estrofes bem fundidas do Poeta, que assim entrelaçava a sua glória com a nossa glória.

Não carecíamos nós de recorrer às façanhas fantásticas de Orlando furioso nem à piedade militante de Godofredo de Bulhão. O Poeta vibrava, ele mesmo, com o ciclo histórico que o seu poema exaltava. É que nós, pela dilatação da Fé e do Império, obtínhamos a coincidência da ação da nacionalidade com o ideal universalista da Renascença.

Achávamo-nos dentro da aspiração da época, realizando connosco essa aspiração. Era já o começo da decaída. Portugal, crucificado, tinha nos Lusíadas uma lápida funerária que lhe guardaria a memória na memória dos séculos. Se os Lusíadas não representam a grandeza da pátria tradicional, da pátria dos concelhos e das Cortes Gerais, tão vivas nas tábuas de Nuno Gonçalves, eles representam, contudo, a grandeza do nosso sacrifício pela Civilização. Escreveu Renan de uma vez que o patriotismo é o contrário da influência moral e filosófica. E logo acrescentava: «A Grécia, a Judeia têm pago com a sua existência nacional o seu destino excecional e a honra incomparável de haverem constituído ensinamentos para toda a humanidade.» Não é outro o nosso caso. Os Lusíadas são o lado universal da alma portuguesa. Porque esse lado se excedeu, e se excedeu até à loucura, 1580 já nos espreitava de perto como um epílogo de tragédia.

Olhando os Lusíadas por este aspeto crítico, Camões manifesta-se-nos um dos doutores do nosso imperialismo.

Baseava-se o nosso imperialismo na ideia de Cristandade. É através da ideia de Cristandade – o mesmo que latinismo ou unidade moral e cultural da civilização europeia – que nós carecemos de encarar a jornada de Alcácer, inspirada na dignidade romana do Ocidente perante o espraiar ameaçador do Turco, já senhor de Rodes e batendo, por outro lado, às portas de Viena. Camões, intérprete dos sentimentos contemporâneos, é que mais nos incita à expedição infeliz com motivo na árvore da Fé abalada. Logo o clama na estrofe IV do I canto, apostrofando D. Sebastião:

«E vós ó bem nascida segurança,
Da Lusitana antiga liberdade
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena cristandade.
Vós, ó novo temor da maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande
.»
 
Alude em seguida Camões aos alemães «soberbo gado», «do sucessor de Pedro rebelado», que «novo pastor e nova seita inventa», increpa o inglês que «nova maneira faz da cristandade» e que

«Para os de Cristo tem a espada nua.
Não por tomar a terra que era sua».


E prossegue, invectivando a França: «Pois de ti, Galo indino, que direi?» e «quantos mais, míseros cristãos» não se esforcem para que

«... torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da Cítia fria
A Turca geração que multiplica
Na polícia da nossa Europa rica.»


Ao menos,

«Não faltarão cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana.»


Assim Camões é com Diogo Teive, Diogo Bernardes e António Ferreira um dos incitadores contra a infidelidade mauritana. O desastre veio. Mas dos gérmens que o originaram é que sai a vibração excepcional dos Lusíadas. Se os Lusíadas não são por isso o hino da nacionalidade enraizado na Tradição e na Terra, ao menos pregoam em vozes imorredoiras o sacrifício de Portugal pela Latinidade. O pelicano simbólico de D. João II reveste-se de uma intenção mais ampla e mais dolorosa: não é mais o rei, «pastor não mercenário», imolando-se pelo bem do seu rebanho, mas o Portugal-Maior crucificando-se numa cruzada admirável pela Civilização.

Sem nós, o Turco, atacado na Ásia pelas costas, avançaria decerto pela Europa, esfacelada nas guerras religiosas. Nós, por outros meios – evangelizando, missionando, servindo enfim o ideal da Cristandade –, trouxemos à mesma comunhão civilizadora, impondo-lhe o nosso primado, os mais divergentes e impossíveis povos. É formidável o papel de Portugal no desenvolvimento do mundo! O pincel de Miguel-Ângelo o fixou para sempre no seu Juízo Final. Quem em Roma visita a Capela-Sixtina, contemplará, ao lado dos Arcanjos soprando as trombetas do Apocalipse e separando os eleitos da multidão dos danados, um mancebo musculoso, com as formas soberbas de uma soberba criação do «Gran-Michael», que eleva para o céu, suspensos de um rosário, um índio e um moiro. É a alegoria do esforço redentor de Portugal. Paga-nos bem do esquecimento em que o sepultaram depois.

Tal é a claridade a que o poema de Camões necessita de ser encarado. Curvêmo-nos diante do génio que soube incorporar na aspiração cosmopolita da Renascença a inexcedível contribuição com que nós desbravámos o caminho à nova idade do mundo. Camões é a alma de Portugal ampliada na alma da Civilização. Os Lusíadas são grandes, mas a sua grandeza é já filha da desnacionalização de Portugal. É que o patriotismo é o contrário da influência moral e filosófica – repitamos com Renan. Eis porque à figura de Camões devemos aliar o culto de outra figura: a de Viriato. A raça e a sua vocação, a Pátria e a sua finalidade, no expoente máximo dos seus heróis, força nativa, e dos seus poetas, significação universalista, terão dado deste modo à nacionalidade o grau que lhes falta de consciência coletiva.



1934 - António Sardinha - A Prol do Comum
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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