ESTUDOS PORTUGUESES
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        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
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        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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A Cultura Clássica

António Sardinha
...na controvérsia tão disputada das causas da Revolução, eu voto por Taine contra Maurras! 

Reflexões de António Sardinha acerca da Cultura Clássica e da Educação em Portugal


  • Introdução. Este texto apresenta uma análise sobre o papel da cultura clássica e da educação humanista na formação histórica e intelectual de Portugal. Destaca a influência do romanismo e avalia-se a Renascença e a importância da educação clássica na pedagogia contemporânea. A discussão tem por referência figuras como Manuel da Silva Gaio e os debates em torno do ensino das humanidades em França e na Alemanha.
  • A Influência do Romanismo e da Renascença. Sardinha defende que a formação de Portugal foi motivada por fatores instintivos da grei, mais do que por razões conscientes de ordem política. Neste contexto, o romanismo — enquanto jurisprudência ou modelo de sociedade — não constituiu uma disciplina pública fundamental para o país, podendo até ser considerado um elemento de perturbação no desenvolvimento nacional. A Renascença, por sua vez, é vista não como um período de vigor, mas como a origem de desvios intelectuais e sociais que prejudicaram o génio coletivo português.
  • A Educação Clássica e a Crise do Ensino. Apesar da crítica ao ideal greco-romano no contexto histórico, Sardinha não condena a educação clássica na pedagogia. Pelo contrário, vê-a como um antídoto necessário contra a “barbaria contemporânea”, marcada pela decadência do gosto literário e pela perda das faculdades lógicas. Critica-se a incapacidade crescente de redigir corretamente, mesmo entre profissionais como médicos e engenheiros, evidenciando a necessidade urgente da reintrodução das humanidades no ensino secundário. Sardinha argumenta que apenas uma educação humanista pode combater o enfraquecimento do raciocínio e a confusão de ideias promovida pelo parlamentarismo da partidocracia, que eleva a retórica vazia a modelo de talento intelectual. Sublinha que os grandes vultos do liberalismo português, educados pelos Padres do Oratório e cultivando as humanidades, possuíam clareza e vivacidade de espírito, qualidade que se foi perdendo nas gerações seguintes.
  • Manuel da Silva Gaio e o Valor da Educação Clássica. Sardinha destaca a relevância do trabalho de Manuel da Silva Gaio, especialmente o seu estudo “Da Poesia na Educação dos Gregos”, como um contributo fundamental para a defesa do ensino clássico em Portugal. Gaio vê a educação clássica como uma “preparação formal do espírito”, enfatizando que o contacto com as obras clássicas deve criar um ambiente propício à originalidade, e não à simples imitação. A universalidade e a capacidade de síntese proporcionadas pelas humanidades são virtudes destacadas. A educação clássica deve ser entendida não como um fim em si mesmo, mas como condição para maior precisão e ordem em qualquer trabalho intelectual. Sardinha lamenta que Silva Gaio não tenha publicado uma obra completa sobre educação clássica, reconhecendo, no entanto, o seu papel precursor e dedicado na defesa da cultura portuguesa.
  • Simbolismo, Proteção do Génio Nacional e Humanismo Religioso. Ao lado de Alberto de Oliveira, Silva Gaio percebeu a ligação entre o Simbolismo e as raízes populares do Romanceiro português. A cruzada pelo ressurgimento das humanidades é vista como uma defesa do génio nacional e um ato de proteção da inteligência portuguesa, ameaçada de decadência. Sardinha sugere ainda que o ensino moderno do Latim deve incluir os Padres da Igreja, destacando figuras como Santo Agostinho e a importância do humanismo cristão, que se diferencia do humanismo pagão da Renascença. O objetivo seria cristianizar o estudo das humanidades, evitando o risco de descrença associado à ausência de referências cristãs no ensino clássico.
  • Conclusão. António Sardinha sublinha a importância da prometida, mas ainda inédita, obra de Manuel da Silva Gaio sobre educação clássica, considerando-a fundamental para o progresso cultural de Portugal. Defende que a revitalização das humanidades é uma “pedra a mais para o levantamento de Portugal”, e apela à responsabilidade de Gaio perante as novas gerações.

 


​A CULTURA CLÁSSICA

É um ponto este de crítica e doutrina que nós devemos examinar com cuidadosa atenção. Olhando à formação histórica do nosso país, formação medieval e toda ela motivada mais num facto instintivo de raça do que numa razão consciente de ordem política, o romanismo, nem como jurisprudência, nem como tipo de sociedade, pode constituir para Portugal uma disciplina pública de carácter imperioso e insubstituível. Pelo contrário, constitui até, no desenvolvimento acidentado da nossa pátria, um forte elemento de perturbação, que precisamos de enumerar entre as causas primaciais da sua decadência. Daí o não considerarmos a Renascença como um período de vigor e de brilho para a nacionalidade portuguesa, pois tanto intelectual, como socialmente, representa a origem fundamental de quantos desvios houvemos de sofrer depois nas direções do nosso génio coletivo.

Mas se a Renascença, e com ela o ideal greco-romano, precisa de ser contada como um fator inimigo da marcha natural da nossa história, nem por isso nós condenamos a educação clássica nos domínios da pedagogia. No definhamento do gosto literário e na quebra assustadora das faculdades lógicas, características universais da barbaria contemporânea, eu não sei mesmo de outro recurso que se haja de opor com eficácia à animalização crescente das novas gerações, em quem esmorece o enlevo das boas leituras e onde alastra, como uma nódoa deprimente, a mais vergonhosa das inabilidades no exercício da própria língua. Em Portugal hoje não se sabe redigir! Médicos terminam os seus cursos, terminam os seus cursos engenheiros. E sempre que careçam de praticar a expressão escrita, tanto em relatórios profissionais, como em trabalhos de maior fôlego, é doloroso reconhecer que claudicam indecorosamente na ignorância das mais sóbrias e mais elementares regras do estilo.

A ressurreição das humanidades no ensino secundário impõe-se, pois, como mais necessária que o semi-cientificismo a que se sujeita o cérebro dos rapazes, roubando-os nesse período tão decisivo da vida à aprendizagem fundamental do pensar claro e do sentir claro. O problema, que é seriíssimo, não se resolve de forma alguma senão apelando para a educação humanista. É do conhecimento de todos a crise do ensino universitário francês, que nos livros célebres de Pierre Lasserre e de Agathon, respetivamente La doctrine officielle de l’Université e L’esprit de la nouvelle Sorbonne, ficou documentada com soberana evidência. Como um subsídio significativo para a compreensão do crepúsculo sofrido pela Latinidade, vem a propósito lembrar aqui que, no decurso dos debates suscitados pelos dois livros em referência, se provou, primeiro, que a Sorbonne se tornara um dos baluartes do germanismo moderno, enquanto a Alemanha se cura, pela aplicação larga das humanidades, dos vícios estruturais da sua inteligência. Provando-se em seguida que educação clássica e educação democrática são termos absolutamente antagónicos e irreconciliáveis. Curioso é ver agora como os representantes em França da ciência oficial declamam em nome da dignidade latina contra o filosofismo germânico, eles que em toda a sua vida de primários devotados ao culto de Hegel e de Kant não foram mais que os envenenadores da já de si tão envenenada mentalidade francesa!

Com a urgência de uma medida de salvação nacional, o problema da educação clássica põe-se para Portugal tão inadiavelmente quase como o do regresso do Rei. A tara principal de uma democracia consiste no enfraquecimento das forças do raciocínio e na confusão consequente das ideias, ainda as mais gerais. Concorre para isso sensivelmente a influência social do Parlamentarismo, apresentando como meta suprema da intelectualidade o rábula que discarsa, o arengador encartado – o verbómano, numa palavra. Assim, a retórica é em Portugal tomada como uma manifestação de talento superior e quantas vezes, na volta do dia, a gente não ouve dizer aos da nossa roda, na botica ou no café, com admiração incontida: «Aquilo é que é um homem! Aquilo é que fala bem!»
​
Psicologicamente, estão já hoje estudados os efeitos destrutivos da oratória, que gera a obscuridade mental e contribui para o rebaixamento do nível comum da inteligência. Nos alvores do nosso Constitucionalismo, se tivemos parlamentares que intelectualmente significaram o que, por exemplo, significou Garrett, deve-se ainda à educação clássica. Na sua maioria os grandes vultos do liberalismo português foram discípulos dos Padres do Oratório, recebendo do cultivo das humanidades a norma sadia de cultura que lhes deu sempre vivacidade e frescura ao espírito.

Já não acontece o mesmo com a camada que lhes sucedeu na herança. A depressão do gosto literário e da clareza lógica acompanhou a curva rápida da nossa desorganização, até cair na República, com os seus intelectuais semi-tatuados, pobres galerianos das coisas do pensamento, que hão-de passar à posteridade certamente, não como pessoas, mas como símbolos!


*

​É-nos grato encontrarmos mais uma vez connosco pela maneira como também encara o problema da educação clássica um escritor ilustre como Manuel da Silva Gaio. Acaba Manuel da Silva Gaio de publicar um estudo a todos os respeitos notabilíssimo – Da Poesia na educação dos gregos – que não é senão um aspeto da obra, Educação clássica, em que por largos tempos, sempre dispersivamente, a sua nobilíssima atividade se empenhou. No prefácio da sua recente monografia, deixa-nos Manuel da Silva Gaio o esboço do que seria esse trabalho. E pelas linhas gerais com que o traceja, não hesitamos em reconhecer que era o livro de que em Portugal se carecia para levarmos à vitória uma forte campanha a favor do renascimento das humanidades.
Manuel da Silva Gaio coloca-se exatamente no verdadeiro ponto de vista, ao reputar a educação clássica como uma «preparação formal do espírito». As vantagens do Classicismo, em semelhante sentido, Manuel da Silva Gaio as define com aquela agudeza crítica, que na história das ideias portuguesas o ficará marcando, inconfundivelmente, ao lado de Antero de Quental e de Moniz Barreto. Condena Manuel da Silva Gaio, em relação ao Classicismo, «o critério imitativo no campo da produção literária e artística», pondo em relevo «que nunca a emoção a receber das obras clássicas, ou de qualquer outra obra de Arte, deverá ter-se realmente como estímulo de imitação, mas sim como estabelecendo um ambiente de alma, favorável à elaboração original». É precisamente o nosso critério que folgamos de ver tão superiormente confirmado.

As virtudes da educação clássica traduzem-se na noção de universalidade que imprimem a quem as convive de perto e pelos quadros mentais que nos conferem. Dando sempre às exigências da nossa curiosidade intelectual uma certa economia de proporções, insuflam-nos uma tendência salutar para a síntese. «Nunca poderemos conseguir tão evidentes vantagens sem essa preparação das humanidades – escreve Manuel da Silva Gaio –, e vistas aqui, segundo logo ressalta, não pelo ângulo da Renascença como um fim a atingir, como razão íntima do esforço empregado, num intuito de erudição e mesmo de consagração, por ela, de certo ideal; mas como condição para a maior precisão e ordem do nosso trabalho, em qualquer campo intelectual.»

Lamentamos deveras que Manuel da Silva Gaio não nos dê a sua Educação clássica, que receberíamos como de um mestre, a quem sempre temos a agradecer muita adivinhação e muito caminho aberto. Da linhagem cerebral dessas figuras, a que Paul Bourget chama ‘compreensivas’, Manuel da Silva Gaio, como filho de uma época de transição, sofreu as penas honrosas de ser, sobre os seus contemporâneos, um antecipado. Como antecipado, a sua obra é fragmentária, tentando aqui, concretizando além. Mas desde o lusitanismo encantador das Canções do Mondego até às páginas inolvidáveis dos Últimos crentes, que, entre dois ou três livros escolhidos de Camilo, é para se guardar na estante ao lado da Ilustre casa de Ramires, quanto, e com que fidalga e desinteressada dedicação, Manuel da Silva Gaio se não esforçou para que Portugal não deixasse de ser nunca Portugal na evocação dos seus poetas e na retina dos seus artistas!

Com Alberto de Oliveira, Manuel da Silva Gaio foi o único do seu tempo que percebeu como o Simbolismo levava ao filão popular do nosso Romanceiro. Não o esqueçamos nós que, ao remar para trás, ao encontro das nossas origens literárias, é com Manuel da Silva Gaio que deparamos logo de guarda aos destinos desprezados do génio nacional! Ainda agora na cruzada pelo ressurgimento das humanidades, é a defesa do génio nacional que preocupa Manuel da Silva Gaio, é o protecionismo da inteligência portuguesa, ameaçada de morte, que o leva a prestar ao seu país um socorro valioso, como é o da monografia a que são dedicadas estas desmaiadas reflexões.

Talvez que ainda voltemos a detalhar as nossas opiniões sobre a educação clássica, chamando a atenção de Manuel da Silva Gaio para a parte que no ensino moderno do latim devem ter os Padres da Igreja. Se o grande século francês assim o houvesse entendido, pode bem ser que o naturalismo dos poetas e sofistas pagãos não produzisse a soltura cética dos espíritos, em que a Revolução se entronca diretamente. Porque na controvérsia tão disputada das causas da Revolução, eu voto por Taine contra Maurras! Mais que o vendaval romântico, a obsessão do figurino greco-romano inspirou os declamadores da Assembleia Constituinte e levou ao individualismo nefasto do Contrato social.

Há um humanismo devoto, que, pelo que respeita à França, Henri de Bremond acaba de reanimar brilhantemente. Refiro-me ao humanismo que descende das medidas purgatórias do concílio de Trento. A doçura de São Francisco de Sales é um exemplo, como é um exemplo a elevação moral de um Bossuet. Nós tivemos entre nós, sobre todos, um Padre Manuel Bernardes. Ora, se o Humanismo deu, através do lado religioso, puristas e mestres da Língua – clássicos, em resumo – porque é que os Padres da Igreja não figurarão, com a devida compreensão crítica da sua época, no material pedagógico do moderno ensino das humanidades? Santo Agostinho é bem o depositário do classicismo antigo, que ele purifica ao lado de São Jerónimo. Ainda há pouco Luís Bertrand se lembrou de nos proporcionar uma antologia dos seus melhores excertos. O que na questão se me apresenta de importância é o cristianizar-se tanto quanto possível o estudo das humanidades, para evitar o caso frequente de Jules Lemaître, o qual atribuía a sua descrença à ação negativista dos velhos mestres que haviam ignorado a Cristo.

Tocamos apenas na flor de um assunto que nos obrigaria a ir longe. Permita-nos Manuel da Silva Gaio que o confiemos à sua meditação e que, em nome das suas responsabilidades para com as novas gerações, lhe recordemos aqui bem alto que não dispõe do direito de nos roubar a sua prometida, mas sempre retardada, Educação clássica. Ela é uma pedra a mais para o alevantamento de Portugal. Portugal não lhe perdoará nunca, se cometer o delito de lesa-pátria de deixar consigo, na sua pasta, esse trabalho de excecional alcance, trabalho de que o capítulo agora publicado é um verdadeiro acontecimento nos domínios da nossa literatura didática.



Referências
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  • António Sardinha, “A Cultura Clássica”, in Ao Ritmo da Ampulheta, 2ª ed., Lisboa, 1978, pp. 56-60.
  • [*] Manuel da Silva Gaio, 1860-1934 - Da poesia na educação dos gregos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1917, 91 p.; separata da Revista da Universidade de Coimbra, vol. 5 (1917), nº 3 e 4.

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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