ESTUDOS PORTUGUESES
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        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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A Epopeia Franciscana

António Sardinha
PONTOS ESSENCIAIS
  • Santo António como símbolo do franciscanismo português: Destaca-se a figura de Santo António como um dos maiores expoentes da espiritualidade franciscana, reconhecido pela Igreja e pelo povo como “Vaso do Espírito-Santo” e “Arca da Sagrada Escritura”, sendo um símbolo de esperança e renovação espiritual.
  • O franciscanismo e a sua influência: O texto sublinha a importância do franciscanismo no renascimento espiritual do século XIII, inspirado pelo exemplo de São Francisco de Assis, o “Poverello”, cuja mensagem de amor, simplicidade e alegria revolucionou a cristandade e influenciou profundamente a cultura, a arte e a poesia.
  • Renovação da Igreja e impacto social: O movimento franciscano é apresentado como um fator de renovação da pureza doutrinal e de revitalização da Igreja, promovendo valores de fraternidade, pobreza e alegria, e influenciando a sociedade medieval, inclusive fora dos claustros.
  • Expressão artística e poética: A espiritualidade franciscana manifestou-se na poesia e nas artes, com destaque para o “Cântico das Criaturas” de São Francisco, que celebra a natureza como expressão do divino.
  • Universalidade do amor e ligação à natureza: O amor universal de São Francisco estende-se a todas as criaturas, sendo um exemplo de comunhão com a natureza e de respeito pela criação, o que influenciou os seus discípulos e a literatura mística posterior.
  • Pacificação e fraternidade: O franciscanismo é associado à pacificação social, simbolizada em episódios como o do lobo de Gubbio, e à criação da Ordem Terceira, que une pessoas de diferentes classes sob a mesma regra.
  • Renascimento intelectual e espiritual: O texto refere o ressurgimento do interesse pelo franciscanismo em tempos modernos, com novas edições dos “Fioretti” e estudos de autores como Johannes Joergensen, que se converte ao catolicismo inspirado por São Francisco.
  • Reflexão filosófica sobre o franciscanismo: São apresentadas diferentes interpretações filosóficas sobre São Francisco, incluindo a de Antero de Quental, que o vê como precursor do espírito moderno e do panteísmo espiritualista, e a resposta de Joergensen, que defende a ortodoxia cristã do santo.
  • Legado e atualidade: O franciscanismo é apresentado como uma força salvadora tanto para a sociedade medieval como para a contemporânea, sendo Santo António invocado como patrono e símbolo de esperança para Portugal.




​A EPOPEIA FRANCISCANA 
Assombro da consciência mística do século XIII, Santo António foi um dos maiores luzeiros da cristandade medieval. A sua eloquência encheu de espanto e de enternecimento os grandes auditórios religiosos. Desde a Igreja, na pessoa dos seus pontífices e dos seus cardeais, ao povo que em vida o canonizou, o novo santo, o nosso santo, o santo português por excelência, viu-se por todos chamado «Vaso do Espírito-Santo», «Arca da Sagrada Escritura». Teólogo ilustre, mestre eminente, pregador escutado, em Santo António floresce o génio latino na sua admirável luminosidade. E nesta hora triste, no eclipse lento que passa sobre nós, não nos esqueçamos que é ele quem liberta Pádua das fúrias assoladoras de Ezelino, legado de Frederico II, do terrível Frederico II. Milagre dos máximos na hagiografia do santo, tem para nós, na hesitação crepuscular do atual momento, a alta e consoladora significação de um símbolo.

A figura excecional de António não se compreende sem que a emolduremos na auréola doce do seu franciscanismo. Quem não há aí que no renascimento espiritualista do nosso tempo se não tenha embalado com a lição enternecedora do divino Poverello – do esposo da Senhora Pobreza. O que a cristandade dividida lhe deveu sobre o coração retalhado da Itália, a história no-lo conta florindo maravilhas, ao contacto da sua palavra de prodígio. Nos sumus joculatores Domini – ensinava o pobrezinho de Assis, feliz jogral de Jesus, que na alegria e na simplicidade achava de novo para a dureza do homem a lei libertadora do amor. No seu magnífico estudo – L’Italie mystique –, Émile Gebhart mostra-nos bem o que foi essa cavalaria da alma rejuvenescida, essa extraordinária epopeia franciscana.

Quando a unidade da Igreja parecia perigar, o franciscanismo renova-lhe a pureza da doutrina e, dentro da hierarquia e da obediência, insufla-lhe na estrutura pervertida gérmenes de vida resgatadora. «A aparição de São Francisco de Assis é talvez o facto mais maravilhoso da história do catolicismo na Idade Média» – escreve Arvède Barine. «Ninguém, nem antes nem depois, se aproximou tanto do ideal do cristianismo primitivo. Se alguma coisa pode recordar a sublimidade e a simplicidade das horas benditas em que João e Simão Pedro seguiam os passos do Mestre sobre as margens do lago de Genezaré, é a candura e a alegria com que os primeiros frades menores, à imitação de São Francisco, celebram as suas bodas místicas com a Pobreza.»
​
Este estado de exaltação interior cedo se traduziu na Poesia e na Arte. A regra seráfica não permitia a tristeza. Na aceitação agradecida da existência, tirava da natureza um cântico permanente ao Senhor. «Precursor e inspirador no seu país da Renascença das Artes e das Letras» – chama Georges Lefenestre ao Poverello no seu trabalho recente Vie et légende de Saint François d’Assisse. Poeta, o Santo, dele ficou sobretudo o Canticum fratris Solis – hino de inexcedível arrebatamento, onde reaparece, transfigurada, a chama antiga dos três mancebos em Babilónia, entoando graças ao Senhor, dentro do forno que baldadamente ardia.

Cada criatura era para São Francisco a palavra viva de Deus. Na sua boca iluminada de jogral de Jesus, toda a harmonia oculta do universo perpassa no mesmo acento exaltado e comovido, louvado o nome poderoso de Deus na obra infinita da sua criação – até na piedade da Morte, nossa irmã corporal.

Taine na sua Voyage en Italie legou-nos sobre São Francisco um testemunho impressionante. «O século XIII é o termo e a flor do cristianismo medieval...», diz o filósofo na sua secura de analista. Um sentimento que anteriormente não tinha sido senão esboçado, o amor, desabrocha então com uma força extraordinária, com São Francisco por arauto. Ele chamava seus irmãos à água, ao fogo, à lua, ao sol; ele pregava às aves e resgatava por meio da sua capa os cordeirinhos que levavam ao mercado. Conta-se que as lebres e os faisões se refugiavam nas pregas do seu hábito. Seu coração trasbordava sobre todas as criaturas. Os seus primeiros discípulos viveram como ele numa espécie de embriaguez, «de modo que em algumas ocasiões, durante vinte dias e por vezes trinta, se quedavam só nos cimos dos montes elevados, contemplando as coisas celestes».

E Taine ressalta a importância social deste movimento de ardorosa religiosidade: «Não era apenas nos claustros que semelhantes arrebatamentos se encontravam. Em Florença, confrarias de mil pessoas vestidas de branco percorrem as ruas com trombetas debaixo da direção de um chefe que se intitula o Senhor do amor. A língua nova que nasce, a poesia e o pensamento que despertam, não se ocupam senão a descrever o amor e a enaltecê-lo. Acabo de reler a Vita Nuova e alguns cantos do Paraíso; o sentimento é tão intenso que faz medo: esses homens habitam na região ardente em que a razão se funde.»

O sopro divino que animou o Pobrezinho de Assis aqueceu também toda a literatura mística com que a sua lenda se borda, desde os Fioretti ao Speculum perfectionis, em que a figura branda do Serafim do Alverne se contorna ainda de maior brandura. Dante e Giotto recebem o influxo formidável dessa claridade purificadora. A singeleza regressa aos corações. «Eu vou tirar-te o teu coração de pedra e dar-te, em seu lugar, um coração bem vivo», recorda Frei Francisco ao irmão Rufino. É o traço de fraternidade íntima ligando criaturas e coisas que distingue a passagem pelo mundo do Esposo da Senhora Pobreza. A Ordem-Terceira, trazendo os homens à comunidade da mesma regra, irmana reis e mesteirais debaixo do cordão de São Francisco. Assim se consegue a pacificação da Itália, tão encantadoramente simbolizada no episódio do lobo de Gubbio. Segundo Johannes Joergensen, ele não parece ser outra coisa senão a transformação legendária da narrativa de uma paz concluída, por intermédio do santo, entre a pequena república italiana de Gubbio e um desses ferozes fidalgos bandidos, semelhantes a feras bravias, que eram numerosos nessa época nas fortalezas das montanhas de Itália e que, como o cavaleiro Werner d’Urslingen, poderiam usar sobre o peito um escudo ornado da inscrição seguinte: «Inimigo de Deus, da compaixão e da caridade.»

Vê-se por aqui o que seria a epopeia franciscana. Não se perdeu no perfume dos séculos a sua ação salutar. Do túmulo de Assis, São Francisco preside à revoada espiritualista do nosso tempo. Já Renan se comovera diante da sua excelsa figura, pondo uma pausa no ceticismo dissolvente que o autor da Vie de Jesus cultivava com sabor e guloseima. É depois o protestante Sabatier. Cria-se quase um renascimento intelectual do franciscanismo, porque, novamente, a alma, raquitizada pela tristeza contemporânea, procura resgatar-se na cavalaria ardente do Espírito. Os Fioretti voltam a ler-se, traduzem-se e multiplicam-se em edições amadas e sentidas. Também já Portugal aponta a sua. É deste ano – Florinhas do glorioso São Francisco de Assis [1ª edição de 1917, Braga: Boletim Mensal ] – e devemo-la aos cuidados sapientes do Rev. A. Tomás Gonçalves. Dos Fioretti afirmava Taine ser uma das obras-primas do cristianismo místico.

E a auréola do Poverello aviva-se cada vez mais, com mais vigor. É a condessa de Pardo Bazán, é Arvede Barine, é Lafenestre, é Bailly, é Johannes Joergensen, de cuja pena saiu o melhor estudo sobre São Francisco de Assis.

Romancista dos mais ilustres da Dinamarca, Joergensen é um convertido. A sua sensibilidade nórdica, amordaçada nos erros negativistas de uma falsa formação filosófica, despertou para a fé no enlevo e no carinho de São Francisco. No livro que Wyzewa verteu para francês com o título de Livre de la route, Joergensen traçou o drama comovente da sua conversão. Foi no dia da Indulgência, em Santa Maria dos Anjos. «Um silêncio imponente e como que esmagador reinava nesse espaço atulhado de povo. Tinha-se a impressão de se estar só, debaixo de um céu infinito. Involuntariamente, o incrédulo Giovanni dobrou o joelho, quando lhe chegou a vez de passar diante do altar. Ele sentiu a proximidade de uma força solene e de bom grado teria continuado sob as asas protetoras não sabia de que poder misturado de perdão.»
​
Penetrado desse sentido de libertação interior, compôs entre nós Afonso Lopes Vieira o seu poema teatralizado Rosas Bravas. Já antes, um outro ilustre poeta nosso se debruçara sobre São Francisco de Assis, ávido de paz, de quietação, de alegria. Foi Antero. Em carta a Tommazzo Canizarro, de 24 de Junho de 1886, escrevia Antero: «E, antes de me despedir, vou pedir-lhe uma informação, e é se existe alguma edição acessível das Poesias italianas de São Francisco de Assis, de que só conheço uma por V. publicada: mas o que sobre essas Poesias dizem o Taine na sua Voyage en Italie e o Ozanam no seu estudo sur les Poètes franciscains estimula-me muito a lê-las no original.» Dois anos depois, satisfeito o seu apetite, assim se exprimia Antero: «Poucas fisionomias há para mim tão interessantes, quer histórica, quer psicologicamente, como a de Francisco de Assis.»

«Considero-o como o primeiro dos precursores do espírito moderno, digo, o espírito moderno, como representado por Bruno, Schelling e Hartmann, do panteísmo espiritualista», continua Antero. Neste ponto de vista haveria um paradoxo (no fundo nada paradoxal) a desenvolver! Que São Francisco não fora cristão: e a fazer sobressair o contraste entre a sua conceção do mundo e da vida, toda ela de um otimismo poético e panteísta, e a trágica e sombria conceção pessimista da Igreja, de um mundo radicalmente mau e condenado por Deus. É claro que São Francisco se julgava cristão: mas estou-me referindo não ao que ele julgava ser, mas ao que efetivamente, embora inconscientemente, era e representava na evolução do sentimento humano na Idade Média.»
As observações de Antero, filhas de um vício de inteligência, foram mais tarde as observações de muito pensador que no naturalismo franciscano nada mais contemplaram senão uma forma mística de panteísmo. Responde-lhes Johannes Joergensen: «Nada mais falso que reputar o santo como um panteísta: nunca São Francisco confundiu com a natureza nem a Deus nem a si mesmo; e foi-lhe sempre estranha a alternativa de embriaguez órgica e de desespero pessimista, tal como o panteísmo a produz. Nunca ele desejou, como mais tarde Shelley, fazer um todo apenas com a natureza, e muito menos com o Werther de Goethe ou com Turguenev, teria a impressão de se abandonar, tremendo, à fatalidade cega das coisas, de ser vítima do “monstro eternamente ávido” que é a natureza. A sua atitude, em face da natureza, foi sempre, pura e simplesmente, a do primeiro artigo do Credo da Igreja: “a crença num pai que ao mesmo tempo é um criador”.»

Na sua essência, eis o franciscanismo – admirável par de asas que salva a sociedade medieval e promete um repouso à nossa, tão desconjuntada também. Lembrá-lo nos marcos imortais da sua epopeia é lembrar Santo António, flor da nossa raça, seu intérprete no céu e na terra. Ao glorioso frade português, teólogo consumado, cuja língua até na morte resistiu à corrupção, chamava São Francisco com desvanecimento «o seu bispo». Enérgico, cheio de zelo e apostolismo, Santo António é bem o São Paulo da religião franciscana. Depois da morte do Poverello, salva a ordem da anarquia e do relaxamento, em que a apostasia de Elias de Cortona a ia lançando. Que, na catástrofe em que nos sumimos sem esperança de remédio, António seja o nosso patrono mais uma vez! Decorem as mulheres de Portugal a oração que lhe consagra Afonso Lopes Vieira e talvez que o auxílio poderoso do grande santo anuncie por sobre nós a manhã suspirada da ressurreição!

António Sardinha - 'A Prol do Comum...' - Doutrina & História, 1934

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Tradução, introdução e notas do P. Aloysio Thomás Gonçalves. 4.ª Edição. Editorial Franciscana. Braga. 1960.

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J. Jorgensen - Saint Francis of Assisi: A Biography (1907) - audio : https://librivox.org/saint-francis-of-assisi-a-biography-by-johannes-jorgensen/
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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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