Exército e Tradição
António Sardinha
António Sardinha crítica a escassez de estudos militares especializados em Portugal, que expliquem as batalhas para além da simples narrativa, destacando a importância do pensamento organizador por trás das vitórias. Valoriza obras como a Defesa de Portugal e a História orgânica e política do exército português, bem como o trabalho de Satúrio Pires – Os Caçadores do exército de Dom Miguel - que alia experiência militar a cultura intelectual. Por fim, sublinha a missão social do exército na preservação da honra nacional e no fortalecimento das energias do país perante os desafios dos imperialismos modernos.
Pontos-chave
- O texto critica a falta de estudos militares especializados em Portugal, defendendo que as batalhas devem ser analisadas para além da simples narrativa, valorizando o pensamento organizador por trás das vitórias.
- Sublinha a missão social do exército na preservação da honra nacional e no fortalecimento das energias do país perante os desafios dos imperialismos modernos.
- Valoriza o papel do exército na defesa da sociedade contra ameaças internas e externas, e defende a importância da educação moral e mental dos oficiais.
- Analisa a reorganização militar durante o reinado de D. Miguel, destacando o critério regional na nomeação dos regimentos e a valorização das tradições locais.
- Critica a burocratização do exército defendendo o regresso às instituições tradicionais como forma de fortalecer a identidade nacional.
- Aponta erros na organização militar das campanhas de D. Miguel, salientando o papel da desmoralização das tropas e da influência maçónica.
- Reflete sobre a recorrente dependência de comandantes estrangeiros em momentos críticos da história militar portuguesa.
- Defende que o espírito militar português está ligado ao municipalismo e à tradição, mas que a burocratização e a falta de continuidade prejudicaram o desenvolvimento do exército.
- Salienta que o exército deve ser autónomo, livre da influência política, e que a incompatibilidade entre exército e partidocracia está demonstrada no contexto histórico analisado.
EXÉRCITO E TRADIÇÃO
É pobre a nossa história militar de monografias que, dentro do puro ponto de vista da especialidade, nos ajudem a compreender o esforço dos nossos Reis em manter íntegra a terra sagrada da Pátria. As nossas batalhas, nas causas determinantes da sua ação decisiva e nos golpes técnicos de que dependeu o seu desfecho, não encontraram ainda entre nós o espírito que, fora da mera narrativa dos factos, nos ensinasse a vê-los como a afirmação, não só do valor natural da raça, mas do pensamento organizador que a ele presidiu e o soube levar à vitória. Quase nula em tudo o que possa contribuir para a restauração da consciência coletiva, a atividade mental entre nós não vai além, nos domínios a que me estou referindo, de meia-dúzia de honrosas exceções, entre as quais me é agradável fazer sobressair, nos mortos, o coronel do Estado-Maior, Alfredo Pereira Taveira, com a sua Defesa de Portugal (Sumário histórico) e, quanto aos vivos, Cristóvão Aires com a História orgânica e política do exército português, em publicação.
Compreende-se assim o alvoroçado interesse com que fechei a leitura do volume de Satúrio Pires, Os caçadores do exército de Dom Miguel. Temperamento dotado de uma singular vocação profissional, que as inconstâncias acidentais do nosso tempo inutilizaram para uma carreira que seria sem dúvida brilhantíssima, o ex-tenente Satúrio Pires alia ao seu admirável sangue de soldado a cultura necessária ao oficial moderno, a quem não devem ser estranhos de maneira alguma os mais variados problemas que agitam e preocupam o perturbado pensamento da nossa época. Mais do que nunca, a missão social do exército se define e avoluma aos nossos olhos quando, no crescer irrequieto de tantos imperialismos, é preciso guardar intacta a honra nacional e assegurar ao país com firmeza o desenvolvimento normal das suas melhores energias. Ao lado da expansão e da segurança externa, ao exército cumpre defender a sociedade constituída em face das forças de destruição intestina que por toda a parte se anunciam e fremem neste transformar de um mundo e de uma civilização. A hora que avança – hora de incerteza e de esperanças – marcará a hora de uma nova floração de nacionalismos, com o crepúsculo já mais que desdobrado das utopias desacreditadas da Revolução. Contra os bárbaros de dentro e de fora, é o exército a condição primeira dos povos que desejam remoçar-se e fortificar-se pelo regresso às suas instituições tradicionais.
A educação do oficial carrega-se por consequência de responsabilidades gravíssimas, a que só corresponderá convenientemente uma preparação moral e mental que o torne, na realidade, um valor de destaque, apto para executar e também para restaurar.
Não é outro o caso de Satúrio Pires. Logo na sua retirada para a Galiza nos mostrou como possuía a obrigação militar no mesmo elevado conceito que o general Donap nos apresenta no seu Commandement et obéissance, ao distinguir entre os governos baseados na legitimidade e na ordem, e os governos que são unicamente governos por se encontrarem no lugar do governo.
Num período em que a burocratização do exército conseguira apagar por completo entre nós o sentimento mais rudimentar do que seja o prestígio e o brio de uma classe, o tenente Satúrio Pires, rompendo com os preconceitos dominantes, afirmava soberanamente o protesto da sua farda envergada, não para compartilhar do fruto das condescendências vis, mas sim para acompanhar e servir o Rei, encarnação secular da Pátria através da continuidade da sua dinastia. Certamente que, a juntar-se aos exemplos recebidos de uma velha família de militares, não influiria pouco para esse seu resoluto passo a formação própria de Satúrio Pires. A sua inteligência ressentia-se já da forte corrente antidemocrática que entrara a ganhar raízes nas gerações mais nobres. Soldado de herança, soldado na sua carne e na sua alma, Satúrio Pires achava evidente, como uma verdade revelada que se pratica e não se discute, o divórcio absoluto da hierarquia e da disciplina com os igualitarismos absurdos da superstição liberalista, por muito que, em grandes desperdícios de saliva, a oratória dos tribunos os reclamasse, em tardes de comício, de promessas e de risos idílicos.
Definindo-se e documentando-se, o gosto da história acabaria de concretizar em Satúrio Pires aquilo que era estruturalmente a razão de ser da sua individualidade. Se de provas carecêssemos, tínhamo-las nós com abundância no seu volume, agora com tanto sucesso lançado à rua.
Pertencem os Caçadores no exército de D. Miguel a uma série de estudos que, debaixo do título «Um século de glória», Satúrio Pires se propõe consagrar aos caçadores portugueses, eliminados dos quadros do nosso exército por não terem a justificá-los senão a tradição – nas expressões incríveis do coronel Pereira Bastos, que os extinguiu. Não nos é indiferente a nós, integralistas, o valioso trabalho de reconstituição histórica em que o entusiasmo de Satúrio Pires se empenha ardorosamente. Deformado pela calúnia sectária, a interpretação do reinado de el-rei D. Miguel recolhe das investigações demoradas de Satúrio Pires uma reparadora claridade. Contra o bando de estrangeiros e de desnacionalizados, que impuseram ao país submetido os pomos exóticos do Constitucionalismo – bando esse em que os sinceros se contavam por engano –, Satúrio Pires desenha-nos bem a nação levantada em peso, não tanto por um impulso de lealdade romântica, mas sobretudo pelo instinto excitado do perigo que se aproximava e que não tardaria a desorganizá-la de todo. Venceu-a a traição maçónica por intermédio da Quádrupla Aliança. Mas o príncipe que na sua mocidade esplendorosa parecia personalizar as virtudes e os defeitos do Portugal de sempre foi o último Rei dos portugueses, por vontade soberana do seu povo, tão paradoxal que isso se nos afigure.
D. Miguel possuía um exército, e um exército iniciado e adestrado nas campanhas rijas da Guerra Peninsular. Atrás do exército, estava o país, que não se descuidou em correr às armas, constituindo entre sacrifícios e gritos de dedicação os Batalhões Voluntários Realistas, de que foi comandante o duque de Cadaval. No capítulo terceiro da sua monografia, ao ocupar-se da reorganização militar de 1829 e da imediata mobilização de 1831, só no esboço que nos traça dos coronéis a quem se entregou o comando dos regimentos «Beira-Alta», «Minho e Beira-Baixa», Satúrio Pires nos deixa entrever, pela sua folha de serviços, de que têmpera e de que mérito eram os oficiais de D. Miguel, promovidos e condecorados os mais deles debaixo da metralha áspera da epopeia napoleónica.
Uma observação se nos suscita, aqui, de vivo interesse para as reivindicações regionalistas do nosso tradicionalismo. É o critério nacional das províncias, ressuscitado por D. Miguel na reconstituição do exército. «Quer dizer – elucida Satúrio Pires –, os corpos passam a usar o nome da localidade ou província, onde têm guarnição. Por exemplo, o 19 de infantaria volta a ser o «Regimento de Cascais», como a cavalaria retoma o nome de Cavalaria ou «Dragões de Chaves», como artilharia n.º 1 o de «Regimento de Artilharia da Côrte». E Satúrio Pires continua perfilhando com o reforço da sua competência o plano seguido por D. Miguel, que nós nos apressamos também a sublinhar e a aplaudir: «Naquelas cidades, onde mais de um regimento ficasse existindo, então se indicaria o seu número de ordem. Assim a capital tem os seus 1.º, 2.º, 3.º e 4.º Regimentos de Infantaria de Lisboa...» Talvez seja uma fraqueza nossa e um errado ponto de vista em que nos colocamos, mas, se fraqueza é, nós desde já a confessamos.... Tem muito de simpático para nós esta designação nominal a que vimos aludindo! O simples número de um regimento nada significa e é tudo quanto há de mais abstrato e inexpressivo para a alma simplista do soldado.
A recente criação no nosso C.E.P. da «Brigada do Minho» ensina-nos por si só como Satúrio Pires vê excelentemente o problema. «Criação» – não é exato. Antes «reconhecimento». Porque, fora de todas as prescrições legais, o grupo dos regimentos minhotos na nossa frente de batalha cedo se caracterizou pelo seu regionalismo espontâneo de maneira a merecer que o comando superior lho sancionasse, concedendo-lhe como prémio de honra a designação da sua província.
Desejaríamos generalizada essa resolução das estações competentes; e com o antigo «governo-das-armas» das províncias, ressurgida a própria distinção de cores no fardamento dos soldados. Também D. Miguel a ordenou, restaurando assim, por amor à tradição, um obliterado costume das nossas coisas militares. De forma que, no exército miguelista, os caçadores do Alentejo passaram a usar gola preta e canhão azul-claro; gola e canhões azul-claros os da Beira-Alta; gola azul-clara e canhão negro os da Beira-Baixa; finalmente, canhão amarelo e gola preta os do Minho.
A hierarquia e a disciplina não excluem no exército o respeito das fórmulas características de um povo, que são até uma das suas manifestações mais festejadas e com maior agarra na aceitação coletiva. Quando às diversas unidades se não atribua a indicação da localidade apontada para seu aquartelamento, liguem-nas, pelo menos, à lembrança de uma batalha ou à invocação de um nome glorioso. Em vez de os despersonalizarmos na secura hirta de uma escala numérica, porque é que não temos um regimento de cavalaria «Mouzinho de Albuquerque» ou um regimento de «Caçadores do Buçaco»? Mas Satúrio Pires tocou como mestre no assunto; e eu, bordejando-o à flor das minhas impressões, estou talvez a incorrer nas penas severas daquela resposta célebre de Apeles. Limito-me, pois, a acentuar a importância carinhosa com que precisamos de o encarar na nossa cruzada de renacionalizarmos a Pátria. E não sei de mais bela contribuição para o esforço comum, se Satúrio Pires se dispuser a auxiliar-nos com inteiro desenvolvimento das suas ideias a semelhante respeito.
Não me é permitido analisar demoradamente a monografia de Satúrio Pires. Aponta ele com a sua visão apurada de crítico os erros graves que presidiram à organização militar das campanhas de D. Miguel, defeitos que as deserções e os conluios secretos se encarregavam a cada hora de salientar e engrossar ainda mais. Campanha infeliz, a sua infelicidade só se explica pela lenta e persistente desmoralização das tropas, em que o elemento maçónico desempenhou papel primacial. A base miliciana do exército contribuía bastante para isso. Apenas a cavalaria, bem montada e com soldados envelhecidos ao serviço, se não esquecera do seu aprumo e da primitiva correção. «Bourmont considerava-a uma das primeiras das Europa, comenta Satúrio Pires. Até nos assaltos contra os entrincheiramentos do Porto ela brilhou, carregando com alma e chegando a apoderar-se de redutos pela gola, como os couraceiros de Caulaincourt na Moscova em 1812.»
Porque falamos em Bourmont, um reparo curioso nos ocorre. E é que, nos momentos arriscados da vida nacional, sempre a organização do exército se confiou a comandantes estrangeiros. É Schomberg na guerra da Aclamação, é Lippe com Pombal, são Waldech e Von Goltz, Wellington e Beresford com D. João VI. Indubitavelmente que as campanhas da Aclamação se prepararam todas pelo regresso inteligente de D. João IV à sábia organização militar de D. Sebastião. Com D. Sancho Manuel e o marquês de Marialva, ninguém desconhece que possuíamos nessa altura um apreciável viveiro de generais ilustres. Mas não é menos verdadeiro o facto que observamos. Representará ele uma incapacidade incurável da nossa gente, por outro lado tão ativa e tão resistente nos trabalhos da guerra?
Cremos bem que não. As nossas qualidades militares acompanham desde sempre o arreigado espírito municipalista que ilumina a formação e a consolidação da pátria portuguesa. Das camadas obscuras dos concelhos que iam com o Rei ao fossado anual sauí a nossa formidável infantaria, já embrionariamente assinalada nas Navas de Tolosa e entrando na luz plena da história com a batalha dos Atoleiros, em que a peonagem do Condestável atirou para o novelo confuso da derrota os ginetes espumantes da fidalguia de Castela.
Quando, porém, as necessidades técnicas da guerra pediram mais que o valor individual do soldado e os exércitos começavam a exigir a duração como condição fundamental da sua existência, o nosso feitio, avesso por natureza à permanência e à continuidade nas fileiras, não se acasalou com a nova ordem de coisas, de todo em todo hostil ao temperamento, bem mais agrário do que urbano, da nossa raça.
O exército passou assim a considerar-se antes como um emprego, espécie de carreira destinada aos filhos segundos da pequena nobreza, ou arrumo sabido de quantos mercenários procuravam o patrocínio do Estado português. Daí as reflexões correntes do general Foy acerca da entrada de Filipe V com o marechal de Berwick, em 1704, pela nossa Beira. «As tropas de linha pareciam massas de povo, porque não tinham o conjunto que dá uma boa organização e os camponeses é que pareciam soldados, tanto era o ardor marcial que mostravam! As praças onde havia guarnições rendiam-se logo quase todas à primeira intimativa, e os governadores de algumas até pediam desculpa de haverem disparado a artilharia, pois não sabiam da presença do rei de Espanha, por quem não deixariam nunca de guardar respeito. São as próprias expressões, recolhidas nas memórias de Berwick – prossegue Foy –, em que o marechal testemunha a sua surpresa pela facilidade com que se rendiam povoações em circunstâncias de resistir, enquanto as aldeias, as vilas e todos os lugares abertos por onde o exército passou se defenderam à lança, não temendo com esta honrosa atitude atrair sobre si o saque e o incêndio.»
Já se percebe agora a vinda a Portugal de cabos de guerra estrangeiros, sempre que o perigo nos bateu à porta. Trata-se de um erro de direção, em que a índole do português colaborava gostosamente. A tranquilidade relativa do nosso império ultramarino tirara-nos a única escola em que se podiam desenvolver e selecionar vocações.
As lutas contra os holandeses no Brasil deram-nos ainda Matias de Albuquerque. Depois dele mais ninguém, não aludindo, claro, às reputações conquistadas nos plainos do Alentejo durante os vinte e tantos anos em que se arrastaram as campanhas da Aclamação. Passado, entretanto, o perigo, voltava-se à apatia cómoda da situação anterior. A burocratização do exército nos tempos do Constitucionalismo trazia assim as suas raízes de atrás. Provinha da nossa negação natural para o serviço militar sistematizado. Mas como, apesar de tudo, as virtudes da raça excediam as dos povos melhores de todos, é fácil de comprovar pela rapidez com que entre nós o exército se improvisava e recompunha. Temos uma demonstração eloquente no arranco leonino com que sustivemos o peso da Guerra Peninsular.
Não me sendo lícito discorrer do livro de Satúrio Pires dentro da especialidade do seu autor, é o tradicionalista que a mim me interessa nos dobrados merecimentos da sua espada e da sua pena. Satúrio Pires, utilizando um notável sentido histórico, descobre-nos com ele um filão inédito da sua inteligência. Não é só o técnico que se nos revela na posse seguríssima dos seus processos e métodos científicos. É também o crítico abraçando no golpe fundo da sua visão os mais detalhados acontecimentos para os sujeitar em seguida à lei geral que nos governa e conjuga.
Num exército em ação não considera apenas Satúrio Pires a mole pesada dos homens, arqueando-se e desdobrando-se conforme as regras estabelecidas na orgânica. As causas sociais – esse miúdo, mas poderoso agitar de forças ocultas a que Bismarck chamava os «imponderáveis», representam para Satúrio Pires, na destrinça límpida da sua afirmação, um agente de primacial e incontestável valor. Não separa assim Satúrio Pires a ideia de exército da ideia de tradição, como fica dito. É o bastante para que a noção de Estado se lhe apresente, não na indiferença da forma de governo, mas encarnada naquele regime para quem o equilíbrio interno e o respeito externo sejam a essência própria da sua conservação. Do conceito profissional, concebido e admitido nos seus fundamentos exatos, eis como Satúrio Pires, não subordinando o exército à política, chega a uma conceção política que liberte o oficial da ingerência das clientelas e o integre, como órgão que é da coletividade, dentro da sua órbita restrita, mas autónoma.
Como biografia moral, sempre que o subjetivismo possa transparecer na narração impassível do historiador, o livro de Satúrio Pires é das mais francas e das mais saborosas revelações que conheço. A sua dedicatória, «a dois artilheiros», o pai do autor e o seu Comandante da Galiza, significam bem o tradicionalista, envolvendo no mesmo amor respeitoso a autoridade do sangue e a paternidade do comando. No tempo da Cavalaria, quando a imposição da espada era recebida como um sacramento, as duas linhagens não se distinguiam uma da outra. Entrelaça-as Satúrio Pires na sua pena de soldado, para quem a fidelidade e a obediência ocupam lugar entre as virtudes teologais. É vê-lo no seu culto pelos Mortos, interpretando mais de um episódio pela presença invisível em nós de quantos nos antecederam e conformaram na sucessão indefinida das gerações. «Podem dizer-te que morri. Ninguém te dirá que fugi!» E na despedida singela do capitão Manuel Inácio de Paiva Cabral Couceiro a sua esposa, ambos avós do Comandante da Galiza, Satúrio Pires, registando tão nobres palavras, acrescenta num período em que todo ele se debruça, como num espelho interior: «Na sua estoica simplicidade, Plutarco não hesitaria em atribuí-las ao neto!»
O capitão Manuel Inácio de Paiva Couceiro batia-se por D. Miguel e morreu, durante uma carga de baioneta, à frente dos seus soldados, nas linhas do Porto, junto do Monte das Antas. Singular destino de uma família em que avô e neto, cada um do seu modo, seriam vítimas da loucura revolucionária que, vai em cem anos, tomou conta do país! É o destino de todos nós, acordados por Deus para uma missão de resgate em que se ressuscita o ódio sagrado dos antepassados contra o sofisma nefasto que dividiu Portugal em dois. O nosso tradicionalismo político e social, de harmonia com as luzes da cultura moderna, não é senão a consciência dessa voz hereditária que, em face dos males da Pátria, lhes denuncia a origem e não quer pactuar mais com ela.
A revolução só se vencerá pela destruição sistemática de tudo o que constituiu a sua obra. Vencida nas inteligências, subsiste ainda nos factos. Importa para isso despertar no exército a dignidade da sua função restauradora. Não há espírito militar sem instituições que paternalmente o desenvolvam e acobertem. E o exército à mercê dos partidos é massa inerte atirada ao acaso para as encruzilhadas do primeiro enxovalho.
A incompatibilidade do exército com a democracia está não só estabelecida, mas até demonstrada. Resta concluir-se. Ninguém melhor para o conseguir do que Satúrio Pires. O seu livro, agora publicado, é já nesse sentido, pela razão descarnada dos acontecimentos, a mais alta e a mais convencedora de todas as lições. Que não abdique Satúrio Pires do propósito que tão largamente se impôs e que novas páginas de boa e verdadeira história, como as dos Caçadores no exército de Dom Miguel, nos venham acudir com a sua fé inflamada neste doloroso eclipse da nacionalidade, em que só o apelo às energias ancestrais da raça nos poderá salvar de uma morte afrontosa, sem penitência nem absolvição!
Compreende-se assim o alvoroçado interesse com que fechei a leitura do volume de Satúrio Pires, Os caçadores do exército de Dom Miguel. Temperamento dotado de uma singular vocação profissional, que as inconstâncias acidentais do nosso tempo inutilizaram para uma carreira que seria sem dúvida brilhantíssima, o ex-tenente Satúrio Pires alia ao seu admirável sangue de soldado a cultura necessária ao oficial moderno, a quem não devem ser estranhos de maneira alguma os mais variados problemas que agitam e preocupam o perturbado pensamento da nossa época. Mais do que nunca, a missão social do exército se define e avoluma aos nossos olhos quando, no crescer irrequieto de tantos imperialismos, é preciso guardar intacta a honra nacional e assegurar ao país com firmeza o desenvolvimento normal das suas melhores energias. Ao lado da expansão e da segurança externa, ao exército cumpre defender a sociedade constituída em face das forças de destruição intestina que por toda a parte se anunciam e fremem neste transformar de um mundo e de uma civilização. A hora que avança – hora de incerteza e de esperanças – marcará a hora de uma nova floração de nacionalismos, com o crepúsculo já mais que desdobrado das utopias desacreditadas da Revolução. Contra os bárbaros de dentro e de fora, é o exército a condição primeira dos povos que desejam remoçar-se e fortificar-se pelo regresso às suas instituições tradicionais.
A educação do oficial carrega-se por consequência de responsabilidades gravíssimas, a que só corresponderá convenientemente uma preparação moral e mental que o torne, na realidade, um valor de destaque, apto para executar e também para restaurar.
Não é outro o caso de Satúrio Pires. Logo na sua retirada para a Galiza nos mostrou como possuía a obrigação militar no mesmo elevado conceito que o general Donap nos apresenta no seu Commandement et obéissance, ao distinguir entre os governos baseados na legitimidade e na ordem, e os governos que são unicamente governos por se encontrarem no lugar do governo.
Num período em que a burocratização do exército conseguira apagar por completo entre nós o sentimento mais rudimentar do que seja o prestígio e o brio de uma classe, o tenente Satúrio Pires, rompendo com os preconceitos dominantes, afirmava soberanamente o protesto da sua farda envergada, não para compartilhar do fruto das condescendências vis, mas sim para acompanhar e servir o Rei, encarnação secular da Pátria através da continuidade da sua dinastia. Certamente que, a juntar-se aos exemplos recebidos de uma velha família de militares, não influiria pouco para esse seu resoluto passo a formação própria de Satúrio Pires. A sua inteligência ressentia-se já da forte corrente antidemocrática que entrara a ganhar raízes nas gerações mais nobres. Soldado de herança, soldado na sua carne e na sua alma, Satúrio Pires achava evidente, como uma verdade revelada que se pratica e não se discute, o divórcio absoluto da hierarquia e da disciplina com os igualitarismos absurdos da superstição liberalista, por muito que, em grandes desperdícios de saliva, a oratória dos tribunos os reclamasse, em tardes de comício, de promessas e de risos idílicos.
Definindo-se e documentando-se, o gosto da história acabaria de concretizar em Satúrio Pires aquilo que era estruturalmente a razão de ser da sua individualidade. Se de provas carecêssemos, tínhamo-las nós com abundância no seu volume, agora com tanto sucesso lançado à rua.
Pertencem os Caçadores no exército de D. Miguel a uma série de estudos que, debaixo do título «Um século de glória», Satúrio Pires se propõe consagrar aos caçadores portugueses, eliminados dos quadros do nosso exército por não terem a justificá-los senão a tradição – nas expressões incríveis do coronel Pereira Bastos, que os extinguiu. Não nos é indiferente a nós, integralistas, o valioso trabalho de reconstituição histórica em que o entusiasmo de Satúrio Pires se empenha ardorosamente. Deformado pela calúnia sectária, a interpretação do reinado de el-rei D. Miguel recolhe das investigações demoradas de Satúrio Pires uma reparadora claridade. Contra o bando de estrangeiros e de desnacionalizados, que impuseram ao país submetido os pomos exóticos do Constitucionalismo – bando esse em que os sinceros se contavam por engano –, Satúrio Pires desenha-nos bem a nação levantada em peso, não tanto por um impulso de lealdade romântica, mas sobretudo pelo instinto excitado do perigo que se aproximava e que não tardaria a desorganizá-la de todo. Venceu-a a traição maçónica por intermédio da Quádrupla Aliança. Mas o príncipe que na sua mocidade esplendorosa parecia personalizar as virtudes e os defeitos do Portugal de sempre foi o último Rei dos portugueses, por vontade soberana do seu povo, tão paradoxal que isso se nos afigure.
D. Miguel possuía um exército, e um exército iniciado e adestrado nas campanhas rijas da Guerra Peninsular. Atrás do exército, estava o país, que não se descuidou em correr às armas, constituindo entre sacrifícios e gritos de dedicação os Batalhões Voluntários Realistas, de que foi comandante o duque de Cadaval. No capítulo terceiro da sua monografia, ao ocupar-se da reorganização militar de 1829 e da imediata mobilização de 1831, só no esboço que nos traça dos coronéis a quem se entregou o comando dos regimentos «Beira-Alta», «Minho e Beira-Baixa», Satúrio Pires nos deixa entrever, pela sua folha de serviços, de que têmpera e de que mérito eram os oficiais de D. Miguel, promovidos e condecorados os mais deles debaixo da metralha áspera da epopeia napoleónica.
Uma observação se nos suscita, aqui, de vivo interesse para as reivindicações regionalistas do nosso tradicionalismo. É o critério nacional das províncias, ressuscitado por D. Miguel na reconstituição do exército. «Quer dizer – elucida Satúrio Pires –, os corpos passam a usar o nome da localidade ou província, onde têm guarnição. Por exemplo, o 19 de infantaria volta a ser o «Regimento de Cascais», como a cavalaria retoma o nome de Cavalaria ou «Dragões de Chaves», como artilharia n.º 1 o de «Regimento de Artilharia da Côrte». E Satúrio Pires continua perfilhando com o reforço da sua competência o plano seguido por D. Miguel, que nós nos apressamos também a sublinhar e a aplaudir: «Naquelas cidades, onde mais de um regimento ficasse existindo, então se indicaria o seu número de ordem. Assim a capital tem os seus 1.º, 2.º, 3.º e 4.º Regimentos de Infantaria de Lisboa...» Talvez seja uma fraqueza nossa e um errado ponto de vista em que nos colocamos, mas, se fraqueza é, nós desde já a confessamos.... Tem muito de simpático para nós esta designação nominal a que vimos aludindo! O simples número de um regimento nada significa e é tudo quanto há de mais abstrato e inexpressivo para a alma simplista do soldado.
A recente criação no nosso C.E.P. da «Brigada do Minho» ensina-nos por si só como Satúrio Pires vê excelentemente o problema. «Criação» – não é exato. Antes «reconhecimento». Porque, fora de todas as prescrições legais, o grupo dos regimentos minhotos na nossa frente de batalha cedo se caracterizou pelo seu regionalismo espontâneo de maneira a merecer que o comando superior lho sancionasse, concedendo-lhe como prémio de honra a designação da sua província.
Desejaríamos generalizada essa resolução das estações competentes; e com o antigo «governo-das-armas» das províncias, ressurgida a própria distinção de cores no fardamento dos soldados. Também D. Miguel a ordenou, restaurando assim, por amor à tradição, um obliterado costume das nossas coisas militares. De forma que, no exército miguelista, os caçadores do Alentejo passaram a usar gola preta e canhão azul-claro; gola e canhões azul-claros os da Beira-Alta; gola azul-clara e canhão negro os da Beira-Baixa; finalmente, canhão amarelo e gola preta os do Minho.
A hierarquia e a disciplina não excluem no exército o respeito das fórmulas características de um povo, que são até uma das suas manifestações mais festejadas e com maior agarra na aceitação coletiva. Quando às diversas unidades se não atribua a indicação da localidade apontada para seu aquartelamento, liguem-nas, pelo menos, à lembrança de uma batalha ou à invocação de um nome glorioso. Em vez de os despersonalizarmos na secura hirta de uma escala numérica, porque é que não temos um regimento de cavalaria «Mouzinho de Albuquerque» ou um regimento de «Caçadores do Buçaco»? Mas Satúrio Pires tocou como mestre no assunto; e eu, bordejando-o à flor das minhas impressões, estou talvez a incorrer nas penas severas daquela resposta célebre de Apeles. Limito-me, pois, a acentuar a importância carinhosa com que precisamos de o encarar na nossa cruzada de renacionalizarmos a Pátria. E não sei de mais bela contribuição para o esforço comum, se Satúrio Pires se dispuser a auxiliar-nos com inteiro desenvolvimento das suas ideias a semelhante respeito.
Não me é permitido analisar demoradamente a monografia de Satúrio Pires. Aponta ele com a sua visão apurada de crítico os erros graves que presidiram à organização militar das campanhas de D. Miguel, defeitos que as deserções e os conluios secretos se encarregavam a cada hora de salientar e engrossar ainda mais. Campanha infeliz, a sua infelicidade só se explica pela lenta e persistente desmoralização das tropas, em que o elemento maçónico desempenhou papel primacial. A base miliciana do exército contribuía bastante para isso. Apenas a cavalaria, bem montada e com soldados envelhecidos ao serviço, se não esquecera do seu aprumo e da primitiva correção. «Bourmont considerava-a uma das primeiras das Europa, comenta Satúrio Pires. Até nos assaltos contra os entrincheiramentos do Porto ela brilhou, carregando com alma e chegando a apoderar-se de redutos pela gola, como os couraceiros de Caulaincourt na Moscova em 1812.»
Porque falamos em Bourmont, um reparo curioso nos ocorre. E é que, nos momentos arriscados da vida nacional, sempre a organização do exército se confiou a comandantes estrangeiros. É Schomberg na guerra da Aclamação, é Lippe com Pombal, são Waldech e Von Goltz, Wellington e Beresford com D. João VI. Indubitavelmente que as campanhas da Aclamação se prepararam todas pelo regresso inteligente de D. João IV à sábia organização militar de D. Sebastião. Com D. Sancho Manuel e o marquês de Marialva, ninguém desconhece que possuíamos nessa altura um apreciável viveiro de generais ilustres. Mas não é menos verdadeiro o facto que observamos. Representará ele uma incapacidade incurável da nossa gente, por outro lado tão ativa e tão resistente nos trabalhos da guerra?
Cremos bem que não. As nossas qualidades militares acompanham desde sempre o arreigado espírito municipalista que ilumina a formação e a consolidação da pátria portuguesa. Das camadas obscuras dos concelhos que iam com o Rei ao fossado anual sauí a nossa formidável infantaria, já embrionariamente assinalada nas Navas de Tolosa e entrando na luz plena da história com a batalha dos Atoleiros, em que a peonagem do Condestável atirou para o novelo confuso da derrota os ginetes espumantes da fidalguia de Castela.
Quando, porém, as necessidades técnicas da guerra pediram mais que o valor individual do soldado e os exércitos começavam a exigir a duração como condição fundamental da sua existência, o nosso feitio, avesso por natureza à permanência e à continuidade nas fileiras, não se acasalou com a nova ordem de coisas, de todo em todo hostil ao temperamento, bem mais agrário do que urbano, da nossa raça.
O exército passou assim a considerar-se antes como um emprego, espécie de carreira destinada aos filhos segundos da pequena nobreza, ou arrumo sabido de quantos mercenários procuravam o patrocínio do Estado português. Daí as reflexões correntes do general Foy acerca da entrada de Filipe V com o marechal de Berwick, em 1704, pela nossa Beira. «As tropas de linha pareciam massas de povo, porque não tinham o conjunto que dá uma boa organização e os camponeses é que pareciam soldados, tanto era o ardor marcial que mostravam! As praças onde havia guarnições rendiam-se logo quase todas à primeira intimativa, e os governadores de algumas até pediam desculpa de haverem disparado a artilharia, pois não sabiam da presença do rei de Espanha, por quem não deixariam nunca de guardar respeito. São as próprias expressões, recolhidas nas memórias de Berwick – prossegue Foy –, em que o marechal testemunha a sua surpresa pela facilidade com que se rendiam povoações em circunstâncias de resistir, enquanto as aldeias, as vilas e todos os lugares abertos por onde o exército passou se defenderam à lança, não temendo com esta honrosa atitude atrair sobre si o saque e o incêndio.»
Já se percebe agora a vinda a Portugal de cabos de guerra estrangeiros, sempre que o perigo nos bateu à porta. Trata-se de um erro de direção, em que a índole do português colaborava gostosamente. A tranquilidade relativa do nosso império ultramarino tirara-nos a única escola em que se podiam desenvolver e selecionar vocações.
As lutas contra os holandeses no Brasil deram-nos ainda Matias de Albuquerque. Depois dele mais ninguém, não aludindo, claro, às reputações conquistadas nos plainos do Alentejo durante os vinte e tantos anos em que se arrastaram as campanhas da Aclamação. Passado, entretanto, o perigo, voltava-se à apatia cómoda da situação anterior. A burocratização do exército nos tempos do Constitucionalismo trazia assim as suas raízes de atrás. Provinha da nossa negação natural para o serviço militar sistematizado. Mas como, apesar de tudo, as virtudes da raça excediam as dos povos melhores de todos, é fácil de comprovar pela rapidez com que entre nós o exército se improvisava e recompunha. Temos uma demonstração eloquente no arranco leonino com que sustivemos o peso da Guerra Peninsular.
Não me sendo lícito discorrer do livro de Satúrio Pires dentro da especialidade do seu autor, é o tradicionalista que a mim me interessa nos dobrados merecimentos da sua espada e da sua pena. Satúrio Pires, utilizando um notável sentido histórico, descobre-nos com ele um filão inédito da sua inteligência. Não é só o técnico que se nos revela na posse seguríssima dos seus processos e métodos científicos. É também o crítico abraçando no golpe fundo da sua visão os mais detalhados acontecimentos para os sujeitar em seguida à lei geral que nos governa e conjuga.
Num exército em ação não considera apenas Satúrio Pires a mole pesada dos homens, arqueando-se e desdobrando-se conforme as regras estabelecidas na orgânica. As causas sociais – esse miúdo, mas poderoso agitar de forças ocultas a que Bismarck chamava os «imponderáveis», representam para Satúrio Pires, na destrinça límpida da sua afirmação, um agente de primacial e incontestável valor. Não separa assim Satúrio Pires a ideia de exército da ideia de tradição, como fica dito. É o bastante para que a noção de Estado se lhe apresente, não na indiferença da forma de governo, mas encarnada naquele regime para quem o equilíbrio interno e o respeito externo sejam a essência própria da sua conservação. Do conceito profissional, concebido e admitido nos seus fundamentos exatos, eis como Satúrio Pires, não subordinando o exército à política, chega a uma conceção política que liberte o oficial da ingerência das clientelas e o integre, como órgão que é da coletividade, dentro da sua órbita restrita, mas autónoma.
Como biografia moral, sempre que o subjetivismo possa transparecer na narração impassível do historiador, o livro de Satúrio Pires é das mais francas e das mais saborosas revelações que conheço. A sua dedicatória, «a dois artilheiros», o pai do autor e o seu Comandante da Galiza, significam bem o tradicionalista, envolvendo no mesmo amor respeitoso a autoridade do sangue e a paternidade do comando. No tempo da Cavalaria, quando a imposição da espada era recebida como um sacramento, as duas linhagens não se distinguiam uma da outra. Entrelaça-as Satúrio Pires na sua pena de soldado, para quem a fidelidade e a obediência ocupam lugar entre as virtudes teologais. É vê-lo no seu culto pelos Mortos, interpretando mais de um episódio pela presença invisível em nós de quantos nos antecederam e conformaram na sucessão indefinida das gerações. «Podem dizer-te que morri. Ninguém te dirá que fugi!» E na despedida singela do capitão Manuel Inácio de Paiva Cabral Couceiro a sua esposa, ambos avós do Comandante da Galiza, Satúrio Pires, registando tão nobres palavras, acrescenta num período em que todo ele se debruça, como num espelho interior: «Na sua estoica simplicidade, Plutarco não hesitaria em atribuí-las ao neto!»
O capitão Manuel Inácio de Paiva Couceiro batia-se por D. Miguel e morreu, durante uma carga de baioneta, à frente dos seus soldados, nas linhas do Porto, junto do Monte das Antas. Singular destino de uma família em que avô e neto, cada um do seu modo, seriam vítimas da loucura revolucionária que, vai em cem anos, tomou conta do país! É o destino de todos nós, acordados por Deus para uma missão de resgate em que se ressuscita o ódio sagrado dos antepassados contra o sofisma nefasto que dividiu Portugal em dois. O nosso tradicionalismo político e social, de harmonia com as luzes da cultura moderna, não é senão a consciência dessa voz hereditária que, em face dos males da Pátria, lhes denuncia a origem e não quer pactuar mais com ela.
A revolução só se vencerá pela destruição sistemática de tudo o que constituiu a sua obra. Vencida nas inteligências, subsiste ainda nos factos. Importa para isso despertar no exército a dignidade da sua função restauradora. Não há espírito militar sem instituições que paternalmente o desenvolvam e acobertem. E o exército à mercê dos partidos é massa inerte atirada ao acaso para as encruzilhadas do primeiro enxovalho.
A incompatibilidade do exército com a democracia está não só estabelecida, mas até demonstrada. Resta concluir-se. Ninguém melhor para o conseguir do que Satúrio Pires. O seu livro, agora publicado, é já nesse sentido, pela razão descarnada dos acontecimentos, a mais alta e a mais convencedora de todas as lições. Que não abdique Satúrio Pires do propósito que tão largamente se impôs e que novas páginas de boa e verdadeira história, como as dos Caçadores no exército de Dom Miguel, nos venham acudir com a sua fé inflamada neste doloroso eclipse da nacionalidade, em que só o apelo às energias ancestrais da raça nos poderá salvar de uma morte afrontosa, sem penitência nem absolvição!