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Os Gamas

António Sardinha

A partir da genealogia de Vasco da Gama estudada por Luciano Cordeiro, discute a evolução social e histórica de Portugal, rejeitando visões simplistas ou românticas sobre a origem do protagonismo nacional e destacando a colaboração entre diferentes classes – reis, nobreza, clero e povo – na construção do país:  "um varão superior corresponde sempre a uma segura, embora inconsciente, preparação familiar." Analisa como a ascensão social e a atribuição de nomes e títulos nobiliárquicos permitiram a mobilidade de linhagens, muitas vezes obscurecendo suas origens, e critica a ingenuidade de certos princípios igualitários perante a complexidade histórica e genealógica portuguesa.




​OS GAMAS
Acabo de repassar aquelas singelas e demonstrativas páginas em que Luciano Cordeiro deslindou galantemente a enovelada genealogia do grande Almirante. Não as resumirei eu aqui, contentando-me apenas em assinalar uma verdade, cada vez mais radicada no meu espírito, qual é a de que um varão superior corresponde sempre a uma segura, embora inconsciente, preparação familiar. Vasco da Gama (para quê repisar o combate que travou com os tenebrosos deuses do Mar, nem a significação ocidental e cristã da sua gesta de herói humaníssimo?), Vasco da Gama, incorporado na sua linhagem, oferece-nos a nós – os de hoje, transviados por inúmeras superstições intelectuais, uma lição que se nos impõe escutá-la e meditá-la. Nada para mim mais agradável; para mim que escrevo às abas da abaluartada Elvas, onde cresceram e viveram os modestos «homens-bons» e escudeiros, de cujo sémen derivou, como alto prodígio de lenda, o que por briosa vontade havia de corrigir a geografia do mundo e vencer o prestígio secular do Adamastor!

Porque, nascidos e medrados à sombra da então leal vila de Elvas, os Gamas são de arraigada argila alentejana, bracejando, frondosos, numa desenvolta dinastia de proprietários e pequenas autoridades municipais, de que Luciano Cordeiro marcou com nitidez o ascenso rápido e coerente. E não lhes falta, entre esse cortejo de ancestros de espada e arado, um vulto doce de mulher, que venceu a morte, deixando de si e das fortes virtudes anónimas dos do seu sangue um perfume de piedade, ainda agora pairante. Viúva aos 18 anos, Catarina Mendes, bisavó do Almirante, reedificaria, junto a Elvas, a capelinha de Nossa Senhora da Graça, junto de um ermitério dominicano, coevo quase da Reconquista. Em torno da capelinha de Catarina Mendes, atirando uma ameaça à Espanha fronteira, recortou-se, séculos volvidos, o «Forte da Graça», que anda de norte a sul de Portugal nas cantigas do povo.

Mas meditemos a lição que nos oferece a ascendência do Almirante! Conduzida por excessivas preferências individualistas, a compreensão da nossa história tem oscilado inalteravelmente entre dois critérios extremos: para uns (e é o critério laudatório, recebido da Renascença, clássico ou académico, portanto) Portugal foi filho dos seus reis e dos seus nobres – dos seus barões – enfim; para outros (e é o critério romântico e gregarista, não menos apologético do que o primeiro), Portugal é filho do «povo» – espécie de democracia antecipada ou prefigurada.

Perante uma história tão contraditória e tão pervertida na sua essência – valha-nos Fustel de Coulanges com os seus conselhos de mestre!

Ora Portugal não é unicamente filho dos seus reis ou dos seus nobres, nem unicamente filho do seu povo. Começa logo que povo, no sentido em que hoje a expressão se emprega no verbalismo tribunício ou jornalístico, não existe senão desde o advento das quimeras políticas, por que o último século, de tão ruinosos legados, ingenuamente se regeu. Apontando a mitologia dominante no seu tempo, já o insigne Berryer exclamava à volta de 1848: «Le peuple français se compose de nous tous. Il n’y a pas de fraction de la nation qui s’appelle le peuple.» O «povo», ídolo do Fórum, é uma invenção tão funesta como recente. Deve tomar-se antes como sinónimo de «multidão». O mesmo Berryer o dizia, prefaciando o seu Projet de décentralisation e considerando como «établissements générateurs de toute société» os agrupamentos naturais que são «família», a profissão e o município: «Desprezai-os – advertia o ilustre tribuno –, tereis uma multidão, em lugar de um povo.»

Em ‘multidão’ vivemos nós, desde que os apriorismos da Revolução Francesa quadricularam a sociedade por um modelo abstrato. E porque vivemos em «multidão», debaixo da cobertura sentimental de «povo», transpusemos para a história esse critério negativo e de feroz alteração visual. O povo aparece-nos, assim, envergando umas vezes o papel carregado de vítima, vestida outras vezes da dignidade omnipotente de elemento criador e julgador.

Não nos demoraremos a desfazer o erróneo – o absurdamente erróneo! – de semelhantes teorias, de fácil aceitação, no entanto, porque são as mais próprias para os consumos folhetinescos e desperdícios salivosos da oratória que nos embrutece e desgoverna.

O que importa é reconhecermos que a sociedade não é um composto aritmético de «indivíduos», mas uma federação de «posições sociais». Logo que o reconheçamos – e para isso basta sair do círculo fechado das doutrinas postas em voga pela utopia liberalista –, ver-se-á que está sujeita a um incessante movimento de capilaridade. É um movimento perpétuo que nada afrouxa, nem nada sustém. Berryer o define com a sua costumada incisão: «C’est l’histoire du genre humain dans toutes les sociétés. On monte de classe en classe. Les sommités s’effacent et disparaissent, et les classes inférieures arrivent au sommet.»

Claramente o demonstra – pelo que, em particular, nos toca a nós – o admirável Alberto Sampaio, a quem me é sobremaneira grato chamar o nosso pequeno Fustel de Coulanges. Lembram-se decerto como ele termina a sua esplêndida monografia, As ‘vilas’ do norte de Portugal, prefácio incontestável à História de Herculano. Recortarei para aqui essa meia-dúzia de períodos inolvidáveis: «Tal era a sociedade, cujos traços fundamentais memora a tradição nos documentos precedentes. As batalhas incessantes, que selecionaram e nobilitaram os combatentes mais valorosos, levaram a liberdade às últimas camadas da população rural; metodicamente armada pela necessidade de ataque e defesa, apresentava-se já, antes de se fundar a Estado português, exercida por igual na guerra e no trabalho; a cada passo o apelido arrancava-o das cabanas, dos pardieiros e quintanas, reunindo-a no campo da peleja. Acoutiados pela coroa, os nobres são os cavaleiros de profissão: residindo em casas sem luxo, vivem em intimidade com o povo, ora na melhor harmonia, ora em questiúnculas de proprietários minúsculos, mas sempre protegendo-o. Deste modo os mais pobres combatem a pé, e peões formam a admirável infantaria portuguesa mediévica. Dos herdadores abastados saem os cavaleiros vilãos, que na batalha ocupam o lugar honroso da vanguarda; dado o primeiro choque, confundem-se com os cavaleiros nobres, e sê-lo-ão também, se a fortuna e a sorte das armas os ajudar. O casteleiro, em cujas mãos reside a última defesa do país, e o rico-homem, governador da terra, com pendão e caldeira, assentam-se ambos no tempo da paz à mesa do lavrador, e comem do seu pão. Acima de todos está o Rei, senhor do seu reino, como o império absoluto, que os de Santa Maria d’Alvarelhos definiam no responso tradicional Tua est potentia, tuum regnum, Domine. Apesar do poder supremo, tão pouco exigente, contenta-se com o asseio que os ferreiros lhe fazem no paço, e com a comida rústica que sabem preparar. A disciplina distingue os homens, mas liga-os a irmandade do sangue, assim como os iguala a mesma vida de espírito e uma pobreza forte.»

Por longa que a transcrição se nos afigure, ela justifica-se por invalidar, e de uma maneira irrespondível, as duas concepções da história, correntes entre cultos e não cultos, a que torna a história dependente da ação de uma minoria restrita (reis, nobres, sacerdotes) e a que a toma o produto espontâneo de uma instintiva massa acéfala. Sem que pratiquemos, por cómoda solução mental, o ecletismo, há que assentar, pelo menos em relação à história portuguesa, que reis, bispos, nobres e povo, propriamente dito, constituem um bloco homogéneo, donde ela jorra, conduzida por diretrizes que residem na alma comum, embora aos dirigentes caiba precisá-las e fazê-las executar. Acabamos assim, e irrevogavelmente, tanto com o conceito democrático, como com o conceito aristocrático da história. Acharam os nossos antigos cronistas um termo que tudo resume: «Grei». O que é a Grei? Responde-nos João de Barros, o das Décadas. «A grei... é a congregação dos nossos parentes, amigos e compatriotas.» Pois a Grei entrega-nos a chave do problema. Porque em Portugal não houve, realmente, duas raças distintas, uma vencedora e outra vencida, a unidade da nossa história é transparente como a água pura. Essa unidade resulta da moldagem em que a alma colectiva se afeiçoou e estabilizou. Sem dúvida que foi a moldagem religiosa.

No seu recente opúsculo sobre Alberto Sampaio, Jaime de Magalhães Lima – o solitário de Eixo – reaviva justamente São Frutuoso, arcebispo de Braga, cobrindo de mosteiros o ocidente peninsular desde o cabo Finisterra ao cabo de São Vicente. Ao lado de São Frutuoso, cumpre-nos recordar São Martinho de Dume – o apóstolo dos Suevos.

Conta-se da França que os bispos a elaboraram a pouco e pouco com a paciência e a diligência de uma abelha fabricando o seu favo. Também no período que antecede a concretização da nacionalidade com D. Afonso Henriques os prelados e os monges intervêm ativamente na elaboração de Portugal, depondo nas consciências um ideal – o da fé, que identificará numa comunhão de espírito estreitíssima os diversos componentes da nação que vai formar-se. Por isso, é o fator religioso e moral, encadeando vontades dispersas e interesses avulsos, que nós carecemos de encarar para perfeita compreensão da nossa história. Com ele se aperta a solidariedade dos indivíduos, agrupando-os numa equação permanente: a Grei.

E não cuidem que nos desconcertam com os seus reparos os que se entrincheirarem na crise de 1384 para manterem nos seus bem precários créditos a concepção democrática da história. «Parece se levantou outro mundo novo e nova geração de gente» – pasmava-se efetivamente Fernão Lopes, perante o atropelo e o improviso do enxame saído da sua segunda condição com o acesso do mestre de Avis ao trono. Responderemos tão-somente que aí se verifica o fenómeno já apresentado da capilaridade social, fenómeno tão incisivamente reconhecido, como vimos, pelo insuspeito testemunho de Berryer. E o que dá um ar revolucionário aos acontecimentos narrados por Fernão Lopes é – não contestamos –, a elevação súbita, não de uma família, não de algumas famílias, mas de uma massa considerável de escudeiros, burgueses e mesteirais. Tratava-se, porém, de uma crise mais ampla que a de uma simples questão sucessória. Tratava-se da transição da Idade Média para a Renascença, e nós em Portugal não nos podíamos furtar aos desarranjos e às surpresas de uma tão agitada comoção.

De resto, a generalidade do fenómeno é que altera um pouco os termos plácidos em que semelhante lei sociológica costuma verificar-se. Porque mesteirais que subissem houve-os sempre, como houve sempre escudeiros nobilitados, burgueses, entrando nos conselhos régios e monopolizando as finanças da coroa. Não nos conta o conde D. Pedro no seu Nobiliário o caso daquele afonsino Pero-Novais, «homem pobre», que se enriqueceu açambarcando milho, e foi depois tronco de linhagem reluzente? A propósito comenta Alberto Sampaio: «Nos primeiros tempos os feitos distinguem os homens, e não o nascimento; os nomes dos engrandecidos e dos humildes são os mesmos... Nos documentos da alta Idade Média a nomenclatura pessoal é comum para todos, e em regra tão uniforme, que nos diplomas pelas assinaturas não se diferençam os cavaleiros dos herdadores; este facto repete-se mais notavelmente nas Inquirições, onde, por entre os patronímicos de uso geral, começam a despontar os apelidos actuais, designando ora nobres, ora populares». E o autor ilustre de As ‘vilas’ do norte de Portugal insiste: «A uniformidade da nomenclatura, desde o século IX até o XIII, prova de sobra a proveniência comum das duas classes. Uma raça dominante, de sangue diverso dos habitantes, e inadmissível sem denominação pessoal privativa... Nos nossos nobiliários só raras vezes se relatam as primeiras origens do fundador da linhagem; pela maior parte ignoradas, estavam longe de interessar os genealogistas...»

​Donde advinha então a preponderância? Da posição social que permitia às famílias nobilitadas atribuírem-se isenções e privilégios, em virtude da direção dos negócios públicos a seu cargo. Por tal motivo, salienta Alberto Sampaio, «os cavaleiros nobres, comparáveis aos influentes e políticos da atualidade, se tornavam proeminentes nas freguesias onde residiam e tinham bens». Se a comparação é feliz e persuasiva, não é inteiramente exata. Os nobres antigos, por via de regra, como «autoridades sociais» – as «autoridades sociais», tão calorosamente reabilitadas por Le Play! – serviam o bem coletivo, a própria natureza da propriedade obrigava-os a funções públicas. Enquanto os influentes locais, gerados pelo Liberalismo... Mas não será melhor passarmos adiante?

O que ocorreu com a primeira dinastia, ocorreu com a dinastia de Avis. O pasmo de Fernão Lopes, perante a onda dos novos «possuidores», testemunha-no-lo eloquentemente. Vêm depois as empresas da Navegação. A grei toma perfeito conhecimento de si nas tábuas de Nuno Gonçalves: os mareantes anónimos fazem fundo à dinastia. Rústicos sem avoenga, partindo à descoberta, o Rei os nobilitará à volta, tirando-os do número geral dos homens e «conto plebeu», segundo o formulário das cartas de nobreza. Isto, para que os populares se ascendam na virtuosa inveja e desejo de nos fazerem semelhantes serviços». E assim se continuará pela história fora! Quando Paul Bourget nos observa que o valor da individualidade está na razão inversa do individualismo professado pelas leis e pelos costumes, denuncia o ponto débil – a tara mortal das sociedades modernas. Hoje os homens têm-se como princípio e fim de si mesmos, buscando a sua prosperidade e luzimento na exclusiva aquisição dos benefícios e prazeres materiais. É esta uma concepção da vida que acabará por destruir, ou secar, a civilização ocidental. Ao contrário, antigamente as riquezas materiais estimavam-se, sim, mas como «meios de fortuna» – como condição para se realizarem outros destinos, e não como finalidade única e absorvente. Resultado: dantes, para se subir ou para se vencer a pobreza humilhante, marchava-se para a Índia, entrava-se em Ormuz entre fumaradas heróicas. Agora, mal-alinhavadas as garatujas do abecedário, basta ser-se «sócio» de qualquer firma suspeita, Deus sabe por que processos. Tal é a moralidade do conto. Outrora «construía-se», «criava-se». Atualmente, «consome-se», e o que se reputa por «produção» não é senão um efeito da nossa ideia, exclusivamente fisiológica da sociedade... Não admitamos, pois, o juízo melodramático que nos pinta o passado como um tempo de opressores e de oprimidos – como um escuro panorama de forcas avergando como latadas e de azorragues em rodopio. Havia então uma comunidade – um sentido coletivo da existência, que hoje se não possui. E pelos exemplos invocados já concluímos como é sectária a história que se divide em duas metades – uma de dominadores, de espoliados e de vítimas a outra.

Sectária é também a história que, filha da utopia egotística dos humanistas, considera Portugal como obra dos seus reis, dos seus varões assinalados. Ficou demonstrado porquê. Demonstrado ficou também como é falsa, como é insubsistente a história que desloca para o “povo” – figura retórica do entrevado romantismo político – a sua força genesíaca e impulsionadora. As tábuas de Nuno Gonçalves ensinam-nos persuasivamente que a história de Portugal é filha de todos – de reis, de bispos, de letrados, de pescadores e de ganhões. Aos primeiros, a direção o pensamento, o plano. Aos restantes, a execução e a matéria-prima. Em que redundaria a jacquerie de 1384, sem a iluminação mística de Nun’Álvares? Numa sarabanda epilética de castelos ardendo e de prelados e espaparrotando-se das torres para baixo. Por igual, o cometimento das Descobertas, a expansão ultramarina, o Portugal segundo ou o Portugal marítimo.

Traga-se sempre presente a anedota, contada por Pedro de Mariz nos seus Diálogos, reinado de D. João II. Não querendo as regalias de Lisboa guardar uma nova taxa, e dizendo-se a el-rei que enquanto as não mandasse açoitar, não se emendariam, respondeu ele: «Que filhos de regateiras vinham a ser Capitães na Índia, fidalgos de sua casa; e não queria de antemão desonrá-los, mandando-lhes açoitar as mães.»

Já antes, num memorial que enviou a seu irmão D. Duarte, quando foi aclamado rei (1433), o infante D. Pedro ponderava: «Outro (mal) é a terra e todos os Fidalgos dela serem mal servidos, porque nenhum se contenta de aprender do Ofício, que seu Padre havia, nem de servir outros Senhores; senão lançarem-se à Corte em esperança de serem escudeiros de el-rei ou nossos ou de cada um de nossos Irmãos...» Também por muitas vezes as cortes protestariam. As de Coimbra e de Évora, em 1472 e 1473, representaram pelo braço do povo a Afonso V «que havia na corte três maneiras de fidalgos: a primeira, os de sempre, outros, os que o rei agraciara com esse título, e os últimos, que tomavam estado de fidalgo sem o rei lho dar». E pediam-se providências. Providências pediam igualmente as cortes de Évora (1481-1482), e sempre pelo braço do povo, para que o rei remediasse «um dano que tantos anos há que passa sem corregimento algum que os filhos dos lavradores para grande dissuliuçam que veem nas gentes seguem os padres que os vistam ao modo que andam os das cidades e vilas e como hão uma capa, cinto e borzegiis saltam logo no paço onde acham fama (?) folgada e não tarda muito aqueles com que vivem... encarregam-nos a vossa Senhoria que os galardoe e tanto que convosco vivem stiram os pais que vendam os bois com que lavram que não têm mais honra que tê-los por filhos, como de feito fazem...»

Entendo que, em face dos dados produzidos, não é lícito persistir-se mais, se porventura alguém persiste ainda na concepção romântica, ou revolucionária da história à Henri Martin ou à Pinheiro Chagas. Onde os opressores? Onde os oprimidos? O que se contempla é uma tiragem constante de elementos por graduar – tiragem que, por precipitada e fácil, levantava embaraços à boa reciprocidade do agregado. Comentando precisamente os mesmos factos numa série de interessantes artigos sobre a Instrução em Portugal, artigos estampados na Revista de Educação e Ensino, eis como se pronuncia o falecido professor Adolfo Coelho: «Convinha-me mostrar como o que chamei a tendência ascensional das classes contribuiu para o desenvolvimento da instrução em geral e particularmente da popular. Não só os documentos, no seu conjunto – continua Adolfo Coelho –, provam essa tese, indicando-nos que a nova nobreza buscava a sua razão de ser no saber, na cultura, mas ainda textos claros, precisos, no-lo afirmam de modo indisputável...» E Adolfo Coelho concretiza o seu pensar: «Mas, dir-se-á, procurava-se a instrução para não ficar no povo, mas para sair do povo; tal instrução não merece o nome de popular. Sem dúvida assim era nos casos que aqui temos em vista e que por certo não abrangiam o número de todos os que buscavam os primeiros elementos da instrução (haveria, ao lado daqueles, filhos do povo que não aspiravam à nobreza) e os nobres de raça que queriam ou eram forçados a instruir-se; mas, como aspirar, não bastava para conseguir, muitos ficariam nas classes populares com a instrução de que pretendiam fazer passaporte para mais altos destinos.»

E agora? Agora, bem provado e bem assente que tanto na dinastia afonsina, como na de Avis, o povo, a nobreza e o rei colaboraram, como um único todo, na condução histórica de Portugal. No dia em que se conheça nos seus meandros e dinâmica íntima a formação e desenvolvimento da família em Portugal, não será mais possível para a gente de fé sincera e clara perceção o envenenamento intelectual com que a nossa jacobinocracia perverte a compreensão do nosso passado, quebrando assim aqueles elos e aquelas raízes, sem cujo respeito não existe consciência nacional. Pois gostosamente me oferecem os Gamas um ensejo para investir contra o abominável lugar-comum! O grande Almirante, portador de incontestáveis qualidades próprias, derivava, no entanto, de uma pouco mais que modesta estirpe provinciana, que provincianamente se constituíra e bracejara. Nada dos improvisos contemporâneos que, não correspondendo à lei positiva do mérito, provocam a crise atual em todo o mundo europeu, com o poder detido e monopolizado por um autêntico patriciado de mediocridades!

Vista através dos princípios expostos, a monografia de Luciano Cordeiro (que formidável obreiro da nossa história esse Luciano Cordeiro, já tão ingratamente esquecido!) traduz-se num claro e permanente ensinamento. «Donde veio tal homem? Como se gerou? Quem era?» – interroga o famoso publicista. E logo o valor explicativo da Genealogia se descobre ao autor de Os primeiros Gamas que, cheio de uma rara penetração crítica, nos confessa que «a Genealogia portuguesa, à parte as influências e as causas gerais de viciação e descrédito que lhe têm reduzido, anulado quase, o valor histórico, foi profundamente desconcertada nos fins do século XIV e princípios do século XV, quando exatamente a sociedade nacional chegava à definitiva consolidação, por um movimento brusco, por uma verdadeira revolução orgânica que lhe trouxe à superfície ou lhe lançou na vanguarda uma considerável multidão, até ali anónima...» Como esse movimento não foi tão brusco, como Luciano Cordeiro pretende, já atrás o deixamos assinalado. Tirava antes a sua origem das condições comunitárias da nossa sociedade. Interessante é, no entretanto, surpreender em Luciano Cordeiro um conceito dos grandes homens, diverso do conceito em que se inspiravam as diversas ideologias do seu tempo. Parece Luciano Cordeiro, na elaboração atávica de Vasco da Gama, computar como resolutiva a sua hereditariedade inglesa. Não nos inclinamos a isso, embora se não vá neste momento abordar a questão. O que nos importa é destacar a preocupação que a Luciano Cordeiro merecia – e assisadamente! – a linha ancestral do Descobridor da Índia.

Deslindou o escritor conforme pôde tão complicado novelo. Bastantes foram os auxílios que recebeu do malogrado folclorista e investigador elvense, António Tomás Pires. Aconselho – se conselhos me é permitido dar – a leitura da monografia do ilustre secretário-fundador da nossa Sociedade de Geografia. Não acompanharemos o aturado inquérito de Luciano Cordeiro. Basta que se vinque o traço característico desses primeiros Gamas. É gente da ordenança municipal, produto do ativo e fecundo viveiro de energias que foram – ai de nós, os do presente! – os nossos antigos municípios. Na balbúrdia dos homónimos (o nome de «Vasco da Gama» é anterior, e repetido, ao do Almirante na sua parentela) Luciano Cordeiro desembaraça presumivelmente o fio que vai direito ao filho do alcaide-mor de Sines. Depois do seu ascenso à grandeza do Reino, não houve Gama nenhum no Alentejo que não inventasse com o Almirante ligação familiar. Os capelães domésticos dos dois séculos mais apreciadores de vistosas composições heráldicas, o século XVII e o século XVIII, acabaram por obscurecer de uma forma aflitiva a origem direta do Almirante. A Luciano Cordeiro se deve um esforço incalculável para a repor em situação de se apreender com clareza.

Mas – coisa altamente significativa! – a barafunda, levantada pelos genealogistas em torno de um Vasco da Gama, presunto avô do descobridor, e de outros parentes seus com igual onomástico, presta-se ainda a algumas reflexões. Diante de mim, conquanto que em nada se prenda com os Gamas, abre-se um velho nobiliário campomaiorense, filho da paciência biliosa de um clérigo setecentista, registador implacável de mazelas morais e de costelas infecionadas. Resmunga o clérigo, que o era do hábito de São Pedro: «Ignomínia é ver no presente século a qualidade de muitas pessoas que nesta Vila de Campo Maior tem o Apelido de Mexias que muitos séculos antes floresceu em pessoas de Ilustre Sangue, e hierarquia procedendo aquela da inconsideração com que muitos antigos e modernos, não só permitiram, mas puseram seus próprios nomes e cognomes a escravos, criados e afilhados...» Ora a queixa do padre de Campo Maior não indicia apenas um caso local. «Autoridades sociais», os nobres das nossas vilas e cidades protegiam cristãmente a sua famulagem, dispensando-lhe na pia, como sinal de paternidade espiritual, os próprios nomes e apelidos. Quantas vezes me disse António Tomás Pires ser frequente achar-se nos obituários de Elvas a morte de qualquer Vasco da Gama, «escravo»! Isto já posteriormente aos Gamas «com Dom», ou seja à ascenção da família do Almirante. Mas como os seus recuados parentes de Elvas teimavam em manter e perpetuar hipotéticas agnações, vá de reproduzir, de filhos a afilhados, o nome ilustre, a que se julgavam com quinhão.

Por este processo de batismo e de afilhadagem, não só no tocante aos Gamas – mas extensivo a todas as famílias de algo em Portugal –, muitas obscuras linhagens subiram ao maior relevo, e linhagens inquinadas da baba social do judaísmo e da mulatice. Com a facilidade que presidia às habilitações nobiliárquicas, desde que se tivessem empenhos na Corte – pelos menos, um desembargador compadre ou amigo –, não raro se concediam as armas, do apelido indevidamente usado, aos descendentes, não do tronco legítimo, mas dos escravos e judeus, caridosamente levados à pia. Duma gente sei eu que ostenta legalmente as armas dos Albuquerques (armorial do reino com traço de bastardia), provinda de Alburquerque e não dos Albuquerques, por um seu remoto antepassado, pregoeiro do concelho em Portalegre. E esclareça-se que já nos fins do século XVII, reconhecidos publicamente, como judeus, de mais a mais, se pavoneavam, com as quinas de Portugal, fundados em títulos jurídicos aceitáveis. Que enorme ingenuidade, concordemos!, aquela dos «Imortais Princípios» e dos «Sagrados Direitos do Homem»!


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Se o glorioso Almirante enriqueceu a história de Portugal, acrescentando-lhe um inédito e esplendoroso capítulo, ele nos ajuda hoje, com o exemplo da dinastia municipal e rural de que proveio, a ordenar uma ligeira corrigenda ao espírito – tão sectário como execrável – que inverteu a compreensão da mesma história. Jubilosamente depomos nos caboucos do seu monumento, por erigir (Vasco da Gama tê-lo ia já sem dúvida, se em lugar de rasgar à civilização uma das grandes rotas oceânicas, aparecesse no mundo alguns séculos mais tarde, para nos «libertar» em companhia de um duque da Terceira e de um Joaquim António de Aguiar!) jubilosamente, repito, depomos nos caboucos, por traçar, do seu monumento, esta pedra de granito mal amanhada, sem gracilidade nem brincados, mas, pela reta intenção que a aparelhou, pedra segura, pedra duradoira! E à hora em que, sobre a mesa do escritor, os candelabros empalidecem e o silêncio da noite funda se povoa de frémitos misteriosos, de novo se agita, diante da minha pena, às abas de Elvas abaluartada e amuralhada, o espectro amorável da viuvinha de 18 anos, bisavó do vencedor dos deuses do Mar. Visão de piedade humana, retenho-a, não a afasto. Quem sabe o que o Almirante herdaria da singela mulher que, vencendo o egoísmo da sua dor, edificou um altar, ela que já possuía um lar. Numa bela e comovida frase, diz algures Léon Daudet que moralmente a França foi a obra das suas mães pacientes e sensatas; tão laboriosas que só descansavam quando rezavam! Pode ser nossa a frase de Daudet – podemos domiciliá-la em Portugal. Também as nossas mães antigas – as que moralmente criaram Portugal – não descansavam senão na oração quotidiana. Uma desperta agora para a nossa evocação. Louvemos na fama do descendente o nome de Catarina Mendes, bisavó do Gama e viuvinha aos 18 anos, que, enquanto guardava o fogo da lareira ainda o tempo lhe sobrava para acender as alâmpadas de Deus! E decerto no constelado empíreo, onde se passeiam os varões que da lei da morte se emanciparam – conforme o gosto camoniano –, o Almirante se deterá agora um pouco, a conchegar a imagem nevoenta da boa dona elvense que, no recato das suas virtudes obscuras, só descansaria dos cuidados da casa abandonando-se, plácida, aos cuidados da oração.
 
 
 


Reflexões Sobre a Construção Social e Histórica de Portugal
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A Unidade Nacional e a Dinâmica das Classes Sociais

1. A Complexidade da Formação de Portugal

António Sardinha rejeita interpretações simplistas ou romantizadas da origem do protagonismo nacional, salientando que a construção de Portugal resultou de uma colaboração entre várias classes sociais: reis, nobreza, clero e povo. Essa união foi fundamental para o desenvolvimento do país, e não se pode atribuir exclusivamente a uma destas classes o papel de criadora da nacionalidade. A análise contempla também como a mobilidade social, motivada pela ascensão de linhagens e pela concessão de títulos nobiliárquicos, muitas vezes obscureceu as verdadeiras origens familiares, criticando, assim, a ingenuidade de ideias igualitárias ao lidar com a complexidade histórica e genealógica portuguesa.

2. O Exemplo dos Gamas: Ascensão Social e Dinâmica Municipal

A genealogia de Vasco da Gama, tal como desvendada por Luciano Cordeiro, mostra que grandes figuras não surgem por acaso, mas são resultado de uma preparação familiar, ainda que inconsciente. Os Gamas, oriundos de Elvas, representam uma linhagem de proprietários rurais e autoridades municipais, cuja ascensão social foi rápida e coerente. O texto destaca a figura de Catarina Mendes, bisavó do Almirante, como exemplo de virtude e de influência feminina, através da sua dedicação religiosa e comunitária. A ascendência do Almirante serve como lição para o presente, mostrando que a grandeza individual está enraizada numa base familiar e comunitária sólida.

3. Crítica às Visões Extremadas da História

O texto analisa dois extremos nos critérios de compreensão da história nacional: um atribui o protagonismo a reis e nobres, outro ao “povo” enquanto força espontânea e fundadora. Critica ambos, apontando que o conceito de “povo” como o entendemos é recente e muitas vezes equivocado, sendo mais apropriado falar em “multidão”. A verdadeira construção da sociedade portuguesa é vista como uma federação de posições sociais, sujeita a constante movimento de ascensão e mobilidade entre classes, não como um simples somatório de indivíduos.

4. A Sociedade Medieval: Harmonia e Mobilidade

A descrição da sociedade portuguesa medieval revela uma convivência entre nobres e povo, com mobilidade social decorrente do mérito nas batalhas e no trabalho. Destaca-se a uniformidade da nomenclatura e a ausência de uma raça dominante distinta dos habitantes comuns, reforçando a ideia de que a história portuguesa nasceu de um bloco homogéneo – a “Grei”. A influência da religião, nomeadamente de prelados e monges, foi determinante na formação de uma alma coletiva que unificou a nação.

5. A Revolução Social e a Capilaridade

Momentos de crise, como a ascensão da dinastia de Avis, são apresentados como exemplos de “capilaridade social”, onde massas de burgueses, escudeiros e mesteirais ascenderam socialmente. Este fenómeno, longe de ser excecional, era recorrente na história portuguesa, com burgueses e escudeiros integrando a nobreza e participando ativamente da vida política e económica do reino. A posição social permitia a certas famílias acumularem isenções e privilégios, mas também implicava responsabilidade coletiva e serviço público.

6. O Papel das Linhagens e a Questão Genealógica

A atribuição de nomes e armas nobiliárquicas não obedecia sempre à legitimidade de sangue, havendo casos de escravos, judeus e descendentes de servos a ostentar brasões. A fácil obtenção de habilitações nobiliárquicas contribuiu para a ascensão de linhagens obscuras, muitas vezes a partir de atos de protecionismo ou compadrio. Assim, a genealogia portuguesa, sobretudo a partir do século XIV, foi profundamente alterada, dificultando a distinção entre linhagens legítimas e ascendências fabricadas.

7. O Valor da Tradição Comunitária e o Papel Feminino

O texto conclui louvando a importância da tradição comunitária, da solidariedade entre classes e da influência moral das mulheres, exemplificada por Catarina Mendes. A evocação das mães antigas, trabalhadoras e piedosas, é apresentada como elemento fundamental na formação do caráter nacional e da coesão social, contrapondo-se à visão moderna de individualismo e consumismo.

8. Síntese

Em última análise, o texto sustenta que a história de Portugal não é obra exclusiva de reis, nobres ou do povo, mas resultado de uma interação dinâmica e contínua entre todos os seus componentes sociais. A unidade e a força da nação derivam da “Grei”, da alma coletiva moldada pela tradição religiosa, moral e comunitária, que permitiu à sociedade portuguesa superar crises e reinventar-se ao longo dos séculos.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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