A guerra do HissopE
António Sardinha
Narrativa, irónica e evocativa, da célebre “guerra do Hissope” — uma disputa eclesiástica entre o Bispo e o Deão na igreja de Elvas, misturando memórias, sátira e ambiente bucólico para retratar o episódio como símbolo de vaidades e rivalidades dentro do clero.
Fui-me hoje sentar no jardim do Senhor Bispo sobre os bancos toscos de alvenaria, meio embebido na pastoral desmaiada da tarde. Porque é natural que Vossas Mercês tenham conhecimento de que eu vivo numa quinta de gloriosas tradições episcopais com suas altas e copadas árvores, com seu doce e regalado sossego. Por aqui andaram doidejando, ladinas, as musas de António Dinis da Cruz e Silva. E talvez que, no mesmo assento tosco em que esta tarde me repousei deleitadamente, ouvindo a queixa saudosista das regas, se sentasse também algum dia, chorando a dor do seu orgulho ofendido, aquele D. Lourenço de Alencastre – o prelado famoso da guerra do Hissope.
No crepúsculo que subia, uma cigarra teimava em nos repetir a sua troça implacável. E se a tranquilidade das coisas me trazia à alma um perfume manso de écloga cristã, não podia, contudo, expulsar-me do espírito a lembrança irreverente dessa grande briga eclesiástica, de que nos ficou memória duradoira.
Decididamente, o génio feroz das Bagatelas tomara conta de mim! E eu abandonava-me, encantado, às sugestões do duelo tremendo que, junto da igreja de Elvas, travaram entre si, e bem duramente, a Excelência e a Senhoria. Hesitante, sem me resolver por nenhum dos dois partidos, poderia lá em todo o caso esquecer-me de que ali no mesmo banco tosco de alvenaria me antecedera talvez, em pleno morgadio de tão verdes sombras e de tão claras águas, a apoplética vítima das gargalhadas do meu defunto colega, o dr. António Dinis!
«Eu canto o Bispo e a espantosa guerra
Que o Hissope excitou na igreja de Elvas...»
E o Senhor Bispo passava agora diante dos meus olhos, rodeado de uma corte de cónegos mesureiros, enquanto mais longe, chupando no dedo, num detalhe indescritível de comédia, se recortava a linha ossuda do Deão, entregue às conspirações da sua vaidade em rebeldia.
Assim ganhavam corpo, com o crepúsculo subindo, as sátiras desbotadas de certo Elpino Nonacriense, morcego da Arcádia, que, mais tarde, já desembargador, de fivela no sapato e hábito de Cristo ao peito, pagou com língua de palmo o seu tributo ao Génio das Bagatelas, roendo negramente no Rio de Janeiro os insuportáveis despeitos da Senhoria contra a arrogância despótica da Excelência.
É essa uma história que eu queria pôr em letra redonda, se me sentisse com coragem para desagravar o senhor Bispo, eu que lhe aproveito o remanso da horta e a quietude idílica dos seus laranjais. Mas hoje – feio e horrendo pecado! – apoderou-se de mim uma secreta recreação em repetir, em reviver, uma a uma, as cenas da «espantosa guerra». Intriga-me de uma maneira incrível o diabo da cigarra que não se calou ainda e que eu receio não seja o disfarce pastoril de alguma das musas de António Dinis...
* * *
«Reinava a doce paz na Santa Igreja.
O Bispo e o Deão, ambos conformes,
Em dar e receber o santo hissope,
A vida em ócio santo consumiam.»
Mas, «ídolo de pelões e de casquilhos», a Senhoria tramava, com raiva surda, profundas maquinações tenebrosas. Houve tempestades nos copos de água, desmaios nos açafates de costura, quando a sua ira explodiu, flamejante. Os céus e a terra cobriram-se de sinais fatídicos. Sobre os fortes armários holandeses apareceram rachadas as peças mais ricas da baixela da Mitra. Um besoiro atreveu-se a espinotear de encontro às gorduras venerandas da Excelência. E ao subir para a sua liteira com aquela lentidão prelatícia, só própria de um Alencastro, os pardais zombeteando, estercaram em cima do senhor Bispo.
Foi então que, espantosa, a guerra se declarou. A guerra do Hissope, mais dura, mais encarniçada que a do Alecrim e a da Manjerona! Para ressuscitar o teatro de toda essa porfiada campanha, não preciso senão de alargar um pouco a minha vista preguiçosa. Enramalhetada pelas altas frondes, a Catedral perfila-se ao fundo – a Catedral, pobrezinha dela! que nunca teve carrilhão nem «vinte sinos». Por detrás do aqueduto, assoma ligeiramente o Conventinho dos Capuchos, onde o «farfante deão» travou relações, jubiloso, com Monsieur Pariz e Madama Pena Lopes. Bem perto de mim, quase a tocar-lhe com a mão, recata-se no seu dossel de glicínias, a nora – a dramática nora daquela desgraça que nós sabemos...
«... andando de passeio pela quinta,
Com passo lento a ele se achegava
Da nora o velho burro e alçando o rabo
Dois coices lhe pregava no vazio.»
Entretanto, o crepúsculo avança, cresce, envolve já, nivelado e indiferente, os arvoredos geométricos da quinta. Era aqui, entre parreirais bucólicos e linfas cristalinas, que o senhor Bispo costumava vir pela tardinha,
«A frescura a gozar do seu Versalhes».
Pois é aqui, entre parreirais bucólicos e linfas cristalinas, que eu recapitulo agora, como num curso do Estado-Maior, as rijas e bravas batalhas da «espantosa guerra» do Hissope.
No crepúsculo já dominado, o senhor Bispo continua rodeado por cónegos redondinhos e mesureiros. Por detrás do aqueduto, sumiu-se de todo o Conventinho dos Capuchos e ninguém enxerga já, para além das altas frondes, a Catedral que nunca teve nem carrilhão nem «vinte sinos». A nora, reclinada no seu dossel de glicínias, tornou-se mais enigmática, mais impenetrável.
Só, entre a terra e o céu, chupando eternamente no dedo, nas raivas mal contidas da Senhoria, o Deão se destaca, esgalgado e ossudo, a comandar as primeiras investidas da noite.
Olvidei-me de mim no banco tosco de alvenaria. Já as estrelas picam o firmamento fundo de Setembro. E parece até que da água arrastada da rega sobe uma voz de ironia misteriosa, dizendo sempre, dizendo sem nunca se cansar:
«Eu canto o Bispo, e a espantosa guerra
Que o Hissope excitou na Igreja de Elvas!»
In De Vita et Moribus - Casos & Almas, 1931.
Elvas na prosas de Antonio Sardinha: