Com João Coutinho
António Sardinha
António Sardinha narra a sua visita a João Coutinho em Badajoz, começando com uma descrição sensível da paisagem alentejana e da travessia da fronteira. O encontro revela afinidades familiares e históricas entre ambos, destacando a linhagem dos Fragosos de Sequeira e episódios marcantes da vida de João Coutinho, como o exílio, a atuação política e militar, e o seu desejo de servir Portugal. A conversa aborda temas como o futuro do país, a valorização da juventude, memórias pessoais e episódios de coragem e humanidade. O texto termina com uma despedida melancólica, reforçando a ideia de que, mesmo longe, a essência da pátria permanece viva através de figuras como João Coutinho.
Quando eu entrei em Badajoz, desmaiava a tarde nas terras agachadas da raia. Era já Maio, todo florido de giestas de ouro e de casulos roxos de rosmaninho. Para trás ficara-me ondeando a maré larga das searas. Guardando a fronteira, do alto do seu monte sagrado, Elvas atalaiava a linha do horizonte. Podia tirar-se um curso de energia nacional, ao longo do chão rugoso em que o extremo de Portugal agoniza. Palpita ali bem a alma centenária dos que morreram marcando a divisória do seu sangue e do seu lar, tornando em lâmina aguda de espada o arado tosco da véspera!
Na planura sem sombras, com uma ou outra árvore esquecida, eu sentia agitar-se alguma coisa que, embora viesse do vago, tinha, no entanto, um eco profundo nas minhas veias, dentro da obscuridade enigmática em que as raízes do meu ser mergulham. A courela bendita da pátria tomava voz nas minhas reminiscências hereditárias. A raia já ficara transposta. Falavam-me outras gentes, outros costumes. E sem rebuscar atitudes, naturalmente, instintivamente, voltei a cabeça para Elvas, aureolada na distância, num mal disfarçado adeus.
Pensando em Barrès, meu professor de sensibilidade, assim entrei em Badajoz. Na mole inexpressiva do casario gravava uma nota de energia crispada a torre morena da Catedral. Aqui e além, farrapos de fortificação – ameias suspensas, campanários derruídos. Dia de semana, com a população a espairecer os ares amoráveis da noitinha. O rio, sujo, corria lento e bem-disposto – não fosse ele o Guadiana do conto que nós sabemos! –, sendo a defesa mais forte da cidade. Passavam carros com señoritas debruçando-se. Antes da ponte, com uma enorme condecoração espalmada na farda vistosa, cruzámos com um militar vagaroso e solene, passeando-se de espada numa mão e de bengala na outra. O cómico e o sério – definição justa da alma espanhola! E o soneto de Tolentino acudiu-me de súbito à lembrança, tão depressa o carro bateu a arcaria da ponte: «Passei o rio que tornou atrás, / se acaso é certo o que Camões nos diz, / em cuja ponte um bando de aguazis / regista tudo quanto a gente traz.»
Sucedeu-se depois o emaranhado das ruas mesquinhas e antipáticas. Torcendo por cotovelos inexplicáveis, apeámo-nos em frente da Sé, à porta do Garrido. Eu ia visitar João Coutinho. Mandei o meu nome e, introduzido numa saleta incrível, João Coutinho não se fez demorar.
João Coutinho é, como eu, alentejano e precisamente da mesma região. Vem de uma velha linhagem, com as suas raízes agarradas por um longo trabalho de séculos ao coração da terra em que nasceu. Refiro-me aos Fragosos de Sequeira, senhores em Portalegre, do vínculo dos Fragosos e do morgado dos Sequeiras. Pelo lado dos Sequeiras deve João de Azevedo Coutinho descender daquele D. Afonso de Monroy, clavário da ordem de Calatrava, que seguiu primeiro o partido de Isabel contra a ‘Excelente Senhora’. Acomodado, depois, à bandeira da infeliz princesa, passou-se a Portugal onde instituiu casa, que cedo se enlaçou com os Sequeiras da Torre de Palma, no concelho de Monforte. D. Maria Marcelina Fragoso de Sequeira Metelo e Monroy se chamava uma dama da família de João Coutinho que se aliou no século XVIII com um dos representantes da minha, o capitão José Pedro de Matos Mergulhão. Deste casamento nasceu o insigne economista Joaquim Pedro Fragoso de Mota de Sequeira, sócio fundador da Academia. Mais de uma afinidade, mais de um contraparentesco, nos aproximava. Trocadas as primeiras palavras, João Coutinho, na robustez ciosa do seu aprumo, é quem imediatamente o recorda. Falámos então da larga demanda que houve entre os ascendentes de João Coutinho e o ramo que se enleava com os meus, por causa do morgado de Fragoso.
João Coutinho revela-se conhecedor da sua história familiar, e, com uma expressão de desgosto, alude ao túmulo de Gaspar Fragoso, filho desse António Fragoso, cujas gentilezas nos conta Gaspar Correia nas Lendas da Índia – túmulo que é um belo retalho arquitectónico, abandonado em Portalegre à profanação de uma cavalariça.
E de impressão em impressão, a conversa toma o rumo do que mais de perto nos tocava. Exilado, João Coutinho apurou no estrangeiro as suas ideias, e o herói da epopeia africana completa-se agora com o político, possuidor de vistas largas e documentadas.
A sua figura expansiva abre-se um pouco mais ainda, quando eu o interrogo sobre o futuro de Portugal. Com o monóculo entre os dedos, cava-se-lhe de súbito uma ruga de sofrimento. Mas, logo o olhar se lhe ilumina num corajoso ato de esperança. Tudo se desfez, nada se reconstruiu! Quando Ministro da Marinha, dos seus projetos, dos seus planos, deixados a um canto na papelada inerte do ministério, ninguém se quis aproveitar. Lentamente, alguns renascem agora, mal-adaptados, cerzidos à força a uma realidade social que por natureza lhes é hostil. E João Coutinho insiste, insiste no desejo de servir – de seu último alento – pela pátria renovada e salva: «Se não fosse o meu pé, e se me quisessem, quem ia comandar os marinheiros em África era eu!»
Suspende-se, melancólico. A noite descia – a noite dura de Castela, na dureza de uma cidade incómoda e sem gracilidade. Procuro desanuviar a tortura íntima que pesa agora sobre a fisionomia espelhada do herói. Digo-lhe como o seu nome é querido, e como, de todos os que foram seus pares na glória e no sacrifício, ele é o mais popular ainda. Veio avivar-lhe a antiga auréola a aventura romanesca com que em 1913 conseguiu escapar-se às fúrias da jacobinagem. João Coutinho sorri-se. É a sua vez de interrogar.
«E os rapazes? Nem você calcula como confio na geração nova! Merece-me todo o carinho, merece-me todo o aplauso. Como vocês são outros!» E João Coutinho evoca-me a mocidade do seu tempo. Valente, leal, mas deixada das coisas sérias de meditação e de estudo. O resultado viu-se quando a hora da crise apareceu, túmida de catástrofe.
«Por que não escreve as suas Memórias, senhor conselheiro?», lembro-lhe eu.
«Talvez! Talvez!» – E daí a nada, como eu teimasse, gargalhava a propósito da sua negação literária. «Imagine você que no meu exame de retórica, o examinador era o pobre José Silvestre Ribeiro!, eu tive a habilidade de lhe arranjar um alexandrino com dezasseis sílabas!»
Bom humanista, dado aos segredos e aos rigores da estilística, eu suponho a cara de espanto de José Silvestre Ribeiro diante dessa diabrura de rapaz bem-disposto!
E João Coutinho volta ao seu entusiasmo pela obra da gente nova. Afirmo-lhe também o nosso entusiasmo pelo seu prestígio de chefe. Esquiva-se, brincando com o monóculo. E, olhando ao longe no passado, a conversa enche-se de traços animados das suas campanhas. Nos Namarrais, por exemplo, João Coutinho preparava-se no sossego do quadrado para a sua higiene matinal, para o seu banho. De repente, o tiroteio irrompe do mato, entra-se em fogo vivo. João Coutinho não se perturba. Salta para a frente dos seus homens e comanda o combate em toilette... de Adão.
As anedotas sucedem-se, sucedem-se os episódios. Fixo um que me comove. Avança-se pelo sertão debaixo de perigo numa caminhada exaustiva. João Coutinho vê que uma praça da Armada sai da linha e afrouxa o passo. Corre a ela, e apressa-a com a espada. Não tarda, porém, que o informem de que o marinheiro estava ferido. «Ó rapaz, desculpa!» E diante dos camaradas, estende-lhe a mão, acrescentando: «Eu bem sabia que um marinheiro português nunca fica para trás.» «Viva o nosso comandante!» E este grito, saído de todos, uniu-os à doida para uma carga brilhante.
Sorrindo sempre, parece-me que João Coutinho talvez lute com uma lágrima muito escondida. Considero-o novamente, na nobreza de uma vida, que é dos mais lindos resumos das virtudes antigas da nossa raça. Soam badaladas na Catedral. A noite avança. Estamos fora, na praça. O ar é hostil, hostis os rumores que nos cercam. «Então quando entra, senhor Conselheiro?» «Sei lá, meu amigo!», E os ombros caíram-lhe numa frouxidão de cansaço.
Momentos depois despedíamo-nos e João Coutinho afastava-se numa resignação de vencido. Vi-o, do carro, sumir-se no escuro, como uma sombra que se apaga na noite.
Os cavalos pisaram com estrépito as calçadas de Badajoz. Senti no rosto uma lufada mais fria. Ia, na ponte, com o Guadiana muito quieto lá em baixo. E só então eu reparei que não chegara a sair de Portugal, porque a terra bendita da pátria João de Azevedo Coutinho a continuava ali em Badajoz, à sombra da Catedral, na meia sala modesta de um modesto hotel de província.