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Os Judeus e os Descobrimentos

António Sardinha

PONTOS ESSENCIAIS
  • O texto foi motivado por uma conferência do rabino e professor Abrahan Yahuda sobre a influência civilizadora dos judeus nos povos da Península Ibérica, especialmente no contexto dos Descobrimentos portugueses, em que defende que a influência hebraica foi determinante para o desenvolvimento científico em Portugal, especialmente na navegação, apoiando a tese de Joaquim Bensaúde de que as técnicas náuticas portuguesas derivaram de conhecimentos judaicos, como o uso das tábuas náuticas de Abraão Zacuto.
  • António Sardinha discorda da tese de influência decisiva dos judeus peninsulares nos Descobrimentos portugueses, embora reconheça a presença de astrónomos hebreus na Junta dos Estrólicos de D. João II.
  • Defende que a tradição náutica ocidental não é uma criação original dos povos semitas, sendo muito mais antiga do que se supõe, remontando à civilização grega.
  • Apoiando-se em Renan, defende que os povos semitas se destacaram mais pela capacidade de assimilação do que pela criação original, não possuindo uma arte ou civilização própria no sentido elevado do termo.
  • A ciência hebraica e árabe da Idade Média era, na verdade, uma apropriação e transmissão da filosofia e ciência gregas, funcionando como intérpretes, mas sem grande originalidade própria.
  • Apesar da presença de judeus na Junta dos Estrólicos, havia também outros especialistas, como o bispo de Ceuta.
  • O astrolábio náutico era uma simplificação de instrumentos gregos, transmitidos pelos árabes, e a iniciativa para a criação de tábuas de declinação do sol partiu do próprio D. João II, mostrando o protagonismo português na inovação científica.
  • Sardinha recomenda a leitura da obra Estudos para a história dos cristãos-novos em Portugal de J. Lúcio de Azevedo para um aprofundamento historiográfico do tema.




​OS JUDEUS E OS DESCOBRIMENTOS
Não podemos deixar de nos referir à conferência realizada na Sociedade da Geografia sobre a ação civilizadora dos Judeus nos povos peninsulares. Foi conferente o sábio rabino doutor Abrahan Yahuda, professor da Universidade de Madrid. É um hóspede a quem se deve cortesia. E como hóspede, numa isenção a que nos confessamos sensíveis, o senhor Abrahan Yahuda evitou quanto possível abordar alguns factos da nossa história, em que o seu critério de israelita dificilmente se combinaria com a interpretação rigorosa que é preciso dar-se-lhes, em face do verdadeiro interesse nacional. Folgamos com isso, porque nos furta a reparos irritantes, sendo-nos extremamente simpático o cuidado que presidiu à conferência do senhor Abrahan Yahuda, toda ela inspirada no louvor da gente da sua raça.

Ocupou-se principalmente o senhor Abrahan Yahuda da influência hebraica no desenvolvimento científico entre nós. Dessa influência resultaria o pensamento que determinou a nossa obra de descobridores e lhe obteve as necessárias condições de segurança e de êxito. É, afinal, a tese do senhor Joaquim Bensaúde no seu notável trabalho L’astronomie nautique au Portugal à l’époque des grandes découvertes. Contra as opiniões até então defendidas, chegou o senhor Bensaúde à conclusão rigorosa de que foi em Portugal, pela primeira vez no Ocidente, que se puseram em prática na navegação os processos derivados da observação dos astros. E simultaneamente o senhor Bensaúde demonstra-nos que as tábuas náuticas utilizadas pelos nossos navegadores não eram tiradas, como se supunha, das Ephemerides de Regiomontano, mas sim do Almanak perpetuum, de Abraão Zacuto, que regera astronomia em Salamanca e mais tarde se passara a Portugal.

As afirmações do senhor Joaquim Bensaúde derruem toda uma teoria de escritores ilustres que, de Humboldt a Andrade Corvo, atribuíam a Martim de Boémia a direção científica das nossas empresas navais, sustentando-se conjuntamente que de Nuremberg, afamada pelo fabrico de aparelhos astronómicos, se importassem os instrumentos necessários para a boa direção das nossas expedições marítimas. Assim não nos custa muito a compreender que Guilherme II, em 1905, quando da sua visita a Lisboa, se orgulhasse em plena Sociedade de Geografia da colaboração da ciência alemã nos descobrimentos dos portugueses.

A excelente monografia do senhor Bensaúde modificou a face do problema. Mas, quanto a mim, não conseguiu resolvê-lo definitivamente. Ora, como o senhor Abrahan Yahuda na sua conferência perfilha, ao que parece, as conclusões do senhor Bensaúde, afigura-se-me ser este o ensejo próprio para lhes opor os meus reparos. Efetivamente, não concordo com a interferência decisiva dos judeus peninsulares nesse período áureo da nossa existência nacional, embora à célebre Junta dos Estrólicos, que funcionava junto de el-rei D. João II, pertencessem vários astrónomos hebreus. E não concordo porque, posta a questão em termos gerais, é bom recordar que Renan, na Histoire générale et système comparé des langues sémitiques, assegurava com a autoridade da sua larga competência filológica que a raça semita se reconhece quase unicamente por caracteres negativos. O semita individualiza-se, na verdade, não por qualidades criadoras, que não possui, mas antes por preciosos recursos de assimilação que ele valoriza excecionalmente. Não dispõem assim de uma arte, ou de uma civilização, no sentido alto da palavra. Não é outro o juízo de Renan, ao escrever no pequeno estudo De la part des peuples sémitiques dans l’histoire de la civilisation que «o negócio e a indústria foram pela primeira vez exercidos em grande escala pelos povos semitas, ou, pelo menos, falando uma língua semita – os Fenícios. Na Idade Média, os árabes e os judeus tornaram-se também os senhores do nosso comércio. Todo o luxo europeu, desde a antiguidade até ao século XVII, veio-nos do Oriente. Eu digo o luxo, e não a arte, porque de um ao outro está o infinito a separá-los».

Entende-se já porque eu não adiro incondicionalmente à tese do senhor Bensaúde. O Ocidente possuía uma ciência náutica remotíssima, com memória na Odisseia. A navegação aqui sobe aos fins do neolítico. É donde derivam as tradições apagadas que enchem de mistério e encanto o périplo decalcado por Rufus Festus Avienus na Ora Marítima. Claro que a essas tradições se ligaria forçosamente uma arte de navegar. Não é por literatura que Séneca afirma não ser Tule o ponto final do orbe (non erit terris ultima Thule), conforme o pretendia a geografia antiga. O mar imenso, o Oceano sem limites, é nos Errores de Ulisses que nos aparece pela primeira vez, se não me engano. E tão ocidentais são as impressões contidas no Nostos, tão atlânticas elas são, que, localizado o poema de Homero no declinar resplendente de Micenas, as moradas que lá encontramos descritas não guardam em nada a sumptuosidade da casa típica dos Átridas! A habitação de Ulisses é mais uma cabana nórdica, tal como no-la sugerem as sagas medievais, do que o palácio de um rei, como o requinte egeano os sabia erigir.

Foi, pois, o Levante que recebeu o influxo ocidental no conhecimento das coisas do mar. No descalabro da civilização do Cobre, quando nós mergulhamos na sombra, para só ressurgirmos depois de Roma, alguma coisa subsistiria, no entanto. Subsistiria em forma de conto, em forma de superstição, naturalmente. É que ao espírito empreendedor do ocidental correspondera, decerto, uma regra, como que uma direção, tirada do convívio dos astros na imensidão das águas. Com o adiantamento das horas da história, essa herança perdida passa para o património da astrologia. A astrologia é exercida na Idade Média, cavalheiresca e militante, por judeus e árabes, visto que a defesa do europeísmo, expressa na fé da Igreja, impunha aos cristãos o uso exclusivo da espada. Nós não ignoramos por outro lado que a chamada ciência hebraica e islamita não é mais do que uma apropriação da filosofia clássica – na sua forma racionalista, o helenismo. É a altura de ouvirmos de novo Renan.

«Fala-se muitas vezes de uma ciência e de uma filosofia árabe – observa ele –, e, na realidade, durante um século ou dois, na Idade Média, os árabes foram nossos mestres, mas só enquanto não conhecemos os originais gregos. A ciência e a filosofia árabe nunca deixaram de ser uma mesquinha tradução da ciência e da filosofia grega. Desde que a Grécia autêntica despertou, essas míseras traduções ficaram sem sentido e não foi sem razão que os filólogos da Renascença iniciaram contra elas uma verdadeira cruzada. De resto, olhando de perto, essa ciência árabe não tinha nada de árabe. O seu fundo é puramente grego, e entre os que a criaram não se aponta um único semita. Eram espanhóis e persas, escrevendo o árabe. O papel filosófico dos judeus na Idade Média é também o de simples intérpretes.

» A filosofia hebraica desta época é a filosofia árabe sem modificações. Uma página de Roger Bacon encerra mais espírito científico do que toda essa ciência em segunda mão, respeitável, sem dúvida, como um anel de tradição, mas despida de grande originalidade.»

Fui longo de mais na transcrição de Renan. Mas o seu depoimento ajuda-nos a invalidar a tese geral do rabino Yahuda e ensina-nos, muito particularmente, como no caso das Descobertas a influência hebraica seria resumida, ao contrário do que pretende o senhor Joaquim Bensaúde. Ninguém duvida que da Junta dos Estrólicos faziam parte israelitas, físicos do Rei. Mas lá estava também o bispo de Ceuta, D. Diogo Ortiz.

E tanto as minhas reflexões ao trabalho do senhor Bensaúde correspondem ao aspeto definitivo do problema, que o astrolábio náutico não é mais que a simplificação do astrolábio plano que os árabes recolheram dos gregos e introduziram na Península. De quem o recolheriam os gregos na sua indicação originária senão das civilizações sepultas em Creta e em Micenas, da extinta talassocracia do Egeu, impulsionada cá do Ocidente, talvez da misteriosa Társis de mais de uma passagem da Bíblia? Assim não nos espanta que a construção do primitivo astrolábio, que é o plano, se estude já minuciosamente nos Libros del saber de astronomía, de Afonso-o-Sábio, de Castela. Há a acrescentar, ainda em favor do meu ponto de vista, que, na necessidade de se ordenarem tábuas de declinação do sol, para o efeito do cálculo das latitudes, do nosso D. João II é que partira a ideia, encarregando ele os seus estrólicos de resolverem a dificuldade.
​
Muito mais teríamos a objetar à conferência do doutor Abrahan Yahuda unicamente dentro do campo em que o ilustre rabino se colocou. Limitamo-nos a aconselhar os curiosos do assunto a percorrerem com vagar os primeiros capítulos da magnífica obra Estudos para a história dos cristãos-novos em Portugal, publicada na Revista de Históriapelo senhor J. Lúcio de Azevedo. O senhor J. Lúcio de Azevedo é dos poucos em Portugal que escrevem história e, tirando uma ou outra tendência crítica do seu espírito, a maior parte das suas páginas poderiam ser subscritas por um integralista. Folgo sinceramente de lhe prestar aqui a minha homenagem. E quando outro motivo não houvesse, esse me bastava para que a conferência do doutor Abrahan Yahuda deixasse no meu espírito a melhor das lembranças. 

in Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]