As 'Linhas' de Elvas
António Sardinha
RESUMO
O texto descreve o dramático cerco de Elvas pelo exército castelhano no inverno de 1658-1659, marcado por fome, peste e sofrimento extremo da população, que chegou a extremos de desespero e sobrevivência macabra. Apesar da morte de D. João IV, a cidade resistiu heroicamente sob a regência de D. Luísa de Gusmão, destacando-se o papel das mulheres na condução política e na defesa do Estado. O socorro chegou liderado por D. António Luís de Meneses, à frente de um exército composto maioritariamente por milícias locais, culminando numa vitória decisiva a 14 de janeiro de 1659, favorecida pelo nevoeiro. O texto termina com uma reflexão sobre a importância histórica das milícias e questiona a sua relevância nas democracias modernas, contrastando a glória do passado com a indiferença do presente.
Diz um livro velho que nessa manhã longínqua de Inverno o nevoeiro se fizera cúmplice dos nossos. O exército castelhano acampava havia meses em frente a Elvas sitiada, e lá dentro, na cidade, sofriam-se angústias dantescas tanto o cerco se prolongava, áspero. Não se esquecem as palavras com que o conde da Ericeira as descreve no seu Portugal Restaurado.
Ao espectro da guerra juntara-se o da peste, e já a fome desdobrava a sua asa negra por sobre a heróica sentinela fronteiriça. Dias se apontaram em que o número de mortos subiu a trezentos, «originando este excesso monstruosos efeitos» – diz-nos o Clássico – porque os vivos perderam de sorte o horror aos defuntos, e não sepultados, que nas guardas lhe serviam os corpos mortos de assento para jogarem».
E a narrativa de espanto desenrola-se como um conto macabro, cheio das tintas mais alucinadas de Poe: «De noite os soldados auxiliares e de ordenança que não tinham quartel, nem conhecimento algum da praça, iam dormir aos alpendres das igrejas, e a roupa dos cadáveres que estavam neles, lhes servia de cobertura, e chegaram lastimosamente a faltar aos mortos aqueles sete palmos de terra para se enterrarem, que sempre se teve por impossível suceder aos mais desgraçados; porque fora da muralha não convinha dar-lhes sepultura, por não manifestar aos castelhanos a falta de gente que havia na praça, nem tirá-los do engano em que estavam, de que eram mais os soldados do que os mantimentos.»
Postada na raia, como verdadeira chave do Reino, Elvas sofria o mais duro ataque à sua lealdade inquebrantável. D. João IV morrera anos antes, ganhando, pelo seu tato habilíssimo, o tempo necessário para de um país sem defesa nem recursos levantar o esforço admirável que ia florir dali a pouco, numa manhã de Janeiro, em que, nosso cúmplice, o nevoeiro se bateu por nós. Com a menoridade de D. Afonso VI, achávamo-nos em regência. Era regente sua mãe, a rainha D. Luísa de Gusmão.
São dois factos estes que demonstram a superioridade axiomática da verdade monárquica. Mesmo em regência, no impedimento natural do poder legítimo, a obra de D. João IV não sofreu nenhuma quebra na sua continuidade, embora as rédeas do governo as conduzissem as mãos de uma senhora e embora essa senhora fosse uma espanhola.
«Os reis não têm parentes» – já declarara dois séculos atrás a grande Isabel a Católica. O interesse dinástico nacionaliza-os, realmente. Não falamos já de exemplos bem palpitantes e à nossa vista, como contemporâneos que são. Refiro-me ao caso dos Hohenzollern na Roménia. Mas até na época em que nós travávamos o duelo sagrado da nossa independência, com rara energia o demonstrava Ana de Áustria, irmã de Filipe IV, e mãe de Luís XIV, ao receber em 1641 os emissários de D. João IV. Francisco de Melo, um deles, não se conteve que não lhe exprimisse a sua perplexidade pela maneira afetuosa e aberta com que a rainha os acolhera. Volve-lhe logo Ana de Áustria numa resposta que ficou famosa e que vale todo um compêndio de filosofia política: «É verdade que sou irmã de Sua Majestade el-rei Filipe IV, mas não sou eu também mãe do Delfim?» Adversária como era da política da casa de Áustria a política da casa de França, Ana de Áustria, contra os ressentimentos do sangue, abraçava pela razão do Estado a nossa causa, diretamente identificada com a do trono de seu filho.
Outro tanto sucedia com D. Luísa de Gusmão. Dotada das mais raras qualidades, ninguém que ame em consciência a história do nosso país pode ignorar o juízo em que a reputava Luís XIV. A braços com dificuldades gravíssimas, D. Luísa de Gusmão, no meio da intriga e do desnorteamento em que por vezes parecia submergir-se a unidade do poder, consegue, afinal, triunfar sempre e ser em tudo a continuadora gloriosa da ação de seu marido. Momento particularmente difícil aquele que a batalha das Linhas de Elvas epilogaria! Deprimira-nos deveras o insucesso de João Mendes de Vasconcelos, obrigado a levantar o sítio de Badajoz e a transpor o Guadiana, deixando na campanha para cima de um terço da nossa gente, ainda que a dignidade das armas portuguesas se salvasse na escalada célebre do forte de São Miguel. Como represália dirigida em pessoa por D. Luís de Haro, primeiro-ministro de Filipe, veio de seguida o cerco de Elvas. Governava-a D. Sancho Manuel, o futuro herói do Ameixial.
Intrépida, a guarnição manteve-se com honra. Mas o assédio alongava-se e a esperança de socorro bem pouco podia para vencer o flagelo que abafava numa mortalha fúnebre a cidade, como que suspensa sobre a incerteza do seu destino. E os dias passavam, lentos e escuros, com a linha inimiga fortificando-se cada vez mais no colar dos outeiros vizinhos, passavam com a escassez e a penúria aumentando de instante para instante e com a fúria da peste crescendo insaciável. Os enfermos morriam de pura míngua e as galinhas, que rendiam o preço fabuloso de sete mil réis – isto no século XVII –, chegaram por fim a atingir quase o custo inexcedível da própria salvação. E, incansável, a peste não se fartava nunca! É esse o capítulo pavoroso do cerco. «Nas igrejas já não cabiam mais cadáveres, nos terra planos das muralhas se sepultavam alguns, mas nos fossos não o podiam ser, porque eram de pedra.»
Depois o conde da Ericeira acrescenta, pondo-nos na carne arrepios inéditos de tragédia: «E por este respeito foram muitos corpos sepultados nos ventres dos animais, porque, dos que conservavam algum tempo vivos faltando-lhes totalmente o sustento, se alimentavam dos corpos mortos com lamentável espetáculo.»
No entanto, sempre firme, sempre leal, Elvas resistia inabalavelmente como verdadeira chave do Reino.
Conseguiu-se por entre dificuldades sem conta organizar o socorro. O cerco durava ia já para três meses, quando D. António Luís de Meneses, à frente de um pequeno troço de exército, saiu de Estremoz, resolvido a cortar as linhas castelhanas e a libertar a praça do anel de ferro que a estrangulava. Os nossos andariam à roda de 11.000 homens, a maior parte soldados bisonhos, mal instruídos na arte da guerra, como tropas tiradas das Ordenanças concelhias.
Não há dúvida de que o papel importante no desfecho do assédio coube aos Municípios da região, que enviaram os seus braços válidos, em auxílio de Elvas sitiada, numa formidável revivescência desse formidável espírito local com que se têm escrito as mais belas páginas da nossa história e que é o segredo fecundo da alma da raça.
Um problema – e problema de toda a atualidade – se suscita aqui. Se a organização miliciana dos nossos Concelhos permitiu em Seiscentos a derrota de Luís de Haro, porque é que se combatem as democracias modernas na sua tendência para assentar em semelhantes bases a defesa militar do Estado? Efetivamente, à primeira vista, a observação é de peso. Destrói-se, porém, depressa, se olharmos a que a guerra, dispondo embora de regras, representava então, e de uma forma soberana, a interferência do elemento-homem, do valor-indivíduo na decisão dos seus conflitos. Hoje, inteiramente revestida de um carácter técnico, é uma ciência que se professa, e não uma série de proezas que se praticam à doida, num turbilhonar de instintos delirantes e de sentimentos elevados. Assim se compreende que a coragem pessoal dos franceses na guerra dos nossos dias se traduza em atos imediatos de bravura. Mas falta-lhes a continuidade e a coordenação, que só o conceito orgânico do exército permite e desenvolve, conceito incompatível de todo em todo com a concepção miliciana das democracias.
Pois com as Ordenanças dos concelhos alto-alentejanos, D. António Luís de Meneses se meteu ao caminho, ou da morte ou do triunfo. Janeiro de 1659, a 14. Não me esqueço do livro velho denunciando-nos a cumplicidade do nevoeiro. O nevoeiro, bom amigo desde que ao seu mistério confiámos o regresso do Encoberto, envolvendo-nos então numa massa confusa, protegeu-nos contra o adversário, incomparavelmente superior em municiamento e disciplina.
Demos connosco nos seus redutos, debaixo da capa parda da bruma. Caímos em cheio e a valer. Na mancha densa da névoa, rufaram tambores de súbito, de algum modo como na surpresa bíblica de Gedeão. O castelhano, iludido nas indecisões da manhã, não se apercebeu a tempo da nossa ordem de batalha. Tanto bastou para que as suas linhas se rompessem de pronto e pelo boqueirão aberto se engolfassem os terços do conde de Mesquitela. Da praça, D. Sancho Manuel carregava sobre o inimigo já desmoralizado, batendo-se à toa, sem nexo. Alto, o sol límpido de Janeiro sacramentava-nos agora num esplendor de apoteose. D. Luís de Haro, sangrando na ferida enorme da sua vaidade pisada, abandonara o exército ao duque de São Germano, largando em desfilada para Badajoz. Já o sol declinava. Na cidade, ao longo dos muros, como numa cruzada santa, passeara-se o Santíssimo durante o estridor da batalha. Moribundos, os pestíferos erguiam-se dos catres para contemplarem ainda, com as pupilas dilatadas, a hora do resgate, descendo dos cabeços fronteiros. A vitória tivera a rapidez das vinganças divinas – sintetiza algures o poeta Eduardo Vidal. De facto, as nossas perdas não passavam de setecentos homens entre mortos e feridos. Os castelhanos, contando os prisioneiros, abandonavam no campo cerca de onze mil baixas – tantas como o pequeno exército saído de Estremoz para salvar a cidade em perigo.
Mas que resta hoje da glória excecional desse Janeiro de 1659? Sobre uma colina silenciosa, um padrão silencioso. É bem o símbolo de Portugal arrastando a sua agonia na impassibilidade sacrílega dos homens e das coisas!
In Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926