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Monsenhor

António Sardinha

Monsenhor era um homem dedicado às obrigações religiosas e às boas maneiras, com uma postura refinada e um certo orgulho discreto. 
Alimentava o sonho de ser bispo, vivendo entre a rotina da Sé de Elvas e recordações da sua viagem a Roma, onde discursou em latim perante o Papa. 
Ao regressar de Roma, foi recebido com grande entusiasmo pela cidade, celebrando missa com todo o aparato e sendo visto como o futuro bispo que Elvas aguardava. 
O seu orgulho crescia à medida que se envolvia nos rituais e cerimónias, sentindo-se cada vez mais próximo do cargo episcopal, embora faltasse a sagração e a diocese. 
A cidade partilhava do seu sonho, esperando ansiosamente pela restauração do bispado e pela nomeação de Monsenhor. 
Um dia, chegaram notícias de Roma extinguindo o bispado de Elvas, mergulhando Monsenhor numa profunda tristeza e obrigando-o a entregar todos os bens da igreja. 
Monsenhor partiu, sentindo o peso da desilusão e do orgulho ferido, refugiando-se nos estudos e na contemplação, mas sem nunca abandonar o sonho de ser bispo.
​No final, a narrativa sugere que o sonho de Monsenhor sobrevive para além da sua morte, simbolizando a esperança e a persistência de uma ambição nobre, mesmo diante das adversidades.





​A António Mendes de Andrade
Repartido entre as obrigações canónicas do coro e a arte complicada de praticar as boas maneiras, Monsenhor guardava consigo qualquer coisa de abade gentil, com punhos de renda e sorrisos de mel, a quem coubesse, entre as misérias do mundo, o encargo doirado de confessar culpas de amor e ser indulgente para com elas. Chegava a imaginar-se às vezes em fundos preciosos de leque, com bandos airosos de açafatas, dando-se os braços airosamente, sobre as paisagens miúdas de Watteau. Monsenhor sofria então o exílio de uma saudade sem fim, quando, passando o anel de pedra roxa nos dedos afilados e magros, se considerava fora de si, nas suas sedas pomposas de prelado doméstico da capela do Papa. Dado às letras antigas e ao enlevo íntimo de música, Monsenhor tocava órgão e tinha uma voz educada, uma voz das muitas que há na província. Pois o órgão lhe recebia as queixas da alma dolorida, no recato frio da sua fria sala de celibatário. Inclinado para a palidez das teclas, pelos serões arrastados de Inverno, Monsenhor confiava ao desabafo de um trecho predilecto o segredo do seu sonho de sempre, do seu sonho de uma vida inteira consagrada ao serviço de Deus. E o pecado do orgulho ganhava-o lentamente, ganhava-o de mansinho, como uma nuvem de incenso ascendendo devagar. E eram períodos soltos de pastoral, passagens eloquentes de prelados em exercício do seu ministério. «Amadas ovelhas em Nosso Senhor Jesus-Cristo...» «Indigno da cadeira a que subi...» E Monsenhor, a escutar-se, suspendia-se um pouco, como que encantado eco brando da sua palavra branda.

Pequenino, muito alçado nos tacões alçados, Monsenhor vivia no enlevo calmo da sua figura, afagando-se com a expressão beatífica de quem nascera para destinos mais altos e mais gloriosos. Surpreendia-se de mitra na cabeça e báculo erguido, presidindo à igreja de Elvas, a cuja sombra crescera, debaixo da graça compassiva de Deus. E Monsenhor recordava, meditativo, a sua viagem a Roma, donde voltara prelado doméstico da capela do Papa.

No Vaticano reunia-se um concílio de que ficaria lembrança na história. Confiou o cabido a Monsenhor a representação da diocese sem bispo. E Monsenhor partiu – partiu para a Cidade-Eterna, ensaiando mesuras diante de todos os espelhos, com os tacões mais alçados e nas chinelas decotadas umas fivelas maiores. Viajou com prelados, viajou com cardeais. Em Roma o Santo-Padre recebeu-o em audiência particular. Monsenhor, desvanecido, beijou o pé ao Papa e discursou-lhe em latim.

No regresso, Monsenhor teve na sua residência discreta a cidade toda a cumprimentá-lo.

Monsenhor chegou de manhãzinha, mais alçado nos tacões alçados, com fivelas preciosas nas chinelas mais decotadas. Acompanhava-o um fâmulo, em modos de séquito de bispo, porque Monsenhor voltava de Roma quase bispo, depois de ter discursado em latim ao Papa. Houve reverências de missa-cantada na estação, ao apear-se.

Monsenhor, muito cortês, protestou para a assistência, como que sumido numa visão a distância: «Ora para que se incomodaram! De mais a mais tão cedo!»
E muito lento, sem se deter, Monsenhor instalou-se na sege, seguido do fâmulo.

Soaram foguetes. Os sinos da catedral romperam em repiques de alegria, mal Monsenhor se desceu à porta de casa.

Ia começar a recepção. Não tardaram a encontrar-se na sala os amigos de Monsenhor – a câmara, o comandante da praça, eu sei lá! –, numa compressão de batinas negras e de fardas vistosas. Monsenhor apareceu. Apareceu com o ar de quem tinha ido a Roma e falara em latim ao Papa, tornando de lá quase bispo. Alguns, mais velhos, com as lágrimas assomando, recordavam-se de Monsenhor rapazinho no tempo em que andava na aula. Dera logo sinais do que viria a ser! – comentavam, passando o lenço pelos olhos. E entretanto Monsenhor avançava como que processionalmente. Assim processionalmente, Monsenhor atravessou por entre a assistência, inclinando de leve a cabeça num rigorismo meticuloso de grande cerimonial, sumindo-se ao fundo da sala, por detrás dos reposteiros.

Num movimento de estranheza, o governador da praça puxou dos bigodes, tossindo forte, com uma mirada de cólera passeada em redor. Iam decerto rebentar murmurações incontidas, num escândalo de retiradas bruscas, quando, correndo-se o reposteiro por onde Monsenhor se sumira, se viu na sala imediata armado um altar, com tudo disposto para o sacrifício da Missa. Como prelado doméstico do Papa, Monsenhor gozava o privilégio de oratório privativo. Paramentado, com a assistência caindo de pasmo em pasmo, Monsenhor subiu para o altar, nos preceitos do rito.

Rezou-se a missa numa observância miúda de liturgia, como quem viera de Roma e a ouvira talvez rezar ao Papa. Já o lance angustiosíssimo da Consagração se passara. Passara-se a súplica emocionante do nobis quoque.

«Ite missa est!» – anunciou Monsenhor dos degraus do altar, num ranger de damasco rico. E a curiosidade aumentava, mal reprimida na interrogação perplexa da fisionomia. Mas já desparamentado, muito correcto na sua batina debruada a vivos vermelhos, eis que Monsenhor desponta de novo, sorrindo, de braços estendidos para todos: «Ora desculpem-me! Primeiro, já se vê, era a dignidade que entrava! Agora é o amigo muito reconhecido, que não sabe como agradecer tantas e tantas atenções.» Compreendera-se, enfim!, a assistência saiu encantada com Monsenhor. Tratava-se de um homem que voltava de Roma e que aprendera naturalmente aquilo com o Papa!
​
*
«Quando eu atravessei as campinas da formosa Itália...» e Monsenhor, depois do regresso de Roma, não dizia outra coisa nos seus sermões, não dizia outra coisa nas suas cartas, até nas frases curtas dos seus cumprimentos. Pequenino, mas cada vez mais alçado nos tacões alçados, Monsenhor ia e vinha de casa para a Sé e da Sé para casa. «Quando eu atravessei as campinas da formosa Itália!», em cortesias para a direita e para a esquerda, vestido de prelado, de anel de pedra roxa, brincando-lhe entre os dedos magros e afilados. Elvas em massa alpendorava-se das janelas para o ver passar, seguido sempre, a distância, pelo rapazio em bando silencioso. E um dia veio – oh, a glória do dia inolvidável! – em que Monsenhor se decidiu a subir os degraus da catedral, de mitra branca na cabeça, todo resplandecente de sedas episcopais. Faltava-lhe o báculo e a cruz, porque Monsenhor não tinha rebanho – para ser bispo completo, faltava-lhe a sagração e a diocese. E o sonho de Monsenhor alevantava-se mais forte dentro dele, com o sorriso fino envolvendo, numa carícia secreta, a velha catedral manuelina.

Em Elvas não se esqueceram ainda do alvoroço que houve na cidade ao correr a notícia que Monsenhor cantava de pontifical. Até a catedral pareceu renascer para a memória das suas grandes horas passadas. Com o incenso espiralando em ondas grossas e lentas, Monsenhor oficiava no altar flamejante de oiros sacerdotais, debruçado num pecado contente de orgulho para o seu sonho de sempre, para o seu sonho de uma vida inteira consagrada ao serviço de Deus.

Lá de cima, do coro, o órgão, majestoso, desprendia a revoada dos seus sons majestosos. Brilhando em lumes de festa, ao alto das três naves rumorosas, o altar quase não chegava para as voltas solenes do cerimonial que Monsenhor quisera minucioso e de aparato. Cada vez mais debruçado para o seu sonho de sempre, ele ia e vinha, nos vagares arrastados do rito, com a ametista cintilando na sua mão ossuda e cuidada de prelado doméstico de capela do Papa. E, no júbilo em que a alma, exultando, se lhe dilatava, ele revia-se por instantes na sua infância humilde, com os pais oferecendo-o a Deus, de sotaina vermelha como menino do coro.

Nascido à sombra da catedral, à sombra da catedral Monsenhor crescera e subira. E sobre o missal ressuscitava o momento longínquo da sua ordenação, com a parentela extasiada para aquele mesmo altar, onde agora ia e vinha, celebrando de pontifical, entre nuvens de incenso espiralando grossas e lentas, e o órgão, majestoso, desprendendo lá de cima os acordes majestosos.
Mais debruçado para o enlevo da sua ambição de padre, Monsenhor sofria, como nunca, a viuvez da catedral, sem bispo que lhe velasse a dignidade decaída. Bem cedo, de muito novo, ao florir da adolescência, a vocação o chamara para os trabalhos difíceis da vinha do Senhor. Oh, como ele a amava, a essa catedral, morena do sol, mordida do tempo e do musgo nos rudes lavores das suas pedras tisnadas! Amava-a com um amor receloso e ardente, cheio de desejo febril de ainda a desposar, de báculo erguido e cruz ao peito, elevado por obediência aos encargos espinhosos do episcopado. A cadeira vaga da igreja de Elvas abria-lhe os braços de longe, acenando por ele em segredo. E Monsenhor oficiava, enleando-se nas revoadas do órgão, que já embalara o prelado do Hissope na grande amargura da sua soberba ofendida. Monsenhor oficiava como bispo, bispo quase que era, bispo que mais tarde seria, quando a diocese lhe aceitasse da mão ossuda e cuidada o cajado indulgente de pastor.

Com o bispado vago, desde que na data calamitosa de Évora-Monte o seu prelado fora cuspido nas ruas de Lisboa sacrilegamente, a cidade não se continha agora nas três naves do templo, ressurgindo as grandes horas passadas da catedral no cerimonial soleníssimo em que Monsenhor crescia, crescia, até ao cimo da abóboda manuelina, muito alçado nos tacões alçados. Lançada a bênção, beijou-se o anel de Monsenhor – o seu anel de pedra roxa. Monsenhor sentia-se bispo, debruçado num pecado contente de orgulho para o seu sonho de sempre, cada vez mais forte, cada vez mais dominador. E ao retirar-se para a casa do Cabido a tomar refrescos e a descansar um pouco, apressou-se logo alguém, senhor do valimento da terra e com importância nos ministérios, a brindar de ânimo firme em Monsenhor o bispo por que a cidade há tantos anos aguardava, já doída do descuro do governo em lhe respeitar a hierarquia. «Quando eu atravessei as campinas da formosa Itália...», começou Monsenhor agradecendo. E tais palavras lhe caíram dos lábios, tão cheias de profundeza religiosa e de elevação para Deus, que todos saíram de ali convencidos de que Monsenhor era deveras o bispo por que há tantos anos a cidade inteira aguardava
*
Mais forte, mais dominador, o sonho de Monsenhor tomava na sua existência calma de celibatário a persistência de um delírio sereno. Subia ao eirado à hora mansa do crepúsculo, com o breviário aberto na lição do Salmista e já com a catedral levada em triunfo pelos fulgores do sol que morria. Muito apertada no colar cinzento dos muros, a cidade imprimia na sombra crescente o cunho nobilíssimo do seu perfil militar. Além, as serranias de Espanha pouco mais lembravam – com a noite descendo – que uma vaga nuvem poisada na linha extrema do horizonte. Por entre a massa confusa do casario, as torres e os baluartes avultavam agora soberanamente na indecisão de contornos com a lua já assomando numa claridade lívida de sortilégio. Assim, mais perto de Deus, com as estrelas marcando pontinhos trémulos na cauda distante dos céus, Monsenhor sonhava, sonhava o seu sonho de sempre, erguendo a cabeça para o alto, como se a mitra lhe não bastasse já, como se na longa hierarquia da Igreja houvesse ainda muitos outros degraus a contar.

E o pecado de Monsenhor tornava-se ao crepúsculo mais doce, mais enleante.

As rezas canónicas jaziam esquecidas. Só o seu sonho enchia a imensidade da noite fechada, com os clarins em baixo, nas dobras do escuro, tocando ao recolher, enquanto adormeciam os últimos rumores da boa fortaleza fronteiriça. Apenas o silêncio ficava, mais denso, enigmático, constelando-se todo do sonho de Monsenhor, em que a sua figura de abade gentil passava devagar, muito alçada nos tacões alçados.

E a catedral, entretanto, continuava viúva.
 
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Ora uma manhã tristonha de Inverno a cidade acordou sobressaltada com um alarido de sinos dobrando a defuntos. Tinham chegado letras de Roma extinguindo o bispado. Monsenhor, chorando como uma criança sobre o leito da mãe moribunda, só em lágrimas ensopou três lenços finos de cambraia, com os besantes dos Almeidas em escudo oval, bordados a branco numa ponta. Hora de luto pesado, hora pesada de agonia! Monsenhor, que se julgava já de mitra e báculo, viu a sua esperança cortada, de repente, para castigo do grande orgulho que lhe queimara a alma. Debalde dormira sobre cortiça, debalde fora, de bordão e esclavina, calcando a pé as estradas poeirentas, em romaria ao túmulo de Sant’Iago. Monsenhor confessava a sua culpa, ensopando os seus lenços de cambraia fina. Onde supusera humildade, descobrira agora a serpe astuciosa do orgulho, corroendo-o perfidamente.

Mas a expiação seria ainda maior ao ver o momento em que Monsenhor, como cónego-vigário, tivesse de entregar, sobre os inventários da Fazenda, os bens da igreja, o despojo opulento da sua catedral decapitada.

O momento veio, o doloroso momento!

Percorrendo com o dedo esguio os arrolamentos do Cabido, Monsenhor entregava tudo – Monsenhor entregava, num soluço reprimido, paramentos e alfaias, títulos de dívida pública e cadeiras austeras de alto espaldar lavrado. As mãos de Monsenhor desdobravam em último adeus as dalmáticas bordadas a oiro em bruto por agulhas preciosas de princesa. Faíscavam as pedrarias caras das mitras num relâmpago derradeiro, num relâmpago melancólico. Seguiam-se os véus de ombros, as custódias magníficas, os frontais reluzentes, o dossel da cadeira episcopal. E Monsenhor reprimia os soluços, de dedo esguio apontando os inventários, com cinza chovendo no deserto enorme do seu coração.

Nunca mais! Nunca mais! Desfeita a igreja de Elvas, não era mais agora do que uma paróquia obscura, irmã daquelas que não tinham nascimento. Acabavam-se as tardes rumorosas do Crisma. O sino grande já não anunciaria aos ventos da cidade a entrada solene do bispo. Emudecia no órgão o «Ecce Sacerdos Magnus!». Nem às horas canónicas os cónegos subiriam os degraus do coro, entoando o latim sagrado dos ofícios. Nunca mais! Nunca mais! E Monsenhor reprimia os soluços sobre os seus lenços de cambraia fina, com os besantes dos Almeidas em escura oval, bordados a branco numa ponta
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Com o bispado perdido, chegou também a Monsenhor o dever de partir. Fazendo e recebendo cumprimentos, Monsenhor já não dizia, mirando-se na pedra roxa do anel: «Quando eu atravessei as campinas da formosa Itália». Alguns fiéis correram ainda à estação, às despedidas finais. O comboio arrancou, pachorrento. Arrancou por entre o olivedo. O perfil militar da cidade destacou-se muito direito, muito aprumado, no colar cinzento dos muros. No céu desmaiado do anoitecer ficou pairando por instantes a linha sinuosa do aqueduto. Depois... Depois, não houve mais nada senão o infinito da noite no infinito dos campos.

De fâmulo, de vestes episcopais, solidéu e capela em casa, Monsenhor conheceu depressa, em bispado alheio, os ciúmes de um prelado cioso dos seus privilégios. Foi em silêncio, num silêncio cheio de recolhida dignidade, que Monsenhor sofreu esquecimentos voluntários, omissões propositadas. Sofreu, calado e altivo, refugiado nas ruínas do seu sonho, contemplando às vezes os lenços de cambraia fina que ele ensopara em lágrimas de sangue, quando a má-nova caíra sobre Elvas aturdida. Dedicou-se então a curiosidades sábias, para se iludir no seu isolamento. Já não se curvava para o órgão, confiando a um trecho predilecto o enlevo íntimo de toda uma vida inteira dedicada ao serviço de Deus.

Muito alçado nos tacões alçados, Monsenhor, obrigando os olhos de míope, gastava as suas noites de estudioso por detrás de uma lente astronómica a espreitar a marcha dos astros nas campinas misteriosas do céu. Oh, a eterna vertigem do Alto, a ânsia nunca satisfeita de subir! E as constelações marcavam a jornada do tempo – Saturno entalado no anel gigantesco, Júpiter com a corte fulva dos seus satélites, a Lua com a sua face de cadáver, enrugada de rios exânimes e de crateras senis.

Mas, no fundo do seu coração, Monsenhor não esquecia nunca a flor mirrada da sua esperança. Como que para o reverdecer, passeava diante do espelho na sua sala discreta de celibatário as vestes pomposas de prelado doméstico, de mitra na cabeça e ametista na mão cuidada esboçando bênçãos. No delírio manso que o tomava todo, Monsenhor julgava-se bispo, e punha-se a escutar a si mesmo, com frases soltas de pastoral na boca enlevada. Nessa mentira serena, serenamente, a morte o recolheu, vinda pé ante pé, como uma ama doce para o adormecer em sossego. E em sossego Monsenhor adormeceu, lá indo para a cova de prelado doméstico, com a mitra na cabeça e na mão descorada a ametista das festas solenes.

Não cuidem, porém, que morreu com Monsenhor o seu sonho de sempre, o sonho da sua vida inteira, iluminando de grandezas extintas uma ambição recatada de padre. Carinhosamente, sou eu quem sonha hoje o sonho de Monsenhor, contemplando-o de regresso à catedral ressuscitada, num dia amplo de sol, com o sol entornando esplendores de aleluia por sobre a cidade em festa. Condoída a Madre-Igreja dos balidos de tantas ovelhas órfãs, novas letras apostólicas tinham restaurado o bispado defunto. Fiel ao seu sonho, mais à sua Sé, Monsenhor voltava – voltava a receber os bens do Cabido, voltava a tomar posse da diocese ressurgida. No alto da torre, o sino já tocava como que anunciando a liteira episcopal. Não tardariam as tardes rumorosas do Crisma, mais as manhãs comoventes da ordenação. No órgão acordaria o Ecce sacerdos magnus! E depressa os cónegos haviam de subir os degraus do coro para os ofícios divinos. E Monsenhor voltava – voltava quase bispo, bispo que iria ser, de cruz ao peito e báculo erguido.

Pequenino, muito alçado nos tacões alçados, atravessava já a praça, debaixo do pálio, com a câmara saída a cortejá-lo e a guarnição prestando honras ao bispado que regressava. Choviam flores das janelas, atapetavam-se as ruas de esperdane e junco. Monsenhor pensava nos lenços de cambraia que iria ensopar, mas em lágrimas de verdadeira alegria. Senhor meu Deus! Além já era a catedral, morena do sol, mordida dos anos e do musgo nos lavores da sua cantaria tisnada. O postigo escancarava-se de par em par, deixando adivinhar lá para dentro, sobre o ondear das cabeças, um ondear permanente de círios. Lento, Monsenhor pisava o escadario da sua igreja. O incenso entrava a crescer dos turíbulos em nuvens presas e calmas. De cima, o órgão ia-se despenhar na catadupa dos seus sons represados...
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In exitu Israel... «Quando Israel tornou do Egito...» E rezando baixinho a letra admirável do salmo, Monsenhor entrou na catedral, como se os anjos todos o fossem levando em glória para o céu...

in De Vita et Moribus - Casos & Almas, 1931.

Prosas de António Sardinha acerca de Elvas:
As ‘Linhas’ de Elvas
António Sardinha - A guerra do Hissope
1916 - António Sardinha - A Quinta do Vedor
1918 - António Sardinha - No Forte da Graça [ a prisão de Afonso Costa em Elvas ]
1924 - António Sardinha - Esta Elvas...
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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