Natal
António Sardinha
António Sardinha reflete sobre o significado do Natal, destacando a promessa de paz trazida pelo nascimento de Jesus e a esperança que este evento representa para a humanidade. Contrasta a mensagem de redenção e inocência do Natal com a realidade contemporânea de tristeza, miséria e afastamento das tradições, especialmente em Portugal, marcado pela emigração e pela ausência das celebrações familiares de outrora. Por fim, lamenta que, apesar dos cânticos de paz dos Anjos, prevaleça a desolação e a fome, questionando quando é que Portugal voltará a sorrir verdadeiramente no Natal.
NATAL
Voltou de novo a tremeluzir sobre a face da terra a estrelinha misteriosa do Presépio. Como há perto de dois mil anos, é essa a única promessa de claridade com que o coração do homem poderá sempre, em verdade, contar! Só ela nos fala da paz que paira acima da vida, e, porque é mais alta que as coisas do mundo, aos Anjos coube anunciá-la na noite de resgate que hoje se recorda. Cume supremo da história, a história libertou-se da escravidão original na hora em que a Deus aprouve revestir-Se da nossa carne, para melhor nos salvar. Não é outro o sentido admirável do mistério da Redenção! Meditemo-lo como pensadores, antes que o adoremos nas lajes das igrejas, com as mãos erguidas para o Santuário. A dignidade humana só se reconhece nos laços que a ligam ao seu destino imortal quando uma Virgem dá à luz no estábulo miserável de Belém.
De longe, por caminhos transviados, ansiosamente o mundo esperara a sua entrada na comunidade perdida do Senhor. Sibilas e Profetas, todos em coro, contemplavam para além das idades o reinado do Menino que nasceria de um ventre nunca violado. Mesmo através da mentira dos deuses, a Antiguidade, tocada da primitiva revelação obscurecida, amava e procurava ao verdadeiro Deus. Esse Menino que havia de nascer para transfiguração do mundo, até os Druidas, à sombra dos carvalhos solenes O aguardavam, elevando altares à Virgem que O traria nos flancos intactos. «Um Menino nos foi dado e Ele nasceu para nós!», diz a palavra litúrgica. E porque o bafo amorável de Deus beijava a face da terra, a terra se reconciliava, purificada, na alma dos homens, enquanto os Anjos celebravam a Paz pela altura.
Hoje como ontem, que a Paz, descendo das alturas, amanheça sobre a tragédia universal em que a lei de Cristo se despedaça e em cada peito desperta, violento, o gorila das cavernas soturnas! Se o exemplo do Infante, nascido em Belém, nos comovesse na inocência doce do seu sorriso, quem é pai uma vez e viu uma criança brincando no berço, não teria mais alento para atirar a sua acha de ferro contra o pai de outra criança, contra os pais de tantas crianças! Não é do Senhor o século em que vivemos, endurecidos na cobiça do ouro, insensibilizados pelos apetites da vaidade e da luxúria. Porque nos esquecemos que o nosso corpo representa a Jesus, com Jesus assumindo a nossa mortal condição, que Natal de tristeza e de sombras não é este em que, no giro dos quadrantes, os Anjos tornaram a anunciar de novo a Paz pelas alturas, entre as glórias devidas a Deus que nos resgatou?! E, no entanto, o horizonte é mais negro e, sob a gelidez da noite, não são as pegadas infantis que se adivinham. São antes poças de sangue coalhado debaixo da inquietação dolorida dos Céus. Parece até que as tábuas do Presépio se aplanam numa cruz gigantesca, abrindo os seus braços desconformes, de polo a polo, num Calvário enorme – num Calvário infinito, num Calvário sem remédio!
*
Natal! Natal! E não soarão pelas quebradas desse Portugal adiante os sinos alegres da matriz, levando às famílias em festa a sua voz portadora das costumadas venturas. Nesta noite, noite do Menino, noite do madeiro flamejando, ninguém encontrará de vigília o Portugal cristão de outras eras, o Portugal dos descantes à beira do Presépio, com figuras toscas de barro repetindo toscamente a legenda doce da Natividade. Se Jesus vier em camisinha, na sua estrada branca de luar e geada, achará as cozinhas apagadas, desertas as vastas chaminés, num silêncio de luto, que lhe há-de pesar no beicito surpreendido. Portugal, fora de si, deixou Portugal e meteu-se às longas jornadas sem-fim, com a saudade repartida entre o sertão africano e as terras inóspitas da França estrangeira.
Natal! Natal! Não pensarão os bambinos na surpresa que Jesus lhes deixará, de passagem, no sapatinho esquecido, curvados para a visão amorável de um ausente diluído à distância que eles quereriam que o Menino lhes trouxesse como um presente celeste. Também a Virgem se não sentirá contente entre as mulheres, no prazer aureolado da sua maternidade. Choram as Esposas, soluçam as Mães. E por todas elas, no rosário das suas lágrimas e na amargura das suas orações, Maria antecipa a tortura sem nome das Sete-Espadas, à hora trágica da morte do Senhor. Fica o Presépio às escuras, como se o Templo ruísse, e lá dentro, na treva, fosse como que o velatório imenso de uma imensa necrópole.
Natal! Natal! Anda a tristeza de braço trocado com a miséria! E é de tristeza e de miséria o nosso Natal de sacrificados, caladas as roncas, mudas as cantigas ao Menino, sem os toros robustos que nem o cajado de São Cristóvão, entoando os louvores do Lume sobre a pedra patriarcal da lareira. Tudo emigrou, tudo se exilou, até as velhas histórias dos Judeus e de Herodes, em roda apertada os da casa, com as mãos estendidas para o conforto álacre das grandes chamas tutelares. No alto das torres o galo descura o aviso da Missa. Só há choros comprimidos na penumbra dos rostos, pedindo ao sono que os abrigue, misericordioso, nas dobras das suas asas misericordiosíssimas...
*
Natal! Natal! E enquanto os Anjos cantam a Paz pelas Alturas, avistam-se cadáveres de pupilas paradas para os astros, como espelhos mágicos espreitando a marcha do Tempo. Debalde as mãos se afilam para Deus, debalde imploram por nós os Círios e as Hóstias, os Lares e os Altares. A fatalidade continua a apertar-nos no seu anel inexorável. Não se adivinha na palidez da noite a caravana alvoroçada do Menino. Só se adivinha o espectro da desolação, o lamento surdo da fome. Que, lá longe, a pátria acorde nessas pequeninas pátrias, feitas de uma fogueira acesa e de soldados em grupo amparando-se à generosidade amiga do fogo. Sejam para eles, ao menos, nesta noite todos os sonhos bons das crianças de Portugal! E como se os tocasse a virtude perdida da inocência, que a estrelinha de Belém tremeluza sobre as suas cabeças exaustas e lhes dê a comer do pão da esperança no seu calvário de cordeiros vendidos, conduzindo ao ombro o pecado sanguinolento de uma raça.
Natal! Natal! Mas quando é que em Portugal ele tornará a sorrir outra vez?
De longe, por caminhos transviados, ansiosamente o mundo esperara a sua entrada na comunidade perdida do Senhor. Sibilas e Profetas, todos em coro, contemplavam para além das idades o reinado do Menino que nasceria de um ventre nunca violado. Mesmo através da mentira dos deuses, a Antiguidade, tocada da primitiva revelação obscurecida, amava e procurava ao verdadeiro Deus. Esse Menino que havia de nascer para transfiguração do mundo, até os Druidas, à sombra dos carvalhos solenes O aguardavam, elevando altares à Virgem que O traria nos flancos intactos. «Um Menino nos foi dado e Ele nasceu para nós!», diz a palavra litúrgica. E porque o bafo amorável de Deus beijava a face da terra, a terra se reconciliava, purificada, na alma dos homens, enquanto os Anjos celebravam a Paz pela altura.
Hoje como ontem, que a Paz, descendo das alturas, amanheça sobre a tragédia universal em que a lei de Cristo se despedaça e em cada peito desperta, violento, o gorila das cavernas soturnas! Se o exemplo do Infante, nascido em Belém, nos comovesse na inocência doce do seu sorriso, quem é pai uma vez e viu uma criança brincando no berço, não teria mais alento para atirar a sua acha de ferro contra o pai de outra criança, contra os pais de tantas crianças! Não é do Senhor o século em que vivemos, endurecidos na cobiça do ouro, insensibilizados pelos apetites da vaidade e da luxúria. Porque nos esquecemos que o nosso corpo representa a Jesus, com Jesus assumindo a nossa mortal condição, que Natal de tristeza e de sombras não é este em que, no giro dos quadrantes, os Anjos tornaram a anunciar de novo a Paz pelas alturas, entre as glórias devidas a Deus que nos resgatou?! E, no entanto, o horizonte é mais negro e, sob a gelidez da noite, não são as pegadas infantis que se adivinham. São antes poças de sangue coalhado debaixo da inquietação dolorida dos Céus. Parece até que as tábuas do Presépio se aplanam numa cruz gigantesca, abrindo os seus braços desconformes, de polo a polo, num Calvário enorme – num Calvário infinito, num Calvário sem remédio!
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Natal! Natal! E não soarão pelas quebradas desse Portugal adiante os sinos alegres da matriz, levando às famílias em festa a sua voz portadora das costumadas venturas. Nesta noite, noite do Menino, noite do madeiro flamejando, ninguém encontrará de vigília o Portugal cristão de outras eras, o Portugal dos descantes à beira do Presépio, com figuras toscas de barro repetindo toscamente a legenda doce da Natividade. Se Jesus vier em camisinha, na sua estrada branca de luar e geada, achará as cozinhas apagadas, desertas as vastas chaminés, num silêncio de luto, que lhe há-de pesar no beicito surpreendido. Portugal, fora de si, deixou Portugal e meteu-se às longas jornadas sem-fim, com a saudade repartida entre o sertão africano e as terras inóspitas da França estrangeira.
Natal! Natal! Não pensarão os bambinos na surpresa que Jesus lhes deixará, de passagem, no sapatinho esquecido, curvados para a visão amorável de um ausente diluído à distância que eles quereriam que o Menino lhes trouxesse como um presente celeste. Também a Virgem se não sentirá contente entre as mulheres, no prazer aureolado da sua maternidade. Choram as Esposas, soluçam as Mães. E por todas elas, no rosário das suas lágrimas e na amargura das suas orações, Maria antecipa a tortura sem nome das Sete-Espadas, à hora trágica da morte do Senhor. Fica o Presépio às escuras, como se o Templo ruísse, e lá dentro, na treva, fosse como que o velatório imenso de uma imensa necrópole.
Natal! Natal! Anda a tristeza de braço trocado com a miséria! E é de tristeza e de miséria o nosso Natal de sacrificados, caladas as roncas, mudas as cantigas ao Menino, sem os toros robustos que nem o cajado de São Cristóvão, entoando os louvores do Lume sobre a pedra patriarcal da lareira. Tudo emigrou, tudo se exilou, até as velhas histórias dos Judeus e de Herodes, em roda apertada os da casa, com as mãos estendidas para o conforto álacre das grandes chamas tutelares. No alto das torres o galo descura o aviso da Missa. Só há choros comprimidos na penumbra dos rostos, pedindo ao sono que os abrigue, misericordioso, nas dobras das suas asas misericordiosíssimas...
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Natal! Natal! E enquanto os Anjos cantam a Paz pelas Alturas, avistam-se cadáveres de pupilas paradas para os astros, como espelhos mágicos espreitando a marcha do Tempo. Debalde as mãos se afilam para Deus, debalde imploram por nós os Círios e as Hóstias, os Lares e os Altares. A fatalidade continua a apertar-nos no seu anel inexorável. Não se adivinha na palidez da noite a caravana alvoroçada do Menino. Só se adivinha o espectro da desolação, o lamento surdo da fome. Que, lá longe, a pátria acorde nessas pequeninas pátrias, feitas de uma fogueira acesa e de soldados em grupo amparando-se à generosidade amiga do fogo. Sejam para eles, ao menos, nesta noite todos os sonhos bons das crianças de Portugal! E como se os tocasse a virtude perdida da inocência, que a estrelinha de Belém tremeluza sobre as suas cabeças exaustas e lhes dê a comer do pão da esperança no seu calvário de cordeiros vendidos, conduzindo ao ombro o pecado sanguinolento de uma raça.
Natal! Natal! Mas quando é que em Portugal ele tornará a sorrir outra vez?