No Forte da Graça
António Sardinha
- Afonso Costa chega ao Forte da Graça e manifesta interesse em conhecer a história de Elvas.
- O texto reflete sobre o significado da tradição local e como ela pode ser percebida por um “estrangeiro” ou alguém que, como Afonso Costa, teria negado ou desmentido essa tradição ao longo da vida. O ambiente do forte e da paisagem alentejana é descrito como duro e melancólico, reforçando o estado de espírito do protagonista, que busca esperança e redenção. Destaca-se a divisa heráldica de Elvas: “Custodi nos, Domine, ut pupilla oculi!” (“Guarda-nos, Senhor, como a menina dos olhos!”), símbolo da fé e lealdade da cidade.
- O texto faz uma viagem pela paisagem fronteiriça, mencionando cidades espanholas próximas e elementos históricos, como batalhas e figuras lendárias. Afonso Costa sente-se cada vez mais inquieto, confrontado pela história e pelos símbolos da cidade, que evocam resistência, fidelidade e sacrifício.
- O documento narra episódios históricos de Elvas, como reis e cavaleiros que defenderam a cidade, assédios, fome, peste e a construção do aqueduto, sempre com confiança em Deus e no Rei. A leitura das brochuras leva Afonso Costa a um remorso profundo, sentindo-se réu de traição perante a tradição e a memória coletiva.
- O texto evoca figuras históricas e anónimas, como bispos, mães e mártires, que contribuíram para a força e identidade de Elvas e de Portugal. Afonso Costa percebe que está excluído da comunidade dos vivos e dos mortos, sentindo-se excomungado e repelido pela pátria.
- No final, o protagonista encontra apenas uma sombra como companhia, simbolizando o castigo e a solidão do seu julgamento moral. O texto conclui recordando que ali morreu prisioneiro Manuel Inácio Martins Pamplona, também traidor ao rei e à pátria, reforçando o tema da traição e do destino.
NO FORTE DA GRAÇA
Contam os jornais que, ao dar entrada no forte da Graça, o senhor Afonso Costa exprimiu desejos de conhecer a história de Elvas. Suponho que já lhe cobrirão a estreita mesa de trabalho algumas brochuras ignoradas, onde, ligados à glória da sua pequenina pátria local, ficaram impressos para sempre dois ou três nomes amigos, que eu desde bem cedo aprendi a venerar.
Mas que dirão essas páginas a um estrangeiro da nossa tradição, que outra coisa não fez durante uma existência perdida senão desmenti-la e espezinhá-la? Debruçado das varandas da sua cela, Afonso Costa há-de sentir que toda a paisagem o acusa, e cresce para ele, interpretando o sentir de quantos passaram e na pedra morena da velha cidadela fronteiriça deixaram insculpido o seu gosto heróico em serem obedientes até na sepultura. Assim, se na meia sonolência da sua sensibilidade moral, as leis supremas do sangue podem erguer ainda a voz, Afonso Costa talvez se esteja a estas horas confessando a si próprio como réu de traição imperdoável.
Mas que dirão essas páginas a um estrangeiro da nossa tradição, que outra coisa não fez durante uma existência perdida senão desmenti-la e espezinhá-la? Debruçado das varandas da sua cela, Afonso Costa há-de sentir que toda a paisagem o acusa, e cresce para ele, interpretando o sentir de quantos passaram e na pedra morena da velha cidadela fronteiriça deixaram insculpido o seu gosto heróico em serem obedientes até na sepultura. Assim, se na meia sonolência da sua sensibilidade moral, as leis supremas do sangue podem erguer ainda a voz, Afonso Costa talvez se esteja a estas horas confessando a si próprio como réu de traição imperdoável.
*
É áspero o Dezembro alentejano, com noites piores do que uma jornada sem termo. Excitado, na chaga do seu orgulho abatido, Afonso Costa pede ao dia seguinte que lhe traga uma promessa de esperança. E o dia vem, o dia corre, some-se em golfadas de sangue contra o mistério da charneca, abrindo de novo as portas à noite, mais densa, mais carregada. Imóveis, as brochuras aguardam. Folheia-as impaciente aquele que foi senhor dos nossos destinos. Como letras de fogo, salta-lhe logo à vista a divisa heráldica da cidade, que lá em baixo é uma pasta negra com luzinhas pestanejando. «Custodi nos, Domine, ut pupilla oculi!» Chave do Reino, crispada numa ruga belicosa da raia, como um louvor perpétuo da Terra e dos Mortos, Elvas resume-se na singeleza da sua epopeia nessa legenda admirável: «Guarda-nos, Senhor, como a menina dos olhos!» É bem o Portugal de outros tempos, arrojado e crente, proclamando a certeza da sua fé no evangelho eterno da sua lealdade!
Volta de novo a manhã a bater às vidraças do prisioneiro. Familiarizou-se mais com a paisagem, distingue-lhe já com curiosidade os traços hostis. Além, na planície arrastada e calva, cantam rosáceas longínquas em chão que já não é nosso. São os revérberos da Catedral de Badajoz. Cristas esfumadas apontam a nobreza romana de Mérida, com a paixão dolorida de Santa Eulália morrendo mártir na doce inocência dos seus doze anos. É sempre Castela, com povoaçõezinhas disfarçadas nas tremuras da bruma – Montijo, à distância, cheia da evocação formidável da batalha de Seiscentos, mais perto, aldeolas calmas, não esquecidas ainda da espada generosa de Nuño-Madruga. E o horizonte escancara-se, com o Forte pairando sobre a névoa da encosta.
A serra de Olivença diz-nos de lá adeus. E mais inclinada para o coração da paisagem, Elvas traça na cristandade primitiva da manhã o seu abaluartado cinzento, coroado pela pinha alvíssima do casario. O olivedo fecha-se-lhe à volta como um bosque sagrado, enquanto o aqueduto, galopando de um salto rápido o vale oprimido, desaparece, airoso e severo, numa dobra escondida da muralha. Afonso Costa inquieta-se, alguma coisa se lhe rasga dentro do peito, adivinhando como que um gesto de repulsão nas árvores cobertas ainda da mantilha da geada, nos montes que se perfilam à luz embrulhada do Inverno, na cidade que desperta com sinos repicando entre toques de clarins. E imóveis, sobre a mesa, as brochuras aguardam.
«Custodi nos, Domine, ut pupillam oculi!» Na sua exaltação de insónia, Afonso Costa tenta adormecer sobre essas páginas abertas. Como um pecador amarrado ao seu pecado, a leitura toma-lhe a vontade para lhe corporizar os sentimentos. Ele sabe já que ali tudo significa submissão, unindo os Vivos e os Mortos no mesmo pensamento comum de continuar a herança legada. Ele sabe já que Elvas entra no curso vagaroso da nossa história com um rei arrancando-a ao mouro e sendo o primeiro a atirar-se aos fossos para melhor a ganhar. Um cavaleiro expõe a sua vida para que não perigue a vida do Rei. E Afonso Costa sofre num remordimento secreto de consciência. Porque estremece Afonso Costa? Que lhe recordará a dedicação de Afonso Mendes de Sarracines? Levanta-se depois um outro rei, gritando na sua gaguez shakespeariana entre os muros da sua estimada vila de Elvas, que as gentes miúdas dos concelhos não são mais vilões, são como os demais ‘honrados e bons cidadãos’ dos seus reinos. E Afonso Costa abrange a perfídia das suas palavras de mentira. Vozeiam de seguida os longos assédios. Fala a procissão honesta dos mesteirais e dos vereadores elevando para os que viessem mais tarde a fábrica custosa do aqueduto. Come-se pão de bagaço. Há peste, há sede e há fome. Mas a cidade não se rende, cheia de confiança em Deus e de fidelidade ao Rei. «Custodi nos, Domine, ut pupillam oculi!»
Até mesmo no cume, onde ele, curvado por uma ação invisível, já não pode arrancar os olhos da leitura de condenação – até mesmo nesse cume uma ermidinha se construiu. Construiu-a a viuvez apaixonada de uma rapariguinha de dezoito anos, de quem seria bisneto o homem que nos levou à Índia. E as brochuras desprezadas mandam agora com soberania em quem as solicitou por simples desenfado, tocadas de uma como que hipnose dominadora.
Afonso Costa obedece-lhes, na escuridão enorme do seu drama íntimo. Aprende por elas a decifrar a paisagem, mais cerrada, mais enigmática. Ao voltar para a calçada do Forte, ensinam-lhe onde os Franceses espingardearam um padre, que lhes resistiu, com dignidade, enquanto os maçãos lhes abriam o caminho. Além, em frente, contempla-o o outeiro das Linhas de Elvas com o seu padrão e a sua capela rústica. Projecta-se no seu dia de prisioneiro um esmagamento de alucinação. E na sombra do crepúsculo que avança, avança um cortejo de vultos indizíveis, mais silenciosos e mais espectrais que os da profecia de Cristo à hora do Juízo-Último.
São os Bispos da cidade que resgatavam os cativos e a defenderam do inimigo. São todos os que morreram no sinal da Cruz, confessando os seus Lares e os seus Altares, com as feridas abrindo em beiço, como rosas carnudas. São as mães que rezando e cantando deram virtude e força à energia invencível da nossa raça. É a poeira dos cemitérios – a população anónima dos túmulos, alma oculta de que se socorre e anima a grande alma de Portugal. Crescem do vago, sobem no vago, como que ao assalto da fortaleza pasmada. É a história de Elvas que responde ao apelo de quem a quis conhecer.
Fora da comunidade dos Vivos e dos Mortos, Afonso Costa, num terror supersticioso que o envergonha e excede, compreende enfim que uma pátria inteira, desde a raiz dos séculos, o excomunga e repele.
Só na noite que desce e se avoluma como um desfecho de tragédia, uma sombra o procura, hesitante. No castigo do seu pecado, Afonso Costa adivinha um irmão. Vagueia no mesmo silêncio de réprobo, sem que a morte lhe conceda o repouso que a vida lhe negou. É agora um companheiro para a agonia espantosa do seu julgamento. Porque o cortejo singular cavalgou já as muralhas da cidadela, numa ira calada, mas inexorável. Com os pulsos molhados no suor dos moribundos, Afonso Costa ampara-se ao fantasma ignorado, e precipita-se com ele para sempre na confusão sem remédio em que tudo se perde e termina...
Volta de novo a manhã a bater às vidraças do prisioneiro. Familiarizou-se mais com a paisagem, distingue-lhe já com curiosidade os traços hostis. Além, na planície arrastada e calva, cantam rosáceas longínquas em chão que já não é nosso. São os revérberos da Catedral de Badajoz. Cristas esfumadas apontam a nobreza romana de Mérida, com a paixão dolorida de Santa Eulália morrendo mártir na doce inocência dos seus doze anos. É sempre Castela, com povoaçõezinhas disfarçadas nas tremuras da bruma – Montijo, à distância, cheia da evocação formidável da batalha de Seiscentos, mais perto, aldeolas calmas, não esquecidas ainda da espada generosa de Nuño-Madruga. E o horizonte escancara-se, com o Forte pairando sobre a névoa da encosta.
A serra de Olivença diz-nos de lá adeus. E mais inclinada para o coração da paisagem, Elvas traça na cristandade primitiva da manhã o seu abaluartado cinzento, coroado pela pinha alvíssima do casario. O olivedo fecha-se-lhe à volta como um bosque sagrado, enquanto o aqueduto, galopando de um salto rápido o vale oprimido, desaparece, airoso e severo, numa dobra escondida da muralha. Afonso Costa inquieta-se, alguma coisa se lhe rasga dentro do peito, adivinhando como que um gesto de repulsão nas árvores cobertas ainda da mantilha da geada, nos montes que se perfilam à luz embrulhada do Inverno, na cidade que desperta com sinos repicando entre toques de clarins. E imóveis, sobre a mesa, as brochuras aguardam.
«Custodi nos, Domine, ut pupillam oculi!» Na sua exaltação de insónia, Afonso Costa tenta adormecer sobre essas páginas abertas. Como um pecador amarrado ao seu pecado, a leitura toma-lhe a vontade para lhe corporizar os sentimentos. Ele sabe já que ali tudo significa submissão, unindo os Vivos e os Mortos no mesmo pensamento comum de continuar a herança legada. Ele sabe já que Elvas entra no curso vagaroso da nossa história com um rei arrancando-a ao mouro e sendo o primeiro a atirar-se aos fossos para melhor a ganhar. Um cavaleiro expõe a sua vida para que não perigue a vida do Rei. E Afonso Costa sofre num remordimento secreto de consciência. Porque estremece Afonso Costa? Que lhe recordará a dedicação de Afonso Mendes de Sarracines? Levanta-se depois um outro rei, gritando na sua gaguez shakespeariana entre os muros da sua estimada vila de Elvas, que as gentes miúdas dos concelhos não são mais vilões, são como os demais ‘honrados e bons cidadãos’ dos seus reinos. E Afonso Costa abrange a perfídia das suas palavras de mentira. Vozeiam de seguida os longos assédios. Fala a procissão honesta dos mesteirais e dos vereadores elevando para os que viessem mais tarde a fábrica custosa do aqueduto. Come-se pão de bagaço. Há peste, há sede e há fome. Mas a cidade não se rende, cheia de confiança em Deus e de fidelidade ao Rei. «Custodi nos, Domine, ut pupillam oculi!»
Até mesmo no cume, onde ele, curvado por uma ação invisível, já não pode arrancar os olhos da leitura de condenação – até mesmo nesse cume uma ermidinha se construiu. Construiu-a a viuvez apaixonada de uma rapariguinha de dezoito anos, de quem seria bisneto o homem que nos levou à Índia. E as brochuras desprezadas mandam agora com soberania em quem as solicitou por simples desenfado, tocadas de uma como que hipnose dominadora.
Afonso Costa obedece-lhes, na escuridão enorme do seu drama íntimo. Aprende por elas a decifrar a paisagem, mais cerrada, mais enigmática. Ao voltar para a calçada do Forte, ensinam-lhe onde os Franceses espingardearam um padre, que lhes resistiu, com dignidade, enquanto os maçãos lhes abriam o caminho. Além, em frente, contempla-o o outeiro das Linhas de Elvas com o seu padrão e a sua capela rústica. Projecta-se no seu dia de prisioneiro um esmagamento de alucinação. E na sombra do crepúsculo que avança, avança um cortejo de vultos indizíveis, mais silenciosos e mais espectrais que os da profecia de Cristo à hora do Juízo-Último.
São os Bispos da cidade que resgatavam os cativos e a defenderam do inimigo. São todos os que morreram no sinal da Cruz, confessando os seus Lares e os seus Altares, com as feridas abrindo em beiço, como rosas carnudas. São as mães que rezando e cantando deram virtude e força à energia invencível da nossa raça. É a poeira dos cemitérios – a população anónima dos túmulos, alma oculta de que se socorre e anima a grande alma de Portugal. Crescem do vago, sobem no vago, como que ao assalto da fortaleza pasmada. É a história de Elvas que responde ao apelo de quem a quis conhecer.
Fora da comunidade dos Vivos e dos Mortos, Afonso Costa, num terror supersticioso que o envergonha e excede, compreende enfim que uma pátria inteira, desde a raiz dos séculos, o excomunga e repele.
Só na noite que desce e se avoluma como um desfecho de tragédia, uma sombra o procura, hesitante. No castigo do seu pecado, Afonso Costa adivinha um irmão. Vagueia no mesmo silêncio de réprobo, sem que a morte lhe conceda o repouso que a vida lhe negou. É agora um companheiro para a agonia espantosa do seu julgamento. Porque o cortejo singular cavalgou já as muralhas da cidadela, numa ira calada, mas inexorável. Com os pulsos molhados no suor dos moribundos, Afonso Costa ampara-se ao fantasma ignorado, e precipita-se com ele para sempre na confusão sem remédio em que tudo se perde e termina...
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Mostrou o senhor Afonso Costa desejos de conhecer a história de Elvas. Já conhecerá a esta hora a da fortaleza em que o recolheram. E então é escusado lembrar-lhe que ali morreu prisioneiro Manuel Inácio Martins Pamplona, duas vezes traidor ao seu rei, depois de ser traidor outras tantas à sua pátria.