Os novos Judeus
António Sardinha
Este texto foi escrito e publicado em 1924, quando o banqueiro Frédéric François-Marsal era ministro das finanças em França. Em Portugal, após a implantação da República, os "novos judeus" são aqui identificados por António Sardinha: "E deitando-se sofregamente ao que restava para devorar de Portugal, da tribo Fausto, Sousa, Reis & C.ª à tribo Rogeroni, Graça Filho, do senhor João Ulrich ao senhor Baltazar Cabral, não há dúvida que é Israel quem surge, realizando sorridentemente a escravização capitalista dos gentios." Em 1934, sem indicação de data, este texto foi integrado na colectânea póstuma A Prol do Comum. Em Julho desse ano, o governo de Salazar proibiu o Nacional-Sindicalismo e mandou prender e desterrar para Espanha os seus dirigentes integralistas Alberto Monsaraz e Francisco Rolão Preto. Em Dezembro, realizaram-se as primeiras eleições legislativas do Estado Novo, firmando-se como um regime de partido único e corporativismo de Estado.
... porque a posse das direções superiores do Estado é o pomo apetecido dos partidos, «a reeleição presidencial acompanha-se das piores condições do governo pessoal, que, em vez de pairar como os reis sobre os partidos, se serve deles para triunfar, tendo imediatamente de pagar com favores o favor recebido».
- António Sardinha
- António Sardinha
PONTOS ESSENCIAIS
- O texto critica a plutocracia como a doença dos regimes partidocráticos [do “ignóbil embuste” da democracia das oligarquias partidárias, como Sardinha lembrou mais de uma vez], onde o poder económico prevalece sobre o político.
- Defende que a natureza eletiva do poder [sufrágio universal em regime de partidocracia] gera corrupção e parasitismo, tornando o povo menos relevante e mais explorado.
- Em Portugal, após a implantação da república, banqueiros e grupos financeiros (alguns associados à comunidade judaica) passaram a dominar a economia nacional.
- Faz referência histórica à expulsão dos judeus por D. Manuel I, justificando-a como medida de proteção da riqueza nacional contra a usura.
- Defende a necessidade de fiscalização rigorosa da riqueza e do capitalismo, propondo que o Estado limite o predomínio abusivo do capital e elimine práticas de agiotagem.
- Sugere que a futura monarquia deverá restringir as operações especulativas e punir os abusos financeiros, colocando o capital ao serviço do bem comum.
- Compara a eficácia de leis fiscais entre as monarquias e as repúblicas, destacando o sucesso inglês em tributar fortunas e o fracasso francês devido ao poder dos banqueiros.
- Sardinha defende o regresso da monarquia como meio para restaurar a ordem e proteger o interesse nacional.
OS NOVOS JUDEUS
Já sabemos de há muito que a plutocracia é uma das doenças congénitas dos regimes democráticos. Tanto ontem, como hoje, o poder de um só manifesta-se sempre por motivos mais de ordem económica de que propriamente de ordem política. Assim aconteceu nas sociedades clássicas com os tiranos gregos e em Roma com o advento do Cesarismo. De certo modo, o robustecimento da Realeza, na Idade Média, apoiada pelo «terceiro-braço», confirma-nos ainda mais nessa observação. O futuro a ratificará plenamente, quando a sindicalização dos interesses e das classes exigir, como fiadora da paz social, uma força centrípeta que chame e conjugue harmonicamente todas as outras, sem violência nem menosprezo para nenhuma delas.
É tão evidente o que se deixa dito, como razão fundamental da Monarquia, que não me parece demais registar o depoimento de um pensador insuspeito, ainda para aqueles espíritos mais acesos em indignações extremistas. Falando dos Estados Unidos, escrevia recentemente o conhecidíssimo publicista Henry George que a democracia só engendra a imoralidade, tanto na administração dos negócios públicos, como no exercício da própria justiça. Desta forma, porque a posse das direções superiores do Estado é o pomo apetecido dos partidos, «a reeleição presidencial acompanha-se das piores condições do governo pessoal, que, em vez de pairar como os reis sobre os partidos, se serve deles para triunfar, tendo imediatamente de pagar com favores o favor recebido».
Compreende-se porquê. A natureza eletiva do poder rouba-lhe a independência e a autoridade de que carece para que em verdade se possa chamar «poder».
Fundamentado no voto, o poder nas repúblicas vive de corrupção e de parasitismo. Por isso as repúblicas, aparentemente tomadas como governos do povo pelo povo, são os governos em que o povo menos conta e aquele em que é mais expoliado. Não se furtaria, evidentemente, à regra geral, a nossa pitoresca república, em que a gente de cor predomina de uma maneira impressionante.
Para vergonha da sua perspicácia, os banqueiros portugueses é que deram muito tarde pelo grande negócio que o 5 de Outubro lhes metia pela porta dentro. Mas não perderam tempo, vamos lá andando! E deitando-se sofregamente ao que restava para devorar de Portugal, da tribo Fausto, Sousa, Reis & C.ª à tribo Rugeroni, Graça Filho, do senhor João Ulrich ao senhor Baltazar Cabral, não há dúvida que é Israel quem surge, realizando sorridentemente a escravização capitalista dos gentios.
Assistimos, de facto, no seu significado social e moral a um caso de semitismo puro e bem caracterizado. O que aí se desenrola à nossa roda faz-nos lembrar as belas e fortes palavras de Georges Sorel na sua Introduction à l’Économie moderne, quando exalta a doutrina de São Tomás contra a usura, contra o rendimento do dinheiro pelo dinheiro, e nos deixa compreender como bastantes medidas do Santo Ofício não passaram, na sua essência, de sábias e prudentes medidas de protecionismo nacionalista. Em Sorel aprendi a admirar a alta resolução política de D. Manuel I, expulsando os judeus, em cujas mãos não demoraria a cair e a perder-se a riqueza da nação, estrangulada por esse polvo de tentáculos insaciáveis. E ao ver agora como em detrimento do Trabalho e da Propriedade o Oiro alonga por sobre o nosso pobre país a sua influência estéril e funesta, eu penso ainda nas «câmaras-ardentes» da Monarquia francesa, graças às quais se investigava da formação das grandes fortunas e se confiscavam para o Estado – isto é para o bem público, para a república, no sentido romano do termo – aquelas que houvessem sido engordadas pela especulação.
Eis um princípio a renovar, com as possíveis e necessárias cautelas! Não que se negue à Riqueza a sua importante função social. Mas se não lha negamos, reconhecendo-lha até com todos os estímulos que a economia tradicionalista lhe confere, não lhe permitimos por isso mesmo que se torne de elemento poderoso de prosperidade coletiva, num agente-fator de perturbação permanente. Substituiremos assim à confiscação antiga uma fiscalização razoável, sem mais fim que o de arbitrar nos seus justos limites uma força, cujo predomínio abusivo é obrigação do Estado e da consciência cristã impedir. O que não deve consentir-se é o capitalismo no seu desaforo atual.
A missão das futuras Monarquias será exatamente constrangê-lo a servir a utilidade comum, integrando-o, a bem ou a mal, na realização das grandes obras de fomento nacional. A agiotagem é que se elimina terminantemente, e de uma vez para sempre! Companhias de seguros, consórcios bancários, operações bolsistas, como erva daninha que são, ou se sujeitam às malhas apertadas de uma restrição rigorosa ou nós não distinguiremos entre o vigarista anónimo que, por fraude, segue o caminho do Limoeiro, e o portador de maços e maços de ações que só por conveniência dos especuladores se tomam como valor real e produtivo.
E não se espante a respeitável rua dos Capelistas com as nossas afirmações! Nós não lhe afagamos o ventre, como condição basilar para irmos ao poder. Renovadores que somos, em harmonia com as verdades eternas e com as exigências imperiosíssimas da nossa época, destinamo-nos a restaurar em todas as coisas a ordem natural e tradicional. Em 1716, para julgar «cette espèce de gens auparavant inconnus, qui ont exercé des usures énormes, en faisant un commerce continuel des assignations, billets et rescriptions des trésoreries, receveurs et fermiers généraux» (até parece em Portugal duzentos anos depois!), o Regente ordenou a constituição de uma Câmara de Justiça para reprimir os abusos e reparar as desordens cometidas nas finanças da nação. Com tão sólidos antecedentes, era o que faria a Monarquia tradicional, se no momento presente se restaurasse entre nós. Ela, que por mais de uma ocasião castigou severamente os judeus pela sua usura desenfreada, saberia decerto encarar os modernos Iscariotes e mandá-los para o cárcere, por poderosos que fossem, como os Bourbons em França não hesitaram em mandar o próprio Fouquet, seu intendente de Finanças.
É o que, contrariamente, não sucede, nem na nossa república, nem em nenhuma república das cinco partes do mundo. Os Estados Unidos constituem a mais corrompida e a mais opressiva das oligarquias capitalistas. Se a Suíça – a cândida e exemplar Suíça – a não constitui, é porque, pobre terra de montanhas, não tem riqueza sua e vive exclusivamente do dinheiro que suga ao cosmopolitismo esbanjador dos milionários estrangeiros.
Já em França, Deus sabe o que vai! Por essa execrável «internacional» dos banqueiros, ninguém ignora que a Alemanha se preparou durante longos anos para a guerra à custa dos capitais franceses. E, no entanto, a lição não aproveitou à França! Não se satisfez com a experiência Caillaux – odioso fruto da estreita aliança dos financeiros com a política, como conquista inovidável do liberalismo.
O atual ministro da Fazenda, François-Marsal, é administrador não sei de quantos bancos e companhias. O resultado é que, ao admitir o imposto especial sobre os lucros extraordinários da guerra, proposto pelo seu antecessor, M. Klotz, rejeitou a investigação prévia sobre o aumento das fortunas, sem a qual a lei nunca alcançará efetividade.
E para que se meça bem a diferença de uma monarquia para uma república, embora se trate de uma monarquia profundamente contaminada da avariose democrática, compare-se em números redondos o êxito obtido em Inglaterra por uma lei idêntica, com o que se atingiu em França, debaixo da pressão do seu plutocratismo omnipotente. Em Inglaterra o imposto rendeu para o Estado uma receita de cerca de 18.000 milhões de francos, ao passo que em França não rendeu mais que 1.176 milhões de francos. E note-se que, apesar do sucesso conseguido pela lei inglesa se agradecer à investigação prévia sobre o aumento das fortunas, o Estado não se deu por satisfeito e acaba de criar um Comité de Investigações.
E em Portugal? Em Portugal mandam as «tribos» sabidas – tribos é admiravelmente bem achado! – e os judeus contemporâneos, sem rei que os vigie nem Santo Ofício que os enquadre, banqueteiam-se à barba-longa, sorvendo os últimos alentos das reservas nacionais. Até quando? Até quando? Até que no limiar da nossa vida de povo surja outra vez a verdadeira Monarquia a demonstrar soberanamente que, segundo a definição imorredoira do conde de Chambord, «é antiga pelo seu princípio e moderna pelas suas instituições»!
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