ESTUDOS PORTUGUESES
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • A Elvas, chave do Reino
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A Soberania da Fome
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • A Elvas, chave do Reino
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A Soberania da Fome
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
Search by typing & pressing enter

YOUR CART

O Sul contra o Norte

António Sardinha 

 "Não há Norte contra o Sul, - nem Sul contra o Norte! Há na sua bela homogeneidade moral e social o Portugal de todos nós"

​- António Sardinha

Sardinha destaca a continuidade da identidade cristã e linguística dos moçárabes no atual território português durante a ocupação islâmica, colocando ênfase na unidade cultural entre Norte e Sul, na importância dos mosteiros como centros de resistência e cultura, e no papel do cristianismo e da língua como fundamentos da nacionalidade portuguesa, contrariando ideias de divisão regional e reforçando a noção de coesão histórica do povo português.

  • I. O Suposto Antagonismo Regional. O antagonismo entre o Sul, visto como “arabizado e mercantilista”, e o Norte, considerado o núcleo autóctone da pátria, sustenta uma teoria interpretativa da história portuguesa, defendida por Basílio Teles e comentada por Alberto Sampaio. Basílio Teles identifica uma ruptura entre o Portugal rural anterior ao século XV e o Portugal mercantilista dos Descobrimentos, sugerindo que um elemento social até então secundário — o moçárabe semitizado do Sul — assume protagonismo com a crise dinástica e de independência. Porém, a análise crítica dessa teoria revela confusões e generalizações, principalmente na equiparação do “cartaginês” ao “africano”, ignorando diferenças fundamentais entre os tipos étnicos e suas influências históricas na Península Ibérica.
  • Refutação de uma Ideia de Ruptura. Análises históricas e arqueológicas mostram que a influência cartaginesa foi superficial e limitada a pequenos núcleos costeiros, enquanto a matriz berbere-líbia se aproxima mais do lusitano, especialmente nas instituições locais e tradições comunitárias. A expansão marítima portuguesa não resulta de uma suposta dualidade étnica, mas sim de necessidades históricas, geográficas e de defesa. A teoria de Basílio Teles, ao associar a expansão ultramarina a um suposto espírito mercantilista introduzido pelo Sul, é criticada por não considerar o desenvolvimento orgânico da sociedade portuguesa e o papel unificador do cristianismo.
  • A Formação de Portugal: Unidade e Diversidade. Sardinha destaca que tanto Alberto Sampaio quanto outros historiadores notaram as diferenças regionais, mas a análise mostra que o desenvolvimento marítimo e comercial do norte esteve presente desde cedo e acompanhou o crescimento territorial. Não há base sólida para afirmar uma divisão étnica radical entre norte e sul, pois a população, linguagem e tradições se mantiveram relativamente homogéneas, consolidando-se sob a influência do cristianismo.
  • II. O Papel dos Moçárabes e a Unidade Cultural. Durante a ocupação islâmica, o território que é hoje Portugal manteve uma forte presença moçárabe, principalmente através de mosteiros e igrejas que preservaram a língua e a fé cristãs. A análise de autores espanhóis e portugueses demonstra que a influência do ocupante foi superficial, bem menos profunda do que se costuma pensar. A população local manteve a estrutura social, a língua romance e o cristianismo como fundamentos da coesão nacional. Exemplo disso são as rebeliões e autonomias locais, a persistência das tradições linguísticas e a reconstrução de centros religiosos após a reconquista.
  • Resistência Cultural e Linguística. Estudos mostram que mesmo sob domínio islâmico, a população do sul de Portugal partilhava a mesma matriz linguística que o norte, com variantes mínimas. O cristianismo serviu como elemento agregador, garantindo continuidade de práticas, tradições e instituições, e foi essencial para a resistência e a posterior afirmação da nacionalidade portuguesa.
  • A Unidade Nacional e o Mito da Divisão. A análise das fontes históricas e linguísticas evidencia a inexistência de uma divisão fundamental entre norte e sul. O povo português, consolidado desde cedo numa identidade cristã e linguística comum, demonstrou grande mobilidade interna, especialmente nas épocas de escassez populacional ao sul do Tejo, reforçando a noção de uma nacionalidade una. As diferenças de fisionomia e hábitos referidas por viajantes e cronistas são explicadas por fatores geográficos e culturais, não por uma dualidade étnica radical.
*
Em O Valor da Raça (1915), António Sardinha despromovera o critério étnico nas origens da nação portuguesa, colocando ênfase numa instituição e no espírito que a vivifica - o município e o localismo. Neste ensaio - O Sul contra o Norte -  publicado em À sombra dos Pórticos (Lisboa, 1927), Sardinha volta a abordar as questões étnicas do ambiente intelectual da sua época, contestando as afinidades púnicas ou semíticas de iberos e de berberes, atribuídas por Basilio Teles aos portugueses do Sul.

​A tese do "Sul contra o Norte" de Portugal de Basílio Teles defendia que um "sul arabizado e mercantilista" - um povo moçarabe semitizado - ter-se-ia manifestado na crise do século XIV (1383-85) vindo a desempenhar um papel de relevo na expansão portuguesa dos séculos XV e XVI. 

Basílio Teles retomava a "antinomia de fases" de Oliveira Martins, que acentuara uma componente "púnica" ou "africana" na corte de D. Manuel, para afirmar que a história de Portugal apresentaria um hiato ou solução de continuidade entre o antes e o depois da crise de 1383-85. Segundo Basílio Teles, no período medieval, os portugueses lavram a terra, trabalham nos ofícios, fazem comércio com os povos do norte da Europa e com algumas cidades do mediterrâneo. "«Portugal, enfim, não é um balcão; é um grande campo, onde moureja e canta alegremente uma população paciente, vivaz e robusta.» Como é que de um povo de lavradores nos sai, quase de súbito, como se fosse por milagre, um povo de mercadores?, - interroga depois Basílio Teles." (p. 5). Segundo Teles, no Norte de Portugal estaria a célula autónoma da pátria e, no Sul, um núcleo arabizado e mercantilista.

Sardinha apresenta essa visão bipolar de Basílio Teles como fruto de uma "mentalidade individualista e contraditória" - "é um gérmen funesto de guerra civil que a teoria de Basílio Teles introduz na nossa história, quebrando com os seus subjectivismos superficiais e novelescos a unidade moral que se deve à ideia de Pátria". (p. 7).

Sardinha não evita a questão étnica sempre tão do agrado dos republicanos, mas situa-se na linha de Giuseppe Sergi contestando o semitismo e as afinidades púnicas de iberos e berberes, considerando o lusitano como "parente próximo - saído do mesmo tronco" - do tipo "líbio" da estirpe mediterrânea:

"Nada, de resto, mais oposto ao tipo «cartaginês», semita e adventício nas suas marcadas tendências sociais do que o tipo «africano», ou «líbio», - comunitário, agrícola e guerrilheiro. O tipo «africano», ou «líbio», da estirpe mediterrânea classificada por Sergi, entre outros especialistas, é parente próximo do lusitano, - ramo saído do mesmo tronco. E tanto na sua monogamia instintiva como nas dshemas, ou assembleias deliberativas, em que institucionalmente se exprime, podemos encontrar sem esforço a origem da família e do município nos habitantes da Península, tonificados, evidentemente, mais tarde pela acção depuradora do Cristianismo." [negritos acrescentados]

Ao abordar a expansão portuguesa dos séculos XV e XVI, Sardinha recusa atribuir papel decisivo a uma qualquer sobrevivência semita, concluindo na base dos elementos coligidos por Alberto Sampaio no seu estudo sobre o Norte marítimo: 

"A circunstância de Alberto Sampaio, - olvidado dos ensinamentos de Martins Sarmento - , considerar a nacionalidade portuguesa, «originada não pela atração de uma mesma raça, nem pelas condições idênticas de terreno», e sim como «o resultado de uma conquista, é que impediu o autor de 
As «vilas» do norte de Portugal de abranger totalmente o problema. No centralismo inevitável de Lisboa não se denunciava, de maneira alguma, uma anterior sobrevivência semita. A raça, desde as colinas verdejantes do Minho e Lima até aos confins ensoalhados do Algarve, era a mesma em toda a parte, falando até a mesma linguagem. Descendente do antigo habitante lusitano, o Cristianismo a caldeou e unificou tão fortemente que, separada durante séculos pela divisão político-religiosa da Península, a sua identidade manteve-se indestrutível, como não tardaremos em reconhecer. O que nos esgotava, o que nos consumia em Lisboa, - na Lisboa de Quatrocentos e Quinhentos, - não traduzia, por isso, uma submissão da pátria autóctone a qualquer revivescência hereditária, alheia à sua formação colectiva. Lisboa sofria as fatais consequências da nossa hegemonia nos mares, tornando-se um foco de cosmopolitismo dissolvente. É, pois, um facto social,  - e não um facto étnico, o que há a considerar em semelhante fenómeno. Lamentavelmente equivocado, não o reputou assim Alberto Sampaio. Como homenagem à sua obra, inspirada sempre na mais alta intenção nacionalista, ousamos opôr-lhe esta despretensiosa retificação." (pp. 28-29; negritos acrescentados).
(...)
"Fixemo-nos neste detalhe e ele nos dará a chave de muito enigma da história da ocupação muçulmana na Península, em que berberes e naturais se acabaram de aliar, minando a pouco e pouco o poder, só aparentemente consolidado, do unitarismo islamista. A única barreira que separava entre si esses dois ramos da mesma família era a religião. O Cristianismo na Península levara os seus habitantes a uma maior capacidade civilizadora, enquanto que o berbere, adormecido numa vida inferior de instintos, não logrou atingir um estádio de sociabilidade tão adiantada pelo marasmo em que o deixou a moral depressiva do maometismo." (p. 40)


O Sul contra o Norte é um estudo fundamental para uma avaliação das concepções históricas de António Sardinha, a complementar com "Questões de História", crítica à abordagem historiográfica de Fortunato de Almeida, e com o "Significado do Amadis", onde apresenta a sua teoria da tendência lírica da nossa Grei.

As diferenças entre as várias regiões e sub-regiões de Portugal, em especial entre o 'Norte' e  o 'Sul', estão na origem de um preconceito de separação que chegou até aos nossos dias, mas contra o qual se insurgiu o espírito crítico de António Sardinha.


4 de Setembro de 2025

​J.M.Q.




O SUL CONTRA O NORTE
I

No suposto antagonismo do Sul, ‘arabizado e mercantilista’, com o Norte – célula autóctone da Pátria, se fundamenta uma teoria interpretativa da nossa história, de modo algum desprovida de interesse, mas que não mereceu ainda até agora a atenção cuidada de ninguém. Deu-lhe enunciado extremo o economista Basílio Teles e obteve um certo acolhimento, embora condicional, por parte de Alberto Sampaio – o autor insigne de As ‘vilas’ do norte de Portugal. Eis como Basílio Teles a formula em nota ao seu volume Estudos Históricos e Económicos: 

«No desdobrar dos sucessos que assinalam a nossa existência colectiva, existia, segundo nos persuadimos, um hiato, uma solução de continuidade, que ou tem passado despercebida ou tem sido muito confusamente explicada. Entre o Portugal, tal como o conhecemos até ao fim do século XIV, e o Portugal do século XV em diante, não era fácil, ao menos para nós, encontrar uma trama – digamos assim – ininterrupta, uma perfeita coerência de desenvolvimento orgânico. Havia uma espécie de ilogismo histórico, uma discordância, senão oposição de caracteres, que desde muito nos impressionava o espírito, e que em vão tentámos por vezes resolver. Já Oliveira Martins, cuja erudição era excessivamente superficial, mas cuja intuição histórica seria injusto desconhecer, nos tinha desvendado um pouco aquela antinomia de fases, quando acentuava a fisionomia púnica, ou africana, da côrte manuelina e, anteriormente, do propulsor dos acontecimentos marítimos que se chamou infante D. Henrique. Foi principalmente por ele que se tornou hoje fácil aos investigadores compreenderem a grandeza e a inconsistência do nosso império ultramarino do século XVI, e aquela singularíssima dualidade de feições que distingue os nossos governadores e vizo-reis da Índia – a de feitores, e a de generais e almirantes.»

E Basílio Teles prossegue nas suas considerações, impossíveis por extensas de se reproduzirem na íntegra, para concluir que «no temperamento da grande maioria das populações que constituiam o Portugal mediévico em vão se procurará a propensão acentuada, e ainda menos a loucura irresistivelmente propulsiva que arrasta Portugal à glória, e glória autêntica em parte, das expedições longínquas, mas também ao epílogo desastroso da costa fronteira de Marrocos. Lavra-se a terra, trabalha-se nos ofícios e faz-se um comércio ponderado, absolutamente normal, com os povos do norte da Europa, e parece que um pouco, também, com algumas cidades mediterrâneas» – insiste Basílio Teles. «Portugal, enfim, não é um balcão; é um grande campo, onde moureja e canta alegremente uma população paciente, vivaz e robusta.»

«Como é que de um povo de lavradores nos sai, quase de súbito, como se fosse por milagre, um povo de mercadores?» – interroga depois Basílio Teles. «É nesta transfiguração inesperada – inesperada, sem dúvida, para quem conhece um pouco a Idade Média portuguesa – que reside o ilogismo histórico, a solução de continuidade nos sucessos colectivos, a que atrás nos referimos. Em face desta singular metamorfose não havia senão duas interpretações aceitáveis: ou o Portugal mediévico era só aparentemente rural; ou algum elemento natural-social, subordinado e despercebido até ao fim do século XIV, assume com a crise dinástica e de independência, não só uma importância de que até esse momento não dispunha, mas mesmo a função preponderante de centro atractivo e de núcleo de condensação de toda a energia nacional.»

Creio suficientemente enunciada a tese de Basílio Teles. E antes de avançarmos, encostados às suas próprias palavras, é conveniente que desde já apontemos as deficiências estruturais de que ela enferma. Começa logo por aceitar, sem reservas, da adjectivação de Oliveira Martins o carácter ‘à púnico’, ou ‘africano’, da Lisboa manuelina, como se as duas designações envolvessem o mesmo sentido. Nada, de resto, mais oposto ao tipo «cartaginês» – semita e adventício nas suas marcadas tendências sociais – do que o tipo ‘africano’, ou ‘líbio’ – comunitário, agrícola e guerrilheiro. O tipo “africano, ou líbio”, da estirpe mediterrânea classificada por Sergi, entre outros especialistas, é parente próximo do lusitano – ramo saído do mesmo tronco. E tanto na sua monogamia instintiva como nas dshemas, ou assembleias deliberativas, em que institucionalmente se exprime, podemos encontrar sem esforço a origem da família e do município nos habitantes da Península, tonificados, evidentemente, mais tarde pela acção depuradora do Cristianismo.

Salientando assim a diferença que vai do ‘cartaginês’, ao ‘líbio’, não é meu fito corrigir apenas o lamentável equívoco que Basílio Teles recolhe de Oliveira Martins, apesar de se arvorar em seu austero censor. Preocupo-me em agrupar imediatamente os materiais que nos hão-de ajudar na refutação necessária de uma teoria tão falsa, como é essa do antagonismo do Sul com o Norte. Além de insubsistente nas razões em que presume filiar-se, torna-se perigosa pelo simplismo fácil com que julga explicar muitos fenómenos que os nossos historiadores, ao sabor das suas predilecções românticas, literatizaram abominavelmente. O mestre altíssimo que foi Fustel de Coulanges fala-nos com frequência do que ele definia por ‘guerra civil’ na história. Pois é um gérmen funesto de guerra civil que a teoria de Basílio Teles introduz na nossa história, quebrando com os seus subjectivismos superficiais e novelescos a unidade moral que se deve à ideia de Pátria.

Reflexo manifesto da sua mentalidade individualista e contraditória, a tese de Basílio Teles não resiste ao mais ligeiro exame. A identificação, que levianamente subscreve, do ‘cartaginês’ com o africano, importa sem mais demora para as inteligências prevenidas o seu descrédito completo. Na verdade, com o avanço das ciências auxiliares da história, não é permitido a ninguém ignorar que no norte de África várias influências étnicas se chocaram e imiscuiram reciprocamente, saindo delas o ‘líbio-ibérico’ e o ‘siro-árabe’ da nomenclatura vulgarizadíssima do sábio catedrático espanhol Antón y Ferrándiz. Observa Antón y Ferrándiz na sua memória Razas y tribus de Marruecos: «Es un intruso, el siro-árabe, en Marruecos y en España: llegó aqui, en tiempos prehistóricos, y en los históricos con los fenícios y cartagineses a Barcelona, Málaga, Cádiz y a toda la costa, y después, con los judíos y los árabes, al interior, fundando ciudades y dominando el ibero por su grado superior de civilización y de cultura. Con estas mismas corrientes de inmigración se infiltró en el Maghreb y pobló sus ciudades; pero allí, además, cayó en bandas de tribus que desde la Arabia cruzaron el Egipto y tomaron tierra en toda la Berberia, a la que impusieron su religión cuando la explosión musulmana; después en el siglo XI registra la história una nueva invasión, y según el-Edrisi, gran geógrafo árabe, las tribus de esta raza, ya en tiempo de los Faraones, en distintas épocas, desde la península arábiga, através del Egipto, invadieron la Libia, llegando hasta el Moghreb, es decir, hasta el Ocidente.»

Tanto assim é que Salústio, ao narrar-nos a luta de Roma com Jugurta, não confundiu, entre os povos da Mauritânia, os Gétulas com os Númidas. Dualismo secular e acentuado, Cartago não pensou nunca em o contrariar. E sendo o seu exército constituído por mercenários, repare-se o cuidado com que procurou viver em relação aos reinos númidas, seus vizinhos, indo, de preferência, satisfazer as necessidades da sua expansão imperialista na Sicília, primeiro, e em seguida na Península Hispânica. Insignificante seria a penetração, propriamente púnica, que Cartago traria consigo às Espanhas, não passando dos emporia fixados, sobretudo, na costa oriental. Com razão observa no seu explendido trabalho, La antigua península ibérica, o professor Giménez Soler: «¿Qué influjo podrían tener pequeñas ciudades (em los que por más que se suponga una problación extranjera constantemente renovada, hay que suponerla siempre muy poco numerosa) para transformar la faz étnica del país limítrofe, y mucho menos la de España? ¿Acaso Tánger y Aden son poderosas a europeizar Marruecos y Arabia, ni siquiera el círculo de su influencia?»
E se consideramos ainda que autores como Ulrich Karhstedt, continuador da História de Cartago, de Otto Meltzer, declaram ter sido Cartago um povo sem originalidade cultural, que só exportava ou imitava os produtos dos outros povos, não se verificando, no interior da Península, influências cartaginesas que se possam invocar com seriedade, de nada mais carecemos para que fique bem evidenciada a inanidade das afirmações de Basílio Teles, ao recorrer a essa imaginária ancestralidade para justificação das suas fantasias.[1]

Tudo isto nos leva, pois, a admitir que, ao inverso do que ordinariamente se diz e repete, se houve penetração, a penetração pertenceu ao tipo africano, ou «líbio-ibérico», sobre o tipo «cartaginês» – e não ao segundo sobre o primeiro. Desde o casamento de Asdrúbal com a filha de um régulo hispânico ao próprio génio militar de Aníbal, os factos são bastante expressivos para que nos convençamos da elevada percentagem com que se realizava a infiltração permanente e transformadora do ‘alibio-ibérico’ no ‘siro-árabe’. No entanto, nem por esse processo de automática incorporação o dualismo se anularia com o decorrer dos tempos. De tal maneira se manteve que, séculos andados, quando da invasão da Península pelo mahometismo, o elemento berbere, transportado para as Espanhas no grosso dos sucessivos exércitos ocupadores, facilmente se agregou às populações indígenas, insurreccionando-se ao seu lado com frequência contra o árabe dominador.

Fixêmo-nos neste detalhe e ele nos dará a chave de muito enigma da história da ocupação muçulmana na Península, em que berberes e naturais se acabaram de aliar, minando a pouco e pouco o poder, só aparentemente consolidado, do unitarismo islamita. A única barreira que separava entre si esses dois ramos da mesma família era a religião. O Cristianismo na Península levara os seus habitantes a uma maior capacidade civilizadora, enquanto que o berbere, adormecido numa vida inferior de instintos, não logrou atingir um estádio de sociabilidade tão adiantada pelo marasmo em que o deixou a moral depressiva do mahometismo.

No ‘líbio-ibérico’ – tão diverso, afinal, do ‘siro-árabe’ da nomenclatura de Antón y Ferrándiz – reside, por consequência, a razão genealógica dos habitantes da Península, principalmente dos Lusitanos, e dos outros povos que padeceram uma menor combinação com gentes loiras, provindas do norte. Repara ainda, a semelhante propósito, o prof. Giménez Soler: «El pueblo berber es eminentemente democrático y su gobierno reside en todos, en lo que se llamó primeramente conventus vicinorum más tarde concejo (concilium) y con voz más genérica y más usada, universidad, comunidad. La Edad Media española ofrece ya una diferencia esencialísima respecto del modo de ser marroquí: el sentimiento de la nacionalidad; en África no han llegado todavia a él; su patriotismo no sale de los límites de sus municípios; tienen pactos y confederaciones con algunas tríbus limítrofes, pero nacidas del interés individual y no del amor a la patria. No tienen leyes orgánicas; el concejo se reúne cuando hay que tratar asuntos graves; delibera de acuerdo y pone em prática lo acordado; en los casos menos graves deciden los argar o arnayar, a la letra hombres; el cuaderno de leyes lo llaman isserf y a las leyes cánones, no se sabe si aceptando ellos la voz griega o el griego la voz africana; estos cánones son enteramente casuísticos, verdaderos códigos municipales de la Edad Media. Frecuentísimo es que el concejo se reúna al aire libre y bajo la sombra de un árbol.»

Eis como o autor de La antigua península ibérica se refere aos berberes, «ese pueblo petrificado», que, no seu autorizado entender e com fundamentados motivos, se parece tanto nas instituições locais ao povo espanhol que «bastaría cambiar nombres para que la historia del uno pudiera pasar por la del otro». E o depoimento do catedrático de Saragoça coincide espantosamente, pelo que toca aos Lusitanos, com o do nosso Coelho da Rocha no seu Ensaio sobre a História do Governo e Legislação de Portugal. Diz ele: «O governo destes Povos era Democrático: as leis e negócios mais importantes decidiam-se em Assembleias Gerais, onde o bater com a espada no broquel era o sinal da aprovação... Em tempo de guerra, porém, elegiam um Chefe, ou Príncipe com o supremo poder, ao qual destituiam, preenchido o fim para que havia sido extraordinariamente eleito.» Mas há ainda mais. Quem percorrer a pequena, mas preciosa monografia de Rocha Peixoto, Formas da vida comunalista em Portugal, não terá dificuldade em reconhecer a íntima relação existente entre os costumes dos berberes com certas sobrevivências sociais das nossas populações da Montanha.

Não insisto mais no assunto, tão rico de interesse e de sugestões. Ficou bastantemente marcada a identidade do ‘tipo africano’, que o senhor Basílio Teles tanto desdenha, com o substracto das raças mais enraizadas da Península. A sua afinidade com o Lusitano é então flagrante, como flagrante é a sua disparidade completa com o cartaginês, ao qual o pseudo-historiador dos Estudos Históricos e Económicos o pretendeu assimilar. A teoria do senhor Basílio Teles não dispõe, por isso, de alicerces aceitáveis. Não só – recapitulando – porque Cartago nunca imprimiu vestígios apreciáveis na Península, como nem de longe se misturou com os povos indígenas que a rodeavam no seu assento da cabeceira de África. E se entre os últimos e o português – na sua expressão integral – há relações de sangue e de preferências tanto morais como institucionais, não é que tal facto represente uma causa de ruptura ou de desvio no desenvolvimento da nossa curva vital como nacionalidade. Engana-se, pois, rematadamente Basílio Teles, quando procura assinalar aí a origem do seu refervido antagonismo entre o Sul e o Norte – antagonismo que para o escritor se manifestou decisivamente na crise de 1384-1385. Examinaremos com mais vagar esse aspecto da questão. Agora, e em referência ainda às afirmações já reproduzidas do senhor Basílio Teles, cabe-nos confinar nos seus termos verídicos aquela singularíssima dualidade de feições que distingue os nossos governadores e vizo-reis da Índia – a de feitores, e a de generais ou almirantes.
Impenitentemente obcecado pela miragem erudita do ‘semitismo’, que forrageara em Oliveira Martins, apesar de tanto o deprimir na sua capacidade de historiador, o senhor Basílio Teles, em meia-dúzia de linhas, prova-nos assim que não alcançou compreender a obra do nosso imperialismo no Oriente. Jamais nos governadores e vizo-reis da Índia existiu essa dualidade de feições – a de feitores e a de almirantes ou generais – traduzindo a sobrevivência étnica de que Basílio Teles se tornou o denunciador sistemático. O que existiram, tratando-se de forma mais útil e mais exequível de firmar o nosso poderio no Oriente, foram dois métodos de ocupação: o da feitoria ou entreposto comercial, mais ou menos efectivado por D. Francisco de Almeida, e o do império, levado a efeito por Afonso de Albuquerque. Afinal, sistemas tão racionais e tão conformes com a exigência das circunstâncias, que um – o da feitoria – volve-se depois a base da expansão holandesa, enquanto que o do império, apoiado no poder naval, tal como o concebeu Albuquerque, é hoje a razão de ser, como que o arcaboiço, do imperialismo britânico na Índia.

Incorre deste modo o senhor Basílio Teles em erros sobre erros, porque, partindo da natureza agrária da nossa nacionalidade, não admite que ela se desenvolvesse maritimamente e que recorresse ao comércio, quando lhe chegou a hora de buscar nas águas o apoio que internamente lhe faltava, para resistir à ameaça da unificação castelhana. Perturbado pelos seus preconceitos individualistas, o senhor Basílio Teles, muito embora invoque contra Oliveira Martins o factor geográfico, não quer ver que, país do litoral, Portugal não poderia logicamente escapar à atracção da lei dos litorais, fazendo-se e mantendo-se pelo mar em relação ao resto da Península, tal como a Holanda em relação à Alemanha e na Antiguidade a pequena Fenícia em relação aos seus limítrofes mais poderosos.

Mas nós já vimos que para o senhor Basílio Teles a singular ‘metamorfose’ de um povo de lavradores se desnaturar num povo de mercadores só se compreendia através de duas interpetrações aceitáveis: ou o Portugal mediévico era só aparentemente rural; ou algum elemento natural-social, subordinado e despercebido até ao fim do século XIV, assume com a crise dinástica e de independência, não só uma importância de que até esse momento não dispunha, mas mesmo a função preponderante de centro atractivo e de núcleo de condensação de toda a energia nacional.»
E o senhor Basílio Teles explica-se: «A primeira interpretação é intuitivo que a tinhamos de pôr de lado: o Portugal da Idade Média não era com toda a certeza uma nação de mercadores. Restava, por consequência, a segunda.» E a segunda, «esse elemento natural-social qual seria? Pareceu-nos que era o moçárabe do Sul, profundamente semitizado, tendo por sede principal a grande cidade do Tejo, e por órgão ou intérprete fiel a rica burguesia que a habitava. Mostremos, embora em resumo, que esta ideia não é gratuita».

Porém, antes de o senhor Basílio Teles avançar, mostremos-lhe nós a ele a gratuitidade cada vez mais imperdoável da sua ideia. Não saindo de um círculo vicioso de equívocos e generalizações, o senhor Basílio Teles, da mesma maneira como confundiu o cartaginês com o africano, entende agora a nossa expansão naval como uma simples aventura de burgueses ávidos de lucro. Evidentemente que, no desenrolar crescente do nosso imperialismo, o custo das frotas e a manutenção das grandes levas armadas, que a toda a hora exportávamos do continente para garantia do nosso Ultramar, acarretavam para a vida do Estado despesas fabulosas, que só na vantagem do grande tráfico encontravam satisfação. Uma distância profunda nos separava já daquele período recuado em que as rendas do Rei repousavam apenas na letra ingénua dos forais, quando a economia do país, com diminuta população e a guerra da Reconquista, absorvendo-lhe por completo a actividade, se condensava nas normas estreitas do agrarismo rudimentar que o senhor Basílio Teles reputa como a norma vital da nacionalidade.

Não se resignando Portugal ao destino que arrastou o Aragão, senhor de uma política europeia que Portugal nunca possuiu, a fundir-se, por fim, na monarquia central da Península, como assegurar o seu necessário navalismo com a insaciabilidade dos seus gastos incalculáveis, senão apelando para o mercantilismo, para a sua tributação e exploração consequentes, como antigamente, pela presúria, pelo confisco, pela quebra da moeda, e ainda por contribuições forçadas, directas ou indirectas, era às energias da terra, à pátria agrícola e embrionária, que os monarcas se dirigiam, como a uma vaca de leite, coagidos pela agudeza das circunstâncias?

Não insistirá, decerto, o senhor Basílio Teles em qualificar de ‘mercadores’ os homens de Nuno Gonçalves e quantos a seguir lhes alargaram e estabilizaram o descomunal e heróico impulso. Guiado mais por uma alta idealidade – a idealidade da Fé –, Portugal, se o compararmos com a Holanda – exemplo acabado de uma oligarquia de comerciantes –, deixou atrás de si, pela sua forte irradiação espiritual, uma obra admirável, como é o Brasil, enquanto que as mais nações havidas como colonizadoras – excepção para a Espanha, nossa irmã –, sómente legaram ao mundo modelos de proveitosa e compensadora administração. Nesse ponto falhámos nós, embora, debaixo de um critério mais amplo e mais cristão, trouxéssemos as raças inferiores à participação da nossa sociabilidade, ao passo que outros povos tidos como adiantados se limitaram a exterminá-las pura e simplesmente como único método eficaz de colonização.

Acontece, porém, que o senhor Basílio Teles, abandonando-se cegamente aos improvisos da sua pena, mistura ainda aqui navalismo com mercantilismo: toda a nossa epopeia marítima – epopeia de descobridores e de povoadores – é, pelo visto, para o autor dos Estudos Históricos e Económicos, uma porfiada e tenaz operação comercial. Assim se compreende que o senhor Basílio Teles repute como antinómica da política da primeira dinastia a política inaugurada vigorosamente pela segunda. Ora nada mais concorde com os nossos antecedentes sociais e históricos do que a directriz imposta aos destinos do povo português pelos varões assinalados que surgem ao dia seguinte de Aljubarrota, em roda da figura excepcional do Infante!

Num trabalho sempre interessante de se ler – O Doutor Minerva –, apesar de ser falso em mais de um critério, eis como Manuel Bento de Sousa caracteriza o reinado de D. Fernando: «Uma nova lei há a cumprir-se no destino de Portugal – a expansão. Cabe isso a Fernando, o formoso, que a sente, mas erra-a... Os homens que a hão-de entender vêm um reinado mais tarde. A expansão deve fazer-se para o mar, e D. Fernando intenta-a para o continente; as riquezas de Portugal despejam-se nas fortalezas de Castela; as boas moedas de D. Pedro vão correr no Aragão, refundidas em peças aragonesas. O rei não está à altura dos seus destinos.» E Manuel Bento de Sousa remata: «Tem o instinto, mas não tem a ideia; tem a aspiração, mas não tem a compreensão.»

Há uma verdade manifesta nas reflexões de Manuel Bento de Sousa. Portugal, ao atingir a época fernandina, sente-se maior e carece de se continuar, de se desdobrar, terminada que era a consolidação interior. Lembrêmo-nos das palavras célebres de Claude Bernard no seu livro Les phénoménes de la vie: «Em cada gérmen vivo há uma ideia criadora que se desenvolve e se traduz pela organização. Em toda a sua duração, o ser vivo permanece debaixo da influência dessa mesma força criadora, e a morte sobrevém quando já não a pode realizar.» Pois a ‘ideia-directriz’, que presidira à génese da nossa nacionalidade, ditava-lhe agora o caminho do mar.

Ninguém lho prepara e facilita como o pobre e caluniado D. Fernando! Se a D. Fernando pertence a glória inolvidável de ter concebido e executado a lei das sesmarias, consolidando por ela a estrutura agrária da nação; na mesma preocupação sincera que o fomento nacional lhe merece, dispensa igualmente a mais empenhada das atenções à nossa marinha mercante, já então considerável, rodeando de inúmeros privilégios os proprietários de todos os navios para cima de cem toneladas. Fernão Lopes conta-nos miudamente como em tempo de D. Fernando o Tejo se coalhava de barcos, tanto nossos como estrangeiros. Essa feição de Portugal não nascera, porém, com o agonizar de Trezentos. Confundia as suas origens com as origens da própria nacionalidade, sabendo nós, como sabemos, que, para acudir às necessidades do seu desenvolvimento, é que D. Dinis mandara plantar o pinhal de Leiria e contratara em Génova um almirante para as suas frotas.

Compreende-se, afinal! As exigências de defesa das populações do norte levaram bem cedo quem olhava pelos cuidados do governo a aprestar-se também debaixo do ponto de vista naval na luta contra o sarraceno, que atacava pelo mar, promovendo desembarques nos portos mais acessíveis de além-Douro.

No seu notabilíssimo estudo O Norte marítimo, saído na Revista de Portugal, comenta o ilustre Alberto Sampaio: «Muito antes da fundação da monarquia todos os nossos portos têm uma história, bem triste, quantas vezes! Por eles se faziam as entradas dos normandos e agarenos, sobretudo as dos últimos, depois que a espada vitoriosa de Afonso I, das Astúrias, os expulsou no século VIII do norte do Vouga. O maior número das agressões deles efectua-se então por via marítima; as galés, entrando pelas barras e subindo pelos rios, levam a devastação às terras vizinhas; tornam incertas as culturas e arruínam os cultivadores. Um grande arcebispo de Compostela, Diogo Gelmírez, inicia a resistência naval, que se torna por vezes ofensiva, com duas birremes, chamadas galés – quas vulgus galeas vocat –, e confia-as a peritos importados de Génova. Começa aqui a genealogia da nossa tradição de soldados do mar! «A semente disposta por Gelmírez – esclarece Alberto Sampaio –, encontrando terreno adequado, germinou com vigor... Em 1121 havia já uma esquadrilha de barcos no rio Minho; a campanha deste ano entre D. Urraca e a irmã principiou por um recontro fluvial, ficando vencidos pelos marinheiros de Padrón os portucalenses que defendiam nas suas barcas o passo do rio. Não podiam ser estas de somenos importância: a gente de D. Teresa esperava que elas não deixariam o inimigo atravessá-lo; desbaratadas, fugiu o maior número, abandonando o campo da infanta.» E se é certo que nos primeiros instantes do Estado português a nossa marinha de guerra não conheceu um grande incremento, intervindo sempre armadas de cruzados em feitos militares como a expugnação de Lisboa, Alcácer do Sal e Silves, não é menos certo também que a marinha mercante continuou progredindo, de reinado para reinado, com sensível diferença. «No tempo de D. Sancho II – elucida ainda Alberto Sampaio –, o movimento da barra do Porto era suficientemente avultado para o rei, na escritura de concórdia de 1238, ceder ao bispo e igreja portucalense parte dos impostos, percebidos sobre mercadorias importadas... A intensidade desse tráfego internacional é revelada pelo decreto de Afonso III de 1253, endereçado aos habitantes do norte, toti populo a Minio usque ad Droium.» Este endereço especial mostra que a região indicada constituía nessa época uma unidade económica à parte. Não admira: a sua sociedade tinha já uma longa história e estava definitivamente formada muito antes da monarquia; no centro e sul, pelo contrário, a população sarracena não teria ainda assimilado as instituições introduzidas pelos conquistadores.

Abramos um parêntesis. Nas últimas palavras da transcrição de Alberto Sampaio transparece bem clara, ao aludir à “população sarracena” do centro e sul do país, a ideia de que a nacionalidade saíra de um acto de conquista, iniciado pelos elementos autóctones acantonados nas regiões de além do Douro. Exactamente no mesmo estudo, O Norte marítimo, de que nos estamos socorrendo, o autor insigne de As ‘vilas’ do norte de Portugal observa, como ponto fundamental: «Portugal constitui-se pois com dois retalhos dos povos peninsulares – ao sul do Vouga com um fragmento da Espanha muçulmana, ao norte com uma fracção da Galiza.» E adiciona: «Desta última partiram os batalhadores que conquistaram a cinta do litoral, ocupada depois pela nação portuguesa, à qual eles, os nossos avós de entre Vouga e Minho, impuseram igualmente a sua linguagem galega. Para se manter nas suas afirmações vale-se Alberto Sampaio do filólogo Vasconcelos de Abreu. «A estas duas áreas etnográficas correspondem duas zonas glotológicas bem definidas», diz o senhor Vasconcelos de Abreu. «O reino divide-se, relativamente à gradação quantitativa das vogais, em duas regiões glotológicas; numa, ao norte, há vogais longas, noutra, ao centro e sul, não há vogais longas, por sua natureza.»

Não examinaremos agora a frustre razão filológica de Vasconcelos de Abreu. O que salientamos é esse lamentável erro de visão partido de um espírito como o de Alberto Sampaio, cuja obra, embora reduzida, o torna na história das nossas instituições quase tão grande como Herculano e Gama Barros. Tinha Alberto Sampaio em seu favor a circunstância de se não haverem desenvolvido na Península os estudos arabistas, à data em que ele escrevia, de maneira a que pudesse modificar radicalmente sua impressão de um Portugal cerzido de dois bocados diversos. No entanto, já a Martins Sarmento, que tão salutar influência exerceu em Alberto Sampaio, não escapara precisamente o facto contrário, que é o verdadeiro. «Mais pujante de força e de cultura foi a invasão árabe, que avassalou quase toda a velha Lusitânia e inquietou amiúde a Galiza; mas certo é que, com a expulsão destes novos Semitas, vemos surgir desde o extremo do Algarve até o extremo da Galiza um povo uno, com o mesmo modo de sentir e de pensar, com a mesma língua, conservando a toponímia pré-romana e ligando um sem número de tradições aos castros, às antas, às fontes, etc. – tradições que sem dúvida nenhuma tem raízes na civilização pré-romana.»[2]

Neste ponto a lição do mestre não utilizou a Alberto Sampaio! Mas valia tanto a sua autêntica organização de historiador que o estudo citado, O Norte marítimo, redigido com larga soma de erudição no propósito de documentar esse tema do antagonismo do Sul com o Norte de Portugal (mas em Alberto Sampaio, ao inverso de Basílio Teles, pelo predomínio do Norte com a absorção de Lisboa), representa, opostamente, uma das mais belas provas que eu conheço de unidade perfeita da Pátria em todas as fases da sua génese e expansão. Não cai, evidentemente, Alberto Sampaio nas fábulas interpretativas do senhor Basílio Teles. Notamos já como faz coincidir com os primórdios do Estado português a afloração das suas tendências marítimas. Ao passo que o senhor Basílio Teles reputa a actividade comercial do Sul adversa ao ruralismo estrutural do Norte, Alberto Sampaio declara sem vacilações, aludindo ao diploma de 1213, dirigido por D. Afonso III aos habitantes de entre Douro-e-Minho, «que a região indicada constituia nessa época uma região económica à parte». É minudência, como tivémos ocasião de verificar. «Não admira: a sua sociedade tinha já uma longa história e estava definitivamente formada muito antes da monarquia: no centro e sul, pelo contrário, a população serracena não teria ainda assimilado as instituições introduzidas pelos conquistadores.»

O erro de Alberto Sampaio consiste, pois, em supor Portugal habitado apenas por muçulmanos do Mondego para baixo, antes da reconquista afonsina. Brevemente saberemos como isso não era assim. E só lamentamos não poder acompanhar Alberto Sampaio em toda a sua exposição pelos limites que naturalmente nos impõem as proporções do presente ensaio.

Com a mais viva e adubada documentação, consegue ele demonstrar-nos como, na verdade, a expansão marítima e comercial da pátria correu pararela com o seu alargamento territorial. Fenómeno lógico: as necessidades aumentavam, aumentavam numa raça que se afirmava pelo florescimento variado das suas múltiplices energias. Cita a esse propósito Alberto Sampaio a violenta discórdia entre D. Afonso III e o bispo do Porto, D. Julião, motivada já em razões de tráfego fluvial e marítimo. Também o foral de Viana, na foz do Lima, do mesmo século XIII, fixa a taxa que se há-de cobrar sobre as coisas que «venerint de partibus francie et de terra serracenorum».

Daí por diante a tendência naval da nacionalidade acentua-se com vigor. D. Afonso III auxilia seu sogro, o Rei Sábio, com uma esquadra que aparece em frente de Sevilha combatendo contra os islamitas. Morto o almirante Nuno Fernandes Cogominho, D. Dinis contrata em Génova, Micer Manuel Pessanha e obtém da Cúria Romana para o custeio da nossa marinha de guerra, «a décima de todo o Eclesiástico de Portugal por três anos». D. Fernando completa com instituições próprias o interesse que o Estado em Portugal manifestou desde o princípio pelas coisas e assuntos do mar. Donde o comentário de Alberto Sampaio: «Durante a primeira dinastia aumenta incessantemente, pela única expansão das próprias forças e energias dos seus homens, a riqueza do norte, a agricultura, a indústria e a navegação, com o comércio internacional». Já antes escrevera: «O trabalho do mar florescia pois na Idade Média em todos os portos de entre Douro e Minho; as suas naus, caravelas e mais embarcações navegavam para o norte, sul e leste.» E adita imediatamente: «forte e livre regimen antigo dava frutos abençoados. Os reis, percorrendo todas as localidades, ouviam as queixas e administravam justiça por igual. O mecanismo governamental, se era pesado e tosco, adaptava-se perfeitamente à diversidade das gentes e condições da nação. Cada uma das raças, que habitam esta cinta do litoral, podia desenvolver-se desembaraçadamente segundo a sua capacidade progressiva. Não se tinha operado a profunda revolução política, que nos reinados subsequentes vestirá a monarquia à italiana com uma verdadeira capital e que pela exiguidade de território terá de absorver tudo para sustentar a grandeza correspondente, posto que ilusória. O governo não se transformará por enquanto em bomba aspirante, fazendo convergir todos os elementos de progresso num ponto dado.»

Não é, consequentemente, na expansão marítima da nacionalidade que Alberto Sampaio enxerta a origem do antagonismo do Sul com o Norte. Além de considerar essa expansão como o desfecho natural de um complexo de tendências já evidenciadas ao longo da primeira dinastia, Alberto Sampaio enumera, entre os navegadores e conquistadores do Ultramar, uma longa série de capitães e mareantes, nascidos no coração do antigo condado portucalense. Para mencionar alguns, lembrarei João Gonçalves Zarco, da escola do Infante e iniciador, ao lado de Tristão Vaz, da epopeia dos Descobrimentos. E com ele Álvaro de Caminha, João Álvares Fagundes, Fernão de Magalhães, Lopo Vaz de Sampaio, etc.

«Portugal, que se fizera no campo das batalhas, era um país armado – insiste Alberto Sampaio –, a sua admirável organização militar medieval, se lhe permitiu sustentar e defender a independência política, permitirá agora esse prodigioso feito de armas, as navegações e conquistas dos séculos XV e XVI.»

O mal residia, para Alberto Sampaio, desta forma, na acção absorvente de Lisboa, porque «à grande cidade afluem com aventureiros de todas as procedências, as maravilhosas riquezas trazidas pelos galeões...» «Este fausto asiático – prossegue Alberto Sampaio – que fazia reviver nas margens do Tejo, no centro e sul, a sociedade oriental anterior à conquista afonsina, preocupava ele só a atenção dos contemporâneos.» E o ilustre historiador desabafa o seu protesto de erudito e de minhoto: «Das províncias do norte ninguém fala: situadas num canto extremo do território, longe desses esplendores, impróprios do seu génio e raça, elas continuam recolhidas, como dantes, trabalhando e produzindo boa parte da força que vai ser dispersada agora aos quatro ventos pelo mundo fora. Mas dos ricos e fortes elementos da sua vida se aproveitará o infante D. Henrique, assim como os reis continuadores da obra dele, fazendo-os convergir nos descobrimentos.»
De sorte que a época, inaugurada com a dinastia de Avis, recebe, segundo Alberto Sampaio, um especial incremento das populações de além-Douro. A circunstância de Alberto Sampaio – olvidado dos ensinamentos de Martins Sarmento – considerar a nacionalidade portuguesa, «originada não pela atracção de uma mesma raça, nem pelas condições idênticas de terreno, e sim como o resultado de uma conquista», é que impediu o autor de As ‘vilas’ do norte de Portugal de abranger totalmente o problema. No centralismo inevitável de Lisboa não se denunciava, de maneira alguma, uma anterior sobrevivência semita. A raça, desde as colinas verdejantes do Minho e Lima até aos confins ensoalhados do Algarve, era a mesma em toda a parte, falando até a mesma linguagem. Descendente do antigo habitante lusitano, o Cristianismo a caldeou e unificou tão fortemente que, separada durante séculos pela divisão político-religiosa da Península, a sua identidade manteve-se indestrutível, como não tardaremos em reconhecer. O que nos esgotava, o que nos consumia em Lisboa, na Lisboa de Quatrocentos e Quinhentos, não traduzia, por isso, uma submissão da pátria autóctone a qualquer reviviscência hereditária, alheia à sua formação colectiva. Lisboa sofria as fatais consequências da nossa hegemonia nos mares, tornando-se um foco de cosmopolitismo dissolvente. É, pois, um facto social – e não um facto étnico – o que há a considerar em semelhante fenómeno. Lamentavelmente equivocado, não o reputou assim Alberto Sampaio. Como homenagem à sua obra, inspirada sempre na mais alta intenção nacionalista, ousamos apor-lhe esta despretenciosa rectificação. E, encerrando o parêntesis que se alongou em demasia, regressemos ao senhor Basílio Teles, com quem não acabámos ainda de conversar.
 

II

Esboçada já a traços largos nos primeiros capítulos de «O problema agrícola», é nos Estudos Históricos e Económicos, como ficou dito, que a estranha teoria do senhor Basílio Teles encontra o seu enunciado definitivo. Apareceram os Estudos Históricos e Económicos em 1902, dez ou onze anos corridos sobre a publicação da monografia de Alberto Sampaio, O Norte marítimo, na Revista de Portugal. São evidentes as influências dessa monografia na teoria do senhor Basílio Teles, que teve a habilidade de utilizar o pouco que nela havia de inseguro e de menos exacto, e de o misturar, numa ausência total de sentido crítico, com o que existe de pior em Oliveira Martins! De resto, com a sua tese do antagonismo do Sul contra o Norte, o senhor Basílio Teles, se por acaso o quisesse requerer, não tinha direito ao privilégio de invenção! A páginas 44 do 1.º volume de O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, eis como se pronuncia Teófilo Braga sobre o mesmo problema: «Parece que em Portugal se estabeleceu uma certa diferenciação entre estas duas raças primordiais, a que desce do norte da Europa, e a que vem de África... Esta diferenciação prolonga-se com os tempos, e os viajantes estrangeiros notam-na; lê-se na viagem do Duque de Chatelet (Desateux): «há todavia entre a capital e o norte deste reino uma diferença notável. Nas províncias setentrionais os homens não são tão trigueiros, nem tão feios. São mais francos e mais tratáveis na sociedade, muito mais valentes e mais laboriosos; porém esta diferença dá-se igualmente entre as mulheres; são muito mais brancas do que as do sul; Rackzynscki também notou esta diferenciação em quanto ao gosto artístico e à capacidade arquitectónica nas províncias do norte...»

E Teófilo, encantado consigo mesmo, prossegue aduzindo elementos: «O conflito entre as duas raças tornou-se permanente, acentuando-se na luta entre o montanhês e o habitante da planície; diz Estrabão: sempre na verdade viveram em guerra, ou entre si, ou com os seus vizinhos além do Tejo, até que os romanos puseram fim a este estado de coisas, fazendo descer os povos da montanha para a planície e reduzindo a maior parte das suas cidades a simples burgos, fundando ao mesmo tempo algumas colónias entre eles. Foram os serranos, como facilmente se acredita, que iniciaram a desordem; habitando um país triste e selvagem, possuindo tão-sómente o necessário, desceram a cobiçar o bem de seus vizinhos. Estes, por sua parte, tiveram para os repelir de abandonar os seus próprios trabalhos e com eles mesmos se puseram a guerrear em vez de cultivar a terra; o país, pela falta de cuidados, cessou de produzir...»

E não continuamos. Na última parte da transcrição de Estrabão acham-se bem marcados os motivos dessa hostilidade. São os que no seu recente e belo estudo sobre Viriato o sábio exumador das ruínas de Numância, dr. Adolfo Schulten,[3] condensa em breves palavras: «Com estas expedições de pilhagem (as dos serranos sobre as regiões abundantes de aquém do Tejo) o lusitano simboliza-nos a antiga luta entre a serra e a planície, entre os montanheses, pobres e valentes, e os habitantes das terras baixas, opulentos e cobardes». Outras não foram as bases que levaram o notável publicista espanhol D. Joaquín Costa a interpretar as guerras de Viriato como sendo já consequência de uma longa questão económica. Comentando na sua conferência Viriato y la cuestión social en España en el siglo II antes de Jesucristo (Vid. o volume Tutela de pueblos en la Historia) aquela passagem, guardada por Diodoro, segundo a qual o caudilho dos Lusitanos teve a liberdade na conta da pátria (patriam in libertate), assim se exprime D. Joaquín Costa: «Y esto es lo cierto, pero no la libertad civil, diríamos a la romana, la condición de ingenuo, como si hubiesse nacido siervo; menos aún la libertad política al estilo de la de nuestro tiempo, esa liberdad abstracta proclamada por el liberalismo doctrinario de nuestro siglo, que si valiese tanto como ha costado, había hecho de nuestro planeta un paraíso; sino aquella otra que tiene en clase de garantía y de coeficiente la independencia personal fundada en la posesión de los instrumentos del trabajo: éste fue el ideal de toda su vida; ésta su aspiración y el objetivo de sus admirables campañas.»

Não vamos tão longe, como o autor eminente de El colectivismo agrario en España. Mas com o seu depoimento, ligado ao do insigne arqueólogo e professor alemão, dr. Adolfo Schulten, supomos devidamente esclarecidas as causas do antigo conflito entre a Montanha e a Planície, entre os povos do sul e do norte do Tejo. As variedades que existiam então são, no fundo, as variedades existentes hoje em dia. Ditam-nas as condições do solo, a diversidade da cultura, determinando frequentes alterações no tipo social, conquanto a raça se mantenha íntegra e una na sua essência. Porque, verdadeiramente, não são os caracteres físicos que afiançam a unidade de uma raça. O que a solidariza e perpetua, ao longo dos séculos, sempre conforme a si mesma, é o seu génio, é o elemento moral ou psíquico. O elemento moral ou psíquico, expressando-se na tendência ruralista do antepassado lusitano, consolidou-se e apurou-se pela penetração facílima que nos seus descendentes o Cristianismo obteve.

Isso é que vale, quando se pensa em ajuizar a sério dos fundamentos estruturais de uma nacionalidade, de nada servindo as diferenças de talhe e de fisionomia que muito à ligeira alguns viajantes fixaram a nosso respeito nos apontamentos do seu itinerário. «Las razas hay que considerarlas sintéticamente, en todo su conjunto físico y moral, en relación con su vida material y social, y no por uno o varios caracteres externos y en realidad mudables.» Eis como se pronuncia Giménez Soler no seu notável trabalho, já citado – La antigua península ibérica, adicionando em seguida: «El Dr. Franz Boas demuestró experimentalmente, en individuos emigrados a los Estados Unidos de América, que la forma del cráneo y el tipo del hombre se modifican bajo la influencia del ambiente físico, hasta el punto que el medio americano imprime tales cambios y de modo tan uniforme, que los tipos más divergentes se aproxíman para converger en un tipo común: las experiencias realizadas en judíos y sicilianos probaron que el índice cefálico es muy poco estable y el tipo asimismo; la estructura del cuerpo goza de una indiscutible plasticidad, que lo adapta al ambiente. ¿Quien no distingue un ciudadano de un campesino dentro de una misma nacionalidad, dentro de una misma región? Las réplicas que se hicieron al profesor norteamericano le dan razón, porque manifiestan que una raza en diferentes medios se modifica y diversifica hasta con violencia: mientras los hebreos lituanos son 27,7 por ciento dolicomesocéfalos y apenas 8,4 hiperbraquicéfalos, los de Galitzia (Austria) tienen sólo 8,3 de dolicomesocéfalos y una enorme cifra de hiperbraquicéfalos: si estos hebreos medidos en vivo lo hubieran sido en sus calaveras fosilizadas, habríanlos catalogado en razas muy distintas.»

Creio suficientemente destruído o reforço que, porventura, tanto da passagem de Estrabão, como do testemunho de alguns viajantes estrangeiros, resultasse a favor de uma hipótese que o senhor Basílio Teles se empenhou em revestir de linhas decisivas e convencedoras. E ainda em contradição com a suposta hostilidade do homem do Sul – trigueiro e meão, com o homem do Norte, mais aloirado e esguio –, hostilidade em que o senhor Teófilo Braga vislumbra também uma dualidade étnica, mas mais antiga que a do senhor Basílio Teles, recordarei, sem me embrenhar em escusados novelos genealógicos, que precisamente no território que é hoje Alentejo habitaram tribos célticas, com as quais se relaciona a necrópole de Alcácer do Sal, onde se acharam sinais evidentíssimos de cultura posthallstática,[4] classificando igualmente os arqueólogos como pertencendo à mesma cultura os castros e citânias das nossas províncias de além-Douro. Nada mais conforme com a lição dos textos clássicos, que nos falam de celtas perto de Évora e de celtas junto do Minho, derramando-se por aquela zona que é hoje politicamente a Galiza! O que subsiste, por isso, da aversão do trigueiro ao loiro, como indicando a separação que mais tarde se afirmaria entre o Sul e o Norte, dando origem a duas espécies de Portugal, de que o Tejo, sobretudo, seria a costura mal cerzida?

Mas, admitindo mesmo que duas raças se defrontaram na faixa ocidental da Península, o exame dos documentos ensina-nos – e em semelhantes termos se pode entender o sentido com que Alberto Sampaio chamava ‘conquistadores’ aos elementos galaico-lusitanos – que houve sempre uma deslocação populacional acentuadíssima do norte para o sul, não só nos primeiros tempos da nacionalidade portuguesa, como depois, nos períodos subsequentes. Ainda hoje em dia essa descida é constante. Rareada a população aquém do Tejo, vê-se que os seus reservatórios são continuamente alimentados pela derivação que lhes advém das Beiras e mesmo de Entre-Douro-e-Minho. Quem se desse à curiosidade, na mais pequena aldeia alentejana, de levantar sobre os registos paroquiais a genealogia de algumas dezenas de famílias, tanto da camada baixa, como da camada remediada, verificaria a forte preponderância beiroa e minhota, mas principalmente beiroa, na composição das suas linhagens.

Obedece a leis geográficas e económicas invariáveis a força atractiva do Sul para com o Norte. O próprio Alberto Sampaio o reconhecia ao escrever, como já tivemos ocasião de observar, que, «constituído Portugal por dois retalhos dos povos peninsulares, ao sul do Vouga com um fragmento da Espanha muçulmana, ao norte, com uma fracção da Galiza, de esta última partiram os batalhadores que conquistaram o centro do litoral, ocupado depois pela nação portuguesa, à qual eles, os nossos avós de entre Vouga e Minho, impuseram igualmente a sua linguagem galega».
Se de certo modo assim foi, esse acontecimento não resultou de um acto de conquista, sendo antes um acto de libertação. Para o conhecimento exacto da origem e formação da nossa pátria não é inútil esmiuçar até ao fim a questão que tão empenhadamente estamos debatendo. O erro de Alberto Sampaio consistia em supor que para o sul do Vouga se estendia uma Espanha muçulmana e que necessariamente ali se falaria tudo, linguagem romance, que se designa por «galaico-portuguesa». Outra miragem, como a miragem fenícia ou cartaginesa de Oliveira Martins! Interessa, porém, antes de rebatê-la, que nos fixemos sobre o que se deva compreender por «Espanha muçulmana», em face das últimas conclusões dos arabistas. Oiçamos novamente o mestre eminente que é Giménez Soler: «Lo que se conoce en la historia de la península con el nombre de invasión árabe, ni fue invasión ni árabe: fue simplemente el derrumbamiento de un organismo o organización social viejo, caduco y podrido, que vino al suelo al leve empuje de unos muy pocos aventureros: los españoles que soportaban con pena la opresión, pusiéronse de parte de los invasores; estos se conformaron con el botín ofrecido a cambio de vida, y al sonar en África las voces de las riquezas de España y de la facilidad con que se ganaban, el estrecho se cubrió de naves, que sin cesar desaguaban en la península la población bereber de la otra: árabes de pura raza contadísimos, bereberes afines de los iberos numerosos, mas la población indígena los absorbió». E o autor de La antigua península ibérica reproduz em seguida um pequeno trecho do Discurso de recepción en la Real Academia Española, de D. Julián Ribera Tarragó: El elemento árabe entró en dosis casi infinitesimal en la química social de los musulmanes españoles: la mejor denominación que se les puede dar no es la de árabes, sino la de españoles; son de raza hispana, aunque en algunas famílias se mezclara la sangre extranjera y además fuesen musulmanas.» Assim – exemplifica D. Julián Ribera Tarragó –, «la família de los Omeyas, de pura cepa árabe, porta estandarte de la dominación arábiga, mantenedora oficial de la leyenda árabe, defensora del islamismo, respetuosa en los actos de su corte con la alcurnia y la nobleza de Coraix, tenía en sus venas más sangre europea que oriental; y si tenía tan mínima parte de sangre semita, ¿qué hemos de creer de la imensa mayoría de sus vasallos?»

Nutrindo-se, realmente, o grosso dos exércitos árabes de uma multidão inesgotável de berberes, quem seguir atentamente a história da ocupação sarracena reparará logo que, nas insurreições permanentes que a acidentam, os elementos indígenas, ou sejam os hispanos, fazem causa comum sem dificuldade com os numerosos enxames humanos trazidos do norte de África e espalhados a esmo pela Península fora. O parentesco da raça promovia essa aproximação, a que se associavam ainda aqueles antigos cristãos que, mais tíbios ou mais ambiciosos, haviam aderido à religião dos invasores, para manterem antigos interesses ou ganharem novas posições.

O arabismo, por isso, nas extensas zonas ocupadas não é senão uma ficção oficial – como diríamos hoje. A prova têmo-la, e bem vincada, no facto já citado das contínuas sublevações que atormentaram, até enfraquecê-lo sem remédio, o poder islamita na Península. E é importante registar que precisamente nas regiões ocidentais e na faixa correspondente ao actual sul de Portugal é que se manifesta com mais intensidade esse espírito de insubmissão por parte das populações moçárabes. Logo durante o vice-reinado de Yusuf Alfihri, um tal Orua-ben-Alualid consegue revoltar-se em Beja com os cristãos subjugados e com outras gentes – naturalmente berberes – e apoderar-se de Sevilha, ainda que momentaneamente. Mas com Abderrahman I funda-se o califato do Ocidente e, nas suas campanhas avassaladoras, uma há que se dirige especialmente contra os habitantes do levantadiço Ocidente. «En una de sus expediciones se movió de Sevilla con su hueste – conta-nos o insigne D. Francisco Xavier Simonet na sua Historia de los mozárabes de España – para sosegar a los españoles de la parte ocidental, que al parecer eran los más: inquietos, y avasalló a los de Beja, Évora, Santarén, Lisboa y todo el Algarve.» E em nota Simonet acrescenta: «Acaso esta expedición fue la que Abderrahman I llevó a cabo por los anos 763 a 764 contra cierto caudillo llamado Alalá-ben-Moguit, que sublevado en Beja con el apoyo de varias milicias árabes y de los siervos indígenas, puso a punto de ruína el nuevo Imperio.»
Não é possível historiar aqui os levantamentos constantes do elemento hispânico, ou moçárabe, em toda a Península islamizada. Esses levantamentos, sobretudo em Extremadura e no Aragão – empregamos apelativos correntes, para expressão mais fácil e mais rápida –, contribuíram de maneira decisiva para o desmembramento do califado de Córdova. No Aragão, os Benu-Casi fundam um reino independente. Eram de linhagem visigótica os Benu-Casi, que, a troco da sua apostasia, se mantiveram na posse do seu poderoso senhorio na margem direita do Ebro. «Aunque apóstata por el interés – elucida Simonet –, dicha família conservó el espíritu de su raza, pues se unió por medio de casamientos con Príncipes de los cristianos independientes.» Derivando igualmente de estirpe goda, o caudilho andaluz Omar-ben-Hafsum, que morre convertido ao Cristianismo, ameaça de desagregação no sul da Península a monarquia dos Omeias. Verdadeiro chefe do partido nacionalista, alguém o comparou na audácia e no amor à liberdade a Viriato, o antigo caudilho dos Lusitanos. Paralelamente, Abderrahman-ben-Meruan, insurrecto estremenho, depois de uma existência aventurosa, acaba por fixar-se em Badajoz, lançando as bases do futuro reino árabe deste nome. Abderrahman-ben-Meruan, ou simplesmente Abenmeruan, foi conhecido por o gallego, ou filho do gallego – o que deixa entrever claramente a sua origem cristã, sabido que, para o arabismo oficial, ‘galego’, ou ‘homem do norte’, valia por sinónimo de ‘nazareno’.

Na sua rebeldia afortunada, Abderrahman-ben-Meruan alia-se com outro sublevado, Sadun-ben-Fatah, que se tornara autónomo num castelo cerca de Coimbra. «Fuerte con esta alianza – continua detalhando Simonet –, Ibu Meruan sublevó a los muladíes de Mérida y la comarca circunvecina; y como entre sus compatriotas los había cristianos y los había renegados, deseando conciliar sus creencias, les predicó una nueva religión, monstruosa mezcla del Cristianismo y del Islam. Ibn-Meruán acudió también en auxílio de los cristianos libres, estrechando una alianza con el rey de León, D. Alfonso, con cuyos estados se avecinaba, y a esta alianza debió Ibn-Meruán el sobrenombre de Alchaliqui o el Gallego, que le dan ordinariamente los historiadores árabes.»

Adivinha-se bem o fermento de invencível nacionalismo que o poder arábigo não alcançou nunca debelar nas populações submetidas. Viu-se já como o ocidente peninsular se manifestara refractário à dominação muçulmana. O reino de Badajoz, de que Aben-Meruan lançou os fundamentos, é disso uma prova concludente. Nele ressuscitava a antiga Lusitânia quase integralmente, correspondendo assim ao latejar de um génio social e étnico bem longe de se considerar extinto. «El reino de Badajoz – informa D. Matías Ramón Martínez y Martínez[5] – abarcó en sus límites toda la antigua Lusitania y parte de la Beturia, exceptuando algunas ciudades del Algarbe portugués, que se alzaron independientes, y algunas poblaciones situadas a la banda meridional del Duero, que fueron conquistadas por los reyes de León antes que se desmoronase el Estado árabe...» Efectivamente, quem se recordar do mapa das Espanhas nos últimos anos do século XI com que Menéndez Pidal ilustra o segundo volume do seu Cantar de Mío Cid, constatará que, tirando o avanço dos portugaleses até à linha do Mondego, já então consumado, o reino árabe de Badajoz abrangia quase totalmente o sul do nosso país. E digo quase totalmente, porque no desencadear dos velhos instintos localistas «otro caudillo muladi – noticia ainda o inesgotável Simonet – fundaba un señorío, pequeño reino en la parte de Portugal que hoy conserva el nombre arábigo del Algarbe. El caudillo, de linaje godo, como Omar-ben-Hafsun, se llamaba Yahya, hijo de Becr, era nieto de un agemí o mozárabe llamado Zadulfo (ó acaso Rodulfo) y se declaró independiente en los últimos años del reinado de Mohammed en la cora o provincia de Ossonoba. Sucedióle en el principado su hijo Becr-ben-Yahya, varón de grandes prendas, el cual supo asegurar en sus manos el señorío heredado, pues reconociéndole por su caudillo la población española de aquella comarca, llegó a dominarla toda...»

«Bajo el reinado de este Becr – prossegue Simonet – florecieron su Corte y Estado con toda la brillantez de la civilización árabe adoptada por los antiguos españoles; pero hallando de par la debida protección la religión y culto cristiano. Rodeóse Becr de una pompa verdaderamente real... Solía residir en la ciudad de Silves; pero su Corte era Santa María de Ossónoba, llamada por otro nombre Santa Maria de Algarbe, hoy Faro.»

E logo adiante o autor da Historia de los mozárabes de España esclarece: «En la misma comarca del Algarbe, pero más al Norte, y confinando por otra parte con los estados de Becr, fundó otro señorío... Abdelmélic-ben-Abilchauad, poniendo su capital en la ciudad de Beja, antigua sede obispal, y contando entre sus plazas furtes la de Mértola, antigua Myrtilis. Este príncipe entró en alianza con sus vecinos los de Badajoz y Ossónoba.»

Não esmiuçarei o tumultuoso cortejo de vicissitudes em que todos estes três senhorios – Badajoz, Ossónoba e Beja –, o de Badajoz, de sensível extensão, acabaram por se desfazer. O que importa é assinalar a reacção nacionalista, alimentada não só pela unidade da raça, mas, sobretudo, pelo sedimento forte que o Cristianismo depositara nas almas. Reparou se, decerto, na expressão de Simonet, ao referir-se a Becr-ben-Yakya, quando no-lo apresenta como caudilho da «población española de aquella comarca» (Algarve). É o reconhecimento inequívoco das espessas camadas cristãs que subsistiam ao sul do Tejo e que, muito distanciadas da resistência das monarquias católicas do norte da Península, não podiam, por essa circunstância dominadoramente impeditiva, lançarem-se no caminho desejado da autonomia. No entanto, como no-lo confirmam os pequenos principados de Silves e Beja e com eles a monarquia de Badajoz, a base fundamental dessas minúsculas soberanias advinha-lhes do apoio dos moçárabes, que nelas encontravam maior liberdade para o exercício das suas crenças.

Nesta ordem de ideias é oportuno recordar que, no ocidente da Península, Coimbra, encostada ao mosteiro de Lorvão, seu vizinho, representou um centro importante de moçarabismo. Na sua excelente e bela monografia Iglesias mozárabes,[6] o professor e crítico de arte espanhol, senhor Gómez-Moreno, escreve a tal respeito que Coimbra constituía «acaso el foco más potente de mozarabismo en el país occidental». Acontece que, em virtude de circunstâncias ainda mal conhecidas, Coimbra se livrara, por acordo com os invasores, da repartição das suas terras, quando da conquista agarena, permanecendo, ao que parece, com governo autónomo. Mas nessa sua vida autónoma, «un hecho vino a transtornala poco después de 886 – elucida o senhor Gómez-Moreno –, pues, amenazada por enemigos, obtuvo el auxilio de Alfonso el Magno, que no solamente la incorporó a sus estados sino que llevó hasta allí probladores gallegos, quedando nuevamente urbanizadas Braga, Oporto, Viseo, Lamego y demás ciudades importantes hasta al Tajo...» E adiciona em seguida: «Los fondos diplomáticos por mí conocidos aclaran bien, respecto de lo anterior, algunos puntos: la colonización gallega compruébase por testimonios directos; mas, junto a los advenedizos del norte, persevera una masa de población diferente, con nombres arabizados a medias, sobre todo en territorio de Coimbra, y de cepa tan cristiana que afecta a numerosos presbíteros y monjes, sobre características exactamente iguales que las leonesas... trátase, por tanto, de mozárabes, y su foco más ostensivo dáse en el monasterio de Lorbán, cerca de Coimbra, cujas relaciones con andaluzes arriba quedaron apuntadas, a propósito del arquitecto cordobés Zacarías, y cuyo orígen mozárabe parece indudable... Es, pues, notorio, que ni la dominación asturiana, por lo menos en tierra de Coimbra, ni la de Almanzor destruyeron la convivencia religiosa, como tampoco probablemente su organización, ya que se observa el hecho de no registrarse por allá juicios con prueba caldaria, según práctica goda de Asturias, sino que regía la ley romana del Librum iudicum. Todavia, cuando Fernando I conquistó a Coimbra puso allí por cónsul o alvasir a Sisnando, hijo de David, un mozárabe educado en la corte de Sevilla, y el facilitó la afluencia de otros cristianos llegados de tierras musulmanas.» E o professor Gómez Moreno conclui: «Con esta persistente acción del elemento indígena en Portugal, no puede extrañar que los documentos latinos ofrezcan un cierto caudal de formas romanceadas, reflejo del habla vulgar, y palabras árabes, alusivas principalmente a importaciones comerciales y a técnica de organización andaluza.»

Enuncia o senhor Gómez-Moreno nas suas últimas palavras um dos lados mais curiosos e mais decisivos da questão: é o que se relaciona com o idioma ou língua que os moçárabes falariam. Não resta já dúvida nenhuma que eles não falavam o árabe e que tempos houve em que mesmo nos centros de maior cultura islamita os dialectos peninsulares se sobrepuseram à própria linguagem arábiga. Entrando de relance em tão delicado capítulo, amparo-me dos ensinamentos do eminente arabista espanhol, D. Julián Ribera (sempre a erudição espanhola, à qual me confesso infinitamente devedor e cujo concurso é de todo em todo indispensável para quem deseje avançar com segurança no terreno da história pátria!), a quem o estudo das origens do lírismo peninsular pode agradecer os mais nobilitantes pergaminhos da sua alta pristinidade.

No seu Discurso de admissão à Real Academia de la Historia, escolheu D. Julián Ribera y Tarragó para tema a desenvolver as «huellas, que aparecen en los primitivos historiadores musulmanes de la Península, de una poesía épica romanceada que debió florecer en Andalucía en los siglos IX y X.» Era um assunto que se prendia com o que já fôra tratado pelo ilustre sábio no seu Discurso de ingresso na Real Academia Española. Sustentara aí o senhor Ribera y Tarragó que «la clave misteriosa que explica el mecanismo de las formas poéticas de los varios sistemas líricos del mundo civilizado en la Edad Media está en la lírica andaluza, a que pertenece el Cancionero de Abencuzmán.» – Guarda-se, ou guardava-se talvez, o Cancioneiro de Abencuzmán no Museu Asiático de São Petersburgo e a sua prioridade sobre as primeiras aflorações da lírica provençal acha-se de sobejo testificada. Pela afluência de escravos cristãos do noroeste da Península aos mercados de Córdova, onde tinham especial procura pelas suas qualidades de inteligência – e ainda pelos metros e ritmos empregados – supõe D. Julián Ribera que a poesia de Abencuzman, reflectindo a influência de uma poesia popular romanceada, reflectiria implicitamente a poesia do velho tronco galaico-lusitano, porque «la lírica gallega, por confesión de romanistas, es una de las más arcaicas de Europa, la mas antigua de España; Jeanror confiesa aduz o senhor Ribera y Tarragó, «que la lírica portuguesa es rebelde a la tentativa de adjudicarle origen francés, sobre todo las cantigas o cantares de amigo». E o insigne catedrático espanhol remata sem vacilações: «Dados tales antecedentes, yo creo que para explicar el origen de la lírica de Abencuzmán debe suponerse: o una lírica andaluza romanceada, anterior al siglo X, más antigua que la que aparece en los cancioneros portugueses, o una lírica gallega antiquísima, que la colonia gallega trajo a Andalucía, de donde procede la romanceada andaluza anterior a Abencuzman.» Ora a sensacional descoberta atinge uma perspectiva inesperada, se nos recordarmos que «los monumentos de la lírica europea en lenguas vulgares, provenzal, alemana de los Minnesänger y la italiana (y aún los latinos de los Carmina burana, etc.) aparecen con posterioridad a la lírica vulgar de los musulmanes españoles». Não é, porém, o fio que nos cabe agora seguir, este da genealogia da poesia lírica europeia, embora se enlace tanto com o estudo apaixonante da formação da nossa nacionalidade. Sempre na esteira dos vestígios que os dialectos romances deixaram de si nos escritores e documentos árabes, o senhor Ribera y Tarragó, ao volver ao tema predilecto no Discurso de entrada na Real Academia de la Historia, depois de demonstrar no seu prefácio à História dos juízes de Córdova de Aljoxani,[7] que, três séculos corridos sobre a conquista muçulmana, ainda o idioma árabe não havia penetrado nos antigos naturais islamizados, exprimia-se deste modo, aludindo à existência do romance falado na zona ocidental da Península, que é hoje Portugal: «Respecto de Portugal, casi es inútil buscar pruebas, considerando que essa región ha vivido más apartada de las influencias árabes que Aragón, Valencia y Murcia; pero es curiosa anécdota la que se nos refiere en el Manuscrito del Museo Jalduni, fol. 2 v.º, en que aparece un sabio portugués de Santarén hablando en romance dentro de la Aljama de Córdoba.» Mas seria esse romance o mesmo que se falava no resto de Espanha? Ainda neste capítulo, a erudição espanhola nos ajudará. «Ahora bien – escreve o abalizado filólogo D. Ramón Menéndez Pidal, respondendo ao arabista D. Francisco Codera na sua recepção na Real Academia Española – la lengua castellana difiere de los demás idiomas romances sus hermanos en perder la j o g latina inicial delante del e o i inacentuada, por ejemplo en los vocáblos enero, hiniesta, hinojo, helar, enebro, mientras los otros idiomas de la Península conservan la consoante latina, de acuerdo con el francés, italiano y demás idiomas romances, y así el portugués dice janeiro, giesta, el leonés genero, giniesta, y el catalán janer, ginesta. Por donde vemos que el romance hablado en Andalucia, antes de la reconquista de esta región, convenía en este rasgo con el portugués, leonés, aragonés y catalán y no con el castellano.» E parágrafos adiante o senhor Menéndez Pidal insiste na sua ideia: «En fin, esta opinión que acabamos de exponer trae como consecuencia una sumaria teoría del estado prehistórico de los idiomas romances en la Península. Estos hallábanse hasta el siglo XI distribuidos en forma muy diversa de la que después estubieron. En el mapa linguístico de España desde el siglo XIII acá los dos extremos dialectales, es decir, el portugués y leonés al Occidente, y el catalán y aragonés al Oriente, están absolutamente aislados por el castellano, que entre uno y otro se dilata en una zona central ensanchada notablemente de Norte a Sur. Muy al contrario nos hemos de representar el mapa antiguo: esos dos extremos, no sólo se acercaban más por el Norte, sino que se unían en el Centro y el Sur, mediante el habla de las regiones de Toledo y Andalucía análoga a la de los dos extremos.»

Reputo ser o suficiente para que se haja de caracterizar o romance que os naturais das zonas islamizadas do actual Portugal falariam entre si. Deduz-se daqui quanto Alberto Sampaio se enganou, ao supor o português uma língua imposta pelos cavaleiros da Reconquista aos seus irmãos de aquém do Tejo. Mas já claramente o perscrutava essa vigorosa, embora desconexa, cerebração que foi Adolfo Coelho. Eis como ele se manifesta num pequeno estudo, que intitulou Origens do português do Sul: «Os trabalhos históricos, especialmente de Alexandre Herculano, provavam que no S. existia, sob o domínio muçulmano (berbere-árabe), uma população cristã, isto é, de moçárabes, cristãos em parte arabizados. Um ponto importante resta esclarecer nesta matéria.» E Adolfo Coelho pergunta: «Que língua falavam esses moçárabes?»

«Foi sempre minha convicção – declara ele – que as populações cristãs do S. do que veio a ser Portugal falavam já, antes da reconquista do século XII, a mesma que as do N., embora um pouco diferenciada, não constituindo, porém, como se supõe por uma falsa analogia, absolutamente gratuita, uma língua distinta, para se poder opor à do N., como na França a língua d’oc à língua d’oil. Essa convicção derivava principalmente do estudo de nomes de lugar, rios, montes, etc., do S. e do N. comparados. O latim, cuja extensão em toda a faixa ocidental da nossa Península, compreendendo a moderna Galiza e Portugal (como no resto da Península, exceptuando o domínio do basco), se suspeita do estudo dos autores antigos, e das inscrições e monumentos do período romano achados em nosso solo, ter-se-ia ido modificando de modo por assim dizer igual nessa faixa, por oposição ao latim do leste, que seguia outra direcção revelada nos dialectos que chamamos espanhóis. Nos documentos em latim bárbaro, que vieram até nós a partir do meio do século IX, transparece a língua vulgar, o português do N., em grande número de formas e na sintaxe. Não havendo documentos do S. anteriores à reconquista, temos que recorrer aos nomes próprios aludidos e investigar se há entre eles maior ou menor número que razões aceitáveis nos façam considerar como existentes no S. antes dessa reconquista, e examinar se esses nomes devem ser considerados na sua fonética e morfologia, ou, pelo menos na sua fonética, como portugueses.»

E das reflexões de Adolfo Coelho é quanto nos basta, para que, somadas aos subsídios antecedentes, se evidencie, mesmo na época anterior à Reconquista, uma identidade linguística entre o Sul e o Norte, traduzindo, à parte variantes mínimas, a identidade da mesma raça. E se o Sul, mais castigado pela presença islamista que o Centro, não nos oferece um foco de moçarabismo tão assinalado como Coimbra e o mosteiro de Lorvão, seu vizinho, não olvidemos também que, em seguida ao desmembramento do Califato de Córdova, e antes da vinda dos Almorávides, a sua cultura foi notabilíssima nas côrtes dos pequenos valiatos de Évora, Beja e Silves, incluindo Badajoz – sede da monarquia dos Alaftas. Não desfiarei o cortejo interminável de homens ilustres, pensadores, poetas e guerreiros, que ali tiveram o berço. Esses, de maior ou menor formação arábiga, conquanto de origem indígena, não contam para o nosso caso. Como sinal de profunda revivescência autóctone no território que é hoje, sobretudo, o Alentejo, deixaram resonância na história as constantes rebeliões contra o poder do Califado, fomentados principalmente pelas massas moçarabizadas. A anedota do sábio natural de Santarém, falando romance em plena aljama de Córdova, testifica-nos também quanto essa linguagem se não restringia às camadas ínfimas e obscuras. E se nos recordarmos agora que, talvez igual ao de Lorvão, existia no Algarve um outro cenóbio cristão de nomeada por todas as Espanhas, acabaremos de convencer os mais incrédulos. Era o santuário do Cabo de São Vicente, afamada igreja do ‘Corvo’, onde se guardavam as relíquias do santo mártir. O geógrafo árabe Idrisi, tal como Estrabão, de citação inevitável em geografia antiga da Península, descreve-a assim: «Desde Tarf-algarb à igreja do Corvo vão sete milhas. Esta igreja não sofreu alteração nenhuma desde o tempo dos Romies (cristãos), possuindo muitos bens pelas esmolas que lhe fazem e pelas ofertas que lhe levam os cristãos, que ali acodem em peregrinação. Está situada sobre um promontório que se interna pelo mar. Sobre a torre da igreja há sempre dez corvos, os quais nunca ninguém viu ausentarem-se de ali... Quantos passam por aquela igreja vêem-se obrigados a não sairem enquanto não hajam participado da comida que ali se oferece... A igreja, com as suas pertenças, está servida por sacerdotes e monjes, e possui tesouros consideráveis e rendas copiosas, na sua maior parte derivadas das esmolas e donativos recolhidos nas comarcas e povoações do Algarve, empregando-se tanto nas necessidades da igreja, dos seus ministros e das demais pessoas, dedicadas ao seu serviço, como em acolher os viajantes e peregrinos que venham a visitá-la, sejam poucos ou muitos.»

Também em Faro, e daí o seu nome de Santa Maria de Faro ou do Ocidente, se erguia um magnífico templo, dedicado a Nossa Senhora. Informa Simonet: «Esta iglesia, según los escritores árabes, era de excelsa fábrica y con enormes columnas o pilares de plata de gran altura y de tanto grueso, que un hombre no era bastante para rodear una de ellas con entrambos brazos, iglesia, en fin, con la que no competía en celebridad por este tiempo ninguna de la España árabe, sino la famosa del Cuervo situada en el mismo territorio del Algarbe... Es de presumir – continua Simonet – que esta iglesia de Santa Maria de Ossónoba haría de Catedral, y más estando en la capital de la comarca y donde, bajo la dominación visigoda, hubo silla episcopal sufragánea de Mérida. Es asimismo de suponer que en todas las comarcas que por este tiempo se fueron emancipando del yugo sarraceno bajo jefes españoles, aunque mutadíes, volverí a florecer el culto católico, se restaurarían las sedes e iglesias destruídas y se crearían acaso otras nuevas, floreciendo las conservadas desde los tiempos antiguos. Consta de um modo terminante que así succedió en algunos distritos, como lo veremos oportunamente, y así no es aventurado suponer que lo propio sucediese en Beja, Ossónoba y otras províncias.»

Para quê insistir? A unidade da raça está mais que evidenciada na unidade da Língua e na unidade da Fé. Assim não admira que à maneira que os cavaleiros da Reconquista avançavam, se visse levantar – na frase de Martins Sarmento – «dos confins do Algarve até às fronteiras da Galiza um povo possuindo o mesmo modo de sentir e de pensar». Na dissolução dos laços sociais que a catástrofe visigótica ocasionara, o Cristianismo o manteve ligado, cimentando assim os alicerces da futura pátria portuguesa. À mercê do seu vagabundismo filosófico, intentou o senhor Basílio Teles desmentir essa rara virtude colectiva provada longamente durante o decurso secular das gerações.
​
Não há Norte contra o Sul – nem Sul contra o Norte! Há na sua bela homogeneidade moral e social o Portugal de nós todos – o Portugal que tanto nasceu da espada de Afonso Henriques, como das obscuras cristandades moçárabes em que o génio da raça se perpetuou iluminadamente, graças ao calor de um como que pré-sebastianismo. Que o Portugal de nós todos reine sempre em senhor das nossas inteligências e que as teorias que levam à guerra civil se expulsem sem contemplações das páginas imortais da sua história!
 


[1] Era de resto, entre nós, a opinião do sábio arqueólogo Martins Sarmento. Na sua Ora Marítima, 2.ª edição, diz ele, a pp. 146-147: «Mesmo com respeito à civilização dos Fenícios (Tírios e Cartagineses), em que se poderia pensar, nota-se com certa surpresa que no sul da península ibérica, onde eles se mantiveram quase ininterruptamente desde o século XII a.C. até à segunda guerra púnica, tão insignificantes sejam os vestígios da sua ocupação e da sua influência, que ninguém diria que elles por aí demorassem tantos séculos, se a história o não afirmasse peremptoriamente.»

[2] Ora Marítima, 2.ª edição, pp. 161-162.

[3] Vid. Boletín de la Biblioteca Menéndez Pelayo, ano II, Santander, 1920.

[4] Bosch Gimpera, Los Celtas y la civilización céltica en la Peninsula ibérica, Madrid, 1921, Boletín de la Sociedad Española de Excursiones.

[5] Historia del reino de Badajoz durante la dominación musulmana, Badajoz, 1904.

[6] Madrid, 1919.

[7] Madrid, 1914.

Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fixemo-nos deste detalhe e ele nos dará a chave de muito enigma da história da ocupação muçulmana na Península, em que berberes e naturais se acabaram de aliar, minando a pouco e pouco o poder, só aparentemente consolidado, do unitarismo islamista. A única barreira que separava entre si esses dois ramos da mesma família era a religião. O Cristianismo na Península levara os seus habitantes a uma maior capacidade civilizadora, enquanto que o berbere, adormecido numa vida inferior de instintos, não logrou atingir um estádio de sociabilidade tão adiantada pelo marasmo em que o deixou a moral depressiva do maometismo.
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
Fotografia
António Sardinha - À sombra dos Pórticos, Lisboa, Ferin, 1927, pp. 3-56.

Refs

I (pp. 3-30)
  • Alberto Sampaio (1841-1908), As vilas do norte de Portugal - p. 3
  • Basílio Teles (1856-1923), Estudos Históricos e Económicos, 1901. - p. 3-4 [ 1901_-_basilio_teles_-_estudos_historicos_economicos.pdf ]
  • Giuseppe Sergi (1841-1936), The Mediterranean Race: a study of the origin of European Peoples, 1ª ed., em italiano, 1895 (Segundo o Autor, em 1901, a edição em lingua inglesa veio a ser a mais completa: London & New York, The Walter Scott Publishing - Charles Scribner's Sons, 1909).
  • Manuel Antón y Ferrándiz (1849-1929), Razas y tribus de Marruecos, 1903 - p. 8
  • Andrés Giménez Soler (1869-1938), La antiqua peninsula ibérica - p. 8, 11
  • Otto Meltzer (1846-1909) e Ulrich Kahrstedt (1888-1962), História de Cartago. - p. 8
  • Martins Sarmento (1833-1899), Ora Marítima, 2ª edição. - p. 9
  • M. A. Coelho da Rocha (1793-1850), Ensaio sobre a História do Governo e Legislação de Portugal, 1841. [1841_-_coelho_da_rocha_-_ensaio_sobre_a_historia.pdf ]
  • Rocha Peixoto (1866-1909)​, Formas da vida comunalista em Portugal: «Formas da Vida Communalista em Portugal. Summario de uma monographia inedita», in Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1908. Secção Portuguesa. Notas sobre Portugal, vol. I (Lisboa, 1908), pp. 73-83; «Survivances du Régime Communautaire en Portugal (Abregé d'une monographie inédite)», in Annaes Scientificos da Academia Polytechnica do Porto, vol. III, n.° 4 (Coimbra, 1908), pp. 205-221; «O communismo em Portugal», no jornal O Primeiro de Janeiro, Porto, 25 de Dezembro de 1908 (p. 1), de 1 de Janeiro de 1909 (pp. 1-2) e de 6 de Janeiro de 1909 (pp. 1-2). [ rocha_peixoto_-_formas_vida_obras.pdf ]
  • Manuel Bento de Sousa (1835-1899), O Doutor Minerva, 1894.
  • Claude Bernard, Les phénoménes de la vie

​II (pp. 30-56)
  • Basílio Teles, O problema agrícola; Estudos Históricos e Económicos, 1901.
  • Alberto Sampaio, O Norte Marítimo in Revista de Portugal.
  • Teófilo Braga, O povo português nos seus costumes, crenças e tradições.
  • Joaquin Costa, Viriato y la cuestión social en España en el siglo II antes de Jesucristo, in Tutela de pueblos en la História.
  • Adolfo Schulten, in Boletin de la Biblioteca Menendez y Pelayo, an. II, Santander, 1920.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]