Pátria e Monarquia
António Sardinha
em 1384 são os concelhos que iniciam o movimento resgatador. Mas sem um rei, sem a monarquia, esse trecho da nossa epopeia municipal abortava em cenas avulsas de carnagem...
- António Sardinha
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António Sardinha trata da profunda ligação histórica entre a ideia de Pátria e a Monarquia em Portugal. Pensadores como Alberto Sampaio destacaram que a formação da nacionalidade portuguesa resultou tanto das qualidades naturais do povo quanto da ação organizadora do Estado, especialmente através da Monarquia. A Monarquia foi essencial para dar direção, consciência e continuidade ao sentimento nacional, consolidando Portugal como distinta entidade política e jurídica. Argumenta que, antes das divisões partidárias do século XIX, Monarquia e Pátria eram praticamente sinónimos em Portugal, sendo a Monarquia o órgão vital para a independência e longevidade do país. Exemplos históricos mostram que, nos momentos em que a sucessão régia foi contestada ou faltou um rei, a nacionalidade esteve ameaçada. A experiência europeia é usada para reforçar a tese: países como França e Alemanha só se consolidaram como nações após a estabilização de suas monarquias, enquanto Hungria e Polónia perderam a independência ao perderem as suas monarquias.
Pátria e Monarquia
Este problema da identificação da Pátria com a Monarquia, ninguém o colocou melhor do que o insigne Alberto Sampaio. Em nota à sua monumental monografia – As ‘vilas’ do norte de Portugal – escreve esse malogrado espírito que entre nós foi o único tocado pela influência salutar de Fustel de Coulanges: «Formado pela educação histórica, é ele (o génio da raça, na sua própria frase), quem organiza a vida social; sobre esta, nada pode a ação do governo, decisiva pelo contrário na vida nacional.» De facto, assim é. A aptidão comunitária da gente que subsistiu, através de tantas invasões no noroeste peninsular, veio, pelo andar dos séculos, a traduzir o belo instinto nacionalista, que tornou possível a formação de Portugal. No entanto, as qualidades naturais da raça não vingariam nunca, se às tendências expansivas o Estado não acabasse por lhes conferir uma finalidade e uma consciência. É aqui que a Monarquia intervém, realizando pelo egoísmo dinástico a consolidação definitiva da Pátria, saída já do protoplasma primitivo e entrada enfim na sua fase de diferenciação jurídica e política.
São-me sugeridas as presentes reflexões pelo debate levantado em pleno Parlamento sobre a obra colonizadora da Monarquia no Brasil. O sectarismo da maioria pronto atalhou que não fora a Monarquia, mas sim a Pátria, que no Brasil nos criara um segundo Portugal. Claro que a Monarquia – ideia de regime, bandeira de partido – é uma novidade de importação que só aparece em Portugal quando a divisão moral do século passado provocou, pelo advento dos princípios da Revolução, as lutas civis em que o equilíbrio das aspirações coletivas seria substituído pela supremacia de uma opinião triunfante.
Antes disso, na sua completa significação, ‘Monarquia’ em Portugal valia o mesmo que ‘Pátria’, de que era o órgão necessário à sua vitalidade, à sua independência e à sua duração. Confirmando o acordo das preferências obscuras da nacionalidade com o prestígio e a soberania da Realeza, a nossa história demonstra-nos que em transe nenhum a conveniência dinástica se mostrou divergente ou antagónica da conveniência geral. Pode a Monarquia anteceder uma nacionalidade. Mas nacionalidade sem Monarquia é que nós não vemos persistir e fortificar-se na existência acidentada dos povos da velha Europa.
Compreende-se assim a inteira identificação da Pátria com a Monarquia. A Pátria reflete as maiores ou menores possibilidades de um agregado nacional para o seu desenvolvimento e para a sua permanência. Esse desenvolvimento e essa permanência é que se não obtêm sem que, no Estado constituído, a noção do interesse de uma dinastia nos surja a desposar o interesse da comunidade. A demonstração é fácil de se deduzir, se há quem lhe pretenda contestar a evidência. Nos termos de Alberto Sampaio, a capacidade orgânica da nossa raça conseguira estabelecer a vida coletiva.
São os primórdios de uma nacionalidade, são os seus alicerces mais seguros. É donde nasce a irresistível inclinação separatista que Herculano nos assinala insuspeitamente ao observar que «é impossível deixar de reconhecer na série dos factos que ilustram a história do estabelecimento da independência portuguesa certo instinto da vida política individual nas populações aquém do Minho, que já anuncia nelas a futura perseverança com que resistiram desde então até hoje a assimilar-se ao resto da Espanha e a incorporar-se nela».
Elemento para contar, de nada nos serviria, entretanto, se a ambição de D. Tareja, consubstanciada depois em D. Afonso Henriques, não desse origem a um Estado lá onde vibrava, já em franco florescimento, o condicionalismo indispensável para uma existência de povo livre. No dia em que um príncipe desfralda o pendão da revolta, é Portugal que se emancipa. Possuindo um chefe, possui na continuidade e na persistência desse esforço a ação inteligente e una, sem a qual não há poder que facilite a defesa na guerra e que garanta a autonomia na paz.
Apesar de nos Opúsculos haver afirmado que «na história das instituições os Povos da Península são mais velhos do que eles pensam», ninguém ignora que Alexandre Herculano considerava Portugal unicamente um produto da política exclusivista dos seus príncipes. «Obra a princípio de ambição e orgulho – comenta o historiador –, a desmembração dos dois condados do Porto e de Coimbra, veio por milagres de prudência e energia a constituir, não a nação mais forte, mas decerto a mais audaz da Europa nos fins do século XV.» De nada mais careceríamos para testemunhar bem claramente quanto a Pátria anda ligada à Monarquia, e quanto a Monarquia é a razão essencial de toda a sua glória e viabilidade.
O mesmo juízo nos oferece Oliveira Martins, não obstante a sua funesta teoria do Acaso, negando-nos criminosamente fundamentos de nacionalidade. Ora se na visão restrita daqueles mesmos autores, para quem as nossas condições de nação autónoma não se revestem de nenhuma explicação que não seja a de um simples arranjo dinástico, a Monarquia é desta maneira apresentada como a força íntima que gerou a Pátria, com dobrados motivos a temos nós que reconhecer e aceitar como tal, olhando a que, sem ela, sem a sua decisão eficaz e rápida o irredentismo do condado portucalense jamais iria além das debilitadas reivindicações regionalistas da Galiza atual. Alberto Sampaio examinava, pois, o problema com exatidão. Se a vida social já existia, a vida nacional não existiu, enquanto não existiu um governo que lhe imprimisse forma e consistência.
Mas nós dissemos que pode a Monarquia anteceder uma nacionalidade. Mas nacionalidade sem Monarquia é que não se descobre no desenho emaranhado que são as origens das nacionalidades europeias, insistimos agora. Com efeito, em França a Monarquia antecede a Pátria cuja unificação começa lentamente, num labor demorado e difícil, com a subida dos Capetos ao trono. Na verdade, só com Henrique IV é que a França concretiza e fixa as linhas definitivas da sua fisionomia. Também a Alemanha se arrastou através de um longo purgatório antes de conhecer a unidade, porque lhe faltou a sequência dinástica, graças à qual – depõe Lavisse – «outros países se constituíram em Estados que, a seguir, se tornaram nacionalidades». Opostamente, duas nacionalidades, com as suas características bem marcadas, bem assentes, acabaram por perder a independência porque deixaram perder a monarquia no meio das discórdias intestinas. Refiro-me – é de ver – à Hungria e à Polónia.
«Mas a Suíça?», perguntarão. Triste ‘placa giratória’ da Europa, a Suíça não é mais que a neutralização, a favor dos seus vizinhos poderosos, do antigo caminho da Europa através da montanha. Sem política externa nem atividade económica apreciável, a Suíça não é uma nação nem um Estado. É antes um artifício, conservado e guardado pelas conveniências internacionais do nosso continente, onde o que há de estrutural e de típico nada mais é do que a sobrevivência de um cantonalismo tão arcaico como pitoresco.
Equacionada a questão no ponto em que a fixamos e que é rigorosamente o verdadeiro, não é lícito atribuir à Monarquia o sentido partidário em que as circunstâncias presentes a pretendem tomar. «Monarquia» equivale a «unidade da nação» pela «unidade do poder». Admirável palavra a de Balzac, ao exclamar em face do embarque de Carlos X em Cherburgo: «O Rei é a pátria encarnada, os reis somos nós mesmos!» Porque o rei é a pátria encarnada, João de Barros, o antigo, o das Décadas, escreveria em Quinhentos: «Grande glória é morrer por nossa Lei, per nosso Rei, que são as mais justas causas de morrer. A Grei, que é a congregação dos nossos parentes, amigos, e compatriotas, a que chamamos república, celebra o nosso nome de geração em geração. O nome Português é por isso tão celebrado no mundo, a quem Deus deu este particular dom sobre todas as outras Nações, Defensores da Fé, e leais ao serviço do seu Rei» (Década II, liv. 3.º, cap. 3.º).
Sem essa identificação da Pátria com a Monarquia, quem, com os primeiros Reis, atribuiria direção às qualidades construtivas da raça, libertando a terra e enraizando depois as populações? Um instante depois, quando uma dispersão de soberania ameaça desfazer o reino herdado, quem o salva senão a energia – tão caluniada por vezes – do alto político que foi D. Afonso II? Porque é que a nacionalidade se abisma quase na morte ao declinar o século XIV? Porque morre um rei e a sua sucessão é discutida. Sem dúvida, em 1384 são os concelhos que iniciam o movimento resgatador. Mas sem um rei, sem a monarquia, esse trecho da nossa epopeia municipal abortava em cenas avulsas de carnagem, com todos os estigmas de uma verdadeira jacquerie, que Basílio Teles é o primeiro a apontar. Porque há um rei, a Pátria entra no período magnífico de Quatrocentos. Quem desenvolve a expansão, quem mantém o alto pensamento das Descobertas? As unidades da raça afirmam-se, é certo; são a matéria-prima. Quem as adivinha e estimula, porém? O Rei, sempre o Rei, que é na sua forma visível a Pátria bem viva, bem personalizada.
Na hora em que se extingue a segunda Dinastia – porque a Pátria, exausta, não consegue impor-se um rei natural –, o cetro arrasta consigo, na sua queda, quase a perda da nossa independência. Mas tão depressa encontremos um Rei natural, com a ressurreição da Monarquia é Portugal que ressurge. No regime de unidade nacional em que a Pátria então vivia, os eruditos de Alcobaça designam as suas Crónicas por Monarquia Lusitana, como nós escreveríamos hoje História de Portugal. E consagrando essa estreita aliança, no renascimento do nosso eruditismo, D. António Caetano de Sousa comporia a História genealógica da Casa Real.
Fica mais que evidente a razão por que o duque de Orleães ditou um dia a sua fórmula célebre: «Tudo o que é nacional é nosso!» É que a Monarquia, pairando acima das dissensões, mais alta e mais forte que os partidos, quando não cria a pátria, é o único princípio que a conserva e glorifica. Na insurreição do indivíduo contra a espécie, utilizando a frase célebre de Comte, não o quererão assim as mentalidades mordidas do pior sectarismo. Quere-o, porém, a obra secular da nossa história, que é a obra dos nossos Reis colaborando com a nossa raça. Meditemos nós tão grande lição! Deixaram-nos ficar eles em morgadio o património sagrado da terra portuguesa. Não foram perante as gerações senão os seus administradores. «Procurador dos descaminhos do Reino», se intitularia de uma vez espontaneamente, a si próprio, el-rei D. João IV.
Descaminha-se o Reino, porque não temos Rei. E porque não temos Rei, é que a pátria está em perigo. Renove-se o velho consórcio de Portugal com a Monarquia e logo haverá quem nos dirija e caminhe à nossa frente!
in Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926
São-me sugeridas as presentes reflexões pelo debate levantado em pleno Parlamento sobre a obra colonizadora da Monarquia no Brasil. O sectarismo da maioria pronto atalhou que não fora a Monarquia, mas sim a Pátria, que no Brasil nos criara um segundo Portugal. Claro que a Monarquia – ideia de regime, bandeira de partido – é uma novidade de importação que só aparece em Portugal quando a divisão moral do século passado provocou, pelo advento dos princípios da Revolução, as lutas civis em que o equilíbrio das aspirações coletivas seria substituído pela supremacia de uma opinião triunfante.
Antes disso, na sua completa significação, ‘Monarquia’ em Portugal valia o mesmo que ‘Pátria’, de que era o órgão necessário à sua vitalidade, à sua independência e à sua duração. Confirmando o acordo das preferências obscuras da nacionalidade com o prestígio e a soberania da Realeza, a nossa história demonstra-nos que em transe nenhum a conveniência dinástica se mostrou divergente ou antagónica da conveniência geral. Pode a Monarquia anteceder uma nacionalidade. Mas nacionalidade sem Monarquia é que nós não vemos persistir e fortificar-se na existência acidentada dos povos da velha Europa.
Compreende-se assim a inteira identificação da Pátria com a Monarquia. A Pátria reflete as maiores ou menores possibilidades de um agregado nacional para o seu desenvolvimento e para a sua permanência. Esse desenvolvimento e essa permanência é que se não obtêm sem que, no Estado constituído, a noção do interesse de uma dinastia nos surja a desposar o interesse da comunidade. A demonstração é fácil de se deduzir, se há quem lhe pretenda contestar a evidência. Nos termos de Alberto Sampaio, a capacidade orgânica da nossa raça conseguira estabelecer a vida coletiva.
São os primórdios de uma nacionalidade, são os seus alicerces mais seguros. É donde nasce a irresistível inclinação separatista que Herculano nos assinala insuspeitamente ao observar que «é impossível deixar de reconhecer na série dos factos que ilustram a história do estabelecimento da independência portuguesa certo instinto da vida política individual nas populações aquém do Minho, que já anuncia nelas a futura perseverança com que resistiram desde então até hoje a assimilar-se ao resto da Espanha e a incorporar-se nela».
Elemento para contar, de nada nos serviria, entretanto, se a ambição de D. Tareja, consubstanciada depois em D. Afonso Henriques, não desse origem a um Estado lá onde vibrava, já em franco florescimento, o condicionalismo indispensável para uma existência de povo livre. No dia em que um príncipe desfralda o pendão da revolta, é Portugal que se emancipa. Possuindo um chefe, possui na continuidade e na persistência desse esforço a ação inteligente e una, sem a qual não há poder que facilite a defesa na guerra e que garanta a autonomia na paz.
Apesar de nos Opúsculos haver afirmado que «na história das instituições os Povos da Península são mais velhos do que eles pensam», ninguém ignora que Alexandre Herculano considerava Portugal unicamente um produto da política exclusivista dos seus príncipes. «Obra a princípio de ambição e orgulho – comenta o historiador –, a desmembração dos dois condados do Porto e de Coimbra, veio por milagres de prudência e energia a constituir, não a nação mais forte, mas decerto a mais audaz da Europa nos fins do século XV.» De nada mais careceríamos para testemunhar bem claramente quanto a Pátria anda ligada à Monarquia, e quanto a Monarquia é a razão essencial de toda a sua glória e viabilidade.
O mesmo juízo nos oferece Oliveira Martins, não obstante a sua funesta teoria do Acaso, negando-nos criminosamente fundamentos de nacionalidade. Ora se na visão restrita daqueles mesmos autores, para quem as nossas condições de nação autónoma não se revestem de nenhuma explicação que não seja a de um simples arranjo dinástico, a Monarquia é desta maneira apresentada como a força íntima que gerou a Pátria, com dobrados motivos a temos nós que reconhecer e aceitar como tal, olhando a que, sem ela, sem a sua decisão eficaz e rápida o irredentismo do condado portucalense jamais iria além das debilitadas reivindicações regionalistas da Galiza atual. Alberto Sampaio examinava, pois, o problema com exatidão. Se a vida social já existia, a vida nacional não existiu, enquanto não existiu um governo que lhe imprimisse forma e consistência.
Mas nós dissemos que pode a Monarquia anteceder uma nacionalidade. Mas nacionalidade sem Monarquia é que não se descobre no desenho emaranhado que são as origens das nacionalidades europeias, insistimos agora. Com efeito, em França a Monarquia antecede a Pátria cuja unificação começa lentamente, num labor demorado e difícil, com a subida dos Capetos ao trono. Na verdade, só com Henrique IV é que a França concretiza e fixa as linhas definitivas da sua fisionomia. Também a Alemanha se arrastou através de um longo purgatório antes de conhecer a unidade, porque lhe faltou a sequência dinástica, graças à qual – depõe Lavisse – «outros países se constituíram em Estados que, a seguir, se tornaram nacionalidades». Opostamente, duas nacionalidades, com as suas características bem marcadas, bem assentes, acabaram por perder a independência porque deixaram perder a monarquia no meio das discórdias intestinas. Refiro-me – é de ver – à Hungria e à Polónia.
«Mas a Suíça?», perguntarão. Triste ‘placa giratória’ da Europa, a Suíça não é mais que a neutralização, a favor dos seus vizinhos poderosos, do antigo caminho da Europa através da montanha. Sem política externa nem atividade económica apreciável, a Suíça não é uma nação nem um Estado. É antes um artifício, conservado e guardado pelas conveniências internacionais do nosso continente, onde o que há de estrutural e de típico nada mais é do que a sobrevivência de um cantonalismo tão arcaico como pitoresco.
Equacionada a questão no ponto em que a fixamos e que é rigorosamente o verdadeiro, não é lícito atribuir à Monarquia o sentido partidário em que as circunstâncias presentes a pretendem tomar. «Monarquia» equivale a «unidade da nação» pela «unidade do poder». Admirável palavra a de Balzac, ao exclamar em face do embarque de Carlos X em Cherburgo: «O Rei é a pátria encarnada, os reis somos nós mesmos!» Porque o rei é a pátria encarnada, João de Barros, o antigo, o das Décadas, escreveria em Quinhentos: «Grande glória é morrer por nossa Lei, per nosso Rei, que são as mais justas causas de morrer. A Grei, que é a congregação dos nossos parentes, amigos, e compatriotas, a que chamamos república, celebra o nosso nome de geração em geração. O nome Português é por isso tão celebrado no mundo, a quem Deus deu este particular dom sobre todas as outras Nações, Defensores da Fé, e leais ao serviço do seu Rei» (Década II, liv. 3.º, cap. 3.º).
Sem essa identificação da Pátria com a Monarquia, quem, com os primeiros Reis, atribuiria direção às qualidades construtivas da raça, libertando a terra e enraizando depois as populações? Um instante depois, quando uma dispersão de soberania ameaça desfazer o reino herdado, quem o salva senão a energia – tão caluniada por vezes – do alto político que foi D. Afonso II? Porque é que a nacionalidade se abisma quase na morte ao declinar o século XIV? Porque morre um rei e a sua sucessão é discutida. Sem dúvida, em 1384 são os concelhos que iniciam o movimento resgatador. Mas sem um rei, sem a monarquia, esse trecho da nossa epopeia municipal abortava em cenas avulsas de carnagem, com todos os estigmas de uma verdadeira jacquerie, que Basílio Teles é o primeiro a apontar. Porque há um rei, a Pátria entra no período magnífico de Quatrocentos. Quem desenvolve a expansão, quem mantém o alto pensamento das Descobertas? As unidades da raça afirmam-se, é certo; são a matéria-prima. Quem as adivinha e estimula, porém? O Rei, sempre o Rei, que é na sua forma visível a Pátria bem viva, bem personalizada.
Na hora em que se extingue a segunda Dinastia – porque a Pátria, exausta, não consegue impor-se um rei natural –, o cetro arrasta consigo, na sua queda, quase a perda da nossa independência. Mas tão depressa encontremos um Rei natural, com a ressurreição da Monarquia é Portugal que ressurge. No regime de unidade nacional em que a Pátria então vivia, os eruditos de Alcobaça designam as suas Crónicas por Monarquia Lusitana, como nós escreveríamos hoje História de Portugal. E consagrando essa estreita aliança, no renascimento do nosso eruditismo, D. António Caetano de Sousa comporia a História genealógica da Casa Real.
Fica mais que evidente a razão por que o duque de Orleães ditou um dia a sua fórmula célebre: «Tudo o que é nacional é nosso!» É que a Monarquia, pairando acima das dissensões, mais alta e mais forte que os partidos, quando não cria a pátria, é o único princípio que a conserva e glorifica. Na insurreição do indivíduo contra a espécie, utilizando a frase célebre de Comte, não o quererão assim as mentalidades mordidas do pior sectarismo. Quere-o, porém, a obra secular da nossa história, que é a obra dos nossos Reis colaborando com a nossa raça. Meditemos nós tão grande lição! Deixaram-nos ficar eles em morgadio o património sagrado da terra portuguesa. Não foram perante as gerações senão os seus administradores. «Procurador dos descaminhos do Reino», se intitularia de uma vez espontaneamente, a si próprio, el-rei D. João IV.
Descaminha-se o Reino, porque não temos Rei. E porque não temos Rei, é que a pátria está em perigo. Renove-se o velho consórcio de Portugal com a Monarquia e logo haverá quem nos dirija e caminhe à nossa frente!
in Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926
Pátria e Monarquia
Reflexões sobre a Identidade Nacional Portuguesa
Reflexões sobre a Identidade Nacional Portuguesa
- A Identificação entre Pátria e Monarquia. A questão da identificação entre a Pátria e a Monarquia foi profundamente analisada por Alberto Sampaio, que destacou a influência do génio da raça na organização da vida social portuguesa. Segundo ele, a educação histórica moldou o espírito nacional, tornando-o responsável pela formação das estruturas sociais, enquanto o governo exercia papel decisivo apenas na vida nacional. A sobrevivência das comunidades no noroeste peninsular ao longo das invasões consolidou um instinto nacionalista, possibilitando o surgimento de Portugal. Contudo, as qualidades naturais da população só se afirmaram plenamente quando o Estado atribuiu direção e consciência às aspirações coletivas. A Monarquia, nesse contexto, desempenhou o papel de consolidar a Pátria, transformando-a de um estado primitivo para uma entidade com diferenciação jurídica e política.
- O Papel Histórico da Monarquia. O debate parlamentar sobre a obra colonizadora da Monarquia no Brasil motivou estas reflexões. Alguns defendiam que foi a Pátria, e não a Monarquia, que criou um segundo Portugal no Brasil. No entanto, historicamente, antes das divisões partidárias do século XIX, Monarquia e Pátria eram conceitos equivalentes em Portugal: a Monarquia era o órgão vital para a independência e longevidade do país. A história demonstra que, em momentos críticos, os interesses dinásticos nunca se opuseram ao interesse coletivo nacional. A Monarquia podia preceder a nacionalidade, mas não se via nacionalidade sem Monarquia persistindo e fortalecendo-se na Europa.
- Desenvolvimento Nacional e Dinastia. A Pátria reflete as potencialidades de uma comunidade nacional, mas para que estas se concretizem é necessário que o Estado, através da dinastia, una os interesses da realeza aos da coletividade. Alberto Sampaio argumenta que a capacidade orgânica da raça portuguesa estabeleceu a vida coletiva, mas a existência nacional só se consolidou com a criação de um governo forte. A ambição de D. Tareja, e depois de D. Afonso Henriques, foi fundamental para o nascimento do Estado português, transformando as condições regionais em uma existência de povo livre. O surgimento de um chefe permitiu a continuidade e a persistência necessárias para garantir defesa e autonomia.
- A Monarquia como Força Geradora da Pátria. Alexandre Herculano via Portugal como resultado da política dos seus príncipes, e não de um sentimento nacional autónomo. A separação dos condados do Porto e de Coimbra foi, inicialmente, fruto de ambição, mas acabou por constituir uma das nações mais audazes da Europa. Oliveira Martins, mesmo com a sua teoria do Acaso, reconheceu que a Monarquia foi a força que gerou a Pátria. Sem a decisão e rapidez da monarquia, o irredentismo português não teria ultrapassado as reivindicações regionais. Assim, só com um governo dinástico a vida nacional adquiriu forma e consistência.
- Exemplos Europeus e a Importância da Monarquia. A experiência europeia reforça a tese: em França, a Monarquia antecedeu a unificação nacional; na Alemanha, a ausência de continuidade dinástica retardou a unidade; na Hungria e na Polónia, a perda das monarquias levou à perda da independência. A Suíça, por sua vez, é apresentada como uma exceção aparente, pois, sem política externa ou atividade económica relevante, não é considerada uma verdadeira nação, mas sim uma entidade mantida por interesses internacionais e marcada por cantonalismo arcaico.
- Monarquia: Unidade Nacional e Continuidade Histórica. Deste modo, não se pode atribuir à Monarquia um sentido meramente partidário. Ela representa a unidade da nação através da unidade do poder. Balzac sintetizou essa ideia ao afirmar: "O Rei é a pátria encarnada, os reis somos nós mesmos!" João de Barros, nas suas Décadas, reforça que morrer pelo Rei e pela Lei são as causas mais nobres, e que o nome português é celebrado no mundo pela lealdade ao serviço do Rei. Sem essa identificação entre Pátria e Monarquia, faltaria direção às qualidades do povo e o reino dispersar-se-ia em momentos de crise.
- A Monarquia como Garantia da Independência Nacional. A história portuguesa demonstra que, quando a sucessão régia foi contestada ou faltou um rei, a nacionalidade esteve ameaçada. Em 1384, embora os concelhos tenham iniciado o movimento de salvação nacional, sem a liderança de um rei a epopeia municipal teria resultado em violência desordenada. Portugal ressurgiu com a restauração da monarquia. A unidade nacional era tal que as crónicas eram designadas por "Monarquia Lusitana", e a história da Casa Real era vista como a própria história de Portugal.
- Conclusão: A Monarquia como Guardiã da Pátria. A célebre frase do duque de Orleães, "Tudo o que é nacional é nosso!", reflete a ideia de que a Monarquia, acima das disputas e partidos, é o princípio que conserva e glorifica a pátria. A história de Portugal é a história da colaboração entre os reis e o povo, tendo os monarcas sido apenas administradores do património nacional. Quando não há rei, o reino desvia-se do seu caminho e a pátria fica em perigo. Por isso, renovar a aliança entre Portugal e a Monarquia é visto como essencial para garantir direção e liderança ao país.