Questões de História
António Sardinha
RESUMO
António Sardinha analisa criticamente o primeiro volume da História de Portugal de Fortunato de Almeida, reconhecendo os seus méritos como manual de ensino, mas apontando limitações metodológicas, bibliográficas e de abordagem. Destaca a ausência de síntese histórica, de visão interna dos processos nacionais e de inovação interpretativa, destacando omissões importantes sobre a formação e desenvolvimento da identidade portuguesa. Sardinha defende que uma história nacional deverá ser capaz de revelar a unidade profunda da Nação e de discernir a ideia-diretriz que orienta o seu desenvolvimento e persistência.
- Méritos reconhecidos. António Sardinha inicia a sua análise admitindo os méritos do primeiro volume da História de Portugal escrita por Fortunato de Almeida. Reconhece o valor do manual como instrumento pedagógico, distinguindo-o positivamente no contexto do ensino público português da época, marcado por mercantilismo e incompetência. Destaca ainda a honestidade e laboriosidade do autor, que se diferencia pela integridade numa literatura pedagógica frequentemente criticada.
- Limitações metodológicas e bibliográficas. Apesar dos méritos reconhecidos, Sardinha aponta graves limitações metodológicas e bibliográficas na obra. Destaca que Fortunato de Almeida se prende a um método excessivamente impessoal e horizontal, permanecendo dentro dos limites do lugar-comum. Segundo Sardinha, o autor não amplia o conhecimento nem dialoga com bibliografia nacional e estrangeira recente, resultando numa abordagem desatualizada e, por vezes, omissa de aspectos cruciais da história nacional.
- Ausência de síntese e visão interna. Outro ponto central da crítica é a falta de uma verdadeira síntese histórica e de uma visão interna dos processos que moldaram a identidade portuguesa. Sardinha considera que a obra se limita a uma enumeração de factos avulsos, sem perceber a dinâmica profunda dos fenómenos históricos ou propor interpretações inovadoras. Para ele, falta à narrativa o fio orgânico que liga o passado ao presente, e a capacidade de articular os detalhes numa visão integrada e viva do percurso nacional.
- Omissões significativas. A análise de Sardinha destaca também omissões importantes, como a ausência de referências a autores e estudos que poderiam enriquecer a explicação de temas centrais, desde a formação das instituições até à influência de fatores religiosos, sociais e linguísticos na história portuguesa. Nota igualmente a insuficiência com que são tratadas questões sobre a origem do Estado português, a ação de figuras marcantes e o papel de Portugal nos contextos europeu e peninsular.
- A Influência do Romantismo e a Reação Cientificista. Sardinha aborda o excesso de imaginação trazido pelo Romantismo e a reação, igualmente excessiva, das escolas positivistas, que reduziram a história a uma análise fria e mecânica dos documentos, esvaziando-a de sentido humano e social.
- Exigência de uma História nacional renovada. Sardinha defende que a história nacional exige uma narrativa que ultrapasse tanto o materialismo da metodologia crítica quanto o subjetivismo romântico, e que revele as razões profundas da persistência da Nação portuguesa ao longo do tempo.
A verdadeira missão do historiador é fundir os detalhes numa síntese luminosa e vital, relacionando-os com as causas e leis que os regem, como propõe a definição atribuída ao papa Pio XI, e lamenta que Fortunato de Almeida não tenha seguido esse rumo ao escrever a sua História de Portugal.
QUESTÕES DE HISTÓRIA
De modo nenhum negamos ao trabalho de quem quer que seja o aplauso que em justiça nos haja de merecer. Mas, pelo mesmo motivo, não nos encontramos nunca dispostos a faltar ao sentido das proporções, atribuindo às coisas e às pessoas um valor diverso daquele que em realidade lhes pertence. Tal é a nossa posição ante o 1. ° volume da História de Portugal, do senhor dr. Fortunato de Almeida. Não negamos ao acreditado professor os méritos de laboriosidade e de honestidade que sem discrepância acompanham o seu nome. Na desordem moral e mental do nosso ensino público, é-nos agradável até prestar homenagem à sua figura, que representa uma verdadeira excepção na feira de mercantilismo e incompetência em que a nossa literatura pedagógica se submerge e envilece de dia para dia. Agora no que não concordamos é na categoria de ‘historiador’, que gente correntemente convencida de culta entendeu conferir sem reservas ao douto professor do liceu de Coimbra.
Longe de mim o pensamento de escurecer os intuitos, perfeitamente louváveis, em que o senhor dr. Fortunato de Almeida se inspirou, ao traçar com a sua pena fácil o 1. ° volume de uma História de Portugal.
Essa História de Portugal, como guia ou manual de ensino, impõe-se, sem dúvida, à nossa recomendação. Já não haverá de ora em diante quem se queixe de que lhe falta um expositor com que iniciar a educação histórica, ou própria, ou alheia. Semelhante lacuna preencheu-a o melhor possível, dentro dos seus processos e do seu critério, o senhor dr. Fortunato de Almeida.
Há, evidentemente, uma diferença incomparável entre o volume recém-publicado do senhor dr. Fortunato de Almeida e esse outro, diminuto em tudo, a que o ilustre catedrático da Universidade de Coimbra, doutor Manuel Paulo Merêa, concedeu desastrosamente o patrocínio do seu nome. No aludido compêndio, nós assistimos à ressurreição integral do famoso e nunca olvidado Dr. Minerva. Lembram-se decerto do ‘Dr. Minerva’ – do célebre Bonifácio Minerva, de quem Manuel Bento de Sousa nos traçou imorredoiramente o perfil?
Pois foi com o mesmíssimo dr. Bonifácio Minerva que nós nos cuidámos encontrados, ao folhear o livro dos senhores doutor Manuel Paulo Merêa e Damião Peres! Isto sem desprimor nem para amigos, nem para inimigos. Porque é difícil depararmos com tão grande ausência de afirmação, como com tamanha horizontalidade de visão e de propósitos! Tudo ali é descoordenado na sua aparente ordenação, tudo ali se reduz à secura pretenciosa de um esquema, em que a unidade e a continuidade da Pátria se perdem, sem fim colectivo que vincule a raça à terra e nos dê a individualidade própria de Portugal.
A tibieza do critério, essa então assusta-nos! Por exemplo, na passagem sobre os Jesuítas em que o maior empenho dos autores é eximirem-se a um veredicto claro, terminante, ou a favor, ou contra. De forma que a História de Portugal, dos senhores doutor Manuel Paulo Merêa e Damião Peres, denuncia o cume máximo de uma crise de natureza intelectual, em que se reflecte bem nitidamente o risco a que se acha entregue entre nós a educação do espírito pelo excessivo e depressivo professoralismo que substituíu as directrizes e a independência da verdadeira cultura.
Não admite, pois, comparação a História de Portugal, do senhor dr. Fortunato de Almeida, em extensão e em amplitude, com a obrinha a que acidentalmente nos referimos. Preenche precisamente os fins para que naturalmente o senhor doutor Manuel Paulo Merêa e o seu colaborador aldrabaram, e com manifesta desgraça, umas tantas páginas de incolorida e banalíssima resenha histórica. Mas se transpusermos os limites que à História do sr. dr. Fortunato de Almeida a sua acanhada objectividade lhe impõem, já de maneira alguma satisfaz o intento que o seu autor teve em vista atingir. Observa logo no Prefácio o senhor dr. Fortunato de Almeida que, apesar de tentativas várias e algumas delas apreciáveis, em Portugal não se realizou ainda o plano de uma história geral do país, em que se fundissem os vastos e preciosos materiais dispersos em tantas publicações». Ora, notando tão visível e deplorável necessidade, dir-se-ia que o senhor dr. Fortunato de Almeida aparecia a saná-la condignamente. Mas não só como resumo ou conjunto sintético dos materiais existentes, a sua História se nos apresenta incompleta e deficientíssima, como incompleta e deficientíssima se nos revela em todos os seus aspectos, desde que procura ser, como o seu autor o confessa, uma nova tentativa da história geral de Portugal.»
Não nos oferece o senhor dr. Fortunato de Almeida nem um só ponto de vista original, nem na sua História se sugerem, ao menos, vislumbres de solução aos problemas que rodeiam por enquanto muitas das primeiras manifestações da nossa vida de povo livre e estabilizado já num quadro de instituições autónomas. Para nós, e sem despojar o esforço do senhor dr. Fortunato de Almeida das virtudes que sem favor lhe reconhecemos, a sua História não é mais que uma rapsódia cuidada e meticulosa dos factos principais e comuns, que dantes constituíam a base do ensino corrente da história. Para que se considere, pois, o volume do senhor dr. Fortunato de Almeida como o 1.º tomo de uma História Geral do nosso país, as faltas a terraplanar são incomensuráveis, quase sem conto nem número.
E, no entanto, não ocultamos a confiança, até mesmo o alvoroço, com que folheámos o livro do senhor dr. Fortunato de Almeida! É certo que a sua História da Igreja em Portugal, sendo labor de peso e de indispensável consulta, nos demonstrara já a deficiência orgânica do método do seu autor. Na verdade, o senhor dr. Fortunato de Almeida, possuíndo louváveis dotes de expositor, de expositor não passou ao longo dos compactos volumes do mencionado trabalho, afastando-se propositadamente de todas as questões pendentes, com o propósito marcado de não se enredar nem no drama das instituições, nem nas controvérsias dos autores. Para o senhor dr. Fortunato de Almeida a História é o que já foi – relata-se como um objecto de museu, com um valor estático, limitado e condicionado no espaço e no tempo. Escapa-lhe assim o que na História, essencialmente dinâmica, existe de vivaz e contínuo. Só a epiderme dos acontecimentos o preocupa, e só a eles atende, na sua exígua expressão formal, tal como os fixaria a impressionabilidade seca e mecânica de uma chapa fotográfica.
O processo do senhor dr. Fortunato de Almeida – bem o sabemos! – presume de científico e reclama-se dos ensinamentos metodológicos de um Langlois e de um Seignobos, para falarmos apenas dos nomes mais representativos. Mas não é difícil assinalar as taras fundamentais de semelhante sistema, que corresponde na sua hirta e estéril objectividade ao estreito materialismo em que a Inteligência decaíu e se sepultou durante o século passado, le stupide, segundo Léon Daudet. Colocados já em outro ângulo, não partilhamos do prestígio – o prestígio dos ídolos! – com que se rodearam e dogmatizaram tais teorias da História.
No curioso e indispensável livro de Pierre Lasserre, La doctrine officielle de l’Université, repara com agudíssima precisão René de Marans que «condonnerait une idée assez juste de la nouvelle conception de l’Histoire, en disant qu’elle repose essentiellement sur une confusion de l’érudition et de l’histoire». «Oeuvre d’hommes – continua René de Marans – qui n’ont point les grandes qualités qui font l’historien, qui n’ont point non plus la modestie et la sévère dignité de l’érudit, mais qui veulent être à la fois l’un et l’autre sans distinguer ni, à plus forte raison, hierarchiser ce qui revient à l’un et à l’autre, elle aboutit à la ruine de la véritable érudition comme de la véritable histoire, et tel est bien généralement le resultat de toute confusion des genres.»
Sem dúvida que o Romantismo, despertando nas sensibilidades o sentimento artificial das coisas da Idade Média, levara ao abuso abominável da imaginação dentro dos domínios da História. Aproveitou-se desse desvio mental o humanitarismo revolucinário, que também no campo da História descobriu terreno apropriado para o exercício das suas divagações. A história – conspiração contra a História! –, com o seu carácter retórico de panfleto, é então, sobretudo, que se generaliza e difunde. A reacção estabeleceu se, mas estabeleceu-se, não conforme o exemplo e os altos conselhos de Fustel de Coulanges, abandonando-se antes à impregnação do falso e infecundo criticismo germânico. Assim a História, libertando-se do que Langlois chama acertadamente «la littérature historique» (em Portugal, no seu ultra-romantismo desfrenado, o representante acabado dessa corrente é Pinheiro Chagas), caiu no excesso oposto, colete de forças da metodologia em que toda a individualidade se suprime e em que sistematicamente se evita o enunciado sequer da mais leve conclusão.
Para onde se caminhava, pois? Langlois nos esclarece. «En resumé, l’Histoire paraît être de nos jours dans la situation ambigüe où l’Histoire naturelle était il y a cent ans. Au XVIIIe siècle, on faisait encore de la littérature sur la zoologie... Maintenant il y a toujours les zoologistes qui écrivent très bien, mais personne ne les compte entre les littérateurs... Une distinction s’est établie en Histoire naturelle entre les littérateurs et les savants; une scission analogue est sous le point de s’opérer en Histoires.» Compreende-se. O rigor dos métodos positivos, circunscrevendo a história apenas ao exame do documento, sujeitava-a deste modo a uma prática toda ela experimental, em termos idênticos aos das ciências-naturais. Evidentemente que os processos porque a História se cultiva devem ser ‘experimentais’ – no sentido de contar e nunca exceder as realidades. Ora, sendo a realidade fundamental da História a alma humana, por escrupuloso experimentalismo não é possível alhearmo-nos das suas aspirações, das suas ideias dominantes, das grandes veemências que a aglutinam, ou que a desagregam e escravizam.
Era, por isso, sensata e justíssima a reacção contra a concepção romântica da História, tão bem personificada em Michelet. Mas o método por que se inaugurava o novo período repugnava igualmente ao senso íntimo dos acontecimentos, que não resultam de energias cegas nem da elaboração material do Acaso. A solução do problema não estava, consequentemente, no método crítico, porque supõe uma análise excessiva e, portanto, deformadora da continuidade da História, visto submeter o facto em si à lupa do historiador, que o interpretará segundo os seus preconceitos ideológicos, ou preferências filosóficas. Estava antes no método psicológico que, não ajuizando, ao contrário, de sucessos de ontem com a mentalidade de hoje, ressuscita uma época, integrando-nos tanto quanto possível, como se fossemos os próprios dramatis personae, no cenário e ambiente respectivos, jogados pelos mesmos conflitos e debaixo da influência das mesmas determinantes. Não importa saber se o facto debatido foi certo em relação a nós. O que importa é saber se foi certo em relação aos seus contemporâneos.
Surge-nos daqui uma visão interna da História, que de modo nenhum se confunde com os subjectivismos fantasistas do período romântico, nem tão-pouco com a visão externa, ou periférica, preconizada pela escola de que Langlois e Seignobos são principais corifeus.
Vimos já como no juízo perfeito de René de Marans esse conceito da História confunde o erudito com o historiador. O resultado é, como ainda René de Marans no-lo indica, a absorção do geral pelo particular, e, consequentemente, a supressão da História, pura e simplesmente. Como? Pela singelíssima e automática operação que Langlois destina ao historiador. «Le vrai rôle de l’historien c’est de mettre en contact, dans les meilleurs conditions possibles, les gens de maintenant avec les documents originaux qui sont les traces laissées par les gens d’autrefois, sans y rien mêler de lui-même. Il n’est pas toujours possible de s’en tenir là, mais il faut s’en tenir là toutes les fois que c’est possible. On en viendra certainement, je crois, à concevoir les livres d’histoire pour le public éclairé comme des recueils de textes précédés de dissertations critiques, encadrés de commentaires sobres, assemblées avec discernement, groupés avec art.»
Se o mal da História, hoje em dia, resulta já do exagerado especialismo em que se confinou à reduzida a moeda barata de investigadores pacientes – género Leite de Vasconcelos – a quem falta a mais ligeira percepção arquitectónica do conjunto –, nós adivinhamos o que ela seria amanhã, desarticulada e fragmentada, numa enumeração avulsa de subsidios arrumados à laia de catálogo. Daí à substituição do documento pela ficha já pouco faltava. E eis, como de alta manifestação da inteligência, a História se tornaria num ócio aplicado de colecionadores de miudezas dispersas!
Como disciplina social que é, indubitavelmente que à História cabe função diversa. «La connaissance du moyen âge, mais la connaissance exacte et scientifique, sincére et sans parti-pris, est pour notre société un interêt de premier ordre. Elle est le meilleur moyen de mettre fin aux regrets insensés des uns, aux vides utopies des autres, aux haines de tous. Pour remettre le calme dans le présent il n’est pas inutile de détruire d’abord les prejugés et les erreurs sur le passé» (Fustel de Coulanges). Alcança-se perfeitamente que de maneira alguma se reserva para a História uma missão apologética. Agora o que se expurga dela é todo o carácter de baixa e caluniosa diatribe que, desde o Romantismo ao cárcere estreito dos métodos reputados científicos, lhe envenenou por completo a luminosidade serena das suas grandes lições. Entre nós, então, eu não sei de nada mais antinacional do que as páginas apaixonadas e odientas que por aí ostentam a sua miséria moral e intelectual sob o nome de ‘História de Portugal’. Ajustam-se-nos perfeitamente certas palavras memorandas, ainda de Fustel de Coulanges. «Nos historiens depuis cinquante ans ont été des hommes de parti», observa ele. «Si sincéres qu’ils fussent, si impartiaux qu’ils se crussent être, ils obéissaient à l’une ou l’autre des opinions politiques qui nous divisent... Notre histoire ressemblait à nos assemblées legislatives: on y distinguait une droite, une gauche, des centres. C’etait un champs clos, où les opinions luttaient. Écrire l’histoire était une façon de travailler pour un parti et de combattre un adversaire. L’histoire est ainsi devenue chez nous une sorte de guerre civile en permanence. Ce qu’elle nous a appris, c’est surtout à nous haïr les uns les autres. Quoi qu’elle fût, elle attaquait toujours la France par quelque côté. L’un était républicain et se croyait tenu à calomnier l’ancienne monarchie; l’autre était royaliste et calomniait le regime nouveau. Aucun des deux ne s’apercevait qu’il ne réussisait qu’à frapper sur la France. L’histoire ainsi pratiquée n’enseignait que l’indifférence, aux étrangers que le mépris.»
Tal é o quadro geral da historiografia entre nós. Não nos vamos alongar num inventário, embora sucinto, da crise constante em que a História se tem arrastado no nosso país. A Dedução cronológico-analítica, de Pombal, pesa sobre nós, como uma hereditariedade viciosa. Lembrá-lo é lembrar toda a compreensão invertida do nosso passado que ordinariamente se professa nos meios apelidados de cultos. Herculano, com a sua possante personalidade, não escapou à mordedura racionalista e anticlerical. Há que revê-lo com cuidadoso respeito, tanto no campo da história propriamente política, como no campo da história das nossas instituições, em que será sempre um mestre eminente e inolvidável. Oliveira Martins, esse possuiu em alto grau o instinto da história psicológica, ou seja, a visão interna da História. Mas foi vítima da anarquia intelectualista da sua época, que não lhe permitiu deixar-nos a obra que se sente bem palpitar em tanto fragmento do seu copioso labor mental. No entanto, merece que nos descubramos diante de sua memória, saudando-o como um precursor, se nos recordarmos que ele adivinhou com apurado sentido a unidade espiritual da civilização hispânica, e que, ao tracejar em improvisos de literatura bastante falaz o perfil soberano do Condestabre, soube achar o segredo da sua individualidade translúcida através do sentimento que a Cavalaria lhe depusera na alma excelsa de Galaaz. Oliveira Martins, pela ponderação do factor místico na vida de Nun’Álvares e pelo regresso ao conceito camoneano da ‘Hispânia’ – as ‘Espanhas’ –, avistava de longe a clareira de um novo ciclo na minguada e obscurecida historiografia nacional. O seu pulso de historiador verdadeiro afirma-se ainda no Portugal contemporâneo, cuja leitura, ajudada pelas conquistas do pensamento moderno, nos mostra bem quanto Oliveira Martins venceu os preconceitos da sua formação filosófica para escutar, com comovido interesse, o grito da raça, leiloada e escarnecida pelos bazares impúdicos do Liberalismo. Mas com tão graves e insanáveis deficiências, tanto em Herculano como em Oliveira Martins, a falta de uma História entre nós contrasta singularmente com a aptidão historiográfica do génio português. Explicar semelhante lacuna é sumariar as causas que desde o advento do Constitucionalismo contribuiram danadamente para o rebaixamento de quanto existia entre nós de elevado, de autónomo e de fecundo. Alexandre Herculano é filho do ambiente em que haviam medrado os eruditos da Academia, com especial menção em António Caetano do Amaral e depois no insigne João Pedro Ribeiro, que são, por sua vez, um último reflexo da salutar influência das humanidades em Portugal.
Oliveira Martins – um autodidacta – perde-se, porque não encontrou já essas regras que até certo ponto a norma jurídica substituiu em Gama Barros e em Costa Lobo, além de que estes dois gloriosos nomes denunciam com frequência o sabor e o convívio das letras antigas. De resto, são autores especializados no estudo de determinados institutos, cujo método tem de ser por força o método analítico – isto é, o método do monografista – aplicado a uma órbita maior.
Espera, portanto, Portugal de há muito a sua História – história de síntese, traçado arquitectónico completo, em que a proporção e a lógica do conjunto nos desvendem as razões eternas da Pátria, na química incessante da sua renovação e vitalidade. Materiais dispersos existem em abundância – alguns de valor inapreciável, como os carreados e ordenados por Alberto Sampaio. Mas não basta apenas utiliza los no plano geral do edifício. Há que corrigi-los e ajustá-los, depurando-os de elementos contrários ou heterogéneos com que frequentemente andam misturados, por ausência de ideia directriz no espírito de quem os desbastou ou acumulou. Um necessário trabalho de revisão se impõe simultaneamente, espécie de breviário de correcções ou erratas, em que se instrua o processo das diversas lendas negras que deprimem a face augusta do nosso Passado. Com o objectivo de nos mostrar Portugal, sobretudo, como uma personalidade moral, prolongando-se no espaço e no tempo, uno e contínuo, essa História, a fazer-se, sem cair no detalhe excessivo, não deve também esquecer a revisão correspondente dos juízos e conceitos preconcebidos, a fim de que corresponda em toda a amplitude ao nobre intuito de Fustel de Coulanges ao escrever: «L’histoire imparfaitement observée nous divise: c’est par l’histoire mieux connue que l’oeuvre de conciliation doit commencer.»
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Ora, dentro desta ordem de considerações, há a reconhecer desassombradamente que a História de Portugal do senhor dr. Fortunato de Almeida nem de longe satisfaz aos propósitos que o seu autor se fixou a si mesmo, ao meter-se a empreendê-la.
Começa logo que o senhor dr. Fortunato de Almeida, excessivamente horizontal na sua impersonalidade (suspeita-se que essa impersonalidade, mais que um defeito de método, seja antes uma ausência de individualidade), se compraz de uma maneira singular em se meter dentro dos moldes do lugar-comum e não sair da alçada dele, nem para emitir o mais leve parecer ou a corrigenda mais insignificante.
As fontes bibliográficas são dificientíssimas, por onde se infere que o autor não ampliou o caudal dos seus conhecimentos desde que um dia se viu autor aprovado e adoptado nos nossos estabelecimentos de instrução secundária.
Mas, além da pobreza em matéria bibliográfica (o senhor dr. Fortunato de Almeida na erudição espanhola ficou-se no Padre Flores e em D. Modesto Lafuente), o senhor dr. Fortunato de Almeida pratica, com intenção ou sem ela, verdadeiras e imperdoáveis injustiças, recusando-se a aproveitar, por exemplo, as conclusões definitivas de Alberto Sampaio sobre os longos e confusos períodos que antecederam a formação do Estado português. Abordando de leve o problema da batalha e milagre de Ourique, o senhor dr. Fortunato de Almeida aparenta desconhecer os magníficos capítulos – honra da nossa erudição – que na sua História da Instituição da Santa Ordem da Cavalaria lhe dedicou recentemente o senhor D. Tomás de Almeida Manuel de Vilhena. Nem lhe mereceu maior cuidado as interessantes monografias de Luciano Cordeiro acerca de algumas das nossas princesas afonsinas. Se o senhor dr. Fortunato de Almeida se propunha, como anuncia inchadamente, levar a efeito uma nova tentativa de ‘História Geral de Portugal’, apresentam-se-nos sem desculpa as deficiências apontadas. E aludimos nós somente a trabalhos nacionais, que andam na consulta e na leitura diária de todos nós. Porque se entramos a fundo na questão, desde a tão debatida incógnita das nossas origens étnicas e sociais até outros temas, ainda mal esclarecidos e equacionados, tais como o do tributo ao Papa e o da morte de D. Inês de Castro, o senhor dr. Fortunato de Almeida manifesta-nos uma míngua deplorável de quanto haja de representar uma nova proposição do assunto.
Coíbe se o senhor dr. Fortunato de Almeida, por sistema, de enunciar a sua opinião, as suas preferências, as suas opções. Muito bem! Mas isso de modo nenhum lhe proibia que, a respeito de cada ponto controvertido, nos resumisse as principais teorias existentes. Tinha um modelo inigualável na esplêndida Historia de España y su influencia en la historia universal, que o meu ilustre amigo e mestre D. Antonio Ballesteros, catedrático da Universidade Central de Madrid, traz em publicação.
Assim, o que sucede? Abre-se o volume do senhor dr. Fortunato de Almeida, e em seguida a uma reduzida exposição geográfica que nada exprime (e tanto que, neste capítulo, o senhor dr. Fortunato de Almeida acharia para dizer, sem sair das linhas gerais!), depois de tracejado um epítome, desfalcadíssimo em qualidade, dos nossos componentes pré-históricos, entra propriamente no conjunto das raças históricas que povoaram a Península. Não se afasta em coisa nenhuma das classificações consagradas pela rotina, mas que a ciência manda a todo o custo remover, oferecendo, é certo, uma novidade: a de, na sua exposição, os Lígures virem depois dos Fenícios!
Entrando de relance na genealogia de Iberos e Celtas, o autor da História de Portugal mostra-se completamente alheio às aquisições fornecidas para tão magno debate pelo sábio catedrático da Universidade de Erlangen, dr. Adolfo Schulten, exumador das ruínas de Numância e a quem a proto-história peninsular deve assinaladíssimos serviços. Liga ainda a Gregos e Cartagineses uma influência decisiva na elaboração populacional e cultural da Península, quando, afinal, a sua acção se restringiu a determinados empórios fixados na costa e sem maior penetração interna. E os Lusitanos surgem-nos no volume do senhor dr. Fortunato de Almeida, sem antecedentes descriminados, como um povo de acaso, enjeitado da história, filho das tristes ervas. São Iberos? São antes Celtas? E o senhor dr. Fortunato de Almeida encosta-se a Estrabão e, numa passagem ou noutra, à autoridade do senhor dr. Leite de Vasconcelos, compilador daquela insigne babilónia a que chamou Religiões da Lusitânia.
As estreitas afinidades dos Berberes com os Lusitanos, já entrevistas pela intuição admirável de Oliveira Martins, não arrancam ao senhor dr. Fortunato de Almeida um segundo de passageira alusão. Escapam-lhe as hipóteses de [ Giuseppe ] Sergi sobre as raças mediterrâneas e deste modo não é de estranhar que, a propósito de Viriato e da guerra com os Romanos, não reflicta nem por suspeitas as interpretações, ou de D. Joaquín Costa, ou de D. Eladio Rodríguez Pereira, ou, sobretudo, do citado peninsularista alemão, dr. Adolfo Schulten.
Mas não se suponha que eu estou de palmatória erguida e dedo carregado nas lunetas, examinando apaixonadamente o senhor dr. Fortunato de Almeida! Justifico simplesmente a minha decepção, para que ela se não inculque como um impulso arbitrário, despida do mais insignificante fundamento. Depois, o senhor dr. Fortunato de Almeida observa, e acertadamente, no prefácio do seu volume, que Alexandre Herculano não fôra «além do período de formação territorial, e ainda este ficou incompleto no quadro das instituições portuguesas. Nem mais seria possível – acrescenta – completar a obra na mesma compreensão que teve o autor, segundo as ideias e conhecimentos do seu tempo».
E o senhor dr. Fortunato de Almeida explica o seu pensamento, arrancando um excerto a um anterior estudo seu. Importa que o registemos também. Hoje... não sustentaria Herculano tão radicalmente a existência de uma solução de continuidade etnológica entre lusitanos e portugueses. Os progressos realizados por diversas ciências – como a etnologia, a antropologia, a glotologia e a arqueologia – alteraram em grande parte a face da questão, demonstrando que, através de todas as vicissitudes e de todos os cruzamentos de raças, algum fundo se conserva no carácter português desde a época pré-romana, como acusam os costumes, lendas e superstições populares, certas modalidades de carácter e diversos outros elementos tradicionais. E, encerrada a transcrição, o senhor dr. Fortunato de Almeida remata com entono: «A tentativa de Herculano, por maiores que sejam os seus altos merecimentos, e quaisquer que sejam também os senões que o tempo foi pondo a descoberto, não vingou; e portanto o país ficou privado de uma história geral digna deste nome.»
Evidentemente resolvido a terraplanar tão profundo hiato, já vimos como se houve o senhor dr. Fortunato de Almeida, ao ocupar-se das nossas origens. A sua falta é tanto mais grave quanto, com inteira razão, aponta a Herculano, como defeito insanável, a ausência de um elo de ligação entre os ‘portugaleses’ da Reconquista e os Lusitanos, de que saiu Viriato. Mas o senhor dr. Fortunato de Almeida, apesar de reconhecer a importância desse elemento de continuidade na nossa história, principia por nem esboçar as teorias do eminente Alberto Sampaio, sabido que foi Alberto Sampaio quem, melhor que ninguém, nos demonstrou a sequência institucional que prende, numa cadeia ininterrupta, os habitantes das primitivas citânias aos vilões expéeditos de Entre-Douro-e-Minho, no alvorecer luminoso da nossa nacionalidade.
Já caíra em igual omissão pelo que se refere a Martins Sarmento e Estácio da Veiga, que não são apenas os arqueólogos puros e simples das citações (duas para cada um) do senhor dr. Fortunato de Almeida. Por discutíveis que se nos descubram hoje muitas das suas hipóteses, tanto Estácio da Veiga como Martins Sarmento alvejaram com penetrantes afirmações a identidade do português contemporâneo com o substracto étnico que se concrecionou no tipo histórico do Lusitano. Censurando o ponto de vista de Alexandre Herculano, como o corrige, pois, o senhor dr. Fortunato de Almeida – onde é que nós, na sua História, apalpamos ou sentimos o fio de transmissão que incorpora na mesma unidade social lusitanos e portugueses? Na verdade, o desprezo do senhor dr. Fortunato de Almeida pelos autores nacionais só encontra comparação condigna na sua ignorância do muito que os estrangeiros, a semelhante respeito, nos facultam a mãos largas!
Não ficam, porém, aqui – e já seria bastante –, os nossos modestos reparos à História do senhor dr. Fortunato de Almeida. Autor de uma História da Igreja em Portugal, pasmo como o consciencioso professor condense na exiguidade de uma página todo o mundo imenso de questões interessantíssimas que se relacionam com a difusão do Cristianismo na Lusitânia, entre elas a da vinda de Santiago às Espanhas, com prégação presumível em Coimbra e Braga. A fácil aceitação do Cristianismo entre nós não lhe merece observação nenhuma, quando essa tendência natural dos peninsulares para o monoteísmo já fôra assinalada numa passagem notabilíssima de Santo Agostinho. Empresta-lhe actualmente o maior relevo a teoria do ilustre catedrático de Saragoça, senhor Giménez Soler, o qual, no seu sugestivo estudo La antigua península ibérica, procura identificar o deus lusitano Endovélico com o nome de um régulo hispano, Andabales. ‘Andabales’ significa, segundo a autoridade do prof. Giménez Soler, ‘o que é dotado de poder’. E assim – explica o autor eminente de La antigua península ibérica, «San Agustín, al traducir Endovélico por el Todopoderoso, encontraba contactos entre la doctrina católica y la atribuición de todo poder a una sola divinidad». Se aproximarmos agora o deus Endovélico do antropormofismo do célebre ídolo pré-histórico de Peña-Tu e da tradição recolhida pelos viajantes latinos de que, em noites de plenilúnio, certos povos da Ibéria saíam para fora de casa dançando em honra de um deus desconhecido, aí teríamos, num simples aflorar de problemas, matéria para um ligeiro capítulo da história geral de Portugal que o senhor dr. Fortunato de Almeida animosamente se resolveu levar a efeito.
Acresce que, sem menção alguma dos nossos primeiros Mártires, o senhor dr. Fortunato de Almeida, ao ocupar-se da constituição e progressos da Igreja Lusitana, olvida por completo a importantíssima teoria filológica que faz coincidir com as antigas regiões dialectais da Península as jurisdições eclesiásticas que gradualmente se criam. Assim perceberíamos até certo ponto como o aro do condado portucalense corresponde ao da arquidiocese de Braga, com um notável centro de cultura em Dume, junto a Braga, onde foi bispo São Martinho, apóstolo dos Suevos e cristianizador de Séneca. Esquece-se o senhor dr. Fortunato de Almeida do bracarense Paulo Orósio, amigo de Santo Agostinho e o primeiro que entreviu o sentido da história universal através da ideia cristã do género humano. Nem de longe se preocupa com a contenda pendente acerca da origem e naturalidade do papa São Dâmaso. Atira para uma inexplicável omissão com São João de Biclara, natural de Santarém e historiador dos Godos, e com Santo Aprígio, bispo de Beja (Pax Augusta) e comentador do Apocalipse. Cita o senhor dr. Fortunato de Almeida a monumentalíssima Historia de las instituciones sociales de la España goda, de D. Eduardo Pérez Pujol. Pois bastava um brevíssimo apanhado do tomo III de tão grande obra para que ficasse satisfeita, quanto ao desenvolvimento da Igreja no período anterior ao da formação da nacionalidade, a natural curiosidade daqueles que naturalmente sentem como o senhor dr. Fortunato de Almeida a falta de uma história geral entre nós.
Aumenta, porém, a nossa tristeza se entramos na época da invasão árabe. Todas as ideias-feitas são acolhidas com notável benevolência pelo senhor dr. Fortunato de Almeida. A reacção, se se faz, faz-se apenas nas Astúrias. A existência das pequenas cristandades moçárabes do Sul é desdenhada, senão ignorada, pelo senhor dr. Fortunato de Almeida. A mesma sorte cabe às fortes resistências localistas de aquém do Tejo que, no desmembramento do califato de Córdova, revelam a inalterabilidade do génio étnico e social dos Lusitanos. Por exemplo: a monarquia dos Alaftas em Badajoz, os valiatos de Ossónoba e de Beja. Também não percebemos como do novelo emaranhado da Reconquista nos aparece o Condado portucalense, que, afinal, não é, como se julga, uma criação arbitrária da munificência de Afonso VI de Leão e Castela para com seu genro, Enrique de Borgonha.
E se seguíssemos desfiando o rol inesgotável das nossas reflexões, estranharíamos igualmente que ao senhor dr. Fortunato de Almeida, historiador de institutos eclesiásticos de mais a mais, escapasse por completo a acção de Cluny na formação do Estado português. Quando mais não avançasse contentar-nos-íamos se o senhor dr. Fortunato de Almeida sintetisasse, pelo menos, a excelente lição de Carlos Roma du Bocage e D. Nicolás de Goyri na sua memória, apresentada à Academia, Origem do Condado de Portugal. Idêntica insciência do assunto nos revela o autor da História de Portugal, ao tocar no debatido tema da vassalagem prestada por D. Afonso Henriques ao Papa. O conhecimento do direito público daquela época, em que havia, como realidade espiritual e social, uma autêntica ‘Sociedade das nações’ – a Cristandade –, ensinaria ao senhor dr. Fortunato de Almeida e aos seus leitores, com visão mais rasgada, como Portugal se constituiu em estado autónomo numa hora em que Afonso Raimundes era coroado em Leão imperador das Espanhas, lançando a sua suzerania a vários principados da Península e além Pirenéus, mas não podendo abranger dentro dela o reino nascente de seu primo Afonso Henriques.
A Cavalaria, o espírito da Cruzada, as íntimas relações de Portugal com várias nacionalidades europeias, então em activa elaboração religiosa e política, embora primaciais no jogo das forças que nos consolidam como povo autónomo do ocidente da Europa, são aspectos que não conseguem impressionar, como historiador, o senhor dr. Fortunato de Almeida. E, no entanto, desde o casamento de nossa Princesa Matilde – a varonil condessa Mahaut – com Filipe da Alsácia, até à série de combinações que atiram com as Infantas Berengária e Leonor para o trono da Dinamarca e com o infante Fernando, o «comte Ferrando», para o desastre de Bouvines, Portugal, adolescente, desempenha já na Europa um papel de irradiação própria que nos deixa entrever as gestas futuras da sua gloriosa expansão. Para tanto, afigura-se-me suficiente que o senhor dr. Fortunato de Almeida se encostasse aos materiais afanosamente acumulados pela senhora D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos nas formidáveis «Notas» ao Cancioneiro da Ajuda, sobretudo no capítulo intitulado «Relações de Portugal e Espanha com os países de língua d’oc e língua d’oïl».
E, porque falamos na senhora D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, uma imediata associação de ideias nos manda reparar que o senhor dr. Fortunato de Almeida não se ocupou sequer da origem e emancipação da nossa língua, um dos elementos estruturais da nacionalidade. Desinteressam-no as teses suscitadas à roda dos nossos Cancioneiros – teses, algumas delas, como as do insigne arabista espanhol D. Julián Ribera y Tarragó, de valor excepcional para o estudo das características e da pristinidade da nossa raça. O lirismo galaico-lusitano é, deste modo, para o senhor dr. Fortunato de Almeida qualidade de nenhum apreço, e só de raspão se lhe refere, ao tratar conspicuamente de D. Dinis nos termos que reproduzimos: «Com o aperfeiçoamento e consagração da língua vulgar coincide aproximadamente o período áureo da literatura portuguesa segundo o gosto provençal então dominante. No tempo de D. Afonso III e de D. Dinis, a côrte portuguesa era um dos mais afamados centros literários da península onde numerosos trovadores cultivavam as musas com distinção. O próprio Rei D. Dinis, além de ser protector das letras, deixou muitas composições poéticas que lhe dão lugar de honra entre os literatos da época.»
Entre os literatos da época? Ora valha-nos Deus!
Como se verifica, o rosário é interminável! O senhor dr. Fortunato de Almeida auto-sugestionou-se pelo louvável propósito de dotar Portugal com a História que lhe faltava. Confundiu deploravelmente história com erudição, e o douto publicista conimbricense que, na sua qualidade de erudito, nos brindou não há muito ainda com uma apreciável monografia, Subsídios para a história económica de Portugal, não conseguiu desta vez traduzir os seus bons intentos senão numa rapsódia medíocre de factos avulsos e mais que refervidos. Nos fenómenos históricos não abrange a sua íntima dinâmica, desertou-o por inteiro a visão interna da História. Se o senhor dr. Fortunato de Almeida se capacitasse de que a História não é unicamente um produto de laboriosidade e paciência, decerto não falharia nos seus desígnios, que nem chegaram a transpor os limites ordinários da boa-vontade! Porque, em verdade, é difícil de se perceber como o autor do 1. ° volume da História de Portugal se confina ainda em conceitos falsos e de todo repelidos, como são, por exemplo, os que possui àcerca da morte de Inês de Castro e do reinado de D. Fernando. D. Fernando, com a sua lei das Sesmarias e as suas medidas de fomento marítimo, foi o obreiro máximo da consolidação económica da nossa nacionalidade. Infeliz embora nos seus proprósitos de imperialismo peninsular, ele adivinha, por um lado, o perigo próximo da unificação dos outros reinos da Península, e sente a necessidade de expansão que se impõe a Portugal. Essa expansão será para o mar, e não para a terra. É aí que D. Fernando se enganava, mas, mesmo assim, dele irradiam as providências que no reinado seguinte tornarão possível o nosso nascente navalismo.
Quanto a Inês de Castro, é tempo de acabarmos com a lenda do seu assassinato cru e simples! Abramos, para absoluta demonstração, dois livros espanhóis recentíssimos – Historia de España y de la civilización española (tomo I, 3.ª edição), de D. Rafael Altamira, e Las mujeres del Rey D. Pedro I de Castilla, de J. B. Sitges. Diz o primeiro: «Poco después declaró el rey (D. Pedro I de Castella) la guerra a Albuquerque, teniéndole por rebelde; y el antiguo favorito contestó à ella conveniéndose con los bastardos Don Enrique y Don Fadrique para realizar un levantamiento que arrancase la corona a Don Pedro y la pusiese en cabeza de un hijo del rey de Portugal, nieto de Sancho IV; el cual, si aceptó en principio, rechazó luego la candidatura por recomendación de su padre.»
Não se passou a coisa tão singelamente como parece à primeira vista. O candidato dos revoltosos castelhanos era o nosso futuro D. Pedro I e o instrumento, junto dele, Inês de Castro em carne e osso. Eis o que nos revela Sitges, ao tentar devassar os motivos porque D. Pedro de Castela abandonou sua esposa, D. Joana de Castro, no dia imediato ao da boda: «Mientras éste (D. Pedro) preparaba su boda, Don Enrique y Don Fradique se confederaban con Albuquerque y acordaban ofrecer la corona de Castilla al infante de Portugal, y los encargados de seducir al infante fueron precisamente Doña Inés de Castro y Don Álvar Pérez de Castro, los hermanos bastardos de Doña Juana.» De resto, que D. Inês não morrera assassinada, mas sim executada, como criminosa de traição ao Estado, é o que transparece perfeitamente do Cronicon Conimbricense, citado pelo senhor dr. Fortunato de Almeida, onde se reza que na «era milesima CCC. nonagesima III. dies Januari decolata fuit Doña Enes per mandatum Domini Regis Alfonsi IIII».
«Decolata» é, quanto a mim, suficientemente expressivo. Depois, não se trata de uma novidade. Oliveira Martins (bem sabemos que o senhor dr. Fortunato de Almeida detesta Oliveira Martins!) já observara na sua Vida de Nun’Álvares, a propósito da conspiração de D. Enrique e D. Fradique contra seu irmão, o rei de Castela: «Em Castela, entretanto (1354), os filhos de Leonor de Gusmão viam-se reduzidos à condição de instrumentos da cabala dos Padillas e conspiravam. Avistavam-se sobre o Caia com o conde Álvaro Pérez de Castro, irmão da amante do infante de Portugal, Inês de Castro, que a esta intriga deveu a morte (1355).»
E não insistimos mais! Também sobre cultura algumas perguntas haveria que fazer ao senhor dr. Fortunato de Almeida que tudo compendia, no seu critério professoral e burocrático, sob a detestável rúbrica de «Instrução pública». Claro que desta forma não é salientada a influência intelectual de um Santo António de Lisboa ou de um Petrus Hispanus, autor das Summulae logicales, por onde no período do Escolasticismo toda a Europa aprendeu a bem pensar, e que, Pontífice com o nome de João XXI ou XXII, alcançaria de Dante, seu contemporâneo, a glória suprema de esmaltar com o seu nome um dos tercetos do Paraíso. Diz esse terceto: «Ugo de Sanvittore è qui con elli / e Pietro Mangiadore e Pietro Hispano / lo qual giá luce in dodici libelli.»
Quanto a instituições, cingido apenas à sua linha formal, o senhor dr. Fortunato de Almeida contenta-se em aceitar de Herculano a sua doutrina sobre a origem romana do Concelho, quando hoje reúne mais probabilidades a que Oliveira Martins entrevistou, aparentando os nossos institutos municipais com a djemâa berbere. Não inquire sequer de um ponto tão primacial como é o do nosso regimen matrimonial, com sobrevivência em Espanha no fuero del Baylio, da região fronteiriça de Albuquerque, Olivença e Xerez de los Caballeros. E etc., etc., etc.!
*
Concordamos mais uma vez com o senhor dr. Fortunato de Almeida na falta de uma História de Portugal – condição indispensável para disciplina e consciência do forte instinto nacionalista que, anárquico e contraditório, se manifesta por toda a parte no nosso país. Mas essa história será obra de síntese, tocada da visão interior da alma-pátria, em que se aprenda na sua magnífica unidade a ideia-directriz que preside ao desenvolvimento e à persistência da Nação portuguesa. Sem espírito de historiador, o senhor dr. Fortunato de Almeida é uma vítima da metodologia, marca Langlois ou Seignobos, em que a erudição se confunde, por uma bastardia ignóbil, com a missão propriamente dita da História. O seu volume não passa por isso de uma revista seca e hirta de datas e episódios em que ninguém se apercebe do fio orgânico que liga o Portugal de hoje ao Portugal de algum dia. Por esta amostra calculamos o que serão os tomos seguintes! Se não fosse o receio de caírmos em juízo temerário, já daqui lhe esboçaríamos o esquema inevitável. Não sejamos, no entanto, agros de mais para o senhor dr. Fortunato de Almeida! O seu trabalho é, ao menos, um manual para o ensino, à falta de melhor. Comparado ao compêndio dos senhores dr. Manuel Paulo Merêa e Damião Peres, a sua superioridade sobre ele é incomensurável. Não dispondo de percepção sintética, guardou prudentemente os velhos quadros históricos da divisão em reinados, enquanto os referidos senhores com uma preocupação desastrosa de inovar, só mutilaram e fragmentaram a continuidade da Pátria no método que empregaram no seu livrinho. São as consequências do errado conceito que se possui da História, são os resultados evidentes do materialismo filosófico que, atribuindo à sociedade uma sujeição grosseira às leis deterministas da Evolução, a torna um produto cego das forças cegas do Acaso! Alarguemos, porém, a inteligência na sua sede de coisas altas e fecundas! Na empresa vastíssima que a mentalidade contemporânea se impõe – mentalidade ‘antimoderna’ e ‘ultramoderna’, na frase acabada de Jacques Maritain –, a depuração da História é um dos seus principais objectivos. Como defini-la então? «Tal como as linhas resultam de pontos, assim os grandes traços históricos de uma época e de um país não nos podem ser dados de uma maneira verídica e eficaz senão por aquele que, tendo debaixo da vista uma grande soma de detalhes, saiba fundir esses detalhes numa síntese luminosa e vital, relacionando-os com as causas de que derivam e com as leis que os regulam.» Não é outra a concepção perfeita da História, no justo entendimento do papel que dentro dela cabe ao factor espiritual. A quem pertence, porém, a definição? Pertence ao antigo prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, Mons. Aquiles Ratti, hoje Vigário de Cristo com o nome de Pio XI [1922-1939]. Indicação profunda e oportuna, nós a tomamos como norte seguro. Houvesse-a escutado o senhor dr. Fortunato de Almeida, e decerto que, ao meter ombros à História de Portugal, outros teriam sido os roteiros que a sua pena com êxito trilharia!
[ negrito acrescentado ]
Longe de mim o pensamento de escurecer os intuitos, perfeitamente louváveis, em que o senhor dr. Fortunato de Almeida se inspirou, ao traçar com a sua pena fácil o 1. ° volume de uma História de Portugal.
Essa História de Portugal, como guia ou manual de ensino, impõe-se, sem dúvida, à nossa recomendação. Já não haverá de ora em diante quem se queixe de que lhe falta um expositor com que iniciar a educação histórica, ou própria, ou alheia. Semelhante lacuna preencheu-a o melhor possível, dentro dos seus processos e do seu critério, o senhor dr. Fortunato de Almeida.
Há, evidentemente, uma diferença incomparável entre o volume recém-publicado do senhor dr. Fortunato de Almeida e esse outro, diminuto em tudo, a que o ilustre catedrático da Universidade de Coimbra, doutor Manuel Paulo Merêa, concedeu desastrosamente o patrocínio do seu nome. No aludido compêndio, nós assistimos à ressurreição integral do famoso e nunca olvidado Dr. Minerva. Lembram-se decerto do ‘Dr. Minerva’ – do célebre Bonifácio Minerva, de quem Manuel Bento de Sousa nos traçou imorredoiramente o perfil?
Pois foi com o mesmíssimo dr. Bonifácio Minerva que nós nos cuidámos encontrados, ao folhear o livro dos senhores doutor Manuel Paulo Merêa e Damião Peres! Isto sem desprimor nem para amigos, nem para inimigos. Porque é difícil depararmos com tão grande ausência de afirmação, como com tamanha horizontalidade de visão e de propósitos! Tudo ali é descoordenado na sua aparente ordenação, tudo ali se reduz à secura pretenciosa de um esquema, em que a unidade e a continuidade da Pátria se perdem, sem fim colectivo que vincule a raça à terra e nos dê a individualidade própria de Portugal.
A tibieza do critério, essa então assusta-nos! Por exemplo, na passagem sobre os Jesuítas em que o maior empenho dos autores é eximirem-se a um veredicto claro, terminante, ou a favor, ou contra. De forma que a História de Portugal, dos senhores doutor Manuel Paulo Merêa e Damião Peres, denuncia o cume máximo de uma crise de natureza intelectual, em que se reflecte bem nitidamente o risco a que se acha entregue entre nós a educação do espírito pelo excessivo e depressivo professoralismo que substituíu as directrizes e a independência da verdadeira cultura.
Não admite, pois, comparação a História de Portugal, do senhor dr. Fortunato de Almeida, em extensão e em amplitude, com a obrinha a que acidentalmente nos referimos. Preenche precisamente os fins para que naturalmente o senhor doutor Manuel Paulo Merêa e o seu colaborador aldrabaram, e com manifesta desgraça, umas tantas páginas de incolorida e banalíssima resenha histórica. Mas se transpusermos os limites que à História do sr. dr. Fortunato de Almeida a sua acanhada objectividade lhe impõem, já de maneira alguma satisfaz o intento que o seu autor teve em vista atingir. Observa logo no Prefácio o senhor dr. Fortunato de Almeida que, apesar de tentativas várias e algumas delas apreciáveis, em Portugal não se realizou ainda o plano de uma história geral do país, em que se fundissem os vastos e preciosos materiais dispersos em tantas publicações». Ora, notando tão visível e deplorável necessidade, dir-se-ia que o senhor dr. Fortunato de Almeida aparecia a saná-la condignamente. Mas não só como resumo ou conjunto sintético dos materiais existentes, a sua História se nos apresenta incompleta e deficientíssima, como incompleta e deficientíssima se nos revela em todos os seus aspectos, desde que procura ser, como o seu autor o confessa, uma nova tentativa da história geral de Portugal.»
Não nos oferece o senhor dr. Fortunato de Almeida nem um só ponto de vista original, nem na sua História se sugerem, ao menos, vislumbres de solução aos problemas que rodeiam por enquanto muitas das primeiras manifestações da nossa vida de povo livre e estabilizado já num quadro de instituições autónomas. Para nós, e sem despojar o esforço do senhor dr. Fortunato de Almeida das virtudes que sem favor lhe reconhecemos, a sua História não é mais que uma rapsódia cuidada e meticulosa dos factos principais e comuns, que dantes constituíam a base do ensino corrente da história. Para que se considere, pois, o volume do senhor dr. Fortunato de Almeida como o 1.º tomo de uma História Geral do nosso país, as faltas a terraplanar são incomensuráveis, quase sem conto nem número.
E, no entanto, não ocultamos a confiança, até mesmo o alvoroço, com que folheámos o livro do senhor dr. Fortunato de Almeida! É certo que a sua História da Igreja em Portugal, sendo labor de peso e de indispensável consulta, nos demonstrara já a deficiência orgânica do método do seu autor. Na verdade, o senhor dr. Fortunato de Almeida, possuíndo louváveis dotes de expositor, de expositor não passou ao longo dos compactos volumes do mencionado trabalho, afastando-se propositadamente de todas as questões pendentes, com o propósito marcado de não se enredar nem no drama das instituições, nem nas controvérsias dos autores. Para o senhor dr. Fortunato de Almeida a História é o que já foi – relata-se como um objecto de museu, com um valor estático, limitado e condicionado no espaço e no tempo. Escapa-lhe assim o que na História, essencialmente dinâmica, existe de vivaz e contínuo. Só a epiderme dos acontecimentos o preocupa, e só a eles atende, na sua exígua expressão formal, tal como os fixaria a impressionabilidade seca e mecânica de uma chapa fotográfica.
O processo do senhor dr. Fortunato de Almeida – bem o sabemos! – presume de científico e reclama-se dos ensinamentos metodológicos de um Langlois e de um Seignobos, para falarmos apenas dos nomes mais representativos. Mas não é difícil assinalar as taras fundamentais de semelhante sistema, que corresponde na sua hirta e estéril objectividade ao estreito materialismo em que a Inteligência decaíu e se sepultou durante o século passado, le stupide, segundo Léon Daudet. Colocados já em outro ângulo, não partilhamos do prestígio – o prestígio dos ídolos! – com que se rodearam e dogmatizaram tais teorias da História.
No curioso e indispensável livro de Pierre Lasserre, La doctrine officielle de l’Université, repara com agudíssima precisão René de Marans que «condonnerait une idée assez juste de la nouvelle conception de l’Histoire, en disant qu’elle repose essentiellement sur une confusion de l’érudition et de l’histoire». «Oeuvre d’hommes – continua René de Marans – qui n’ont point les grandes qualités qui font l’historien, qui n’ont point non plus la modestie et la sévère dignité de l’érudit, mais qui veulent être à la fois l’un et l’autre sans distinguer ni, à plus forte raison, hierarchiser ce qui revient à l’un et à l’autre, elle aboutit à la ruine de la véritable érudition comme de la véritable histoire, et tel est bien généralement le resultat de toute confusion des genres.»
Sem dúvida que o Romantismo, despertando nas sensibilidades o sentimento artificial das coisas da Idade Média, levara ao abuso abominável da imaginação dentro dos domínios da História. Aproveitou-se desse desvio mental o humanitarismo revolucinário, que também no campo da História descobriu terreno apropriado para o exercício das suas divagações. A história – conspiração contra a História! –, com o seu carácter retórico de panfleto, é então, sobretudo, que se generaliza e difunde. A reacção estabeleceu se, mas estabeleceu-se, não conforme o exemplo e os altos conselhos de Fustel de Coulanges, abandonando-se antes à impregnação do falso e infecundo criticismo germânico. Assim a História, libertando-se do que Langlois chama acertadamente «la littérature historique» (em Portugal, no seu ultra-romantismo desfrenado, o representante acabado dessa corrente é Pinheiro Chagas), caiu no excesso oposto, colete de forças da metodologia em que toda a individualidade se suprime e em que sistematicamente se evita o enunciado sequer da mais leve conclusão.
Para onde se caminhava, pois? Langlois nos esclarece. «En resumé, l’Histoire paraît être de nos jours dans la situation ambigüe où l’Histoire naturelle était il y a cent ans. Au XVIIIe siècle, on faisait encore de la littérature sur la zoologie... Maintenant il y a toujours les zoologistes qui écrivent très bien, mais personne ne les compte entre les littérateurs... Une distinction s’est établie en Histoire naturelle entre les littérateurs et les savants; une scission analogue est sous le point de s’opérer en Histoires.» Compreende-se. O rigor dos métodos positivos, circunscrevendo a história apenas ao exame do documento, sujeitava-a deste modo a uma prática toda ela experimental, em termos idênticos aos das ciências-naturais. Evidentemente que os processos porque a História se cultiva devem ser ‘experimentais’ – no sentido de contar e nunca exceder as realidades. Ora, sendo a realidade fundamental da História a alma humana, por escrupuloso experimentalismo não é possível alhearmo-nos das suas aspirações, das suas ideias dominantes, das grandes veemências que a aglutinam, ou que a desagregam e escravizam.
Era, por isso, sensata e justíssima a reacção contra a concepção romântica da História, tão bem personificada em Michelet. Mas o método por que se inaugurava o novo período repugnava igualmente ao senso íntimo dos acontecimentos, que não resultam de energias cegas nem da elaboração material do Acaso. A solução do problema não estava, consequentemente, no método crítico, porque supõe uma análise excessiva e, portanto, deformadora da continuidade da História, visto submeter o facto em si à lupa do historiador, que o interpretará segundo os seus preconceitos ideológicos, ou preferências filosóficas. Estava antes no método psicológico que, não ajuizando, ao contrário, de sucessos de ontem com a mentalidade de hoje, ressuscita uma época, integrando-nos tanto quanto possível, como se fossemos os próprios dramatis personae, no cenário e ambiente respectivos, jogados pelos mesmos conflitos e debaixo da influência das mesmas determinantes. Não importa saber se o facto debatido foi certo em relação a nós. O que importa é saber se foi certo em relação aos seus contemporâneos.
Surge-nos daqui uma visão interna da História, que de modo nenhum se confunde com os subjectivismos fantasistas do período romântico, nem tão-pouco com a visão externa, ou periférica, preconizada pela escola de que Langlois e Seignobos são principais corifeus.
Vimos já como no juízo perfeito de René de Marans esse conceito da História confunde o erudito com o historiador. O resultado é, como ainda René de Marans no-lo indica, a absorção do geral pelo particular, e, consequentemente, a supressão da História, pura e simplesmente. Como? Pela singelíssima e automática operação que Langlois destina ao historiador. «Le vrai rôle de l’historien c’est de mettre en contact, dans les meilleurs conditions possibles, les gens de maintenant avec les documents originaux qui sont les traces laissées par les gens d’autrefois, sans y rien mêler de lui-même. Il n’est pas toujours possible de s’en tenir là, mais il faut s’en tenir là toutes les fois que c’est possible. On en viendra certainement, je crois, à concevoir les livres d’histoire pour le public éclairé comme des recueils de textes précédés de dissertations critiques, encadrés de commentaires sobres, assemblées avec discernement, groupés avec art.»
Se o mal da História, hoje em dia, resulta já do exagerado especialismo em que se confinou à reduzida a moeda barata de investigadores pacientes – género Leite de Vasconcelos – a quem falta a mais ligeira percepção arquitectónica do conjunto –, nós adivinhamos o que ela seria amanhã, desarticulada e fragmentada, numa enumeração avulsa de subsidios arrumados à laia de catálogo. Daí à substituição do documento pela ficha já pouco faltava. E eis, como de alta manifestação da inteligência, a História se tornaria num ócio aplicado de colecionadores de miudezas dispersas!
Como disciplina social que é, indubitavelmente que à História cabe função diversa. «La connaissance du moyen âge, mais la connaissance exacte et scientifique, sincére et sans parti-pris, est pour notre société un interêt de premier ordre. Elle est le meilleur moyen de mettre fin aux regrets insensés des uns, aux vides utopies des autres, aux haines de tous. Pour remettre le calme dans le présent il n’est pas inutile de détruire d’abord les prejugés et les erreurs sur le passé» (Fustel de Coulanges). Alcança-se perfeitamente que de maneira alguma se reserva para a História uma missão apologética. Agora o que se expurga dela é todo o carácter de baixa e caluniosa diatribe que, desde o Romantismo ao cárcere estreito dos métodos reputados científicos, lhe envenenou por completo a luminosidade serena das suas grandes lições. Entre nós, então, eu não sei de nada mais antinacional do que as páginas apaixonadas e odientas que por aí ostentam a sua miséria moral e intelectual sob o nome de ‘História de Portugal’. Ajustam-se-nos perfeitamente certas palavras memorandas, ainda de Fustel de Coulanges. «Nos historiens depuis cinquante ans ont été des hommes de parti», observa ele. «Si sincéres qu’ils fussent, si impartiaux qu’ils se crussent être, ils obéissaient à l’une ou l’autre des opinions politiques qui nous divisent... Notre histoire ressemblait à nos assemblées legislatives: on y distinguait une droite, une gauche, des centres. C’etait un champs clos, où les opinions luttaient. Écrire l’histoire était une façon de travailler pour un parti et de combattre un adversaire. L’histoire est ainsi devenue chez nous une sorte de guerre civile en permanence. Ce qu’elle nous a appris, c’est surtout à nous haïr les uns les autres. Quoi qu’elle fût, elle attaquait toujours la France par quelque côté. L’un était républicain et se croyait tenu à calomnier l’ancienne monarchie; l’autre était royaliste et calomniait le regime nouveau. Aucun des deux ne s’apercevait qu’il ne réussisait qu’à frapper sur la France. L’histoire ainsi pratiquée n’enseignait que l’indifférence, aux étrangers que le mépris.»
Tal é o quadro geral da historiografia entre nós. Não nos vamos alongar num inventário, embora sucinto, da crise constante em que a História se tem arrastado no nosso país. A Dedução cronológico-analítica, de Pombal, pesa sobre nós, como uma hereditariedade viciosa. Lembrá-lo é lembrar toda a compreensão invertida do nosso passado que ordinariamente se professa nos meios apelidados de cultos. Herculano, com a sua possante personalidade, não escapou à mordedura racionalista e anticlerical. Há que revê-lo com cuidadoso respeito, tanto no campo da história propriamente política, como no campo da história das nossas instituições, em que será sempre um mestre eminente e inolvidável. Oliveira Martins, esse possuiu em alto grau o instinto da história psicológica, ou seja, a visão interna da História. Mas foi vítima da anarquia intelectualista da sua época, que não lhe permitiu deixar-nos a obra que se sente bem palpitar em tanto fragmento do seu copioso labor mental. No entanto, merece que nos descubramos diante de sua memória, saudando-o como um precursor, se nos recordarmos que ele adivinhou com apurado sentido a unidade espiritual da civilização hispânica, e que, ao tracejar em improvisos de literatura bastante falaz o perfil soberano do Condestabre, soube achar o segredo da sua individualidade translúcida através do sentimento que a Cavalaria lhe depusera na alma excelsa de Galaaz. Oliveira Martins, pela ponderação do factor místico na vida de Nun’Álvares e pelo regresso ao conceito camoneano da ‘Hispânia’ – as ‘Espanhas’ –, avistava de longe a clareira de um novo ciclo na minguada e obscurecida historiografia nacional. O seu pulso de historiador verdadeiro afirma-se ainda no Portugal contemporâneo, cuja leitura, ajudada pelas conquistas do pensamento moderno, nos mostra bem quanto Oliveira Martins venceu os preconceitos da sua formação filosófica para escutar, com comovido interesse, o grito da raça, leiloada e escarnecida pelos bazares impúdicos do Liberalismo. Mas com tão graves e insanáveis deficiências, tanto em Herculano como em Oliveira Martins, a falta de uma História entre nós contrasta singularmente com a aptidão historiográfica do génio português. Explicar semelhante lacuna é sumariar as causas que desde o advento do Constitucionalismo contribuiram danadamente para o rebaixamento de quanto existia entre nós de elevado, de autónomo e de fecundo. Alexandre Herculano é filho do ambiente em que haviam medrado os eruditos da Academia, com especial menção em António Caetano do Amaral e depois no insigne João Pedro Ribeiro, que são, por sua vez, um último reflexo da salutar influência das humanidades em Portugal.
Oliveira Martins – um autodidacta – perde-se, porque não encontrou já essas regras que até certo ponto a norma jurídica substituiu em Gama Barros e em Costa Lobo, além de que estes dois gloriosos nomes denunciam com frequência o sabor e o convívio das letras antigas. De resto, são autores especializados no estudo de determinados institutos, cujo método tem de ser por força o método analítico – isto é, o método do monografista – aplicado a uma órbita maior.
Espera, portanto, Portugal de há muito a sua História – história de síntese, traçado arquitectónico completo, em que a proporção e a lógica do conjunto nos desvendem as razões eternas da Pátria, na química incessante da sua renovação e vitalidade. Materiais dispersos existem em abundância – alguns de valor inapreciável, como os carreados e ordenados por Alberto Sampaio. Mas não basta apenas utiliza los no plano geral do edifício. Há que corrigi-los e ajustá-los, depurando-os de elementos contrários ou heterogéneos com que frequentemente andam misturados, por ausência de ideia directriz no espírito de quem os desbastou ou acumulou. Um necessário trabalho de revisão se impõe simultaneamente, espécie de breviário de correcções ou erratas, em que se instrua o processo das diversas lendas negras que deprimem a face augusta do nosso Passado. Com o objectivo de nos mostrar Portugal, sobretudo, como uma personalidade moral, prolongando-se no espaço e no tempo, uno e contínuo, essa História, a fazer-se, sem cair no detalhe excessivo, não deve também esquecer a revisão correspondente dos juízos e conceitos preconcebidos, a fim de que corresponda em toda a amplitude ao nobre intuito de Fustel de Coulanges ao escrever: «L’histoire imparfaitement observée nous divise: c’est par l’histoire mieux connue que l’oeuvre de conciliation doit commencer.»
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Ora, dentro desta ordem de considerações, há a reconhecer desassombradamente que a História de Portugal do senhor dr. Fortunato de Almeida nem de longe satisfaz aos propósitos que o seu autor se fixou a si mesmo, ao meter-se a empreendê-la.
Começa logo que o senhor dr. Fortunato de Almeida, excessivamente horizontal na sua impersonalidade (suspeita-se que essa impersonalidade, mais que um defeito de método, seja antes uma ausência de individualidade), se compraz de uma maneira singular em se meter dentro dos moldes do lugar-comum e não sair da alçada dele, nem para emitir o mais leve parecer ou a corrigenda mais insignificante.
As fontes bibliográficas são dificientíssimas, por onde se infere que o autor não ampliou o caudal dos seus conhecimentos desde que um dia se viu autor aprovado e adoptado nos nossos estabelecimentos de instrução secundária.
Mas, além da pobreza em matéria bibliográfica (o senhor dr. Fortunato de Almeida na erudição espanhola ficou-se no Padre Flores e em D. Modesto Lafuente), o senhor dr. Fortunato de Almeida pratica, com intenção ou sem ela, verdadeiras e imperdoáveis injustiças, recusando-se a aproveitar, por exemplo, as conclusões definitivas de Alberto Sampaio sobre os longos e confusos períodos que antecederam a formação do Estado português. Abordando de leve o problema da batalha e milagre de Ourique, o senhor dr. Fortunato de Almeida aparenta desconhecer os magníficos capítulos – honra da nossa erudição – que na sua História da Instituição da Santa Ordem da Cavalaria lhe dedicou recentemente o senhor D. Tomás de Almeida Manuel de Vilhena. Nem lhe mereceu maior cuidado as interessantes monografias de Luciano Cordeiro acerca de algumas das nossas princesas afonsinas. Se o senhor dr. Fortunato de Almeida se propunha, como anuncia inchadamente, levar a efeito uma nova tentativa de ‘História Geral de Portugal’, apresentam-se-nos sem desculpa as deficiências apontadas. E aludimos nós somente a trabalhos nacionais, que andam na consulta e na leitura diária de todos nós. Porque se entramos a fundo na questão, desde a tão debatida incógnita das nossas origens étnicas e sociais até outros temas, ainda mal esclarecidos e equacionados, tais como o do tributo ao Papa e o da morte de D. Inês de Castro, o senhor dr. Fortunato de Almeida manifesta-nos uma míngua deplorável de quanto haja de representar uma nova proposição do assunto.
Coíbe se o senhor dr. Fortunato de Almeida, por sistema, de enunciar a sua opinião, as suas preferências, as suas opções. Muito bem! Mas isso de modo nenhum lhe proibia que, a respeito de cada ponto controvertido, nos resumisse as principais teorias existentes. Tinha um modelo inigualável na esplêndida Historia de España y su influencia en la historia universal, que o meu ilustre amigo e mestre D. Antonio Ballesteros, catedrático da Universidade Central de Madrid, traz em publicação.
Assim, o que sucede? Abre-se o volume do senhor dr. Fortunato de Almeida, e em seguida a uma reduzida exposição geográfica que nada exprime (e tanto que, neste capítulo, o senhor dr. Fortunato de Almeida acharia para dizer, sem sair das linhas gerais!), depois de tracejado um epítome, desfalcadíssimo em qualidade, dos nossos componentes pré-históricos, entra propriamente no conjunto das raças históricas que povoaram a Península. Não se afasta em coisa nenhuma das classificações consagradas pela rotina, mas que a ciência manda a todo o custo remover, oferecendo, é certo, uma novidade: a de, na sua exposição, os Lígures virem depois dos Fenícios!
Entrando de relance na genealogia de Iberos e Celtas, o autor da História de Portugal mostra-se completamente alheio às aquisições fornecidas para tão magno debate pelo sábio catedrático da Universidade de Erlangen, dr. Adolfo Schulten, exumador das ruínas de Numância e a quem a proto-história peninsular deve assinaladíssimos serviços. Liga ainda a Gregos e Cartagineses uma influência decisiva na elaboração populacional e cultural da Península, quando, afinal, a sua acção se restringiu a determinados empórios fixados na costa e sem maior penetração interna. E os Lusitanos surgem-nos no volume do senhor dr. Fortunato de Almeida, sem antecedentes descriminados, como um povo de acaso, enjeitado da história, filho das tristes ervas. São Iberos? São antes Celtas? E o senhor dr. Fortunato de Almeida encosta-se a Estrabão e, numa passagem ou noutra, à autoridade do senhor dr. Leite de Vasconcelos, compilador daquela insigne babilónia a que chamou Religiões da Lusitânia.
As estreitas afinidades dos Berberes com os Lusitanos, já entrevistas pela intuição admirável de Oliveira Martins, não arrancam ao senhor dr. Fortunato de Almeida um segundo de passageira alusão. Escapam-lhe as hipóteses de [ Giuseppe ] Sergi sobre as raças mediterrâneas e deste modo não é de estranhar que, a propósito de Viriato e da guerra com os Romanos, não reflicta nem por suspeitas as interpretações, ou de D. Joaquín Costa, ou de D. Eladio Rodríguez Pereira, ou, sobretudo, do citado peninsularista alemão, dr. Adolfo Schulten.
Mas não se suponha que eu estou de palmatória erguida e dedo carregado nas lunetas, examinando apaixonadamente o senhor dr. Fortunato de Almeida! Justifico simplesmente a minha decepção, para que ela se não inculque como um impulso arbitrário, despida do mais insignificante fundamento. Depois, o senhor dr. Fortunato de Almeida observa, e acertadamente, no prefácio do seu volume, que Alexandre Herculano não fôra «além do período de formação territorial, e ainda este ficou incompleto no quadro das instituições portuguesas. Nem mais seria possível – acrescenta – completar a obra na mesma compreensão que teve o autor, segundo as ideias e conhecimentos do seu tempo».
E o senhor dr. Fortunato de Almeida explica o seu pensamento, arrancando um excerto a um anterior estudo seu. Importa que o registemos também. Hoje... não sustentaria Herculano tão radicalmente a existência de uma solução de continuidade etnológica entre lusitanos e portugueses. Os progressos realizados por diversas ciências – como a etnologia, a antropologia, a glotologia e a arqueologia – alteraram em grande parte a face da questão, demonstrando que, através de todas as vicissitudes e de todos os cruzamentos de raças, algum fundo se conserva no carácter português desde a época pré-romana, como acusam os costumes, lendas e superstições populares, certas modalidades de carácter e diversos outros elementos tradicionais. E, encerrada a transcrição, o senhor dr. Fortunato de Almeida remata com entono: «A tentativa de Herculano, por maiores que sejam os seus altos merecimentos, e quaisquer que sejam também os senões que o tempo foi pondo a descoberto, não vingou; e portanto o país ficou privado de uma história geral digna deste nome.»
Evidentemente resolvido a terraplanar tão profundo hiato, já vimos como se houve o senhor dr. Fortunato de Almeida, ao ocupar-se das nossas origens. A sua falta é tanto mais grave quanto, com inteira razão, aponta a Herculano, como defeito insanável, a ausência de um elo de ligação entre os ‘portugaleses’ da Reconquista e os Lusitanos, de que saiu Viriato. Mas o senhor dr. Fortunato de Almeida, apesar de reconhecer a importância desse elemento de continuidade na nossa história, principia por nem esboçar as teorias do eminente Alberto Sampaio, sabido que foi Alberto Sampaio quem, melhor que ninguém, nos demonstrou a sequência institucional que prende, numa cadeia ininterrupta, os habitantes das primitivas citânias aos vilões expéeditos de Entre-Douro-e-Minho, no alvorecer luminoso da nossa nacionalidade.
Já caíra em igual omissão pelo que se refere a Martins Sarmento e Estácio da Veiga, que não são apenas os arqueólogos puros e simples das citações (duas para cada um) do senhor dr. Fortunato de Almeida. Por discutíveis que se nos descubram hoje muitas das suas hipóteses, tanto Estácio da Veiga como Martins Sarmento alvejaram com penetrantes afirmações a identidade do português contemporâneo com o substracto étnico que se concrecionou no tipo histórico do Lusitano. Censurando o ponto de vista de Alexandre Herculano, como o corrige, pois, o senhor dr. Fortunato de Almeida – onde é que nós, na sua História, apalpamos ou sentimos o fio de transmissão que incorpora na mesma unidade social lusitanos e portugueses? Na verdade, o desprezo do senhor dr. Fortunato de Almeida pelos autores nacionais só encontra comparação condigna na sua ignorância do muito que os estrangeiros, a semelhante respeito, nos facultam a mãos largas!
Não ficam, porém, aqui – e já seria bastante –, os nossos modestos reparos à História do senhor dr. Fortunato de Almeida. Autor de uma História da Igreja em Portugal, pasmo como o consciencioso professor condense na exiguidade de uma página todo o mundo imenso de questões interessantíssimas que se relacionam com a difusão do Cristianismo na Lusitânia, entre elas a da vinda de Santiago às Espanhas, com prégação presumível em Coimbra e Braga. A fácil aceitação do Cristianismo entre nós não lhe merece observação nenhuma, quando essa tendência natural dos peninsulares para o monoteísmo já fôra assinalada numa passagem notabilíssima de Santo Agostinho. Empresta-lhe actualmente o maior relevo a teoria do ilustre catedrático de Saragoça, senhor Giménez Soler, o qual, no seu sugestivo estudo La antigua península ibérica, procura identificar o deus lusitano Endovélico com o nome de um régulo hispano, Andabales. ‘Andabales’ significa, segundo a autoridade do prof. Giménez Soler, ‘o que é dotado de poder’. E assim – explica o autor eminente de La antigua península ibérica, «San Agustín, al traducir Endovélico por el Todopoderoso, encontraba contactos entre la doctrina católica y la atribuición de todo poder a una sola divinidad». Se aproximarmos agora o deus Endovélico do antropormofismo do célebre ídolo pré-histórico de Peña-Tu e da tradição recolhida pelos viajantes latinos de que, em noites de plenilúnio, certos povos da Ibéria saíam para fora de casa dançando em honra de um deus desconhecido, aí teríamos, num simples aflorar de problemas, matéria para um ligeiro capítulo da história geral de Portugal que o senhor dr. Fortunato de Almeida animosamente se resolveu levar a efeito.
Acresce que, sem menção alguma dos nossos primeiros Mártires, o senhor dr. Fortunato de Almeida, ao ocupar-se da constituição e progressos da Igreja Lusitana, olvida por completo a importantíssima teoria filológica que faz coincidir com as antigas regiões dialectais da Península as jurisdições eclesiásticas que gradualmente se criam. Assim perceberíamos até certo ponto como o aro do condado portucalense corresponde ao da arquidiocese de Braga, com um notável centro de cultura em Dume, junto a Braga, onde foi bispo São Martinho, apóstolo dos Suevos e cristianizador de Séneca. Esquece-se o senhor dr. Fortunato de Almeida do bracarense Paulo Orósio, amigo de Santo Agostinho e o primeiro que entreviu o sentido da história universal através da ideia cristã do género humano. Nem de longe se preocupa com a contenda pendente acerca da origem e naturalidade do papa São Dâmaso. Atira para uma inexplicável omissão com São João de Biclara, natural de Santarém e historiador dos Godos, e com Santo Aprígio, bispo de Beja (Pax Augusta) e comentador do Apocalipse. Cita o senhor dr. Fortunato de Almeida a monumentalíssima Historia de las instituciones sociales de la España goda, de D. Eduardo Pérez Pujol. Pois bastava um brevíssimo apanhado do tomo III de tão grande obra para que ficasse satisfeita, quanto ao desenvolvimento da Igreja no período anterior ao da formação da nacionalidade, a natural curiosidade daqueles que naturalmente sentem como o senhor dr. Fortunato de Almeida a falta de uma história geral entre nós.
Aumenta, porém, a nossa tristeza se entramos na época da invasão árabe. Todas as ideias-feitas são acolhidas com notável benevolência pelo senhor dr. Fortunato de Almeida. A reacção, se se faz, faz-se apenas nas Astúrias. A existência das pequenas cristandades moçárabes do Sul é desdenhada, senão ignorada, pelo senhor dr. Fortunato de Almeida. A mesma sorte cabe às fortes resistências localistas de aquém do Tejo que, no desmembramento do califato de Córdova, revelam a inalterabilidade do génio étnico e social dos Lusitanos. Por exemplo: a monarquia dos Alaftas em Badajoz, os valiatos de Ossónoba e de Beja. Também não percebemos como do novelo emaranhado da Reconquista nos aparece o Condado portucalense, que, afinal, não é, como se julga, uma criação arbitrária da munificência de Afonso VI de Leão e Castela para com seu genro, Enrique de Borgonha.
E se seguíssemos desfiando o rol inesgotável das nossas reflexões, estranharíamos igualmente que ao senhor dr. Fortunato de Almeida, historiador de institutos eclesiásticos de mais a mais, escapasse por completo a acção de Cluny na formação do Estado português. Quando mais não avançasse contentar-nos-íamos se o senhor dr. Fortunato de Almeida sintetisasse, pelo menos, a excelente lição de Carlos Roma du Bocage e D. Nicolás de Goyri na sua memória, apresentada à Academia, Origem do Condado de Portugal. Idêntica insciência do assunto nos revela o autor da História de Portugal, ao tocar no debatido tema da vassalagem prestada por D. Afonso Henriques ao Papa. O conhecimento do direito público daquela época, em que havia, como realidade espiritual e social, uma autêntica ‘Sociedade das nações’ – a Cristandade –, ensinaria ao senhor dr. Fortunato de Almeida e aos seus leitores, com visão mais rasgada, como Portugal se constituiu em estado autónomo numa hora em que Afonso Raimundes era coroado em Leão imperador das Espanhas, lançando a sua suzerania a vários principados da Península e além Pirenéus, mas não podendo abranger dentro dela o reino nascente de seu primo Afonso Henriques.
A Cavalaria, o espírito da Cruzada, as íntimas relações de Portugal com várias nacionalidades europeias, então em activa elaboração religiosa e política, embora primaciais no jogo das forças que nos consolidam como povo autónomo do ocidente da Europa, são aspectos que não conseguem impressionar, como historiador, o senhor dr. Fortunato de Almeida. E, no entanto, desde o casamento de nossa Princesa Matilde – a varonil condessa Mahaut – com Filipe da Alsácia, até à série de combinações que atiram com as Infantas Berengária e Leonor para o trono da Dinamarca e com o infante Fernando, o «comte Ferrando», para o desastre de Bouvines, Portugal, adolescente, desempenha já na Europa um papel de irradiação própria que nos deixa entrever as gestas futuras da sua gloriosa expansão. Para tanto, afigura-se-me suficiente que o senhor dr. Fortunato de Almeida se encostasse aos materiais afanosamente acumulados pela senhora D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos nas formidáveis «Notas» ao Cancioneiro da Ajuda, sobretudo no capítulo intitulado «Relações de Portugal e Espanha com os países de língua d’oc e língua d’oïl».
E, porque falamos na senhora D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, uma imediata associação de ideias nos manda reparar que o senhor dr. Fortunato de Almeida não se ocupou sequer da origem e emancipação da nossa língua, um dos elementos estruturais da nacionalidade. Desinteressam-no as teses suscitadas à roda dos nossos Cancioneiros – teses, algumas delas, como as do insigne arabista espanhol D. Julián Ribera y Tarragó, de valor excepcional para o estudo das características e da pristinidade da nossa raça. O lirismo galaico-lusitano é, deste modo, para o senhor dr. Fortunato de Almeida qualidade de nenhum apreço, e só de raspão se lhe refere, ao tratar conspicuamente de D. Dinis nos termos que reproduzimos: «Com o aperfeiçoamento e consagração da língua vulgar coincide aproximadamente o período áureo da literatura portuguesa segundo o gosto provençal então dominante. No tempo de D. Afonso III e de D. Dinis, a côrte portuguesa era um dos mais afamados centros literários da península onde numerosos trovadores cultivavam as musas com distinção. O próprio Rei D. Dinis, além de ser protector das letras, deixou muitas composições poéticas que lhe dão lugar de honra entre os literatos da época.»
Entre os literatos da época? Ora valha-nos Deus!
Como se verifica, o rosário é interminável! O senhor dr. Fortunato de Almeida auto-sugestionou-se pelo louvável propósito de dotar Portugal com a História que lhe faltava. Confundiu deploravelmente história com erudição, e o douto publicista conimbricense que, na sua qualidade de erudito, nos brindou não há muito ainda com uma apreciável monografia, Subsídios para a história económica de Portugal, não conseguiu desta vez traduzir os seus bons intentos senão numa rapsódia medíocre de factos avulsos e mais que refervidos. Nos fenómenos históricos não abrange a sua íntima dinâmica, desertou-o por inteiro a visão interna da História. Se o senhor dr. Fortunato de Almeida se capacitasse de que a História não é unicamente um produto de laboriosidade e paciência, decerto não falharia nos seus desígnios, que nem chegaram a transpor os limites ordinários da boa-vontade! Porque, em verdade, é difícil de se perceber como o autor do 1. ° volume da História de Portugal se confina ainda em conceitos falsos e de todo repelidos, como são, por exemplo, os que possui àcerca da morte de Inês de Castro e do reinado de D. Fernando. D. Fernando, com a sua lei das Sesmarias e as suas medidas de fomento marítimo, foi o obreiro máximo da consolidação económica da nossa nacionalidade. Infeliz embora nos seus proprósitos de imperialismo peninsular, ele adivinha, por um lado, o perigo próximo da unificação dos outros reinos da Península, e sente a necessidade de expansão que se impõe a Portugal. Essa expansão será para o mar, e não para a terra. É aí que D. Fernando se enganava, mas, mesmo assim, dele irradiam as providências que no reinado seguinte tornarão possível o nosso nascente navalismo.
Quanto a Inês de Castro, é tempo de acabarmos com a lenda do seu assassinato cru e simples! Abramos, para absoluta demonstração, dois livros espanhóis recentíssimos – Historia de España y de la civilización española (tomo I, 3.ª edição), de D. Rafael Altamira, e Las mujeres del Rey D. Pedro I de Castilla, de J. B. Sitges. Diz o primeiro: «Poco después declaró el rey (D. Pedro I de Castella) la guerra a Albuquerque, teniéndole por rebelde; y el antiguo favorito contestó à ella conveniéndose con los bastardos Don Enrique y Don Fadrique para realizar un levantamiento que arrancase la corona a Don Pedro y la pusiese en cabeza de un hijo del rey de Portugal, nieto de Sancho IV; el cual, si aceptó en principio, rechazó luego la candidatura por recomendación de su padre.»
Não se passou a coisa tão singelamente como parece à primeira vista. O candidato dos revoltosos castelhanos era o nosso futuro D. Pedro I e o instrumento, junto dele, Inês de Castro em carne e osso. Eis o que nos revela Sitges, ao tentar devassar os motivos porque D. Pedro de Castela abandonou sua esposa, D. Joana de Castro, no dia imediato ao da boda: «Mientras éste (D. Pedro) preparaba su boda, Don Enrique y Don Fradique se confederaban con Albuquerque y acordaban ofrecer la corona de Castilla al infante de Portugal, y los encargados de seducir al infante fueron precisamente Doña Inés de Castro y Don Álvar Pérez de Castro, los hermanos bastardos de Doña Juana.» De resto, que D. Inês não morrera assassinada, mas sim executada, como criminosa de traição ao Estado, é o que transparece perfeitamente do Cronicon Conimbricense, citado pelo senhor dr. Fortunato de Almeida, onde se reza que na «era milesima CCC. nonagesima III. dies Januari decolata fuit Doña Enes per mandatum Domini Regis Alfonsi IIII».
«Decolata» é, quanto a mim, suficientemente expressivo. Depois, não se trata de uma novidade. Oliveira Martins (bem sabemos que o senhor dr. Fortunato de Almeida detesta Oliveira Martins!) já observara na sua Vida de Nun’Álvares, a propósito da conspiração de D. Enrique e D. Fradique contra seu irmão, o rei de Castela: «Em Castela, entretanto (1354), os filhos de Leonor de Gusmão viam-se reduzidos à condição de instrumentos da cabala dos Padillas e conspiravam. Avistavam-se sobre o Caia com o conde Álvaro Pérez de Castro, irmão da amante do infante de Portugal, Inês de Castro, que a esta intriga deveu a morte (1355).»
E não insistimos mais! Também sobre cultura algumas perguntas haveria que fazer ao senhor dr. Fortunato de Almeida que tudo compendia, no seu critério professoral e burocrático, sob a detestável rúbrica de «Instrução pública». Claro que desta forma não é salientada a influência intelectual de um Santo António de Lisboa ou de um Petrus Hispanus, autor das Summulae logicales, por onde no período do Escolasticismo toda a Europa aprendeu a bem pensar, e que, Pontífice com o nome de João XXI ou XXII, alcançaria de Dante, seu contemporâneo, a glória suprema de esmaltar com o seu nome um dos tercetos do Paraíso. Diz esse terceto: «Ugo de Sanvittore è qui con elli / e Pietro Mangiadore e Pietro Hispano / lo qual giá luce in dodici libelli.»
Quanto a instituições, cingido apenas à sua linha formal, o senhor dr. Fortunato de Almeida contenta-se em aceitar de Herculano a sua doutrina sobre a origem romana do Concelho, quando hoje reúne mais probabilidades a que Oliveira Martins entrevistou, aparentando os nossos institutos municipais com a djemâa berbere. Não inquire sequer de um ponto tão primacial como é o do nosso regimen matrimonial, com sobrevivência em Espanha no fuero del Baylio, da região fronteiriça de Albuquerque, Olivença e Xerez de los Caballeros. E etc., etc., etc.!
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Concordamos mais uma vez com o senhor dr. Fortunato de Almeida na falta de uma História de Portugal – condição indispensável para disciplina e consciência do forte instinto nacionalista que, anárquico e contraditório, se manifesta por toda a parte no nosso país. Mas essa história será obra de síntese, tocada da visão interior da alma-pátria, em que se aprenda na sua magnífica unidade a ideia-directriz que preside ao desenvolvimento e à persistência da Nação portuguesa. Sem espírito de historiador, o senhor dr. Fortunato de Almeida é uma vítima da metodologia, marca Langlois ou Seignobos, em que a erudição se confunde, por uma bastardia ignóbil, com a missão propriamente dita da História. O seu volume não passa por isso de uma revista seca e hirta de datas e episódios em que ninguém se apercebe do fio orgânico que liga o Portugal de hoje ao Portugal de algum dia. Por esta amostra calculamos o que serão os tomos seguintes! Se não fosse o receio de caírmos em juízo temerário, já daqui lhe esboçaríamos o esquema inevitável. Não sejamos, no entanto, agros de mais para o senhor dr. Fortunato de Almeida! O seu trabalho é, ao menos, um manual para o ensino, à falta de melhor. Comparado ao compêndio dos senhores dr. Manuel Paulo Merêa e Damião Peres, a sua superioridade sobre ele é incomensurável. Não dispondo de percepção sintética, guardou prudentemente os velhos quadros históricos da divisão em reinados, enquanto os referidos senhores com uma preocupação desastrosa de inovar, só mutilaram e fragmentaram a continuidade da Pátria no método que empregaram no seu livrinho. São as consequências do errado conceito que se possui da História, são os resultados evidentes do materialismo filosófico que, atribuindo à sociedade uma sujeição grosseira às leis deterministas da Evolução, a torna um produto cego das forças cegas do Acaso! Alarguemos, porém, a inteligência na sua sede de coisas altas e fecundas! Na empresa vastíssima que a mentalidade contemporânea se impõe – mentalidade ‘antimoderna’ e ‘ultramoderna’, na frase acabada de Jacques Maritain –, a depuração da História é um dos seus principais objectivos. Como defini-la então? «Tal como as linhas resultam de pontos, assim os grandes traços históricos de uma época e de um país não nos podem ser dados de uma maneira verídica e eficaz senão por aquele que, tendo debaixo da vista uma grande soma de detalhes, saiba fundir esses detalhes numa síntese luminosa e vital, relacionando-os com as causas de que derivam e com as leis que os regulam.» Não é outra a concepção perfeita da História, no justo entendimento do papel que dentro dela cabe ao factor espiritual. A quem pertence, porém, a definição? Pertence ao antigo prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, Mons. Aquiles Ratti, hoje Vigário de Cristo com o nome de Pio XI [1922-1939]. Indicação profunda e oportuna, nós a tomamos como norte seguro. Houvesse-a escutado o senhor dr. Fortunato de Almeida, e decerto que, ao meter ombros à História de Portugal, outros teriam sido os roteiros que a sua pena com êxito trilharia!
[ negrito acrescentado ]
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