ESTUDOS PORTUGUESES
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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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O verdadeiro Antero

António Sardinha
Fotografia
Antero de Quental

RESUMO
​Antero de Quental foi crítico da sociedade burguesa e do parlamentarismo das oligarquias, defendendo um socialismo de raízes nacionais. Apesar de antiparlamentarista, apoiou ações políticas pragmáticas, como a participação de Oliveira Martins no partido progressista, e liderou, com energia e patriotismo, movimentos como a Liga Patriótica do Norte. Era-lhe dolorosa a decadência coletiva, alimentando sempre a esperança num ressurgimento nacional. Exaltando valores comunitários cristãos, rejeitou tanto as monarquias plutocráticas quanto as repúblicas burguesas, influenciando gerações posteriores pelo seu exemplo e idealismo.

I. O diagnóstico de Antero

Paul Bourget, ao analisar a crise moral em França, conclui que tal decadência resulta do abandono das grandes verdades tradicionais. Inspirado por Bourget, é possível encarar os problemas portugueses sob essa mesma luz, compreendendo que a crise intelectual e social do país se liga ao esquecimento dos seus próprios fundamentos históricos e culturais.

Antero de Quental e o seu círculo, depois do declínio do romantismo, surgem como os grandes responsáveis por tentar orientar literária e filosoficamente a sociedade portuguesa, destacando-se por iniciativas como as Conferências do Casino. Antero diagnosticava a decadência nacional e literária, defendendo que a renovação só aconteceria com uma nova compreensão da justiça e a reforma das instituições. Acreditava num ideal coletivo e humanitário, colocando o dedo na ferida ao apontar a ausência de um propósito comum. Contudo, iludiu-se ao pensar que a solução viria pela Revolução, não prevendo o fracasso das ideias do seu tempo.

A sua influência rapidamente se fez sentir, reunindo jovens pensadores dispostos à renovação política. A sua fidelidade à Revolução e à crença numa pátria universal demonstrava um espírito aberto, longe do jacobinismo ou sectarismo. Antero encarnou o drama do seu século: desejava a emancipação, mas debatia-se com a impossibilidade de reconstrução. O pessimismo de que é frequentemente acusado resulta, na verdade, do confronto entre a sua natureza afirmativa e as contradições do contexto em que viveu.

A sua saúde delicada e o fim trágico alimentaram o mito de um poeta doente, quando na verdade a amargura de Antero se enraizava no embate entre as ideias modernas e as tradições, não em patologias individuais. O seu sofrimento intelectual, de raiz mística, leva-o a procurar constantemente um sentido para a existência, batendo a todas as portas em busca da esperança.
Antero descreve a sua revolução intelectual e moral ao sair do ambiente provinciano para a universidade: perdeu as certezas da infância católica e mergulhou na dúvida, tornando-se exemplo de uma geração que abandonou as tradições sem encontrar novas seguranças.

Apesar de conviver com o cepticismo moderno, Antero nunca foi um céptico pleno. O seu misticismo manteve-o afastado do nihilismo puro, e a busca pela fé e pelo absoluto foi constante. O pessimismo de Antero é visto como um caminho, não como um destino, e triunfa nele aquilo que é superior à natureza: a vida da consciência e o sentimento moral.

Antero tornou-se precursor das filosofias da intuição e crítico do racionalismo excessivo, defendendo a aliança entre pensamento e ação, valorizando o santo como modelo maior do que o filósofo ou o homem de ação. Acreditava que a verdade humana não é apenas científica, mas também crítica e prática.

Reconhecia no Catolicismo uma sabedoria única sobre a natureza humana, mas não chegou à plenitude da fé devido a resquícios de criticismo. A impersonalidade, para Antero, era a suprema libertação, uma beatitude aproximada da santidade, mas nunca um vazio existencial.

A sua filosofia permaneceu incompleta pela falta de convicção religiosa plena, mas Antero sentiu orgulho por ter vislumbrado as direções do pensamento europeu, mesmo sem alcançar a paz absoluta. O seu fim trágico, consequência de uma depressão agravada, não apaga o símbolo de esperança que deixou.

II. Filosofia e Política

Antero buscava a unidade do espírito e, embora não tenha conseguido completar a sua filosofia, delineou-a em torno da libertação do ser humano pelo bem e máxima impersonalidade. Não era budista, pois via na impersonalidade cristã um ideal ativo e não uma fuga para o vazio.

Influenciado por Proudhon, Antero adotou uma postura crítica em relação ao parlamentarismo e às ilusões do constitucionalismo, defendendo as raízes nacionais e valorizando a organização social orgânica, em oposição à abstração liberal. Acreditava que as reformas sociais deveriam partir dos órgãos naturais da sociedade, e não de leis impostas de cima para baixo. O seu socialismo era antiparlamentarista, anticentralizador e pautado pelo combate aos excessos do capitalismo, defendendo a conquista legal dos direitos do trabalho. Apoiou ações políticas pragmáticas e colaborou no partido progressista, sempre valorizando a autonomia e o nacionalismo.

Antero rejeitava tanto a república burguesa quanto a monarquia plutocrática, defendendo um modelo social comunitário inspirado nas raízes cristãs portuguesas. A sua liderança na Liga Patriótica do Norte e o seu envolvimento nos debates políticos demonstram este compromisso prático.

No fim, Antero não viu a vitória das suas ideias, mas a sua esperança em um ressurgimento nacional e em valores comunitários permanece como lição para as gerações seguintes. O seu exemplo e idealismo continuam a inspirar a busca por uma Portugal renovado, fiel às suas origens e aberto ao futuro.



I
Ao concluir nos Essais de psychologie contemporaine o seu notabilíssimo inquérito sobre a depressão moral da França moderna, Paul Bourget era obrigado a reconhecer experimentalmente que a crise profunda de que o seu país enfermava não tinha outra origem senão no esquecimento sistemático das grandes verdades tradicionais.
​
O pessimismo estudado por Paul Bourget, através dos tipos mais representativos da mentalidade francesa, levava-o assim a aderir com inteira aceitação de espírito aos princípios proclamados, em posições tão diversas, por um Balzac, por um Le Play e por um Taine. Essa base positiva do seu regresso às fontes religiosas e políticas da Contra-Revolução não tardou a consagrar-se nos domínios da crítica psicológica como o único método dispondo de reais possibilidades científicas. À sua luz é que nós precisamos de encarar também, na história pregressa das nossas doenças sociais, a causa oculta do mal, que já entra em Portugal felizmente a caracterizar-se para muita atenção esclarecida pelas mesmas razões, que há trinta anos tornaram célebre a reputação nascente de Bourget.

Segundo o processo empregado por Bourget, o que se nos impõe como imperiosamente necessário é classificar e inventariar as emoções e as ideias legadas à nossa geração por aqueles que a antecederam e prepararam no terreno da pura formação intelectual. Depois que a extraordinária intuição artística de Garrett, seguida de perto por alguns aspectos imorredoiros da obra de Herculano, naufragou sem sucessores que a mantivessem com nobreza na balbúrdia sentimental do nosso arrastado ultra-romantismo, é, sem dúvida, em Antero de Quental e nos seus amigos que nós encontramos um pensamento literário e filosófico revestido da preocupação evidente de imprimir direcções ao seu tempo e à nossa sociedade. Quando nada mais houvesse para o testemunhar, bastava-nos o propósito que inspirou as célebres Conferências do Casino e a meia-dúzia de linhas enérgicas do seu programa demolidor, ainda não esquecido de todo.
​
«A decadência nacional é o grande facto inexorável da nossa história, vai em três séculos; a decadência literária é uma forma dela, nada mais – observava Antero em 72, apreciando o ensaio de Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal. E a seguir o poeta esclarecia: Decadência irremediável?, pergunta o sr. Oliveira Martins nas últimas páginas do seu livro. Não!, responde-lhe a filosofia revolucionária. A nossa renovação moral e literária será possível no dia em que, pela reforma das instituições sociais, por uma nova e melhor compreensão da justiça, comece outra vez o espírito a circular neste grande corpo, mais inerte ainda do que acabado, volte a animá-lo uma alma, um ideal colectivo. O ideal colectivo, desejado por Antero, era o ideal messiânico do seu ingénuo humanitarismo. O Poeta punha o dedo na chaga, ao diagnosticar-nos, com clarividência absoluta, a falta de uma finalidade. Mas errava de antemão a cura, quando, conduzido pelas ideologias dominantes na sua época, imaginava o nosso resgate possível por obra e graça desses mesmos mitos que, falidos em 48, acabariam de abortar sinistramente, entre clarões macabros, com os incendiários enraivecidos da Comuna.

Cheio da sua imensa fé na Revolução – in Ecclesia Revolutionis, como ele tanto gostava de dizer –, Antero entendia, a seu modo, que as artérias imóveis de Portugal se rejuvenesceriam ao contacto violento das tendências radicais de que a marcha do século ia repleta. A influência de Antero fez-se depressa sentir, e tão profundamente, que numa hora em que apenas o partidarismo governava as aspirações e as vontades, ao seu lado se constituiu logo um núcleo de homens moços, destinado mais tarde a uma tentativa de alcance largo no campo da política portuguesa. Não tocaremos nos detalhes da existência agitada de Antero, nem nas suas ligações com a Internacional, nem nos seus planos fantasiosos de União Ibérica. Vítima dos erros funestos do seu socialismo inflamado e generoso, Antero procurava redimir Portugal pela nossa transfusão numa pátria feita de todas as pátrias, de que a Humanidade seria a conciência palpitante e eterna. Mas com isto não suponhamos Antero um jacobino estreito, um sectário sem elevação!

Pela primeira vez entre nós, no drama de uma inteligência, se vivia e agitava o drama de um século inteiro, na sua ânsia de emancipação e na sua simultânea impossibilidade reconstrutora. Daí o pessimismo de Antero, que não é de forma nenhuma a afloração de um temperamento psicopático, mas a resultante natural de um espírito envolto no tremendo conflito em que o seu tempo se debatia. Organização raríssima de afirmativo, é uso e costume descrever-se Antero como um semi-louco, levado aos encontrões da nevrose, na tortura pardacenta do seu tedio insaciável. Consagrou-se o lugar-comum, porque ninguém soube relacionar a tragédia mental de Antero com as correntes contraditórias a que baldadamente a sua cultura tantas vezes pediu a desejada unidade. Vê-se Antero apenas em relação ao nosso meio, com o cache-nez do duque de Ávila ditando a lei e as cigarras do velho Castilho regulamentando o gosto.

Na ausência total do mais rudimentar senso crítico, o caso de Antero, destoando das falácias superficiais de uma literatura de candidatos à prosápia veneranda de Acácio, passou a ser interpretado pelos mais avisados, ou como o produto da sua neurastenia extrema, ou então como a sobrevivência de não sabemos que recuados atavismos nórdicos.

A saúde precária do Poeta, de mistura com algumas estouvanices da mocidade, serviu de fundamento a esse combalido juízo, a que veio trazer um reforço de estrondo o seu fim desgraçadíssimo. Eram os mitos cientistas de Lombroso actuando entre nós! Não se compreendia que as predilecções filosóficas de Antero amargurassem uma inteligência colocada, por especiais condições de desenvolvimento, no fundo convergente da excitação doutrinária da sua época. O pessimismo que logicamente derivaria dessa babilonia confusa ainda se percebeu menos. E a gente abre aquele compacto In-memoriam e, afora algumas luminosas páginas de evocação pessoal, nada há ali que nos levante com verdade e com transparência, senão num traço ou noutro a figura, por enquanto tão mal estudada, do crucificado moral dos Sonetos.

Ora, na sua fórmula simples, sem patologias escusadas, o pessimismo de Antero é o pessimismo que magnificamente Paul Bourget examina nos seus Essais de psychologie contemporaine, ao ocupar-se, entre tantos, do exemplo típico de Amiel. Não faltou a Antero a acção corrosiva da análise, contagiada pelos pensadores protestantes à sua rica sensibilidade de meridional, bem entretecida por uma sólida estratificação católica. Desta maneira, não é necessário irmos tão longe – à costela remota dos Bethencourts, reis das Canárias, nem à novela peregrina de um suposto escandinavismo, para que Antero francamente se nos descubra no segredo difícil da sua personalidade. Não confundamos tão-pouco as inquietações nobilíssimas do seu pensamento com a marcha irregular das suas digestões! Muito em voga num período em que o materialismo triunfava nos meios científicos e literários, semelhante critério repele-se hoje, por arcaico e por caricatural. Na insatisfação do Vseu criticismo, Antero sofreu o mal da inteligência, com todas as formas de tristeza e diminuição de vontade que estruturalmente o caracterizam. De uma farta linhagem de místicos, Antero tinha a necessidade da crença – a sede ardente do Absoluto. Perdidas as convicções inatas que se recebem do sangue e do leite, em vão bateu a todas as portas, chamando pela Esperança, que dentro dele teimava em agitar sempre a sua asa de pequena Psyché tiritante.

Para se ajuizar de Antero, é ainda Antero o melhor testemunho a escutar-se. «O facto importante da minha vida, durante aqueles anos, e provavelmente o mais decisivo dela – confessa Antero na Carta autobiográfica a Wilhelm Storck, referindo-se à sua entrada na Universidade – foi a espécie de revolução intelectual e moral que em mim se deu, ao sair, pobre criança, arrancada do viver quase patriarcal de uma província remota e imersa no seu plácido sono histórico, para o meio da irrespeitosa agitação intelectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as encontradas correntes do espírito moderno. Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungente quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira que em Portugal saíu decididamente e conscientemente da velha estrada de tradição.»

Com um admirável poder de desdobramento e de destrinça, assim Antero de Quental equaciona o seu problema em termos iniludíveis. É como Bourget encara também essa espécie de náusea universal, cujo negativismo obscurece cada vez mais os horizontes carregados da civilização. Efectivamente, na perda completa das certezas adquiridas pela fé e pela experiência ancestral, é que implanta as suas raízes o cepticismo contemporâneo.

Muito ao contrário do que se imagina, vagueando embora por uma floresta de névoas e subjectivismos cerrados, Antero não chegou nunca a ser um céptico. A sua angústia derivou exactamente da incompatibilidade da sua consciência de afirmativo com as soluções estéreis de quanto filósofo frequentou, na sua vida nómada de pesquisador de Todo-o-Saber.

Acentuámos já a boa proveniência mística de Antero. Sempre agarrado ao seu subconsciente, o misticismo não o deixou naufragar nas seduções nihilistas de qualquer livre-exame de ocasião. É que o misticismo, tantas vezes invertido, tantas vezes despolarizado na sua essência, constitui sempre, no fundo do indivíduo, uma vasta possibilidade de ressurreição para os seus valores morais e mentais adormecidos.

Não se verifica outra coisa em Antero. O seu próprio pessimismo, nascido da prática larga da metafísica alemã, não é para ele um fim, não é de maneira alguma uma solução. Onde Antero está bem Vivo, nos traços vigorosos da sua extraordinária psicologia, é na sua Correspondência. Mais do que nos Sonetos, mais do que em tanto farrapo avulso do seu poderosíssimo génio, é ali que Antero nos aparece, tal como ele foi, fundamentalmente diverso das composições literárias que lhe adulteraram a figura, cercando-a de uma falsa lenda de desespero e insubmissão.

Oiçamos o que Antero diz do pessimismo a Jaime de Magalhães Lima em data de 14 de Novembro de 1886: «O pessimismo não é um ponto de chegada, mas um caminho. É preciso passar por ele, mas justamente para sair dele. O pessimismo é a redução ao absurdo do naturalismo e das mil ilusões filhas dele, ou para melhor dizer (porque se não trata de sistemas simplesmente) filhas do espírito humano na sua fase naturalista. Mas, sobre essas ruinas acumuladas pelo pessimismo, o que triunfa não é a negação, o que resta não é o vácuo. O que triunfa é o que fica, é aquilo que no homem não é já filho da natureza, mas superior a ela e autónomo: a vida da conciência e a sua mais alta expressão, o sentimento moral.

Quem traduzia uma tão profunda inquietação espiritualista, nunca se acomodaria certamente aos baixos conceitos do racionalismo então no Capitólio. Sem hesitar, eu considero Antero um precursor das modernas filosofias da intuição. Sentindo-os amargamente, ele viu como ninguém os exageros dissolventes do racionalismo. E como ninguém, procurou obter nas suas meditações de isolado e de contemplativo a aliança do Pensamento com a Acção. Ainda a Jaime de Magalhães Lima, Antero repararia: «Diz algures o Renan que na procissão da humanidade o filósofo é que vai na frente, e depois o homem de acção. Eu não penso assim, e mais sou filósofo!, e parece-me que o Renan peca, como tanta gente boa (é uma doença do século), por aquilo a que o Lange chamou o excesso do princípio da inteligência. Quem vai na frente é o santo, filósofo a seu modo, como os que o são, o homem de acção por excelência, por isso que a sua acção é toda no sentido do bem. De resto (e era isso que eu quisera dizer ao Renan) os que fundaram as coisas vitais da sociedade tinham muito mais de santos, quando o não eram completamente, do que de filósofos.»

Documentado com esta significativa passagem de Antero o seu anti-intelectualismo, não nos admirará muito que o poeta chegasse quase à concepção do homem-interior, que, por um lado, a Igreja nos oferece e, por outro, o pragmatismo nos confirma. «Não me agradou o livro do Nordau», comunicava Antero a Oliveira Martins, escrevendo-lhe de Vila do Conde em 1890. «Tantas ilusões, tanto optimismo e tão pouco espírito crítico em sujeito que se apresenta como o representante da razão científica, em face das mentiras da sociedade actual, chegaram a irritar-me. De resto, parece-me homem muito moço, e nesse caso tem alguma desculpa; mas sempre queria dizer ao sr. Nordau, para seu ensino, que não está tudo em se saber cientificamente que uma coisa é errónea, para se condenar e sobretudo para se afirmar que póde ser substituida. Para isso era necessário que a mola real do homem e da sociedade fosse a razão teorica, e a sua preocupação principal a verdade. Mas a verdade humana não é a verdade científica. Os científicos não são capazes de compreender isto, exactamente como os ideólogos do século passado (com quem se parecem muito e julgo que para pior); e como o próprio de tais espíritos estreitos e sistematicos é a persua são e o optimismo atrevido, a sua influência será ainda mais nociva que a dos ideólogos, que ao menos partiam de princípios psicológicos. Decididamente a inteligência humana é fraca e acanhada demais para poder compreender, dominar e governar coisa tão complexa como é o homem. O instinto, afinal, valia muito mais para esse fim. Infelizmente, o período do instinto passou, e é nisso justamente que está a crise: substituir, na direcção das coisas humanas, o instinto, que era suficiente, pela inteligência que parece insuficientíssima. Não vejo saída a este beco escuro.»

Foi demorada a transcrição. Mas eu não conheço nada que melhor defina Antero como filósofo, ao mesmo tempo que mais seguramente nos inicie nas genealogias obscuras do seu sofrimento. Combativo por índole, homem de fé e de esperança, Antero pesava bem as consequências nefastas do intelectualismo. Certos resíduos evolucionistas deixados no seu espírito pela grosseira superstição do Progresso impossibilitaram Antero de encontrar no Catolicismo a incógnita da questão que tanto o ensombrava e suspendia. No entanto, não fugia a declarar a Oliveira Martins: «O grande filósofo é a Humanidade e desse grande filósofo o melhor e maior sistema (por ora) é o Cristianismo católico. Há ali abismos de génio, uma visão prodigiosa dos mais largos horizontes ideais, e ao lado disto um senso prático, uma prudência admirável, um profundo sentimento da estranha combinação de grandeza e miséria que é a natureza humana, de tal sorte que quem não conhece e compreende o Cristianismo, não pode dizer que conhece e compreende a Humanidade.»

Transviado a dois passos do ancoradouro final pela fumarada das brumas naturalistas que do fundo de alma detestava, Antero não soltaria nunca o tranquilizador Inveni portum!, da legenda antiga. «O meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um budista – repararia Antero ao Dr. Storck na sua Carta autobiográfica. Há, com efeito, muita coisa de comum entre as minhas doutrinas e o Budismo, mas creio que há nelas mais alguma coisa do que isso. Havia realmente. É que a impersonalidade, entrevista por Antero como a suprema libertação do espírito, não era o pesadelo lívido do Nirvana, trazendo nos seus flancos o fantasma pavoroso do Vácuo, do Não-ser universal. Vivendo cada vez mais para os outros, sentindo morrer em cada dia dentro de si mais uma parcela do eu egoísta que tanto nos ilude, tanto nos faz sofrer e errar – elucidava Antero a Jaime de Magalhães Lima –, ia entrando gradualmente naquela região de impersonalidade que é a verdadeira beatitude. Teologicamente, não é outra a definição do Santo. Entendia Antero, porém, que, sem arredar pé do terreno do espírito moderno, se podia chegar teoricamente até aquela profundidade de compreensão do homem interior, como eles diziam, a que os místicos chegaram.»

Última ilusão do poder da inteligência em quem se eximira à sua falsa soberania, Antero incapacitou-se por esses restos de vago criticismo de obter a pacificação das mil e uma interrogações que lhe atormentaram a existência dolorida. Não sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposição dogmática das minhas ideias filosóficas...», escrevia a Storck. «Morrerei, porém, com a satisfação de ter entrevisto a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para onde inclina a divina bússola do espírito humano. Morrerei também, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana, e, como diziam os antigos, na paz do Senhor! – Assim o espero!»

Mas não morreu, como quisera e sonhara! A depressão nervosa que a sua estada nos Açores agravara ao extremo por causas meramente físicas, empurrou-o, num momento de incontida irreflexão, para o desfecho trágico do suicídio. Nada mais lógico, nada menos inesperado, segundo o Antero da versão corrente. Se olharmos à sua Correspondência, se o reconstituirmos conforme as indicações gerais da sua filosofia, nada mais para nos surpreender, é nosso dever atalharmos. Seria decerto o que Antero pensaria no último instante. E tanto que, ao esmigalhar o cérebro com duas balas de acaso, o seu corpo inanimado caiu junto a um muro, onde, numa velha lápide, se lia amorosamente: «Esperança».

Tal é o Antero dos Sonetos, o Antero de fisionomia cavada pelos combates duros da Ideia. “Os críticos alemães acharão talvez interessante observar as reacções provocadas pela inoculação do Germanismo, no espírito não preparado de um meridional, descendente dos navegadores católicos do século XVI. Neste período da Carta autobiográfica está enunciado por Antero o seu próprio caso. Nem sobrevivências atávicas de um afastado normandismo, nem manifestações superiores de alta patologia! Simplesmente o desacordo de um forte temperamento afirmativo com as razões fundamentais da sua cultura. É tempo já de assentarmos com dignidade em qual seja o significado da obra de Antero. Não é outro seguramente. Antero padeceu as influências da mesma crise que, na opinião de Paul Bourget, aparenta estreitamente entre si os nihilistas de Sampetersburgo, os livros de Schopenhauer e a dúvida elegante de Renan. Salvou-se Antero das suas garras fulminadoras. E salvou-se porque dentro dele a resistência sentimental da raça não deixou nunca de elevar o seu protesto. Crucificado no seu drama íntimo, Antero é um símbolo que se enche de um amplo sentido para nós. E assim, os seus olhos, ao coalharem-se no beijo frio da morte, a derradeira impressão que receberam do mundo foi confiadamente a da palavra ‘Esperança’!
Tenhamos esperança nós que, mais do que tudo, procuramos conciliar as inclinações da nossa inteligência com as leis sagradas do nosso sangue. É ainda a voz do grande poeta quem no-lo aconselha. Porque, na exortação do seu verbo ardente, cada vez mais presos ao exemplo herdado dos Avós, é ele que nos manda seguir o nosso caminho com heróica resolução: «Entre esses vultos mudos, mas amigos, / Na humilde fé de obscuras gerações, / Na comunhão de nossos pais antigos.»


​
II

Existência truncada, incompleta – incompleta e truncada ficou a sua filosofia. Antero caminhava evidentemente para a unidade do seu espírito. A conversão de Oliveira Martins e mais tarde o regresso de Ramalho Ortigão aos caminhos seguros da nossa boa tradição católica e monárquica não valém apenas como casos individuais. É preciso considerar essa conclusão de duas inteligências, experimentadas na dor e nos factos, como sendo a conclusão natural de toda a tragédia de pensamento de que Antero foi o centro e em que Ramalho e Oliveira Martins figuraram, à maneira clássica, como dramatis personae.

Assim se compreende porque Antero, impossibilitado de atingir a plenitude da Fé, não achasse a fórmula definitiva da sua filosofia. A filosofia de Antero baseia-se na libertação do homem pelo Bem, mediante a sua máxima impersonalidade. A máxima impersonalidade para Antero é, como já vimos, a concepção mistica do Santo, em que Antero via beatitude e acção, o que importava o completo repúdio do budismo literário em que as explicações fáceis de ocasião lhe procuraram encabeçar a atormentada psicologia. O erro de Antero esteve em que, fora dos estreitos horizontes naturalistas, ele pretendia, pelo Puro exercício da vontade, sem motivos interiores de exaltação religiosa, realizar o perfeito ideal do ascetismo. Evidentemente que, ferida de morte na sua essência, a filosofia de Antero não se corporizaria nunca num sistema concreto de doutrinas. E quem recordar o seu estudo publicado na Revista de Portugal. Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX, há-de até achá-lo despido de originalidade criadora, limitando-se apenas a uma exposição harmoniosa e tranquila das grandes correntes de que o seu pensamento sofrera a influência.

Antes que outrém o viesse a perceber, Antero percebeu-o imediatamente. «Para mostrar o meu afecto ao nosso Queiroz, comecei a escrever com destino à Revista um artigo sobre as tendências gerais da Filosofia na actualidade, coisa sumária; mas o assunto apossou-se de mim, passou a ser quase outra coisa o trabalho e no fim de três meses acho-me tendo produzido um estudo, que na Revista dará três ou quatro artigos, e que depois, ampliado, dará um livro. Ficou reservada muita coisa que naturalmente não cabe em artigos de revista. Escuso dizer-lhe que não é a minha filosofia (o italico é de Antero), aquela que V. sabe que eu tenho (sic), com o seu método e teorias particulares. Essa infelizmente desisto de a expor, porque está acima das minhas forças o fazê-lo, e depois ninguém me entenderia. Mas, em suma, são as minhas ideias, sómente expostas por um método impessoal, pondo de parte as minhas vistas originais e processo próprio dialéctico, e apresentadas simplesmente como induzidas da evolução do pensamento moderno e mais especialmente das tendências filosóficas dos últimos oitenta anos. De sorte que, amigo, ainda depois de publicar um livro de filosofia ficarei sempre um filósofo inédito.»[1]

Esta confissão de Antero precedeu a saída da primeira parte do estudo. «Filósofo inédito», a sua filosofia condensa-se, no entanto, num ligeiro período seu, intercalado nas deduções do estudo em questão. «Se pois só a perfeita virtude, a renúncia a todo o egoísmo, define completamente a liberdade, e se a liberdade é a aspiração secreta das coisas e o fim último do universo, concluamos que a santidade é o termo de toda a evolução e que o universo não existe nem se move senão para chegar a este supremo resultado.

Desfeita a fábula do negativismo filosófico de Antero, outro aspecto há na sua vida de trabalhador da inteligência que nos toca tanto como esse. Se de certo modo Antero adivinha a renascença espiritualista que hoje encontra no regaço da Igreja a sua expressão consciente, também para o nosso nacionalismo apaixonado Antero, como político, representa uma lição que é preciso termos sempre bem presente. Vestiu Antero a blusa azul dos tipógrafos. E com o seu alvoroço romântico, filiado na Internacional e conspirador ideólogo da União Ibérica, não o suponhamos sacrificando incondicionalmente os fervores da sua mocidade ao humanitarismo burguês da Revolução Francesa. Antero foi, sobretudo, um discípulo de Proudhon. Ninguém, como Proudhon, possuiu o senso da política tradicional dos reis franceses e se revelou um adversário implacável da diminuição social trazida à França pelos falsos dogmas de 89.

Apologista inflamado da educação clássica e do tipo patriarcal da propriedade, Proudhon figura hoje entre os mestres da Contra-Revolução. As utopias constitucionalistas mereceram-lhe críticas implacáveis e à hora em que o poder temporal da Igreja baqueava na cumplicidade da França excitada pela ventania jacobina, de Proudhon partiu a defesa do estado de São Pedro e dos direitos pisados do Pontifice. Por isso, no livro sensacional de Jacques Bainville, Bismarck et la France, se lê na portada o nome de Proudhon ao lado da evocação enternecida dos Zuavos pontifícios, caídos em combate, de armas na mão.

Antero reconhece na sua autobiografia a direcção que recebera de Proudhon. Ela é manifesta logo nos seus começos literários, quando deitou à estampa o seu raríssimo opúsculo Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX contra a chamada opinião liberal. «O autor – explica Antero a Willelm Storck –, criticando o pontificado pela beleza da sua atitude intransigente em face do século, via nessa intransigência uma lei histórica, rezava respeitosamente um de profundis sobre a Igreja condenada pela mesma grandeza da sua instituição a cair inteira, mas não a render-se, e atacava a hipocrisia dos jornais liberais.»

A atitude de Antero em 1865, inspirada sem dúvida pelos fortes trovejamentos de Proudhon, preludia na sua hesitação doutrinária as admiráveis campanhas contemporâneas de Charles Maurras sobre o Syllabus. O gosto contra-revolucionário afirmava-se assim no nosso ‘pequeno Lassalle’, como Antero a si mesmo se alcunhava. E ainda debaixo das reminiscências de Proudhon, há na sua correspondência uma passagem que eu reputo notabilíssima para a justa compreensão do pensamento político de Antero. Arranco-a de uma carta dirigida a Germano Vieira Meireles e datada remotamente de 1866, um ano a seguir à publicação da Defesa da Carta Encíclica.

«Para me distrair, tenho-me agora dado à leitura de romances, e releio Balzac, que é com efeito singular e único num género aliás cultivado neste século por tantos homens de talento. Os romances de Balzac são uma verdaeira história íntima do nosso século, e tenho admirado como em certas coisas capitais (como a influência da burocracia, a anarquia do livre-câmbio, as ilusões do constitucionalismo, etc.), a sua observação despreocupada da sociedade se encontra e concorda com a crítica sistemática do grande Proudhon.» Relida esta transcrição, decorrido já um tão largo período de tempo, o comentário só pode ser um e é ele que no livro de Luís Dimier, Les Maîtres de la Contre-Révolution, o nome de Balzac se inscreve ao lado do nome de Proudhon.
Com a sua penetrante lucidez crítica, não nos causará estranheza que Antero se tornasse desta forma um céptico da democracia e um inimigo feroz do sofisma constitucionalista. O seu germanismo intelectual levara-o, por intermédio de Hegel, à aceitação da noção histórica do Estado. «Como acomodava eu este culto pelas doutrinas do apologista do Estado prussiano com o radicalismo e o socialismo de Michelet, Quinet e Proudhon?» – perguntava Antero a ele mesmo na sua Autobiografia, não achando a explicação claríssima do caso, que, misturando Proudhon com Michelet, o poeta se apressava a complicar. A razão estava na antinomia do socialismo de Proudhon com o radicalismo de Michelet. Como Proudhon, pela análise penetrante das ideologias jacobinas, traz hoje à disciplina da realeza muita mentalidade desgarrada, também Antero, libertado dos preconceitos do seu romantismo igualitário, anteveria cedo a falência da democracia.

«O que dará a democracia?», interrogava Antero em carta a Fernando Leal, depois de verificar a bancarrota do regime burguês. Quem poderá dizê-lo! E o escolho onde até hoje têm naufragado todas as sociedades. Será que a sociedade, enquanto dividida em classes, que reagem umas sobre as outras e mutuamente se estimulam, e enquanto essas classes têm, como tais, um fim a cumprir, uma aspiração, um ideal, será, digo, que a sociedade, nessas condições, constitua um meio mais próprio para a produção do civismo e para a têmpera dos caracteres?, e que, realizadas aquelas ideias, cessando aquele estímulo, o homem que aquela luta levantara como acima de si mesmo, tenha fatalmente de cair na condição primitiva, na do animal de quem descende, só preocupado com materialidades e visionices? E a dúvida que Antero formulava, dando tanto realce à necessidade do constrangimento, negação do optimismo revolucionário e base verdadeira de toda a filosofia da Autoridade, essa dúvida reaparecia na sua pena, a propósito de uma brochura de Jaime de Magalhães Lima.

«Mas tudo isto é filosofia mais ou menos curiosa apenas, em face da urgência de organizar o poder político nas sociedades democráticas», ponderava Antero. «Confesso-lhe que não me parece isso coisa que se resolva do pé para a mão, nem creio que tamanha obra dependa simplesmente da aceitação de certas doutrinas. As da representação adequada e efectiva da nação, dos seus órgãos naturais, e não de entidades abstractas, acho-a perfeita e é há muito a minha. Mas como dar conciência a esses órgãos da sua realidade e autonomia?, por meio da lei? Mas a lei é impotente para isso, impotente para criar seja o que for naquela esfera profunda que só depende da espontaneidade social.

Seduzido ainda pela miragem da Evolução, Antero entregava aos anos o desenlace da dificuldade. E de volta ao assunto, acrescentava na carta seguinte: «Tinha ficado naquele tempo, em que, sendo a sociedade um organismo, a sua forma política devia ser orgânica, efectiva, e não abstracta, natural e não matemática; e que se uma sociedade, por ser democrática, nem por isso deixa de ser sociedade, isto é, unidade orgânica, toda a questão, para as democracias, está em conhecer quais são os seus órgãos naturais, e partir daí para a remodelação política. São as ideias do O. Martins, do Laveleye, e já hoje de muitos mais, entre os quais está também o meu amigo. Achei pois que são também hoje as minhas, e persisto em crer que esse ponto de vista naturalista e realista deve vir combinar-se com o jurídico e abstracto da Filosofia do Direito Clássico, para dessa união sair a verdadeira teoria do Direito Público.» Antero, visivelmente inclinado para as raízes da questão, continuava algumas linhas adiante: «O que é que impede verdadeiramente a reorganização das nossas sociedades? É apenas a ignorância de uma teoria, do sistema salvador?, ou será um facto íntimo, o individualismo, elemento psicológico que condiciona tudo o mais?

Na sua casinha de Vila do Conde, carteando-se com os amigos, Antero agitava, pela inquietação ardente do seu espírito, as mesmas interrogações que se sentiam já na conciência culta da época e a que o génio de Maurras daria mais tarde uma luminosa resposta. Continuando neste caminho da organização da democracia pelos seus órgãos naturais e efectivos, desenha-se nitidamente o fio que levou Antero a apoiar a política dinástica de Oliveira Martins, a sua outra metade, o São João Evangelista da sua sonhada obra de renovação social. Herdara Antero de Proudhon a mais fundamental repulsa pelo que ele próprio chamava «as ilusões do constitucionalismo». Na sua Correspondência depara-se-nos mais de uma alusão terminante à insânia liberalista que desenraizara a nacionalidade. Assim a Henrique das Neves perguntava Antero: «Terá este pobre povo, tão enfraquecido moralmente, e intelectualmente desnorteado por 50 anos de misérias partidárias e de ilusões liberais, e a quem falta um forte sentimento nacional, terá capacidade ainda para tantas virtudes?» Por outro lado, asseverava o poeta a Frederico Dinis de Ayala, a política antiportuguesa do partido regenerador nesta questão é mais uma completa manifestação da incompatibilidade do liberalismo com o nacionalismo, cujas raízes e essência são muitas outras.

​Nem constitucionalista nem jacobino, entende-se agora porque em carta a Sebastião de Arruda da Costa Botelho, Antero escrevia de Oliveira Martins que este, ao enfileirar no partido progressista, levava consigo, desfraldada, a bandeira do Socialismo. Em que consistia esse socialismo? Em acabar com a aliança da burocracia com a finança, «que é a fatalidade do partido regenerador, origem da corrupção política e de um sistemático desgoverno». E impregnado de um entusiasmo desconhecido, Antero insiste, Antero explica: «Destruir essa oligarquia burocrático-financeira, que nos domina e desmoraliza há tantos anos, e impedir por meio de leis convenientes que ela possa de futuro tornar a formar-se, parece-me coisa muito mais importante de que uma simples alteração no carácter do poder executivo, coisa que deve ficar para depois, pois só as reformas económicas e financeiras tornarão aquela outra puramente política, não só possível, mas fecunda e duradoura.

Do socialismo de Antero e de Oliveira Martins dissera o primeiro a João Machado de Faria e Maya: «Eu e ele é que nos entendemos a esse respeito». Desguarnecido de todo o filantropismo revolucionário, não era senão a luta contra os excessos do Capitalismo pela conquista legal dos direitos do Trabalho. Descende de Proudhon o sindicalismo francês, já entrado na fase orgânica com Georges Valois por teórico da Monarchie-ouvrière.

Filho de Proudhon igualmente, o socialismo de Antero viria a definir-se em sindicalismo com as notáveis medidas económicas de Oliveira Martins, levado precisamente pela feição socialista dos seus planos de governo ao encontro de um poder forte, a cuja sombra, sem se engolfarem em dissenções fratricidas, os diversos interesses conquistassem uma vida autónoma e próspera.
Em 1880 ainda o partido socialista apresentou o nome de Antero ao eleitorado lisbonense. «Se, por acaso, vires nos jornais que sou candidato socialista por Lisboa, não tomes isso a sério», comunicaria Antero pouco antes a um amigo. «São coisas, que podem suceder a qualquer, independentemente da própria vontade e determinação, exactamente como apanhar chuva ou ter de ouvir um discurso maçador. No entanto, apesar deste aparentado indiferentismo, não exageremos se considerarmos notável o manifesto de Antero. Nele se afirma: «Representantes de um movimento hoje esgotado, o movimento individualista, liberal e burguês do primeiro quartel deste século, os partidos conservador, progressista e republicano, tiveram já a sua razão de ser, correspondendo aos aspectos da revolução que consumaram e da sociedade que fundaram.»

E Antero prossegue, revelando bem os fundamentos nacionais do seu socialismo, em que é evidente o sinal da influência proudhoniana:

«Mas, à medida que essa sociedade burguesa, transformando-se surdamente, entrou em decomposição, os partidos saídos dela e que a representavam perderam também gradualmente a sua autoridade social: de partidos, transformaram-se em bandos, enquanto os seus programas, a princípio lemas jurídicos, se foram reduzindo ao estado de frases de uma retórica tradicional.» Em seguida Antero declara-se antiparlamentarista em termos que seriam para ficar memorandos, se o eclipse da inteligência colectiva em Portugal não tivesse começado só agora a desvanecer-se.
«No ambiente subtil e esterilizador dessa conspiração permanente, que é a essência mesmo do parlamentarismo, (os partidos) perderam a noção da realidade; e, enquanto o mundo se transforma, vão repetindo maquinalmente as costumadas teses de uma filosofia política caduca e que nem já compreendem. Classificado o parlamentarismo de conspiração permanente, Antero definiria adiante o jacobino como um conservador incoerente com frases de demagogo. E numa crítica cerrada contra a sociedade burguesa, ligando monarquia liberal e república parlamentar, Antero condensaria bem os motivos do seu socialismo, ao lançar a apóstrofe célebre: «Burgueses radicais, se a nossa república não é mais do que a república do capital, assim como a monarquia dos conservadores não é mais do que a monarquia do capital, que temos nós, Proletariado, que ver com essa estéril questão de forma? É uma questão de família entre os membros da Burguesia, nada mais.»

Posto de parte todo o subjectivismo democrático, a expectativa de Antero para com a Realeza tornou-se benévola. Foi com a sua decidida aprovação que Oliveira Martins se alistou no partido progressista, embora, falseando a verdade como sempre, Teófilo Braga declare que Antero se indignara com a apostasia do amigo. Tanto não era assim que em 31 de Março de 1886 Antero se exprimia deste modo a João Machado de Faria e Maya: «Os bons astrólogos políticos dizem que o ministério, tal como está, não pode durar muito, pois se acha dividido em dois campos rivais, e prevêem crise para depois do casamento do Príncipe. O campo de batalha é o novo ministério, destinado a O. Martins, e o programa financeiro e económico o do nosso grupo.»

Respondendo já em 1890 a uma carta de Oliveira Martins, Antero ia mais longe. «V. é homem de acção e o terramoto que se aproxima abre-lhe horizontes e promete-lhe um teatro digno da sua actividade», escreve ele. E havendo Oliveira Martins significado a necessidade de Antero voltar à superficie, o filósofo, depois de alegar o seu cansaço e o seu apego à ideia pura, esclarece: «E eu sê-lo-ia com que vontade e gosto, escuso dizê-lo, esse seu companheiro de luta, se me não conhecesse completamente incapaz para aquilo de que se trata. Tenho pois de me conservar no meu papel, quero dizer, na lógica do meu carácter e das minhas aptidões. Serei simplesmente para v., como até aqui, amigo, confidente e crítico encartado. De resto, quem sabe o que virá? Não recuarei diante de coisa alguma, senão só daquilo que repugnar à lógica e harmonia do meu ser.»

E não recuou. Colocado à frente da Liga Patriótica do Norte, dirige a parte política de A Província durante esse curto período de efervescência patriótica. Na Província, onde Oliveira Martins sustentara as suas extraordinárias campanhas de morigeração e reconstrução política, é que Antero acaba de confirmar o seu nacionalismo incondicional. Pobre Portugalório! – desabafaria ele, cheio de enternecimento, com Oliveira Martins. E não se poupa a fadigas, a sua energia é a energia de um iluminado. Redige ele próprio o Manifesto ao País, debaixo da dor aviltante do Ultimatum, não se chegando, porém, a distribuir, porque Antero destruiu todos os exemplares. Neste documento, elucida Joaquim de Araújo, condenavam-se os partidos militantes, estabelecendo-se que deles, inclusive o republicano, nada havia que esperar.

Algures Eça de Queiroz explica-nos como a Liga expirou. Chovia. À sessão marcada só compareceram Antero, presidente, e o conde de Rezende, secretário. Ambos se olharam pensativamente, deram duas voltas à chave da casa para sempre inútil, e vieram, sob o vento e sob a chuva, acabar a sua noite em Santo Ovídio. É que a expiação não chegara ainda. Chegou quando a geração que então despertava no berço se viu, quase trinta anos mais tarde, com o encargo sacratíssimo de restaurar a Pátria que seu pais haviam deixado perder de todo. O nacionalismo, que Antero considerava incompatível por natureza com o Liberalismo, não possuía raízes no espírito desorientado da colectividade. Foi preciso que o sangue corresse, que se chacinasse um Rei, que a mocidade da terra portuguesa se oferecesse, gentil e heróica, à ira de Deus e à reparação da história.

Hoje, sim, que a esperança já desce dos horizontes confusos e debaixo das lágeas tumulares, se ouvem tinir armas como para um grande combate libertador!

Adivinhando-o nas dores impossíveis do seu pensamento e da sua carne, Antero de Quental é, na sua amargurada experiência, um mestre a meditar-se. Os erros do seu tempo expiou-os ele por nós suficientemente, conduzido pela mesma crença dedicada com que, à custa do seu sacrifício, lançou mais uma pedra no caminho, para que os cavaleiros do Resgate, ao passarem, se não enxovalhassem na lama. Nem de largo lhe sorriram os indícios da vitória! Mas na renascença espiritualista, que ele entreviu no eterno purgatório do seu génio de filósofo, alguma coisa de Antero palpita, quando mais não seja senão a sua sede abrasadora de Absoluto.
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Fiel às virtudes ancestrais da nossa raça, não nos esqueçamos de que ele, regressado das ideologias românticas da Revolução, nos ensinou no seu exemplo a ter mais vivas as razões do nosso tradicionalismo e a servirmos com fé e coragem o desejado ressurgimento de Portugal. Nada queremos da república da burguesia, como nada queremos da monarquia dos plutocratas! Charles Maurras aceita a designação de socialismo como valendo pela penetração de uma ideia social de utilidade no conceito histórico da propriedade. Comunitária é a noção cristã da sociedade, comunitária foi a nossa Realeza, povoadora e cultivadora nos seus mais profundos alicerces. Neste socialismo concluiria Antero, como Oliveira Martins concluíu. E se nós somos, de certo modo, o partido póstumo de Oliveira Martins, porque é que não havemos de contar Antero de Quental entre os nossos camaradas mais velhos?


[1] Vid. Correspondência, carta a Oliveira Martins, 1890.



​[ negrito acrescentado ]
[ in Ao princípio era o Verbo, 1924 ]

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1887 - Antero de Quental - Carta a Wilhelm Storck
1924 - António Sardinha - A dor de Antero
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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