General rodrigues da Costa
António Sardinha
Na sua discreta casinha da rua do Sol, ao Rato, faleceu ontem, à tarde, o general Rodrigues da Costa. São de amargura estas minhas palavras, porque me prendia a essa interessante figura de velho o mais estreito convívio de espírito. O general Rodrigues da Costa possuía uma forte cultura humanista, que dava ainda agora à sua inteligência uma vigorosa e extraordinária lucidez. Discípulo de um frade carmelita, o latim era-lhe familiar no conhecimento e no apreço mais completo das suas belezas literárias. A propósito de tudo e de nada, com um vigor de memória que manteve até à hora final, havia sempre na boca do general Rodrigues da Costa, um passo de Vergílio ou uma sentença de Cícero.
No general Rodrigues da Costa desaparece o último dos companheiros de Rodrigues Sampaio na Revolução de Setembro. Ao lado do panfletário do Espectro é que Rodrigues da Costa firmou o seu nome de jornalista, bem cedo acreditado como um dos primeiros, mas bem depressa esquecido numa terra, como a nossa, em que o esforço e a honestidade levam o caminho inglório das coisas que se atiram para o lado, como escusadas e inúteis. Não quero perturbar o repouso mortuário de Rodrigues da Costa com a fraseologia oca dos elogios fúnebres. O que eu quero é prestar a minha homenagem a um português dos de lei – dos do outro tempo, que tinha da honra militar um conceito bem diverso do corrente. Talvez por isso é que o general Rodrigues da Costa, soldado que se orgulhava de o ser, dispôs nas suas determinações derradeiras que não lhe vestissem a farda que ele envergou com tanto brio e com tanto prestígio.
Mal arrepanho a minha emoção no decorrer rápido das impressões que a sacodem doloridamente. Fecho os olhos para reconstituir melhor as linhas desfeitas de mais esse amigo perdido, que eu acabo de ver imobilizado pela serenidade do repouso eterno naquela mesma salinha em que tantas vezes o escutei com encanto, debruçado sobre os seus livros, mergulhado nos seus papéis.
O general Rodrigues da Costa deixa inédita uma memória curiosíssima acerca do gravador do século XVII, João Baptista, além de vários trabalhos mais, que o impuseram dentro da sua profissão como uma autoridade das de maior valia. Ninguém ignora que o general Rodrigues da Costa foi secretário da grande Comissão Nacional, de que resultou a aquisição do nosso Adamastor. Deputado pelo menos duas vezes, o general Rodrigues da Costa distinguiu-se sempre pelo desvelado estudo que os assuntos da sua especialidade lhe mereciam inalteravelmente.
O centenário da Guerra Peninsular é obra de Rodrigues da Costa. Obra de Rodrigues da Costa é igualmente o reparo da cidadela de Elvas, caindo agora miseravelmente ao abandono, como se o passado glorioso da Pátria, tão gloriosamente sustentado à sombra dessas muralhas, lavrasse assim o seu protesto contra o leilão sem pudor em que abalamos perdidos. Mas, paz aos vivos sobre a campa dos Mortos!
Na sua renúncia voluntária perante uma sociedade em que ele se sentia emigrado, o general Rodrigues da Costa, comandante que foi do Campo Entrincheirado, Grã-Cruz de Isabel-a-Católica, guardou como poucos o respeito que devia às responsabilidades da sua situação.
Homem de um só parecer, como o varão antigo de Sá de Miranda, o general Rodrigues da Costa em fidelidade viveu e em fidelidade morreu. Se viveu como um soldado, deu-lhe Deus a graça de morrer como um cristão. É o prémio dos que são leais a si mesmos e não souberam nunca mentir à fé jurada em plena força da sua consciência! Não nos esqueçamos de que em Rodrigues da Costa some-se, também, o decano do nosso jornalismo. O nosso jornalismo! Mas eu prometi paz aos vivos sobre a campa dos Mortos. E, então, não me resta mais do que curvar-me diante do amigo que se dilui serenamente na sombra, enquanto a minha crença se eleva – Beati qui in Domino moriuntur! – nas promessas admiráveis do Salmista àqueles que adormecem no Senhor.
Nota desta edição:
João Carlos Rodrigues da Costa (1843-1917). Filho de Manuel Rodrigues e de Joaquina Carlota Ramos, fez os cursos de Artilharia, Cavalaria e Infantaria. Foi professor de Ciências Sociais, Química e Física no Real Colégio Militar e, pelo menos por duas vezes, segundo António Sardinha, deputado às Cortes. Jornalista, redigiu nos Açores o jornal do Gremio Litterario e a Lagrima. Fundou e redigiu a Idéa Social e colaborou na Revista Militar, Galeria Militar, Jornal do Exército Portuguez, Diário do Exército e Revolução de Setembro no qual foi seu redator político efetivo desde 1875. Foi sócio de várias sociedades artísticas e literárias nacionais e estrangeiras e fundador e vice-Presidente da Associação dos Jornalistas Portugueses.
Em 1880, na Comemoração do Tricentenário da morte de Camões, foi eleito presidente da Comissão Executiva da Imprensa, da qual faziam parte, entre outros, Ramalho Ortigão, Luciano Cordeiro, Jaime Batalha Reis e Teófilo Braga.
As comemorações do Centenário da Guerra Peninsular, que decorreram entre 1908-1914, foram presididas pelo General Rodrigues da Costa. Nomeado pelo governo em 1908, foi sob a sua liderança que a Comissão Oficial coordenou uma vasta série de eventos exaltando o patriotismo e a memória da resistência portuguesa contra as invasões napoleónicas. Foi promovida a realização de exposições históricas, como a do Museu de Artilharia e da Biblioteca Nacional, em Lisboa, bem como conferências académicas. Um dos legados mais visíveis foi o impulso dado para a construção dos Monumentos aos Heróis da Guerra Peninsular em Lisboa e no Porto.
As comemorações iniciaram-se ainda durante a Monarquia (sob o reinado de D. Manuel II) e continuaram após a Implantação da República, mantendo-se o General Rodrigues da Costa sempre à frente do processo, servindo de elo de ligação entre os dois regimes na celebração da identidade nacional. Foram publicados diversos programas e notícias históricas sobre batalhas decisivas (como Amarante, Buçaco - a que António Sardinha dedicou um texto - e Vitória), servindo para documentar e glorificar o papel do Exército Português no conflito. A atuação do General Rodrigues da Costa nessas comemorações reforçou o prestígio das forças armadas num período de grande instabilidade política em Portugal. Faleceu em 1917.
Ref.s: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez, Tomo X, Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCLXXXIII, p. 207-208; José Luís Assis, "A Revista Militar: o Centenário da Guerra Peninsular e o culto dos heróis", Revista Militar, n.º 2445, Outubro de 2005 (nota nº 19); Alice Samara, "Primeiro centenário das invasões francesas (1908-1914", in Fernando Martins e Francisco Vaz, O "saque de Évora" no contexto da Guerra Peninsular. Memória, história e património, Publicações do CIDEHUS, Edições Colibri, 2010, pp. 17-39, cf. nota 8.
João Carlos Rodrigues da Costa (1843-1917). Filho de Manuel Rodrigues e de Joaquina Carlota Ramos, fez os cursos de Artilharia, Cavalaria e Infantaria. Foi professor de Ciências Sociais, Química e Física no Real Colégio Militar e, pelo menos por duas vezes, segundo António Sardinha, deputado às Cortes. Jornalista, redigiu nos Açores o jornal do Gremio Litterario e a Lagrima. Fundou e redigiu a Idéa Social e colaborou na Revista Militar, Galeria Militar, Jornal do Exército Portuguez, Diário do Exército e Revolução de Setembro no qual foi seu redator político efetivo desde 1875. Foi sócio de várias sociedades artísticas e literárias nacionais e estrangeiras e fundador e vice-Presidente da Associação dos Jornalistas Portugueses.
Em 1880, na Comemoração do Tricentenário da morte de Camões, foi eleito presidente da Comissão Executiva da Imprensa, da qual faziam parte, entre outros, Ramalho Ortigão, Luciano Cordeiro, Jaime Batalha Reis e Teófilo Braga.
As comemorações do Centenário da Guerra Peninsular, que decorreram entre 1908-1914, foram presididas pelo General Rodrigues da Costa. Nomeado pelo governo em 1908, foi sob a sua liderança que a Comissão Oficial coordenou uma vasta série de eventos exaltando o patriotismo e a memória da resistência portuguesa contra as invasões napoleónicas. Foi promovida a realização de exposições históricas, como a do Museu de Artilharia e da Biblioteca Nacional, em Lisboa, bem como conferências académicas. Um dos legados mais visíveis foi o impulso dado para a construção dos Monumentos aos Heróis da Guerra Peninsular em Lisboa e no Porto.
As comemorações iniciaram-se ainda durante a Monarquia (sob o reinado de D. Manuel II) e continuaram após a Implantação da República, mantendo-se o General Rodrigues da Costa sempre à frente do processo, servindo de elo de ligação entre os dois regimes na celebração da identidade nacional. Foram publicados diversos programas e notícias históricas sobre batalhas decisivas (como Amarante, Buçaco - a que António Sardinha dedicou um texto - e Vitória), servindo para documentar e glorificar o papel do Exército Português no conflito. A atuação do General Rodrigues da Costa nessas comemorações reforçou o prestígio das forças armadas num período de grande instabilidade política em Portugal. Faleceu em 1917.
Ref.s: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez, Tomo X, Lisboa, Imprensa Nacional, MDCCCLXXXIII, p. 207-208; José Luís Assis, "A Revista Militar: o Centenário da Guerra Peninsular e o culto dos heróis", Revista Militar, n.º 2445, Outubro de 2005 (nota nº 19); Alice Samara, "Primeiro centenário das invasões francesas (1908-1914", in Fernando Martins e Francisco Vaz, O "saque de Évora" no contexto da Guerra Peninsular. Memória, história e património, Publicações do CIDEHUS, Edições Colibri, 2010, pp. 17-39, cf. nota 8.