Nacionalismo Literário
António Sardinha
Afonso Lopes Vieira o preceptor seguro da sensibilidade portuguesa
- António Sardinha
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António Sardinha exalta a relevância de Afonso Lopes Vieira e do seu livro "Ilhas de Bruma" no contexto do lirismo português, destacando a simplicidade poética enraizada na tradição popular e o combate ao cosmopolitismo e ao esteticismo superficial. Defende que a verdadeira poesia deve refletir a herança, a paisagem e as emoções do povo, sendo um elo entre passado e presente, capaz de reeducar a sensibilidade nacional e afirmar a identidade portuguesa através da arte.
Na renovação da nossa sensibilidade, o último livro de Afonso Lopes Vieira – Ilhas de Bruma [1918] – ficará marcando um dos mais nobres esforços de que o lirismo nacional se pode orgulhar. São já grandes, e de elevado fervor, os serviços de Afonso Lopes Vieira à boa causa do Lusitanismo! Tanto quanto lho permite o seu temperamento recluso de poeta, Afonso Lopes Vieira é até um dos melhores amigos do movimento integralista. Esses títulos, que o impunham superiormente à nossa admiração enternecida, valorizam-se hoje ainda mais com o excepcional impulso que o seu livro veio trazer à batalha dura em que a nossa mocidade se consome, cheia do desejo altíssimo de fazer bem português o nosso Portugal.
O pior dos males, com que a cada hora nos defrontamos, é o da pavorosa anarquia mental e sentimental, em que a inteligência e a emoção parecem abastardadas para sempre na nossa pobre terra! O estrangeirismo domina-nos, e domina-nos tanto no gosto como no pensamento, roubando à nossa vida colectiva todo o traço espiritual que a una e que a vivifique. É certo que, nas camadas mais moças, um salutar instinto de reacção se alevanta. Mas mesmo aí a perversão literária persiste em cultivar o exagero individualista, que a geração nova com tão entranhado afinco já de há muito repeliu na política e na filosofia. Dá-se assim o caso contraditório e paradoxal de se apontarem rapazes que conscientemente combatem o internacionalismo revolucionário debaixo da sua forma democrática e igualitária, acolhendo-se aos conceitos positivos da ciência social, para, simultaneamente e numa disparidade que atormenta, continuarem presos do erro cosmopolita pela admiração inexplicável que lhes merece o dandismo estético de um Oscar Wilde ou de um Jean Lorrain, por exemplo.
Eu sei que vai nisso um poderoso anseio de aristocratização pela beleza! Mas a beleza em si não basta, quando uma razão humana se lhe não junte e a obrigue a palpitar com a carne da nossa carne e com a alma da nossa alma. A ‘beleza’ não é mais que um puro elemento formal, elemento transitório de expressão. Pela beleza se traduz o que há de avoejante e de grande em nós. Traduz-se o amor de Deus, o amor da Terra, o amor do Sangue. A Vénus de Milo, se é bela, é porque um erguido intuito religioso encaminhava o cinzel que a arrancou à dureza de um bloco de mármore. A beleza pela beleza é um dos aspectos típicos do materialismo do século que passou. Representa apenas o enlevo sensualista dos olhos, esquecidos, na posse da visão imediata, de todo o arroubo íntimo que casa o momento criador do artista com as aspirações eternas da vida.
Amar a vida pelo seu lado belo é como se comêssemos pão unicamente para o saborearmos, já notava Emerson. É preciso identificar-nos com os fundamentos profundos da nossa personalidade e sermos em Arte os clarificadores das vozes indistintas e tumultuosas que o Passado e os Mortos gritam dentro das nossas veias.
Eu aconselho a juventude do meu país, a quem uma certa perfídia egotética enleia como um demónio tentador, a procurar o acordo das suas preferências artísticas com as disciplinas da nossa paisagem e da nossa hereditariedade. Se a sua cura sentimental depende de uma psicoterapia segura, Maurice Barrès é o grande professor, cujo convívio lhe recomendo. Também ele sofreu os enganos do individualismo mais desabusado! Mas porque um dia se quis explicar no enigma sempre fechado do seu ser, ele teve que aceitar, para se possuir, as normas sagradas da sua Lorena, que não eram mais que as da condensação da sua própria individualidade. Há uma página de Barrès – «Le 2 de Novembre en Lorraine» – que eu gostaria de ver sentida e amada pela gente moça de Portugal! Aí se estabelecem os motivos críticos do verdadeiro nacionalismo literário, que um outro mestre ilustre, Charles Maurras, definiu assim: «Quelle que soit la tradition d’une littérature ou d’une langue, il est bien évident que ce qui se tente conformement à son génie s’opère beaucoup plus facilement qu’en un sens opposé à de séculaires tendances.»
Pois ninguém entre nós, como Afonso Lopes Vieira, se empenha em se aproximar tanto do que deva ser amanhã o ressurgimento do espírito da Pátria pela acção social dos seus poetas e dos seus homens de letras! A obra do lírico das Ilhas de Bruma é, na sua curva ascendente, um óptimo tema a estudar e a desenvolver, para lição dos seus irmãos mais novos, desgarrados ainda no virtuosismo sumptuoso dos Paraísos Artificiais.
Afonso Lopes Vieira, pela compreensão vívida do que é a Poesia, retoma o curso adormentado do nosso lirismo nativo. O Lirismo é para nós um velho património de família. Afonso Lopes Vieira remoça esse património, indo surpreendê-lo nas raízes com a sua sensibilidade admirável! Para o poeta das Ilhas de Bruma, a Poesia não é nem a Imaginação, como os românticos pretenderam, nem a mera objectividade, como os parnasianos o decretaram. A Poesia é a libertação da nossa existência subliminar – existência rumorosa e obscura, pela qual nos ligamos à continuidade imortal do ser. As filosofias da Intuição ensinam-nos bem o que seja a Poesia como perfume próprio da Vida. Não é um acto de análise, uma pura concepção da inteligência. Vinda da alma, exprime-se, não se define. Por isso toda a Poesia é espontaneamente simbolista. Não simbolista de um simbolismo decorativo e meramente exterior, conforme as tendências em moda numa certa literatura fin-du-siècle. Semelhante simbolismo limitou-se a seguir as passadas do Parnaso e a bordar alegorias e ritmos no mesmo ponto miúdo com que nos tapetes se bordam cavalgadas e paisagens. Mas simbolista, do simbolismo eterno que nos dá o pensamento oculto das coisas e nos indica que tudo no Universo é significativo e significativamente se corresponde.
Porque a missão do artista é, segundo o preceito de Wagner,[1] recolher do povo a obra de arte, de que ele foi o criador inconsciente, ainda Lopes Vieira, com o seu escolhido medievalismo, tão cheio do perfume sadio e rústico dos nossos Cancioneiros, nos demonstra a elevação do seu raro temperamento de poeta. Não são imagens discursivas, não são imagens intelectuais as que esmaltam a frescura campesina das suas rimas. Cheias do misterioso sentido da Existência, Afonso Lopes Vieira recolhe-as da musa anónima da raça, impregnando-as do primitivismo adorável que nas figuras suaves dos nossos rimances guardou para sempre a dramatização dos mais contraditórios sentimentos humanos. Por cima da riqueza verbal dos românticos e da preocupação rebuscada, tanto no detalhe como na rima, dos parnasianos, não aludindo já às fanfarras brilhantes, mas simplesmente auditivas do decadentismo, Afonso Lopes Vieira encontra o segredo divino da Poesia, que é simples e clara – não confundamos o simples com o fácil! –, como simples e claro é tudo quanto seja natural e harmonioso.
Para mim, Antero de Quental é que caracterizou em termos escassos, mas com um extraordinário poder de síntese, o que deve ser a Poesia, como realização artística. Numa carta sua a Fernando Leal, diz ele, referindo-se ao intento em que Leal estava de verter, para verso nosso, o Livro de Lázaro: «Quanto ao estilo, aproximar-se há tanto mais ao de Heine quanto mais evitar as palavras literárias e mais se inclinar para o estilo e vocabulário popular. A poesia de Heine é toda ela vasada nos moldes dos Romanceiros: simples nos metros (quadras de sete sílabas, ou às vezes de endecassílabos, tercetos também, mas de sete sílabas: fugir do alexandrino, a não ser por ventura em dísticos separados, que se prestam à simplicidade) tem sempre pelo estilo, e pelo tom e pelo movimento geral, um ar de balada, de história antiga cantada à lareira, donde resulta, pelo contraste destas formas ingénuas e de requinte e do modernismo do sentimento e do pensamento, um dos efeitos mais picantes e mais originais do poeta.»
Antero tinha razão e parece que a sua experiência haveria de constituir o doce encanto dos versos de Afonso Lopes Vieira. Nada fala nele que recorde a intervenção do espírito crítico, o adjectivo suprindo a inspiração, o cérebro completando a fraqueza do impulso lírico.
Ó Portugal, florida alpendurada
sobre o mar, coisa saudosa...
Esta é a Pátria ditosa
minha amada, minha amada!
Ou então:
Naufraguei cem vezes já.
Uma foi na nau São Bento
e vi morrer, no trágico tormento,
dona Lianor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe –,
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
Ou ainda:
Ribeirinha, ó Ribeirinha,
que sabor na alcunha clara!
Vê-se o sorriso e a covinha,
que ele abre na tua cara!
Dona Maria Ribeira,
por quem tanto se penou,
dona, que foste a primeira
que esta linguagem cantou!
Mas onde o poeta nos dá um exemplo do que é a Poesia, alimentada pelas nascentes populares, ao serviço superior da nossa emoção, é, para não citar outras, na formidável página que intitulou «Romance».
Por noite velha, truz, truz,
bateram à minha porta.
Donde vens, ó minha alma?
Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia
de tão mudada que vinha;
trazia todas quebradas
suas asas de andorinha.
Mandei fazer-lhe a ceia
do melhor manjar que havia.
Donde vens, ó minha alma,
que já mal te conhecia?
Mas a minh’alma calada,
olhava e não respondia;
e nos seus formosos olhos
quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
da melhor roupa que tinha:
«por cima damasco roxo,
por baixo cambraia fina».
Dorme, dorme, ó minha alma
dorme e, para te embalar,
minha boca está cantando
com vontade de chorar.
A aspiração nacional, de que o movimento integralista tende a ser a definição futura, pode saudar sem reservas em Afonso Lopes Vieira o preceptor seguro da sensibilidade portuguesa, que começa enfim a reeducar-se. Com vista aos rapazes perdidos num esteticismo exótico e superficial, Afonso Lopes Vieira tem da sua arte a noção humana e digna de que ela não é mais que a flor do seu sangue e o espelho da sua paisagem. Diante do mar, ouvindo o sussurro embalador do Pinhal do Rei, faz-me lembrar aquela confissão célebre de Barrès aos félibriges de Paris: «Se eu fosse poeta, sê-lo-ia para exprimir un desejo insaciável de céu imenso. Mas se fosse um grande poeta, cantaria um herói que se sujeitasse voluntariamente a um horizonte mais estreito de que a sua fantasia. Conheçamos, aceitemos, amemos mesmo, as fatalidades que nos confinam. O que eu chamo Lorena, o que eu descrevo debaixo do nome de Lorena, não é talvez mais do que o sentimento vivo dos meus limites.» Afonso Lopes Vieira é bem o herói, herói no sentido de riqueza lírica, de abundância interior, de que fala o voto apaixonado de Barrès. Ele reconhece, aceita e ama os seus limites. Porque os ama, com tanta nobreza os canta. E assim a sua voz nunca mais se apaga no encantamento das nossas veias, quando o escutamos a rezar enternecidamente, olhos postos na fita longínqua das águas, cheio da ânsia indefinida de partir e de ficar:
Portugal, florida alpendurada
sobre o mar, coisa saudosa...
Esta é a Pátria ditosa
minha amada, minha amada!
[1] Hoje as ideias do autor sobre este ponto estão sensivelmente modificadas, dando a primazia à concepção individual na criação artística.
[1918]
in
O pior dos males, com que a cada hora nos defrontamos, é o da pavorosa anarquia mental e sentimental, em que a inteligência e a emoção parecem abastardadas para sempre na nossa pobre terra! O estrangeirismo domina-nos, e domina-nos tanto no gosto como no pensamento, roubando à nossa vida colectiva todo o traço espiritual que a una e que a vivifique. É certo que, nas camadas mais moças, um salutar instinto de reacção se alevanta. Mas mesmo aí a perversão literária persiste em cultivar o exagero individualista, que a geração nova com tão entranhado afinco já de há muito repeliu na política e na filosofia. Dá-se assim o caso contraditório e paradoxal de se apontarem rapazes que conscientemente combatem o internacionalismo revolucionário debaixo da sua forma democrática e igualitária, acolhendo-se aos conceitos positivos da ciência social, para, simultaneamente e numa disparidade que atormenta, continuarem presos do erro cosmopolita pela admiração inexplicável que lhes merece o dandismo estético de um Oscar Wilde ou de um Jean Lorrain, por exemplo.
Eu sei que vai nisso um poderoso anseio de aristocratização pela beleza! Mas a beleza em si não basta, quando uma razão humana se lhe não junte e a obrigue a palpitar com a carne da nossa carne e com a alma da nossa alma. A ‘beleza’ não é mais que um puro elemento formal, elemento transitório de expressão. Pela beleza se traduz o que há de avoejante e de grande em nós. Traduz-se o amor de Deus, o amor da Terra, o amor do Sangue. A Vénus de Milo, se é bela, é porque um erguido intuito religioso encaminhava o cinzel que a arrancou à dureza de um bloco de mármore. A beleza pela beleza é um dos aspectos típicos do materialismo do século que passou. Representa apenas o enlevo sensualista dos olhos, esquecidos, na posse da visão imediata, de todo o arroubo íntimo que casa o momento criador do artista com as aspirações eternas da vida.
Amar a vida pelo seu lado belo é como se comêssemos pão unicamente para o saborearmos, já notava Emerson. É preciso identificar-nos com os fundamentos profundos da nossa personalidade e sermos em Arte os clarificadores das vozes indistintas e tumultuosas que o Passado e os Mortos gritam dentro das nossas veias.
Eu aconselho a juventude do meu país, a quem uma certa perfídia egotética enleia como um demónio tentador, a procurar o acordo das suas preferências artísticas com as disciplinas da nossa paisagem e da nossa hereditariedade. Se a sua cura sentimental depende de uma psicoterapia segura, Maurice Barrès é o grande professor, cujo convívio lhe recomendo. Também ele sofreu os enganos do individualismo mais desabusado! Mas porque um dia se quis explicar no enigma sempre fechado do seu ser, ele teve que aceitar, para se possuir, as normas sagradas da sua Lorena, que não eram mais que as da condensação da sua própria individualidade. Há uma página de Barrès – «Le 2 de Novembre en Lorraine» – que eu gostaria de ver sentida e amada pela gente moça de Portugal! Aí se estabelecem os motivos críticos do verdadeiro nacionalismo literário, que um outro mestre ilustre, Charles Maurras, definiu assim: «Quelle que soit la tradition d’une littérature ou d’une langue, il est bien évident que ce qui se tente conformement à son génie s’opère beaucoup plus facilement qu’en un sens opposé à de séculaires tendances.»
Pois ninguém entre nós, como Afonso Lopes Vieira, se empenha em se aproximar tanto do que deva ser amanhã o ressurgimento do espírito da Pátria pela acção social dos seus poetas e dos seus homens de letras! A obra do lírico das Ilhas de Bruma é, na sua curva ascendente, um óptimo tema a estudar e a desenvolver, para lição dos seus irmãos mais novos, desgarrados ainda no virtuosismo sumptuoso dos Paraísos Artificiais.
Afonso Lopes Vieira, pela compreensão vívida do que é a Poesia, retoma o curso adormentado do nosso lirismo nativo. O Lirismo é para nós um velho património de família. Afonso Lopes Vieira remoça esse património, indo surpreendê-lo nas raízes com a sua sensibilidade admirável! Para o poeta das Ilhas de Bruma, a Poesia não é nem a Imaginação, como os românticos pretenderam, nem a mera objectividade, como os parnasianos o decretaram. A Poesia é a libertação da nossa existência subliminar – existência rumorosa e obscura, pela qual nos ligamos à continuidade imortal do ser. As filosofias da Intuição ensinam-nos bem o que seja a Poesia como perfume próprio da Vida. Não é um acto de análise, uma pura concepção da inteligência. Vinda da alma, exprime-se, não se define. Por isso toda a Poesia é espontaneamente simbolista. Não simbolista de um simbolismo decorativo e meramente exterior, conforme as tendências em moda numa certa literatura fin-du-siècle. Semelhante simbolismo limitou-se a seguir as passadas do Parnaso e a bordar alegorias e ritmos no mesmo ponto miúdo com que nos tapetes se bordam cavalgadas e paisagens. Mas simbolista, do simbolismo eterno que nos dá o pensamento oculto das coisas e nos indica que tudo no Universo é significativo e significativamente se corresponde.
Porque a missão do artista é, segundo o preceito de Wagner,[1] recolher do povo a obra de arte, de que ele foi o criador inconsciente, ainda Lopes Vieira, com o seu escolhido medievalismo, tão cheio do perfume sadio e rústico dos nossos Cancioneiros, nos demonstra a elevação do seu raro temperamento de poeta. Não são imagens discursivas, não são imagens intelectuais as que esmaltam a frescura campesina das suas rimas. Cheias do misterioso sentido da Existência, Afonso Lopes Vieira recolhe-as da musa anónima da raça, impregnando-as do primitivismo adorável que nas figuras suaves dos nossos rimances guardou para sempre a dramatização dos mais contraditórios sentimentos humanos. Por cima da riqueza verbal dos românticos e da preocupação rebuscada, tanto no detalhe como na rima, dos parnasianos, não aludindo já às fanfarras brilhantes, mas simplesmente auditivas do decadentismo, Afonso Lopes Vieira encontra o segredo divino da Poesia, que é simples e clara – não confundamos o simples com o fácil! –, como simples e claro é tudo quanto seja natural e harmonioso.
Para mim, Antero de Quental é que caracterizou em termos escassos, mas com um extraordinário poder de síntese, o que deve ser a Poesia, como realização artística. Numa carta sua a Fernando Leal, diz ele, referindo-se ao intento em que Leal estava de verter, para verso nosso, o Livro de Lázaro: «Quanto ao estilo, aproximar-se há tanto mais ao de Heine quanto mais evitar as palavras literárias e mais se inclinar para o estilo e vocabulário popular. A poesia de Heine é toda ela vasada nos moldes dos Romanceiros: simples nos metros (quadras de sete sílabas, ou às vezes de endecassílabos, tercetos também, mas de sete sílabas: fugir do alexandrino, a não ser por ventura em dísticos separados, que se prestam à simplicidade) tem sempre pelo estilo, e pelo tom e pelo movimento geral, um ar de balada, de história antiga cantada à lareira, donde resulta, pelo contraste destas formas ingénuas e de requinte e do modernismo do sentimento e do pensamento, um dos efeitos mais picantes e mais originais do poeta.»
Antero tinha razão e parece que a sua experiência haveria de constituir o doce encanto dos versos de Afonso Lopes Vieira. Nada fala nele que recorde a intervenção do espírito crítico, o adjectivo suprindo a inspiração, o cérebro completando a fraqueza do impulso lírico.
Ó Portugal, florida alpendurada
sobre o mar, coisa saudosa...
Esta é a Pátria ditosa
minha amada, minha amada!
Ou então:
Naufraguei cem vezes já.
Uma foi na nau São Bento
e vi morrer, no trágico tormento,
dona Lianor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e mãe –,
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
Ou ainda:
Ribeirinha, ó Ribeirinha,
que sabor na alcunha clara!
Vê-se o sorriso e a covinha,
que ele abre na tua cara!
Dona Maria Ribeira,
por quem tanto se penou,
dona, que foste a primeira
que esta linguagem cantou!
Mas onde o poeta nos dá um exemplo do que é a Poesia, alimentada pelas nascentes populares, ao serviço superior da nossa emoção, é, para não citar outras, na formidável página que intitulou «Romance».
Por noite velha, truz, truz,
bateram à minha porta.
Donde vens, ó minha alma?
Venho morta, quase morta.
Já eu mal a conhecia
de tão mudada que vinha;
trazia todas quebradas
suas asas de andorinha.
Mandei fazer-lhe a ceia
do melhor manjar que havia.
Donde vens, ó minha alma,
que já mal te conhecia?
Mas a minh’alma calada,
olhava e não respondia;
e nos seus formosos olhos
quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
da melhor roupa que tinha:
«por cima damasco roxo,
por baixo cambraia fina».
Dorme, dorme, ó minha alma
dorme e, para te embalar,
minha boca está cantando
com vontade de chorar.
A aspiração nacional, de que o movimento integralista tende a ser a definição futura, pode saudar sem reservas em Afonso Lopes Vieira o preceptor seguro da sensibilidade portuguesa, que começa enfim a reeducar-se. Com vista aos rapazes perdidos num esteticismo exótico e superficial, Afonso Lopes Vieira tem da sua arte a noção humana e digna de que ela não é mais que a flor do seu sangue e o espelho da sua paisagem. Diante do mar, ouvindo o sussurro embalador do Pinhal do Rei, faz-me lembrar aquela confissão célebre de Barrès aos félibriges de Paris: «Se eu fosse poeta, sê-lo-ia para exprimir un desejo insaciável de céu imenso. Mas se fosse um grande poeta, cantaria um herói que se sujeitasse voluntariamente a um horizonte mais estreito de que a sua fantasia. Conheçamos, aceitemos, amemos mesmo, as fatalidades que nos confinam. O que eu chamo Lorena, o que eu descrevo debaixo do nome de Lorena, não é talvez mais do que o sentimento vivo dos meus limites.» Afonso Lopes Vieira é bem o herói, herói no sentido de riqueza lírica, de abundância interior, de que fala o voto apaixonado de Barrès. Ele reconhece, aceita e ama os seus limites. Porque os ama, com tanta nobreza os canta. E assim a sua voz nunca mais se apaga no encantamento das nossas veias, quando o escutamos a rezar enternecidamente, olhos postos na fita longínqua das águas, cheio da ânsia indefinida de partir e de ficar:
Portugal, florida alpendurada
sobre o mar, coisa saudosa...
Esta é a Pátria ditosa
minha amada, minha amada!
[1] Hoje as ideias do autor sobre este ponto estão sensivelmente modificadas, dando a primazia à concepção individual na criação artística.
[1918]
in