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O Território e a Raça

António Sardinha
[António Sardinha, O Território e a Raça (Conferência realizada na sala nobre da Liga Naval Portuguesa, em 7 de Abril de 1915), in A Questão Ibérica, Lisboa, Tipografia do Anuário Comercial, 1916, pp. 10-76.] 

RESUMO
​A decadência e crise nacional que culminou na implantação da República está relacionada com um novo surto de Iberismo. 

António Sardinha reage valorizando as características únicas do território e da população portuguesa, defendendo a necessidade de resistir às influências externas que ameaçam a identidade nacional. 


A conferência foi publicada com as seguintes secções:

O Iberismo: perante o risco de absorção de Portugal pela Espanha, Sardinha identifica o protestantismo, o espírito revolucionário, e o internacionalismo maçónico, como os elementos mais importantes no enfraquecimento da unidade e identidade nacional. Enquanto o Iberismo é uma afirmação natural da parte de Castela, em Portugal é a Maçonaria o seu principal esteio de conluios. Destacando o papel da Igreja na formação e manutenção de Portugal, apela à sua defesa para preservar a identidade e autonomia portuguesas.

O Território: destacando a geografia e a antropologia, Sardinha contradiz a noção de que os portugueses seriam um povo artificial. Os fatores físicos, como a geografia e a distribuição das chuvas, têm papel na individualidade portuguesa no quadro peninsular. Coloca em evidência o lirismo português em contraste com o espírito épico e guerreiro castelhano.

A Raça: As diferenças étnicas e psicológicas expressam-se em divergências culturais e literárias. Na linha do nacionalismo étnico dos republicanos da revista Portugalia, a homogeneidade da população portuguesa é aqui apresentada como um dos alicerces da autonomia nacional, sendo os portugueses descritos como mais próximos do aquitano do que do corso ou do espanhol.  A autonomia portuguesa tem no entanto fundamento estrutural no localismo e no comunitarismo, começando aqui Sardinha a afastar-se da tese étnica dos republicanos.

​Conclusão: António Sardinha termina defendendo a importância dos deveres patrióticos, chamando a juventude à preservação da identidade nacional. Portugal, tal como outras nações, deve atribuir relevância às tradições e às forças morais autóctones. Invocando a figura de Nun'Álvares, conclui com uma mensagem de esperança: Portugal persistirá, mesmo diante das maiores adversidades.​

​J. M. Q. e M. V. C.

A fórmula de amanhã em política exterior há de ser, sem dúvida, não união-ibérica, mas aliança-peninsular. Nós não teremos deste modo a vergonha de Olivença! Não terá a Espanha a ignomínia de Gibraltar!

António Sardinha in O Território e a Raça.
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Seja a federação amigável nos termos em que a preconiza o político romântico Don Juán del Nido y Segalerva ou a simples anexação para nos salvar da ruína, no pensamento cruelmente irónico do professor Vicente Gay, toda a Espanha se deslumbra com a visão do Rei Afonso XIII, erguendo em triunfo a águia bicéfala, cujas asas cubram a velha Ibéria.
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Segalerva no seu livro — La Unión Ibérica, a páginas 364: "Sobre esa Dinasta (de Bragança) pesa la responsabilidad do haber deshecho en tiempo de Felipe IV la obra de Don Felipe II, y si fuere restaurada renacerían con ella todos los obstáculos que desde 1640 vienen impidiendo la UNIÓN IBÉRICA. (...) La política sensata aconseja la más absoluta abstención y esperar el desenvolvimiento de la Republica portuguesa. Nosotros no debemos ayudar ni la Monarquia ni la República; pero en todo caso, más debemos ayudar la República que la Restauración monárquica.”
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Em Abril de 1915, António Sardinha abriu o ciclo de conferências sobre a Questão Ibérica com "O Território e a Raça". Em 1916, com a excepção da conferência de Alberto Monsaraz - Diplomacia Peninsular -  as restantes conferências foram publicadas num único volume. O texto de apresentação surgiu datado em Outubro de 1915.

O Território e a Raça - Conferência realizada na sala nobre da Liga Naval Portuguesa, em 7 de abril de 1915. ​
O IBERISMO
A crise nacional e o Iberismo. Causas da nossa decadência. A Liberdade e o espírito protestante. O pensamento reaccionário. A concepção teocrática da Igreja. A Revolução, filha da Reforma. Antecedentes do programa de Badajoz: o conluio dos mártires da Pátria com o general espanhol Cabanes. Manuel Fernandes Tomás entendido com um club secreto de Cádis. Confederação republicana da Península. A Maçonaria, traidora à Pátria. A Carta. Uma frase de António Rodrigues Sampaio. O Iberismo autorizando-se de Alexandre Herculano e de Oliveira Martins. O Iberismo como doutrina revolucionária da parte de Portugal. O Iberismo como afirmação natural da parte de Castela.
O TERRITÓRIO
O planalto central da Península e a depressão marítima da vertente ocidental. Zona seca e zona húmida. Continentalidade e insularidade. Fronteiras naturais. A influência dos rios e do litoral na formação da nacionalidade portuguesa. Elisée Reclus. O depoimento de uma publicação oficial espanhola. O exemplo da Holanda. Regime pluvial e diversidades climáticas. Meio físico e determinismo psicológico. O génio castelhano e o génio português. O Lirismo e a Epopeia.
A RAÇA
O homem de Mugem e o braquicéfalo imigrante. O pequeno dolicóide e o mesaticéfalo vizinho. Tipo homogéneo do português. Diversidade de tipo nas populações espanholas. Razões étnicas da nossa autonomia. Resistência nativa do Lusitano e simpatias fusionistas do Ibero. O localismo, motivo estrutural da nossa história. O espírito militante, característica da história espanhola. A colonização. Comunitarismo e individualismo. O orgulho e a vaidade. As Canções de Gesta e a Matéria de Bretanha. A demonstração de Olivença.
CONCLUSÃO
Apelo à gente nova. A festa a Nun’Álvares. Um verso de Calderón de la Barca.
 

 
Minhas Senhoras e meus Senhores:
 
I

Como em toda a hora de crise nacional, o perigo ibérico está diante dos nossos olhos, indicando o futuro mais certo da Pátria, se a Pátria se não reabilitar lá fora, quanto antes, pelo regresso à Ordem e pelo respeito a si mesma. Só vivem os povos que sabem viver. E saber viver não é arrastar uma existência subalterna de país tolerado, sem mais direito a dirigir-se e a ter-se em conta de autónomo que a condescendência um tanto duvidosa dos vizinhos. É essa hoje, infelizmente, a nossa desgraçada situação. Levamos a carreira doida do abismo numa farândola de insensatos que se afundam, cantando e rindo, tal como os bailarins macabros da lenda. Ninguém se crispa num gesto que ao menos nos salve a dignidade! Tomou-nos a moleza do invertebrado. E como invertebrados sofremos sem reacção os vexames de um destino que é já demais para a nossa honra de homens de bem, quanto mais de cidadãos livres de uma terra livre! Não temos ainda para cá das fronteiras o inimigo tradicional. E se ele vier, não será a sua aspiração de séculos que o há-de erguer em som de guerra contra nós. Justiça ao cavalheirismo de Castela, nós é que a chamaremos às armas – hão-de ser os nossos desvarios que, esgotando-lhe a paciência, acabarão por lhe escancarar as portas da casa. A solução intervencionista é lógica, é natural como as coisas que o são, quando um importuno nos incomoda e nos coloca em risco de quebra o nosso próprio sossego, a nossa própria disciplina. Quem perdeu o jeito de ser prudente e não faz mais nada senão desgovernar-se, abre-se-lhe uma falência ou instaura-se-lhe uma curadoria. Não é outro, meus Senhores, o nosso tristíssimo caso!

Nós andamos a desmembrar-nos aos bocados, como numa grande barafunda em que os pais mercadejassem os filhos e os filhos leiloassem os pais. Manda em nós o estrangeiro do interior. É o estrangeiro do interior quem calunia o nosso Passado e cobre de descrédito as suas gloriosas instituições, para que as raízes de Portugal se enfraqueçam e nós não sejamos dentro de breve senão um terreno razo para as experiências do internacionalismo maçónico. É o estrangeiro do interior quem profana os nossos templos, quem enodoa de infâmias as velhas crenças que tornaram forte a Grei e nos trata como pretos debaixo da trindade revolucionária – Liberdade, Igualdade e Fraternidade –, velharia caduca, que olharíamos como uma caricatura sem nome, se a nós nos não custasse como o pior dos pesadelos. É o estrangeiro do interior quem nos conduz ao fim dos fins – quem nos divide e enfurece em brigas fratricidas, roubando-nos o senso de uma força superior que, vinda de Deus e da História, é, como os campos de batalha europeia no-lo comprovam, o motivo mais forte de durar e de vencer. Se Portugal possuísse uma finalidade, nunca o estrangeiro do interior, com palavras de promessa na boca de mentira, nos empurraria assim para a última das vergonhas, prestes a atar por nossas mãos a grilheta infamatória! Nunca! Mas se quê? A ideia colectiva desapareceu de todo na nossa sociedade – se o mais estéril individualismo nos depõe em aposentação numa transigência cobarde com o azorrague que nos castiga!

São as consequências de um crime que de longe vem, meus Senhores! É o crime dos ilusionistas de 1820 que, subvertendo os alicerces invioláveis da Pátria, a constrangeram levianamente num molde criado pela sua fantasia a escaldar. Cada povo, porque é povo, rege-se pelas leis fixas do seu determinismo – leis que, sendo limite e coordenação, são por via disso fisionomia e vitalidade. Alienar em mim as condições familiares da minha ascendência é alienar-me a mim próprio. Outro papel não tiveram os exaltados políticos do Romantismo, porque, traindo a nossa conformação hereditária, nos puseram inteiramente ao capricho de uma utopia desorganizadora, que por fatalidade irreparável nos havia de despenhar nesta desgraça das desgraças em que hoje rolamos perdidos.

Eu não venho aqui, meus Senhores, acusar ninguém. Mas não devo calar a minha repulsa, a indignação da minha consciência de português, pela liberdade teórica de Mouzinho da Silveira que, soprada pelos ventos atrabiliários da França, nos arrancou à certeza do nosso destino histórico, para nos abandonar, depois de desenraizados e perdidos, à doutrina suicida que em Oliveira Martins toma expressão definida.

Um país, uma pátria, é, meus Senhores, uma realidade fisiológica com os seus caracteres tão certos, regulados por leis tão inalteráveis, como os caracteres e as leis por que se distinguem as outras realidades físicas de que a vida se compõe. Tem a mais, como o corpo humano, uma alma, que é o génio da Raça – a razão afectiva de um povo. Essa alma é tecida pelo sentimento e pela experiência das gerações defuntas, amassando-se numa síntese de actividade e de direcção, na qual nós não temos o direito de tocar nem de leve, visto constituir o impulso medular de toda a ordem que seja contínua e estável.

Bacon já dizia que as forças da natureza não se dominam senão obedecendo-se-lhes.

Resignando-nos numa aceitação heróica às indicações do espírito ancestral, isso não importa um recuo para a noite escura das origens, nem uma recusa sistemática a quantas luzes a curiosidade sempre crescente da inteligência nos haja de trazer de novo.

O que é preciso é manter a virtude indagadora do nosso conhecimento adentro da sua função específica.

Quando ela se excede, cai-se na hipertrofia da apreciação subjectiva, que nos leva a projecções dementadas da nossa ideação em febre, tal como na história triste do triste cavaleiro manchego; ou então arrasta-nos a abusos de doutrina e de análise que, abstraindo de quantas verdades nos cercam, nos atiram irreparavelmente para o aluimento de todas as firmezas e de toda a iniciativa. Não se ignora que sem crer não se pode querer. A vontade não existe sem uma crença forte, que é a sua dinâmica poderosa. Lá asseverava Renan que, se Napoleão fora tão crítico como ele, não daria nunca o golpe do Brumário.

Eis porque para nós outros, os do Ocidente, o livre-exame representa a mais terrível das catástrofes. Nós possuíamos o nosso património mental e psicológico estratificado por séculos seguidos de história nos nascentes da nossa própria personalidade. Surgiu a Reforma. E com a rebeldia sacrílega de Lutero não se cuide que a Germânia, escandalizada pelos desperdícios faustosos da corte pontifícia, procurasse sossegar as inquietações da consciência cristã e conferir-lhe uma regra que a defendesse solidamente contra as licenças da cultura greco-latina.

Não! Os desperdícios de Roma – abençoados desperdícios! – valiam para nós não só a ressureição dos monumentos soterrados nas ruínas da Cidade-Eterna, mas ainda o triunfo do génio ocidental nos frescos da Capela-Sixtina, com mestre Michael repartindo-se entre os textos de Platão, que lhe ensinavam o amor da Beleza, e o Moisés formidável do túmulo de Júlio II.
Desfeito ainda no particularismo da idade feudal, o espírito alemão, até à altura incapaz de atingir o equilíbrio dos seus valores colectivos, lança pela boca de um monge despeitado o grito de desacato à metrópole brilhante das sete colinas. O Protestantismo, olhado à claridade deste critério, é consequentemente um inimigo irreconciliável da nossa formação de latinos. Tendeu a opor uma mentalidade sua à mentalidade europeia, baseado nos preceitos que da Itália nos vinham, já com a disciplina robusta dos estudos eclesiásticos, já com o convívio elegante dos velhos mestres recuperados.

Os elementos fornecidos pela Reforma à apaziguação da crise religiosa que o egotismo desenfreado da Renascença ocasionaria, são um dos muitos lugares-comuns que a ciência-oficial nos impõe, ao tomar conta de nós nas bancadas da escola.

Da Reforma nos veio a Razão-Pura. Da Reforma nos veio a Revolução-Francesa. Se na Alemanha, como fundamento da consciência nacional, concedeu às inclinações dispersivas do homem-loiro um molde que obtivesse do seu individualismo ferrenho de batalhador um individualismo mais alto de grupo, o qual se transformasse de seguida na individualidade ainda mais alta de pátria, entre nós, povos comunitários e de delicado temperamento emocional, só se desenvolveu em motivos de vexação e de derrocada. Vejamos nós agora como.

Condena-se para aí, com muita abundância de tropos, mas com pouco vigor de ideias, a assombrosa criação teocrática da Igreja durante o carregado período mediévico, em frente da qual o grande santo laico que foi Auguste Comte não hesitava em cair de joelhos.

A Igreja, como cabeça de uma comunidade de nações reunidas debaixo do sinal purificador da Cruz, não fez senão realizar o ditame do Apóstolo: quod omnes unum corpus sumus in Christo. O conceito moral de Respublica-christiana se formou assim, colocando na tiara o fulcro rijíssimo da estabilidade da Europa e dando ao nosso agitado continente aquela indispensável unidade espiritual que é a condição primacial das verdadeiras missões civilizadoras.

Insurgido contra a avariose revolucionária, que ele com tanta precisão qualificava de maladie occidentale, Auguste Comte sonhava com um estado social aproximado a esse e não duvidou propor aos jesuítas – aos jesuítas, M. Homais! – uma aliança ofensiva e defensiva com o Positivismo, a fim de se combater sem tréguas a anarquia de morte em que a latinidade se enfraquecia.
«A fé, isto é, a disposição a crer espontaneamente, sem mais demonstrações preambulares, nos dogmas proclamados por uma autoridade competente – confessava Auguste Comte –, é a condição geral indispensável para o estabelecimento e para a conservação de uma verdadeira unidade intelectual e moral.»

Vendo-me a reabilitar a acção teocrática da Igreja Romana, Vossas Excelências não duvidam já que eu sou reaccionário. Sou-o – e com desassombro!

É esse mesmo o título que mais dignifica o esforço mental de quem, como eu, se deseja reconciliar com as tendências superiores do presente século.

Reaccionário – exactamente! Porque ser reaccionário é estar com a herança filosófica de Taine, é aceitar os melhores ditames de Comte, de Le Play e Renan, é receber de Fustel de Coulanges a lição imparcial da História que é História.

Ser reaccionário é defender a integridade da minha conformação hereditária pelo acatamento ao Passado que me determinou e sem o respeito do qual as minhas razões de existir se esvaem depressa em menos que poeira.

Por tempos largos os exageros fantasiosos do Progresso-Indefinido fizeram do desenvolvimento da sociedade uma marcha de capricho, convergindo por alterações incessantes a um ponto longínquo de perfectibilidade máxima que a Nação-Humanidade concretizaria!

Era o erro grosseiro do transformismo aplicado à sociologia. Era o romance da monera ignara de Haeckel, elevando-se por virtudes gratuitas da concepção evolucionista corrente à plenitude da consciência, sem outro princípio que a suscitasse para a luz – para as difíceis cumeadas do Espírito, mais do que a própria força da matéria em si.

Mas hoje, depois das verificações experimentais de René Quinton, o critério vulgar da Evolução padece uma emenda sensacional. Deixa de se figurar como um jogo continuado de modificações, para exprimir tão-somente uma afincada manobra de permanência.

A vida é. E porque é, não pretende senão obter a integridade quotidiana e rigorosa de aquele conjunto de circunstâncias específicas de que brotara um dia.

É a apelidada lei da constância original dos seres. Tão cedo se perturbe no seu conteúdo essencial o integralismo fisiológico das espécies, há para logo uma anulação que nada remedeia nem nada evita.

Ora é na observância estrita do que nós, servindo-nos da terminologia científica, poderemos designar por «meio-vital» de um povo ou de uma nacionalidade, que reside o justo sentido da palavra «reaccionário».

Nós, se queremos viver, somos reaccionários em fisiologia, na defesa acérrima em que o nosso instinto se extenua contra os agentes deletérios que nos minam surdamente o organismo.

De igual maneira, para vivermos em grupo, para que o laço mais nobre da sociabilidade se não desate e nós não tenhamos de seguir uma sina de pobres átomos degravitados, carece-se de se ser também reaccionário em política.

Fustel de Coulanges no seu testamento mandava-se enterrar catolicamente. E explicando que não fora nunca nem praticante nem crente, lembrava-se, contudo, de que os seus predecessores haviam nascido e morrido no grémio da Igreja Católica.

«Le patriotisme – escrevia ele – exige que si l’on ne pense pas comme les ancêtres, on respecte au moins ce qu’ils ont pensé.» Tal é o sentido profundo do termo reaccionário, para aí desacreditado por demagogos de profissão, mas que eu reivindico para mim – repito – como o título que melhor define a concordância do meu espírito com as inspirações do meu tempo.
Ensina-me esse culto respeitoso pelo determinismo orgânico da Pátria a lição inolvidável de um ilustre livre-pensador francês – de Jules Soury, um dos mestres mais reputados do materialismo moderno.

Não acreditava em Deus o autor ilustre de trabalhos científicos, como são Les fonctions du cerveau e Le système nerveux central. Chegara mesmo a atribuir a vocação divina do Cristo a uma encefalite aguda. No entanto, Jules Soury declarava-se clerical numa época de batalha dura ao Catolicismo, dizendo-se em altas vozes tradicionalista na hora em que o internacionalismo libertário ganhava as massas e seduzia as elites. Era um reaccionário o tratadista notável, a quem um nosso pobre primário, encartado em psiquiatra de primeira classe, se fartou de arrepanhar o melhor da sua sabedoria de pobre-diabo das medicinas indígenas. Era um reaccionário que, embora mantivesse uma inabalável negação religiosa, entoava todos os dias a letra espantosa do Ofício de Defuntos diante do leito em que a mãe lhe morrera.

No homem tudo muda, tudo se transforma, menos os neurónios – elucidava a estranha teoria de Jules Soury. É nos neuróniosimutáveis e fixos que reside a razão fisiológica do Patriotismo pelos depósitos hereditários acumulados na sucessão interminável das gerações. Não se escudava em motivo diverso o catolicismo du dehors de Jules Soury. Como francês, reconhecia os limites em que o sentimento da França se emoldurava e definia. Acatava-os por isso e defendia-os em nome de uma cultura desinteressada. Porque a Igreja fora sempre a guarda vigilante da civilização ocidental, Jules Soury, enaltecendo-lhe a hierarquia e o espírito de renúncia e de sacrifício, batia-se por ela numa coragem rara de convicções. Enobrece ser reaccionário com figuras assim!
Pois, como reaccionário, é que eu acentuo o papel coordenador da teocracia romana durante a Idade-Média. A Igreja representava esse elemento universal necessário à vida dos povos que a Maçonaria, invertendo os valores morais e religiosos, pretende encarnar em si com o mito cosmopolita da Nação-Humanidade.

A experiência dura da guerra actual deixa-nos medir bem a falta de um eixo de apoio em que as divergências irredutíveis dos diferentes interesses políticos se conjugassem pacificamente em ordem ao equilíbrio superior da comunidade internacional. A base dessa comunidade não pode repousar na supremacia de um império ou no predomínio de uma aliança. Fundamenta-se numa noção de natureza espiritual e afectiva que, consagrando por um lado os múltiplos particularismos de que se reveste a idea de Pátria, por outro lado reúne as mais opostas aspirações na demanda de uma mesma finalidade – a finalidade moral e religiosa, que é a única capaz de irmanar a todos os povos e a todas as raças.

Comprova-o a função histórica da Igreja com a Trégua de Deus e a intervenção pontifícia nos desmandos dos reis medievais. Nem só a espada de Afonso Henriques susteve o Portugal nascente contra o poder três vezes maior do leão de Castela. A bula do papa Alexandre III acudiu como um anjo da guarda à nacionalidade em começo.

Não é outro o conceito de Respublica-christiana. Joseph de Maistre bem o reabilitou em previsões que talvez pertença ao nosso século o haver de realizá-las. Só deste modo se corrigia a funesta divisão trazida pelo Protestantismo à liberdade e à paz da Europa.

Com efeito, aluído o vicariato supremo do Pontífice pela dissidência irreconciliável da Reforma, imediatamente ao interesse uno e equitativo da Respublica-christiana se sobrepõem os intereses antagónicos dos vários Estados, disputando-se a primazia. Os Reis, que pela doutrina tomista eram chefes e não donos, engrandecem-se descomunalmente nas excessivas atribuições de majestade que o Protestantismo lhes confere, colocado na contingência de se perder na anarquia, ou de prevalecer pela intervenção do Estado, visto não dispor da firmeza certa do Dogma.
Falseando o princípio católico de que toda a autoridade legítima vem de Deus, gera-se num sentido vicioso de investidura pessoal o absurdo direito divino dos dinastas, a quem os doutores reformados concedem até a prerrogativa da ordenação sacerdotal. Na concepção católica da Realeza, a Monarquia, como expressão do conjunto social, está acima do Rei. Com os mandamentos políticos do «livre-exame», o Rei suplanta a Monarquia. Esvai-se a identidade religiosa e moral do orbe católico em que cada Estado procura preponderar, levado apenas em atenção ao seu alargamento insaciável. As nações pequenas subalternizam-se em precárias esferas de influência. Quem pesa na balança é a espada bruta de Brenus. Assiste-se ao embate da hegemonia francesa com a hegemonia espanhola. As lutas de guelfos e gibelinos são pálidas sombras ao pé do passar e repassar de exércitos em que o coração da Europa se confrange e ensanguenta duradoiramente. Em Roma o Príncipe da Paz já não pode nada. Os preceitos germânicos da posse tinham-se sobreposto aos ditames claros de São Tomás. Os Reis reinam já por si – pelo seu capricho absoluto, e não pelo direito da sociedade em se conservar.

Não é denegrindo a Alemanha na sua literatura, na sua ciência, nas suas artes e nas suas indústrias, não é acusando-a de bárbara, o que é um elogio em relação à nossa civilização maçónica e negativista, e indo no dia seguinte louvá-la em Beethoven e em Wagner, que o nosso problema de latinos se coloca em face da guerra contemporânea.

Se o nosso génio corre perigo de morte e se a nossa repulsa carece de ser afirmada diante das avançadas belicosas do homem-loiro, é na condenação inexorável do individualismo contagiado por ele ao Ocidente que o nosso ataque deve insistir, sem recorrer a caricaturas grosseiríssimas que só deslustram a quem se não peje de utilizá-las.

Na verdade, se o Ocidente padeceu o mal da Revolução, se a mentira democrática nos dissolve e gangrena irreparavelmente, agradeça-se a esse nefando «espírito-de-análise», assoprado lá das bandas tristonhas da Germânia!

Na Alemanha o «livre-exame» traduziu a constituição de uma mentalidade autónoma perante a supremacia intelectual do Latinismo. Transferido para as categorias psicológicas do Ocidente por meio da rigida inteligência huguenote, deu no abuso do criticismo, sem dúvida a pior das muitas pestes que nos têm visitado. Esfarelou-nos os nossos motivos inatos de crer e de querer. Foi o indivíduo abstracto dos Imortais-Princípios, sobrepujando a regra eterna da colectividade. Foi Port-Royal, foi a Enciclopédia – é Jean-Jacques, é o Liberalismo. Pelo amor cerebral das ficções inventa a transcendência opressiva da Lei. A lei passa a determinar a sociedade, em vez de unicamente a exprimir. Surge daqui a paranóia parlamentar, tendo surgido antes, numa série de terminações em ismo – dentro da religião, o Jansenismo; em política religiosa, o Regalismo; e no campo do direito público, o Absolutismo. No fundo sempre o indivíduo, sempre a opinião caprichosa, sempre o livre-exame!

Pombal aclimata aos nossos horizontes uma abstrusão tamanha. Protege os Padres-do-Oratório, gafados do defeito jansenista. Premia com bom dinheiro a Tentativa Teológica de Pereira de Figueiredo. Expulsa os jesuítas como terríveis republicanos, por eles defenderem as razões políticas de São Tomás. Declara apócrifo o tratado de Vaz de Gouveia sobre a Justa Aclamação de D. João IV, em que se estabeleciam as limitações tradicionais da nossa Monarquia. Eis porque o Marquês é bem o representante da corrente enciclopedista na sua face primeira – a de apelo ao poder civil para suplantar as altas hierarquias eclesiásticas.

Na separação dos dois poderes – do poder temporal e do poder espiritual – é que descansa a mais sólida garantia da liberdade. São dois polos que se neutralizam reciprocamente para tudo o que haja de significar a preponderância despótica de qualquer deles.

O poder espiritual é, na frase de Auguste Comte, «a reacção normal da inteligência e do sentimento sobre a força». Conforme o grande filósofo da Ordem, «o princípio revolucionário consiste sobretudo na absorção do poder espiritual pelas forças temporais, que não reconhecem outra autoridade teórica que não seja a razão individual».

A razão individual é, como já vimos, filha directa do Protestantismo. «Tendo rejeitado toda a autoridade espiritual para fazer prevalecer o livre-exame, escreve ainda Auguste Comte, o protestantismo não podia evitar a anarquia senão submetendo a Igreja ao Estado, cujo poder representava a supremacia material, emanada do número, em virtude da igualdade.»

São as vésperas da Revolução. Seu precursor natural, o nosso Marquês vai no companhamento dos chamados «reis-filósofos». E puxado pelas ideias em voga que recebera da sua passagem demorada pelas cortes de Londres e Viena, Pombal é o maior responsável pelas desgraças da Pátria. País de arreigada estrutura agrícola, quis-nos vestir o molde industrialista com companhias omnipotentes e monopólios pesadíssimos, à maneira do que presenciara lá fora. Sufoca a espontaneidade social com o seu estadismo enfático. E é, por antagónico que pareça, o primeiro passo dado entre nós para a estreia da liberdade romântica em 1820.

Não consente reservas a afirmação feita acima sobre a origem protestante da Revolução. «O princípio do exame individual supõe directamente a igualdade como condição basilar – acentua Auguste Comte. Ele não admite outra autoridade senão a supremacia do número.» Existe por via disso um estreito traço de parentesco entre as ditaduras caprichosas do século XVIII e os caprichos ditatoriais da paranóia de 89.

Legaliza-se por fim a cartilha declamatória da «Bondade-Natural». É o triunfo do homem a-histórico de Sorel, isento de todos os condicionalismos físicos e sociais. Uma lei que seja boa é boa em toda a parte, como em toda a parte é certo o mesmo axioma de geometria – declarava Condorcet na Convenção.

Assim, pela obsessão constante do indivíduo – pelo motivo absorvente do racionalismo – se promove o desequilíbrio da sociedade desde que o improviso legislativo elimina a acção experimental do Costume. Segue-se-lhe o desarranjo económico pela abolição do estatuto colectivo do Trabalho. E como complemento, consagra-se por norma governamental e administrativa a estulta insolência dos Parlamentos, que outra coisa não é senão o «livre-exame» aplicado ao jogo complexo dos fenómenos sociais.

Muito a propósito, observa um judicioso publicista francês, J. Coquille, que «l’unité morale des coutumes n’a pas été remplacée que par l’unité purement matérielle d’une loi uniforme: leur diversité, apropriée aux diversités de moeurs et de caractère, donnait au droit une vie intime et l’individualisait en quelque sorte dans les habitants de chaque localité! Moralement et intellectuellement, on savait la coutume par coeur, parce qu’on avait vécu avec elle. Le droit est maintenant une étude spéciale, une profession, la masse des Français en est naturellement exclue.»

Filiada a soberania popular no Protestantismo que confere à simples apreciação pessoal a suprema decisão das questões religiosas, independentemente de toda a autoridade legítima e competente, oiçamos ainda Coquille pronunciar-se acerca da superstição da lei, tão característica das situações revolucionárias. «C’est à la suite de la Réforme que le droit byzantin a supplanté les coutumes presque partout. La manie législative en provient, et la nécessité de volontés étrangères pour le réglement de tous les intérets, puisque le droit dépend désormais d’une science spéciale, et non plus de la conscience publique manifestée par le témoignage des sages et des prudents.» É a barafunda, é a instabilidade, é a desordem. Cada cabeça, cada sentença. Eis porque os regimes anormais não subsistem nunca. São governos contra a natureza por assentarem no alcance fortuito do indivíduo. Esquecem os Mortos e não contam com os Nascituros. Por esquecer os Mortos, redivivos sempre na Tradição, e não ter contado jamais com os Nascituros, que são a pedra angular do dia de amanhã, é que a nossa república de tragicomédia se arrasta desde a hora em que nasceu numa agonia lenta de alma-penada em que acabará por se ficar. Ela é, como as outras o são, «a revolta do ser contra a espécie» – na sentença memorável de Auguste Comte.
Compreende-se agora como é que, através das infiltrações vagarosas do cesarismo pombalino, o nefasto espírito protestante conseguiu conquistar-nos definitivamente com as aventuras, bem para repelir, de 1820 e de 1833.

«A constituição de um povo – escute-se mais uma vez o publicista Coquille – é sempre costumeira, e quanto mais ela é costumeira, mais ela é natural. Quando a lei, em lugar de se preocupar com assuntos de polícia e segurança pública, pretende regulamentar a religião, a família e a propriedade, é certo que só as prejudica. Estes três factores florescem sobretudo com a ausência da lei, porque vivem de si mesmo e por si só se defendem. A natureza, por intermédio do tempo, as fortifica e enraíza.»

Ora a liberdade constitucional de Fernandes Tomás, muito bem entendido, ao que se afirma, com o oiro da Maçonaria espanhola, imaginou regenerar uma pátria, roubando-lhe os suportes seculares que lhe estratificavam os alicerces. Se bastantes abusos de centralização e parisitismo nos viciavam o aparelho governativo, provinham eles dos vincos deixados no Poder pela passagem do Marquês. Tudo o mais que existia nas nossas instituições saíra da índole da raça – era a criação histórica do nosso génio colectivo, agindo com as suas virtudes e os seus defeitos.
Não o consideraram assim os agitadores de 1820, preocupados apenas em elaborar uma constituição mais liberal que a de Cádis – como francamente confessavam – e quem sabe se em participar dos cinco milhões de reales que se dizia haverem recebido das Lojas de Espanha para facilitarem aqui a proclamação da república confederada?! Como Vossas Excelências vêem, o programa do jantar de Badajoz não é nada novo!

Não se ignoram as consequências dessa desastrada «regeneração». Aplicado sem mais ensaios à nacionalidade portuguesa, o critério rectilínio da Lei deu a extirpação dos nossos velhos quadros institucionais. O instinto foraleiro da Pátria foi negado pela montagem estrangulante do Estado burocrático. Demitiu-se o municipalismo próprio da Grei. Votaram-se ao extermínio as corporações de artes e ofícios com a sua expressiva Casa dos Vinte-e-Quatro por órgão e porta-voz. A base pluralista da representação repeliu-se por arcaica. As Cortes-Gerais tiveram-se como uma coisa gótica, como uma velharia caduca. O indivíduo passou a ser, ao longo do agrupamento social, a célula originária de toda a actividade. O «livre-exame» fazia bom caminho entre nós. Faculta-lhe os progressos a hipertrofia romântica da sensibilidade. Servia-o na sombra o internacionalismo maçónico. No entanto, o traidor Gomes Freire pagou na forca o procedimento precipitado. É que só três anos mais tarde a atmosfera estaria disposta.
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... E em 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, quando anda o diabo à solta, é que a Liberdade – a tal de letra maiúscula – nos entra pela porta adentro e se assenta em nossa casa.
A carta régia de 4 de julho de 1824, aparecida depois da célebre jornada a Vila-Franca, quis-nos salvar ainda, tal como à Europa latina quisera salvar a Santa Aliança dos Reis e dos Povos – e não dos Reis contra os Povos, conforme a história que não tem nada de História.

Mas não havia forças possíveis no mundo que nos sonegassem ao prestígio mágico da liberdade, que viera matar as antigas liberdades. É que a liberdade – com L grande, meus Senhores – parece da família de Saturno: devora os filhos, devora as liberdades, com o maior dos desfastios!

Não suponham Vossas Excelências que a verdadeira liberdade – a liberdade política – era um dom da França! «La liberté politique consiste en ce qu’un peuple fait la volonté, et la volonté d’un peuple, c’est la tradition.» É como Coquille qualifica a liberdade. Assim a tivemos nós desde sempre com Afonso II, mandando que se não executasse sentença alguma de morte senão vinte dias depois de pronunciada; com Pedro I, chamando nas Cortes de Elvas cidadãos aos vilões dos concelhos; com João II, reconhecendo a independência do poder judicial nos presentes com que distinguiu o magistrado que sentenciara contra ele.

Nunca um rei de Portugal fora aclamado sem jurar primeiro guardar e defender as liberdades e os foros do seu povo. Já pela reorganização da Justiça em 1612 se estatuíra o procedimento legal de não se reter ninguém em prisão por mais de oito dias, quando se lhe não houvesse formado culpa dentro desse prazo. D. Maria I confirmou o princípio por alvará de 1790. Aonde é que ficava a liberdade teórica das declamações salivosas de 1820?

Mas ele há muito mais ainda. «Esta casa é de vinte e quatro, não cabem cá vinte e cinco!» – respondera o juiz do Povo de Lisboa a um emissário de D. Pedro II. Nada, porém, valia de ponderação! Chegava a Liberdade – a bem ou a mal a teríamos de receber e festejar. «Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar!» – proclamara do Porto o Dador. Numa fúria macabra de inovação, nada resistiu à «moda de França», como dizia o prefeito de Viseu, falando do registo civil. Mutilamo-nos, dividimo-nos, foi uma delícia pegada o bolo repartido pelo Ministério dos Ladrões. Enquanto durou o delírio do festim, ninguém cuidou do terreno movediço em que nos afundávamos. Em face da complicação crescente da máquina administrativa, Portugal já não vivia. A Liberdade matara-nos. Éramos somente um pretexto para a comezaina dos bandos. Não sou eu quem facciosamente o denuncia. Denuncia-o Luz Soriano que se bateu pela Carta e a serviu como um valente. Os sinceros bradaram cedo a desilusão que os surpreendeu. É um deles Garrett, que não hesitou em reputar criminosa a sua colaboração nos reformismos insensatos da Terceira. Há gente honrada que se retira, que se aposenta. Resignavamo-nos à derrocada. Retardá-la seria agora o nosso empenho. E à volta de 1851 o Iberismo surge professado por nós outros que, sem tradição nem finalidade, já não nos podíamos explicar autónomos por nós próprios.

Eis os resultados evidentíssimos do «livre-exame». Não é sem motivo que as estatísticas fornecem uma percentagem mais numerosa de suicidas entre protestantes do que entre católicos. Por outro lado, a inteligência protestante conclui sempre no negativismo, ao passo que a inteligência católica conclui na necessidade do Dogma. É o mal da análise, são os efeitos corrosivos do criticismo. Pois semelhante caso de psicologia individual verifica-se nos países que sofreram essa espécie de «livre-exame» colectivo que é a mania constitucionalista.

É olharmos a nós, ao estado de ruína em que nos encontramos, para nos certificarmos da verdade da afirmação. Somos uma terra perdida por causa da Liberdade. A Liberdade é filha do espírito protestante. Fixe-se o facto e não olvidemos que com a Liberdade se enjeitou a natureza foraleira de Nacionalidade nos becos sem saída de toda uma incrível literatura legislativa.
Reduzidos a menos que pó os organismos intermédios, em que a soma dos diversos interesses regionais e económicos se formalizava e graduava perante a acção coordenadora do poder central, nós tivemos num país que perdera o seu aferro centrípeto, de uma parte, a imponência abafante do Terreiro do Paço, da outra, uma sombra tristíssima de pátria, arrastando o viver das existências subalternas.

O justo diagnóstico da nossa decaída pertence a Eça. Perante os estragos produzidos pelo sofisma monárquico-constitucional, as Farpas anunciavam logo no começo, com entono profético, que não passávamos de um povo fadado para a conquista. Como o pensador que o vício da análise arrasta ao suicídio, também nós, não nos podendo explicar por nós próprios e já com as ideologias do Progresso-Indefinido a transtornarem-nos – também nós, meus Senhores, nos atirávamos irremediavelmente para a morte voluntária!

O nosso suicídio revestia-se de linhas resignadas com o Iberismo, que, falida a experiência cartista, se apossou de certos elementos com predomínio nos círculos reputados por cultos. Portugal olvidara a integridade do seu «meio-vital». Como é que um país, sem norte nem mais consciência dos seus destinos, havia de prosperar e de seguir virilmente o caminho dos fortes se, de alto, na governação, o pedantocrata o atraiçoava, se o profissional da política o desmentia a cada hora?

É deste modo que, por volta de 1851, se emite em público a doutrina da nossa fusão. Traduzido por Latino Coelho, D. Sinibaldo de Mas pontifica arvorado em doutor do novo credo. Avança-se tanto para um programa de realizações imediatas que até já Santarém se aponta para capital da Ibéria unida. A base de aproximação é o projecto de casamento de Isabel II com D. Pedro V. O vento de insânia esconjura-se, porém, um instante, fracassadas todas as tentativas diplomáticas que se empenhavam naquele enlace.

Mas, caixeiro viajante da ideia iberista, não tarda que apareça em cena Fernández de los Ríos com Mi misión en Portugal. El-Rei D. Fernando II nos salva então, quando no entusiasmo dos propagandistas já as armas nacionais do velho reino de Afonso Henriques se sumiam ingloriamente para cederem o campo a outras inverosímeis armas de Portucal-condado.[1] É a crise de Espanha com a abdicação de Amadeu e o advento da República, de passageira trajectória. Fala-se, discute-se, e mais uma vez o perigo se esconjura, conquanto uma vergonhosa tendência unitarista se continue a manifestar entre nós, com o general Prim animando-a secretamente por intermédio de agentes de confiança.

Se um dia se quiser informar o processo do Constitucionalismo em Portugal, não carecemos de recorrer a outra fonte de instrução. A questão ibérica é bastante. Porque eu, meus Senhores, vindo aqui falar da nossa anexação a Castela, não me devo pasmar das ambições absorcionistas dos nossos vizinhos. O que eu estigmatizo é o cinismo repelente que se ergue em doutrina política nas falências da nossa história, para acobertar os desaires de aventureiros de um momento com a alardeada incapacidade da nossa infeliz raça.

Castela cobiça-nos desde que é Castela. As suas aspirações nunca satisfeitas são naturais, são consequentes, como um centro de gravitação procurando submeter a parte desgarrada do todo. Elas são tão velhas, pelo menos, como o nosso separatismo que sobe do negro das idades. Garcia de Resende encontrar-se-ia com as indicações da natureza e da história, ao escrever na sua sempre moça Miscelânea:

Vimos Portugal, Castela,
quatro vezes ajuntados,
por casamentos liados
Príncipe natural dela
que herdava todos reinados.
 
Todos vimos falecer
em breve tempo morrer
e nenhum durar três anos.
Portugueses, Castelhanos,
não os quer Deus juntos ver.
 
No entanto, apesar de ser emendada a redondilha, na edição de 1622, para «Portugueses, Castelhanos, / Já os quer Deus juntos ver», o que é certo é que durante a guerra da Aclamação, mantida por mais de um quartel de século, a diferença dos dois povos extrema-se bem a fundo. Em verdade, Deus não queria ver juntos portugueses e castelhanos! E congregados para cortes em 1668, os Três Estados do Reino, a seguir a tanto sacrifício e a tanta dor sofrida, ele proclamariam bem alto a sentença definitiva. «Por serem de séculos imemoriais tão opostos os ânimos, e tão diversos os intuitos de uma e outra nação, era impossível unirem-se em tempo algum sem total ruína da nação portuguesa!» Assim o bradaram os avós de Seiscentos, rematando um movimento brilhante de emancipação que atinge as cumiadas do heroísmo nas planícies luminosas do Alentejo e assinala um grau superior de patriotismo culto em toda a actividade mental que se desenvolve da Monarquia Lusitana aos tratadistas do nosso direito público, com João Pinto Ribeiro, Francisco Vaz de Gouveia, António de Carvalho Perada, António de Sousa Macedo e tantos mais, igualmente notáveis.

As posições de Portugal em frente do desejo irreprimido de Castela não significavam para nós nada que nos surpreendesse por inesperado ou por extraordinário. Achavam-se estabelecidas no esforço colectivo da alma lusa, consumindo-se sempre na defesa desse perigo que nunca lhe deixara uma hora sequer de descanso. «A guerra de Portugal com Castela é tão antiga que começou juntamente com o mesmo Reino, e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura» – observava o chantre Manuel Severim de Faria, enquanto se desenrolavam os sucessos da nossa libertação. «Pelo que nem esta guerra se deve ter por coisa nova nem se deve de fazer de nossa parte por modo novo; mas termos por certo que, seguindo-se os meios, por onde se conservarão os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.»

Era como se pensava dantes, cheia a pátria das suas razões de existir, com um fim a orientar-lhe a jornada. Na maré-alta das nossas energias, a ameaça permanente de Castela vertia-se para nós na continuidade de um estímulo, de que é bem a prova a política sábia dos nossos Reis, perguntando para a autonomia nacional na aliança inglesa aquele ponto de apoio que na Península lhes faltava.

Cessaram talvez as condições especiais de tempo e de espaço que nos obrigaram a contrair pactos de amizade fora dos nossos limites, com prejuízos graves para a prosperidade de Portugal – acrescente-se. A fórmula de amanhã em política exterior há-de ser, sem dúvida, não união-ibérica, mas aliança-peninsular. Nós não teremos deste modo a vergonha de Olivença! Não terá a Espanha a ignomínia de Gibraltar!

Mas tão funestas que se nos revelem as resultantes das nossas preferências externas, representam um mal necessário que, a evitar-se, importaria a nossa queda irreparável, dada a situação inferior de Portugal perante o resto da Península unificada.

Assim o julgava a consciência da Nacionalidade, enquanto a Nacionalidade se possuía e sentia bater com força o coração!

Entramos, porém, a esmorecer, tão depressa o internacionalismo maçónico toma conta de nós. Aí, meus Senhores, é que está o terrível inimigo de Portugal!

Não o diz a história oficial, que é encomenda bem remunerada das Lojas. Mas desde que a história oficial classifica de fuga o golpe certeiro com que D. João VI inutilizou os planos de Napoleão, executando a tempo, na retirada para o Brasil, uma hipótese já prevista pelo Padre António Vieira e pelo próprio Pombal – como é que ela, a boa história, com o triângulo simbólico tão à mostra, nos há-de dizer a verdade, nos há-de ensinar a compreensão exacta do que seja o interesse supremo da Pátria, se, posta ao serviço do estrangeiro do interior, distingue com a palma do martírio os supliciados de 1817 e os venera compungidamente como os maiores de entre os maiores?!

Nós, os que chegámos depois da República, é que já não toleramos nem mais equívocos nem mais calúnias. Embora nos acusem de praticar a história às avessas, tomamos por nosso lema o exemplo erguido de Fustel de Coulanges. «L’histoire imparfaitement observée nous divise: c’est par l’histoire mieux connue que l’oeuvre de conciliation doit commencer» – aconselhava o autor respeitável de La Cité Antique. Por isso, saltando por cima de um século inteiro de falsificações e embustes, eu aponto o internacionalismo maçónico como a causa mortal da nossa ruína.

A Maçonaria é ré de lesa-pátria. Cada santificação que parte dos seus grémios representa nada mais, nada menos, que um declínio no prestígio augusto da Raça. Nos judeus defende uma etnia inimiga contra a integridade precária da Grei. Nos Jesuítas ataca a única organização que ainda lhe mete receios. No Livre-Pensamento enfraquece a disciplina católica, que é e foi sempre a melhor garantia da unidade moral da Nação. Nas lutas intestinas que ateia e alimenta é à anulação da ideia nacional que tende empenhadamente, para que mais um passo se avance no caminho que leva à Cidade-Futura, em que não haverá nem deuses nem chefes.

A prova mais irrefutável dessa grande conspiração contra Portugal é justamente o assunto que aqui me trouxe. Com a esperança na queda da Realeza em Espanha, a Maçonaria tem sido uma servidora desvelada da fusão ibérica. Sabe-se como Gomes Freire figura de mártir da Pátria. Pois Gomes Freire, grão-mestre da Maçonaria-Portuguesa, é o primeiro que consente aproximações com revolucionários espanhóis, no sentido, decerto, de uma federação republicana.

Não o diz a história oficial – a tal história que desacredita os nossos Reis, mas que é toda um hino ao ideal cosmopolita da Revolução. Contudo, o que a história oficial não diz, digo-o eu! Se Beresford apanhou a meada da conjura de 1817, foi porque recebeu aviso de Madrid de que se achava em Lisboa o general Cabanes, encarregado de uma missão junto de Gomes Freire por parte de alguns clubes secretos. De facto, quando se examinam os documentos apreendidos aos conspiradores de 1817, por mais que se disfarcem as suas intenções debaixo de um lealismo hipócrita para com D. João VI, não nos é difícil perscrutar a disposição em que trabalhavam de meias com elementos estrangeiros. Dois tópicos bastam para prevenir logo o espírito: é o «patriotismo português», do barão hanoveriano Eben, e é a existência daquele «Supremo Conselho Regenerador», que mata o gigante imediatamente pelo dedo.

Estava, de resto, na tradição da família. Os maçons de 1807 tinham saído a cumprimentar Junot em Sacavém, pedindo-o depois para rei. Os de 1817 preparavam-se talvez para nos oferecerem de presente aos tragallistas de Cádis em nome do património de Hiram. Mais tarde, o patriota Fernandes Tomás não se alimparia da acusação de haver aceitado cinco milhões de reales da Maçonaria espanhola. O encarregado de negócios em Lisboa, D. José Pando, seria o intermediário. Vitoriosa a revolução em Portugal, a mira era dividir-se a Península em nove repúblicas independentes, mas confederadas. Se nos lembrarmos agora do livro do senhor Magalhães Lima, La fédération ibérique, mais do programa do jantar de Badajoz, não necessitamos de invocar outros testemunhos para descobrir diante de Deus e dos homens o trama tecido com cautelas miúdas pela irmandade tenebrosa dos de avental e trolha.

Coincide, dessa forma, a vinda da Liberdade, de maiúscula aparatosa, com as nossas simpatias sacrílegas pela absorção. Bem dizia já em 1879 o malogrado António Pereira da Cunha que «o princípio da fusão peninsular é, no século actual, completamente oriundo da revolução europeia».

«Enunciado, em Cádis, por um português, em 1812, desenvolvido em Londres, diplomaticamente, depois de nós perdermos o Brasil, recebeu afinal a sanção pública, no manifesto, bem claro, assinado por Kossuth, Ledru-Rollin e Mazzini» – esclarece ele.

«O espírito ibérico, solapado, não extinto, onde se acha encarnado é nas diferentes fracções do grémio revolucionário, que, por caminhos opostos, imaginam lá chegar; no resto, que é a maioria, pode-se afirmar que não» – acrescenta de seguida.

Toda a psicologia do Constitucionalismo a esse respeito se exprime nas conhecidas afirmações do António Rodrigues Sampaio em 1854, ao tratar-se da construção do caminho-de-ferro hispano-português: «Se nos colocassem na alternativa de sermos miseráveis com a nossa independência, mas sem caminho-de-ferro, ou de sermos felizes com ele, ainda que com perigo para a nacionalidade, nós não hesitaríamos sequer um instante, optando antes pela nossa prosperidade.» Há na estranha declaração do panfletário de O Espectro alguma coisa como o culto maçónico da Humanidade e do Progresso. Morresse a Pátria, mas os princípios que se salvassem! É este um episódio que, na verdade, sintetiza uma época e um pensamento.

Não podendo, todavia, nada os manejos sórdidos do clubismo cosmopolita, puderam até a um dado ponto os efeitos enfraquecedores da ideologia liberalista. Tão cedo a soberania se repartiu por todos nós, todos nós discutimos, todos nós tivemos opinião. E vai daí, com a quebra crescente da unidade colectiva e o avanço lento da desagregação que se nos pegara com os geometrismos hirtos de Mouzinho da Silveira, o espírito crítico acabou com o resto. Esquecera-se o voto das cortes de 1668. E com Alexandre Herculano – que Deus lhe perdoe! –, abate-se uma diferencial poderosa, como é a da Raça, apenas a autoridade do historiador assevera categoricamente que nós, portugueses, não tínhamos nada que ver com os Lusitanos e que não buscássemos outras origens que não fossem as do condado portucalense, concedido ao Borguinhão pela munificência larga do sogro. Correu de boca em boca na nação vizinha o conceito que de nós fazia o pai da nossa história. Glosaram-no publicistas e camarilhas. Deu a volta aos passos-perdidos da imprensa e a cada hora nos chega aos ouvidos, vazado em castelhano puríssimo, nas exortações intervencionistas dos mais inflamados. «El propio Herculano comienza su obra monumental burlándose de la Lusitania y de los Lusitanos. Por tanto tal doctrina no puede ofender a los portugueses, pues suya es.» Eis uma passagem ligeira do escritor G. Reparaz, que fala por quantas recolheríamos dos jornais e dos livros. Assim, acompanhados de uma doutrina que não pode ofender-nos porque é nossa, compreende-se como tomam relevo e energia os períodos sabidos de Lafuente e de Fernández de los Ríos. «O direito de Filipe II – afiança o primeiro – não fez senão confirmar a lei geográfica que o dedo de Deus parece ter traçado desde o princípio à grande família ibérica.» Pontifica o segundo: «A nacionalidade portuguesa é uma evidente e terminante rebelião contra as leis geográficas que a Criação impôs à Península.» E nós aceitamos. E nós concordamos. Se os nossos rios é de Espanha que vêm, se é de Espanha que as nossas serras partem. Sem raça, nem território, que somos nós?, porque é que vivemos? Não somos mais que um improviso – somos apenas o erro das circunstâncias. E a teoria do Acaso se engendra, engendra-se o pessimismo histórico de Oliveira Martins, que é, sem que ele imaginasse que o era, o doutor entre os doutores do iberismo contemporâneo.

Com Alexandre Herculano e com Oliveira Martins se abona o livro do senhor Don Juan del Nido y Segalerva, La unión ibérica, no actual minuto o alcorão das miragens unitaristas de Castela. Dói, põe vermelhidões de vexame na face, o virem do sangue do nosso sangue, da alma da nossa alma, os mais fortes argumentos com que as pretensões de conquista pacífica se acreditam hoje em Espanha. E ainda por cima, com pontoadas cínicas de ironia, se sublinha que não temos de que nos queixar, pois a doutrina é nossa! É o fruto colhido em quase cem anos de sistemática desnacionalização! São as consequências insanáveis do desvio sofrido pelo País no rumo das suas tendências naturais! Tratados em público e raso como filhos tristíssimos das ervas, sem outra genealogia que a das águas correntes, somos nós que armámos o gesto que nos denega a legitimidade do nosso nome. Nós mesmos entornámos uma mancha de tinta obscurecedora por cima dos nossos pergaminhos olvidados. Portugal, terra livre, nação à parte! Quem há aí que creia nisso, se Alexandre Herculano nos chama um povo moderno, confeccionado à pressa pela ambição dos príncipes afonsinos – se Oliveira Martins menciona unicamente o Acaso como o factor omnipotente que decidiu da nossa autonomia? Cubramos a cabeça com a ponta do manto, meus Senhores, e deixemo-nos ir para o fundo resignadamente! É a hora do requiem derradeiro – é o fim dos fins, a derrota definitiva de Alcácer!
 

 
II
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Seria, meus Senhores – se o génio da Pátria não acordasse temperado por uma semente de resgate, germinada por milagre nestes dias espessos de crise! Seria – se a consciência da Nacionalidade, revivendo na aspiração generosa dos moços, se não alevantasse de súbito e surgisse diante de nós, como Lázaro das sombras do sepulcro. Somos um povo livre – e somo-lo sem que em nada o Acaso, erguido em deus supremo, nos haja inventado, nem o imprevisto das circunstâncias nos furtasse àquela incorporação fatalista que, com base logo nos motivos geográficos e étnicos, nos subalterniza à hegemonia governativa de Castela. Precisamente, a geografia e a antropologia, o Meio e a População, o Território e a Raça, nos tornam – tão longe que só possa remontar – uma realidade inconfundível por força dos mais antagónicos determinismos físicos e históricos. As nossas montanhas, os nossos rios, vêm, é certo, do coração da Espanha. Porém, se a origem é a mesma, por que é que a paisagem se transforma, de súbito, de certo ponto em diante, e por que é que, a partir daí, variam as modalidades do clima e da cultura e chega a ser inteiramente outro o tipo comum de habitante? Há uma causa permanente de diferenciação que não escapa à mais superficial das observações. Cansem-se os unilateralismos da opinião-feita a proclamarem o contrário, tentem embora escurecê-lo as conveniências inconfessáveis de tantos teóricos de ida-e-volta, o facto não se sofisma, ele oferece-se bem ao nosso mais rápido exame. «Portugal constitui, na Península, uma unidade geomorfológica» – escreve Silva Teles na Introdução geográfica às Notas sobre Portugal. «A sua forma rectangular, a distribuição dos seus degraus continentais, os caracteres das suas redes hidrográficas, os aspectos climáticos ao norte e ao sul do Tejo, imprimem ao nosso país uma feição especial que o torna diferente do resto da Península. Exceptuando a Galiza, que é um prolongamento geográfico do norte de Portugal e com este tem maior semelhança do que com as outras províncias espanholas, o continente português, embora geologicamente deva ser considerado como uma parte da Península Ibérica, é, no ponto de vista dos seus caracteres geomorfológicos, bem diverso do reino vizinho. É justamente esta autonomia geográfica que mais influiu na sua formação política e, em grande parte, para a expansão mundial que teve durante os séculos XV e XVI.»

Não enumera Silva Teles os factores que promoveram a distinção do nosso território do território da Espanha unida, embora repute idêntica a estrutura de ambos os países. No entanto, quem reparar num mapa geológico da Península verifica que cabe proporcionalmente a Portugal uma percentagem maior na distribuição dos terrenos arcaicos (maciços primitivos e rochas hipogénicas antigas). É curioso recordar nesta altura que a sabida existência dos lagos terciários da Península implica, com a necessidade do alongamento da terra firme no sentido de oeste, a existência, cada vez mais realçada, da legendária Atlântida submersa. Esses lagos ocuparam, durante a época miocénica, mais da terça parte do solo da Ibéria. A sua alimentação requeria a afluência constante de rios muito mais extensos e muito mais fartos que as correntes actuais do Ebro, do Douro e do Tejo. Do lado dos Pirenéus não podiam eles provir, pois desde o começo do mioceno que a linha pirenaica se alevantara. Os mares que hoje banham a Península já então a banhavam como agora. Todavia, as despesas da evaporação que os referidos lagos tinham de satisfazer sem se consumirem, exigiam um volume de água cujo abastecimento, dado o espaço que a região lacustre apanhava, dependia forçosamente de cursos fluviais de um desenvolvimento que se não comportava dentro dos limites históricos da Península. Ou outra seria a configuração da Península, o que não é admissível, ou então não é lícito duvidar da continuação da sua parte ocidental, em modo a reconhecer-se a realidade do fabuloso continente afundado. O facto tem bastante importância, tanto mais que eu considero o habitante mais antigo da vertente oceânica da Ibéria como um sobrevivo dessa Atlântida de maravilha.

Mas contava eu que Silva Teles não enumera os factores que promoveram a distinção do nosso território do território da Espanha unida. É a míngua da nossa ciência oficial que se contenta com afirmar coisas vagas em doutoralíssimos ares de dogma. Pois professor de uma faculdade que se diz de Letras, como se as Letras lá estivessem – na ironia sempre exacta de Silva Pinto –, a Silva Teles pertencia a obrigação indeclinável de acentuar os caracteres diferenciadores dos dois países, correndo como corre no nosso próprio ensino a versão falsíssima de que em nada merecemos uma vida à parte da de Espanha. Abra-se, porém, a páginas 917 e seguintes o volume 1 da Nouvelle Géographie Universelle de Elisée Reclus. Daí transcrevi o bastante para sustentar a minha tese. Oiçamos o sábio francês: «Il semblerait d’abord que, par un résultat naturel des attractions géographiques, le Portugal dut faire partie intégrante d’un État ibérique comprenant toutes les provinces transpyrénéennes; pourtant, ce n’est point un effet du hasard ni la conséquence d’événements purement historiques. Si le Portugal a presque toujours eu une existence nationale indépendante de l’Espagne, il faut remarquer en premier lieu que la partie du rivage devenue portugaise est à peu prés rectiligne, elle se distingue par l’extrême uniformité de ses plages et contraste absolument avec les côtes espagnoles. Les mêmes conditions de vents, de courants, de climat, de faune et de végétation, se retrouvent sur tout le développement du littoral lusitanien; et par suite les habitants ont dû s’accoutumer au même genre de vie, nourrir les mêmes idées, tendre naturellement à se grouper en un même corps politique. C’est par le littoral et de proche en proche que le Portugal s’est constitué en État indépendant; le royaume s’est formé sucessivement d’une vallée fluviale à l’autre vallée fluviale, du Douro au Minho et au Tage, du Tage au Guadiana, d’échelon en échelon, suivant l’expression du géographe Kohl, puis, après avoir été momentanément détruit, c’est de la même manière qu’il s’est reconstitué.

» La zone de largeur uniforme qui s’est détachée du corps de la péninsule Ibérique pour suivre la destinée des campagnes du littoral, était également limitée d’avance par les conditions du sol et du climat. Dans son ensemble, la zone lusitanienne est formée par la déclivité des plateaux espagnols s’abaissant de terrasse en terrasse et de chaînons en chaînons vers la côte océanique. La limite naturelle des grandes pluies que les vents d’ouest apportent sur les collines et les monts du Portugal, coincide précisément avec la frontière des deux pays: d’un côté, l’atmosphère humide, les averses fréquentes, la riche végétation forestière; de l’autre, un ciel aride sur une terre déssechée, des roches nues, des plaines sans arbres. L’abondance des pluies sur le versant portugais accroît aussi brusquement l’importance des cours d’eau qui descendent des plateaux de l’intérieur; en Espagne, c’étaient de faibles rivières au cours obstrué de pierres; en Portugal, ce sont des fleuves abondants ou même navigables. En outre, les bornes naturelles, posées par les défilés et les rapides à la navigation du Minho, du Douro, du Tage, du Guadiana, se trouvent dans le voisinage de la frontière politique. Toutes ces raisons expliquent suffisamment pourquoi le Portugal, en se séparant de l’Espagne, a pris une forme d’un quadrilatère régulier. De même que dans un précipité chimique un cristal prend une existence distincte et se limite par des arêtes précises, de même le Portugal s’est détaché du reste de la Péninsule, en se donnant des frontières presque rectilignes. Le port si bien situé de Lisbonne a été, pour ainsi dire, le noyau qui a servi de centre à ce cristal. Il se développait une force propre, indépendante de celle qui faisait graviter vers Tolède ou Madrid le reste de la Péninsule. La partie vivante, active, du grand corps ibérique s’est élancée hors de la lourde masse de l’Espagne trop lente à la suivre dans son mouvement.
»

Eis a teoria completa do nosso separatismo geográfico. Traçava-a Reclus antes de 1875, quando ainda mal Fernández de los Ríos acabara de exclamar que a nacionalidade portuguesa era uma evidente e terminante rebelião contra as leis geográficas e topográficas que a Criação impôs à Península. E enquanto de boca em boca se propaga entre nós a ária estafada de que, vindos de Espanha os nossos rios, de que vindas de lá as nossas montanhas, nós somos mais espanhóis que portugueses, que Portugal não vai além de um pobre e ridículo artifício, sem raízes na natureza nem agarras na raça, é para assinalar vigorosamente o depoimento que se recolhe da Reseña geográfica y estatística de España, publicada em 1912, debaixo da invocação do Ministério de Instrução e Belas-Artes, pela Direcção-Geral do Instituto Geográfico e Estatístico. Escutemos, na Introdução, o engenheiro D. Antonio García del Real discorrer acerca do território espanhol:

«El centro de la Península es una elevada meseta, com 600 metros de altura media, que forma una especie de península secundaria dentro de la principal. En efecto, si el nivel de las aguas del mar se elevase 500 metros, quedaría sumergido el valle del Ebro casi totalmente, lo mismo que el del Gualdalquivir; desaparecerían bajo las aguas la mitad occidental de los valles del Tajo y del Guadiana y la península que resultase, que es lo que denominamos meseta central, estaría unida al continente europeo solo por el estrecho istmo de las Províncias Vascongadas.
» Dos vertientes tiene nuestro suelo, una hacia el Oceano-Atlántico y otra al mar Mediterráneo, rápida esta última y más suave la primera, sobre todo en la parte del centro de España, pero dada la altitud media de nuestro suelo, la corriente de los ríos es en general rápida y la desecación del terreno es rápida también. Los ríos corren, en general, sin prestar grandes servicios ni a la indústria ni a la agricultura por las grandes variaciones que su caudal experimenta y por lo escabroso de sus orillas.

» La línea que separa la vertiente del Mediterráneo de la del Atlántico puede comparar-se a una S inscrita en la mitad oriental, resultante de cortar el trapecio que representa en esquema el contorno de la Península por la línea que une los puntos medios de las bases.

» El extremo NE. de esta S será el cabo de Creus, extremo oriental de la cordillera Pirenaica: el traço del S representará esta cordillera; su inflexión central la cordillera Ibérica y su rasgo inferior el que traza la cordillera Panibética hasta la Punta de Tarifa.

» Todas las aguas que caen en la Península al O. de esta línea van al Oceano Atlántico. Por consiguiente, la vertiente occidental es mucho más extensa y de menor pendiente que la opuesta vertiente del Mediterráneo, en la cual solo hay un río de largo curso que es el Ebro cuyo cauce coincide com el diámetro superior de la S divisoria, y los restantes son de poco curso y de mucha pendiente. Para salvar desniveles de 1.800 metros tienen el Ebro y el Guadalquivir desarrollos de 928 y 680 kilómetros, respectivamente. El Almanzora y el Guadalentín, ríos de la vertiente meridional, descienden de 1.926 y de 1.150 metros com desarrollos de 123 y 214 kilómetros.

» La línea de montañas que señala la divisoria de las dos grandes vertientes españolas tiene pendiente tan rápida hacia el Mediterráneo, y rodea de tal modo al centro, que realmente puede asemejarse a una muralla que aísla la meseta central, solo abierta hacia occidente.

» Las comunicaciones del centro com el litoral son fáciles a lo largo de los paralelos y, en sentido de E. a O., más difíciles hacia el Mediterráneo por la cuenca del Ebro y muy difíciles en otra cualquier dirección. Portugal ha separado la zona marítima más accesible desde el centro de la Península, y España ha conservado un extenso litoral sin outra comunicación fácil con el interior más que la que presta el valle del Guadalquivir. La vertiente occidental se halla dividida en cinco fajas desiguales, por cuatro sistemas de montañas, que limitan las grandes cuencas de los ríos Duero, Tajo, Guadiana y Guadalquivir, quedando al N. una estrecha faja que vierte directamente en el mar Cantábrico, limitada por este mar y por la prolongación de la cordillera Pirenaica, que tiene el nombre de cordillera Cantábrica.

» Todas estas cordilleras, lo mismo que los 
talwegs de las cuatro grandes cuencas de la vertiente occidental, tienen la dirección fundamental de E. a O. mientras se desarrollan en territorio español, pero, todos estes accidentes geográficos cambian bruscamente su dirección primitiva para tomar la de NO. a SE. al entrar en Portugal, como obedeciendo a la misma causa de deformación, comparable a una flexión colosal producida por una fuerza dirigida de N. a S. y aplicada en el extremo occidental de la Península.

» Esta deformación nos prueba que el límite entre España y Portugal no es tan convencional como ordinariamente se cree, y no puede menos de ser así, porque los hechos que determinan la aparición de nuevas nacionalidades no se producen sin causa. Aunque esta frontera no tiene la importancia de esos límites que parecen destinados a aislar los pueblos, no deja de tener realidad geográfica, siquiera en algunos trozos no siga ningún curso de agua o línea divisoria bien caracterizada, pero esto mismo en la frontera hispano-francesa que, a pesar de la existencia de la cordillera Pirenaica, no sigue, sino en cortos espacios, la línea natural de divisoria de aguas y serpentea en muchos trozos por líneas convencionales, atravesando cuencas, dejando en una nación valles que son de la vecina por su posición hidrográfica, y cortando muchas veces predios de un mismo proprietario que labra en el mismo día, sin levantar su arado, en dos naciones diferentes.
​
» Los recodos del Duero, los desfiladeros que tiene que pasar el Tajo al entrar en Portugal y la curva del Guadiana, son debidos a la existencia de mazizos inclinados de NE. a SO. que constituyen la frontera natural del vecino reino. Tales obstáculos cerraron por el O. toda la parte central de la Península entre la cordillera Cantábrica y la Bética y, conteniendo las aguas, dieron lugar en la época terciaria a la formación de los lagos de ambas Castillas. Hasta donde llegaron los lagos llegó Castilla proximamente. Las asperezas que constituyeron las orillas occidentales de aquellos lagos, y que hoy impiden que los ríos Duero e Tajo sean navegables fuera de Portugal, son las defensas naturales de una fuerte frontera que solo desaparece entre el Alentejo y la Extremadura española por Badajoz y cuyo carácter explica la desmembración del suelo de la Península.»


Transcrito na íntegra o testemunho insuspeito de uma publicação do Estado, é o ensejo agora de se retorquir aos que de Espanha alardeiam que a doutrina fusionista em nada nos pode ofender, porque é toda nossa. Sê-lo-á muito embora em textos portugueses que Portugal não perfilha e em que a verdade se perde através de espessos sectarismos de opinião. Se-lo-á ainda para as inteligências maçonizadas, mesmo sem elas o saberem. Se-lo-á sempre para os covardes de aspirações e para os ciganos do pensamento. Para nós, os moços, é que nunca há-de constituir mais que o disfarce cínico de uma abdicação a que a morte é preferível cem mil vezes. É tanta a força da razão que nos acompanha que até a própria ciência espanhola reconhece ser a separação física de Portugal um facto evidente e inquestionável. A súbita direcção contrária, que sofrem os acidentes orográficos da vertente ocidental da Península ao aproximar-se a nossa fronteira, é a prova plena de que Portugal, destacando-se por si do corpo ibérico, não mais fez que obedecer às leis geográficas e topográficas impostas à Península pela Criação – as tais leis invocadas com tanta solenidade por Fernández de los Ríos.

Elisée Reclus, afirmando que o reino de Portugal se originou por influência fluvial e marítima, limitou-se a constatar a verificação da sabida lei dos litorais no nascimento dos povos e das civilizações. A chave do problema reside, efectivamente, no poder da penetração oceânica que, enquanto se sente, ocasiona uma mesologia insular bem oposta à continentalidade cerrada do planalto castelhano. O antagonismo irreparável dos dois países é aonde se entronca. As duas famílias peninsulares são reciprocamente inconversíveis por via do duro regime continental em que o Ibero se conformou e da insularidade afabilíssima que determina na vertente atlântica o tão diverso ethos lusitanista. A zona húmida deu o ser à moldura especial em que a nação portuguesa pelo correr dos tempos se veio a exprimir. A zona seca imprimiu fisionomia à Castela dominadora, que se assenhoreou das regiões subjacentes por virtude da posição quase inexpugnável que a natureza lhe concedera. Psicologias diferentes se constituiram em meios tão diferentes. As leis da Criação, convocadas a depor pelos juízos fáceis de Lafuente e Fernández de los Ríos, não se prestariam nunca a servir uma causa menos justa. São elas mesmas que se executam nas razões inatas que nos deixam coexistir, sem jamais nos misturarmos.

Detalhemos um pouco mais. A Península Ibérica está situada aproximadamente entre os paralelos 36 e 43. O seu centro de gravidade é o planalto castelhano. «Antigo fundo lacustre, a planura castelhana, numa altitude de 600 metros acima do nível do mar, é um verdadeiro eirado de solo nu, composto de areia e argila, enriçado de montículos pedregosos ou espaçados em áridas planícies» – escreve José Augusto Coelho no livro Evolução das sociedades ibéricas, rico de interesse e de subsídios para a nossa tese, desde que nos resguardemos do preconceito democrático que perturba a visão do autor. «Apenas fendido por escarpadas gargantas fluviais» – continua ele –, «costeiam-na os altos maciços montanhosos dos Pirenéus e Cântabros, das serras de Lora e Demanda, de Cebollera, Moncayo e Morena, e, finalmente, as imponentes massas graníticas da Extremadura: assim, o sistema geográfico das Castelas ergue-se realmente, no centro da Ibéria, como se fora uma verdadeira fortaleza – altiva, cintada de fortes muralhas, constante ameaça para as campinas e vales adjacentes, eternamente armada para as tremendas lutas da destruição e da morte.»

Deste modo, o planalto castelhano dota-se com uma continentalidade sua dentro da continentalidade peninsular. É caracterizada essa continentalidade por uma zona seca, como já se disse, em que a temperatura se ressente de um equilíbrio pouco constante. A influência regularizadora do Oceano, facilitada pelas depressões periféricas da vertente ocidental, engendra, pelo contrário, a zona húmida, ou insular, com que se individualiza a região galecio-asturo-lusitana. Não conseguindo transpor e vencer a cidadela orográfica do centro da Ibéria, as correntes aéreas refluem para a orla atlântica e concedem-lhe uma natureza especial, visto conferirem-lhe uma temperatura equilibrada. Acha-se dado todo o motivo que afasta Portugal da Espanha, que torna a Galiza mais de Portugal que da Espanha e que nos deixa ver na Cantábria uma parenta bem próxima. É o Oceano o principal elemento diferenciador – a causa original que nos desintegra da Ibéria central e nos congrega a nós, portugueses, numa sensível unidade geomorfológica. Mas a região murcio-valenciana? – perguntar-se-á. Mas o vale do Ebro? Mas a baixa região marítima da Catalunha? Formam, sem objecção, meios físicos particularistas, que nos ajudam a explicar a ferrenha índole foraleira do Aragão, gritando: «Fueros! Fueros!», e a chama sempre inquieta do irridentismo barcelonês. No entanto, nenhuma dessas hoje pequenas pátrias provinciais beneficiava da situação previlegiada de Portugal, que, além de receber os bafejos da Corrente do Golfo, tirava assim os resultados de uma magnífica posição entre o continente e o mar. O nosso caso é o caso da Holanda. A Holanda, país colocado igualmente entre o continente e o mar, resistiu e resistirá, por força de semelhante circunstância, à desde sempre cobiçosa incorporação alemã.

A propósito da independência geográfica da Holanda, observa Alfonso Esquirós que «os povos são o que as influências exteriores os fazem ser, o que deles fazem a água, o céu e a terra. O valor destas causas aumenta mais quando a nação se encontra colocada em condições únicas de posição entre o continente e o mar. A geografia desse povo é então o prefácio dos seus costumes, das suas instituições e do seu génio». Ora eram estes os predicados que concorriam a favor de Portugal. A Catalunha caiu, porque, assentando no mar a sua autonomia económica, o desvio sofrido na navegação comercial do Mediterrâneo para o Atlântico lhe atirou um golpe fatal. A morte de Catalunha é a morte de Veneza. Quando a maior crise para a nossa nacionalidade surgia na realização da unidade castelhana, salva-nos aquele desvio, precisamente. A descoberta do caminho marítimo para a Índia garante-nos pelo domínio dos mares o ponto de apoio que nos há-de defender contra as fortes probabilidades unitaristas do reino vizinho. A constituição do nosso império ultramarino revestiu-nos bem cedo de prestígio militar e moral para que houvéssemos de fracassar na primeira investida. A colonização da América espanhola distrai, por outro lado, as vistas de Castela. E quando Alexandre VI divide pelas duas nações o mundo a descobrir, somos uma pátria em frente de outra pátria no conceito universal das gentes.

Ainda outras razões de diferenciação nos ajudavam a subsistir intactos. Insulado entre montes duros, o Aragão veio à posse de Castela por virtude de um casamento. Viria de qualquer modo, se não viesse desse. Faltava-lhe o mar para lhe fortalecer o dissidentismo regional. Rios não os tinha, de modo a imprimirem-lhe uma feição muito própria, muito sua. Porque, além de influência oceânica, nós temos que contar infinitamente com os nossos rios. Elisée Reclus não se esqueceu de acentuar o papel que os rios representaram junto de nós. «Le royaume s’est formé successivement d’une vallée fluviale à l’autre vallée fluviale, du Douro au Minho et au Tage, du Tage au Guadiana, d’échelon en échelon, suivant l’expréssion du géographe Kohl, puis après avoir été momentanément détruit, c’est de la même manière qu’il s’est reconstitué» – repito eu com o ilustre sábio. É do Minho ao Tejo que o primeiro impulso libertador irradia, na verdade. A elaboração da nacionalidade efectuara-se entre as populações de além-Douro e um pouco de riba-Mondego. Quando o condado portucalense ganha vida jurídica e administrativa, as galopadas cristãs atingem o Tejo. Consuma-se em seguida a reconquista da mesopotâmia transtagana. Está em poder da Cruz a concha hidrográfica do Tejo, Sado e Guadiana. O Algarve, debruçado já para as ondas, é a última palavra dos fundadores de Portugal. A traços breves vê-se, com efeito, que o País se teceu gradualmente «d’une vallée fluviale à l’autre vallée fluviale, d’échelon en échelon». Do mesmo modo que estes factores contribuiram para a nossa formação, do mesmo modo eles contribuiriam mais hoje, mais amanhã para o nosso resgate, se numa hora aziaga a tutela do leão espanhol nos caísse em cima, como uma manápula de ferro.

Não dispunha o Aragão de um tão precioso concurso de elementos para perdurar autónomo. Perdida a base da sua influência económica, também a Catalunha se não reconstituiria por si só, pois nem o Mediterrâneo possui as qualidades diferenciadoras do Atlântico, nem um regime abundante de rios facilitava ao interior do Principado as influências recolhidas do mar. O Mediterrâneo é um mar familiar – é o mare nostrum da boa tradição latina. Como um lago quieto, nunca comunicaria a uma existência política subalterna os dotes necessários para se emancipar. Eis o motivo porque nem o vale do Ebro nem a região murcio-valenciana propriamente dita se podiam transformar em núcleos de actividade separatista. Não vimos como o planalto castelhano cai quase a prumo sobre o lado oriental da Península? Outro impedimento poderoso que o mar por si não venceria. E depois a uniformidade climatérica? E a distribuição das chuvas? E os ventos? E os caprichos da orografia? Tal é o fatalismo que, impossibilitando a mais leve tentativa de desmembração da parte oriental da Península, não consentiu ao mesmo tempo que a bacia de Guadalquivir tomasse o rumo que tomou Portugal. Do alto do seu plató, a sombra de Castela projectava-se até lá, como uma suserania belicosa por sobre os vastos domínios senhoriais.

Compreende-se agora, de uma banda, a revivescência regionalista daquelas províncias espanholas, e, por outro aspecto, os fundamentos do unitarismo absorvente que as sujeitou. Já não sucedeu outro tanto com a faixa asturo-galecio-lusitana. «A zona asturiano-galecio-portuguesa» – escreve José Augusto Coelho – «foi outrora nítidamente separada da alta planura central das Castelas pela série de maciços que, começando na região vasco-navarra, tomando a Norte o nome de Montes Cantabrios, recurvando-se para o sul ao tocar na província da Galiza, se alonga até à Serra de Gata e, ainda para lá e pela Serra de Ossa, até ao extremo sul da região algarvia; ora, esta longa muralha que, pelo lado do Atlântico, servia de dique, em tempos remotíssimos, aos dois grandes lagos cujas águas, dilatando-se na planura das Castelas, se escoavam para o Atlântico pelos leitos do Tejo e Douro, rompeu-se em muitos pontos desde o Gerês até à Serra de Gata e mesmo para o Sul, transformando-se, assim, numa extensa barreira composta de cadeias separadas ou de pequenas elevações independentes; mas nem por isso deixa ainda hoje de ser uma região de limites bem nítidos e bem definidos.» Por sua vez, Elisée Réclus assevera que «les montagnes de la Lusitanie se rattachent au système orographique de la Péninsule, mais non pour former de simples contreforts s’abaissant graduellement vers la mer; elles se redressent en massifs distincts, à formes originales, à contours imprévus. L’individualité du Portugal» – conclui Reclus – «se manifeste dans son relief comme dans l’histoire de ses populations.» É, pois, a diversidade das duas zonas peninsulares sublinhada pela própria fisionimia do solo. «Comparando, entre si, estas duas grandes regiões da Ibéria – o plató das Castelas e a parte galecio-portuguesa da depressão cantábrico-atlântica, o leitor terá de concluir connosco que se nos apresentam, pelo lado dos limites, situação e configuração, fortemente contrastadas: o plató castelhano, todo altitude elevada, todo central, todo ladeado de serranias e contrafortes, todo armado para o ataque ou para a defesa, todo ele continentalidade, isolamento e incomunicabilidade; a zona galecio-portuguesa, toda depressão marítima, toda periférica, toda aberta ao mar, notavelmente desarmada perante os ataques derivados da fortaleza central, toda insularidade, exteriorização, comunicabilidade.»

Está já mais que estabelecido, pelo exposto, o divórcio eterno que as leis da Criação nos ordenaram. Ajuda-nos a confirmá-lo a distribuição das chuvas, cuja média na zona seca vai de 0,206 a 0,578, sendo as precipitações pluviais escassas e as evaporações intensíssimas. Pelo contrário, na zona húmida, as evaporações diminuem e abundam mais as chuvas, cuja média cresce aqui de 0,578 para cima de 1 metro. «Por isso, quando as comparamos entre si, mais uma vez nos aparecem fortemente contrastadas: a zona seca, pronunciadamente continental e um pouco desequilibrada nas intensidades caloríficas, é inundada de uma luz mais pura, banhada de um ar mais seco, e, privada do líquido irrigador, estiola-se muitas vezes numa aridez esterilizadora; a húmida, acentuadamente insular, muito mais equilibrada, está ordinariamente mergulhada num banho de humidade, nela a luz é mais velada, o solo mais abundantemente irrigado, menos a evaporação e, por isso, mais exuberante a vegetação.» Não olvidemos que já Reclus faz coincidir com a fronteira dos dois países o limite natural «des grandes pluies que les vents d’ouest apportent sur les collines et les monts du Portugal».

E o nosso Alentejo? Não pertencerá o Alentejo à zona seca que esmaga como um signo terrífico toda a actividade espanhola? Apesar de arrumadinho à Andaluzia na sua parte mais descoberta e com certas linhas físicas quase comuns, o Alentejo desloca-se já da atracção desse enorme centro de gravidade que é o maciço castelhano, passando por outras variações climáticas, graças à penetração oceânica que o abrange sensivelmente e o subtrai ao açoite directo dos ventos de África. Se eles lá lhe chegam, vêm-lhe através da Espanha com o suão violentíssimo. Rememora-o bem o velho ditado: «De Espanha nem bom vento, nem bom casamento!» Quando o Alentejo não contasse outros pergaminhos a justificarem a legitimidade do seu separatismo, bastaria essa antiga sentença, saída de bem provada experiência ancestral. Não resume ela toda a aprendizagem de um contacto secular de povos em regiões limítrofes que, por muito se conhecerem, muito se distanciam? Nas planícies do Alentejo é que as mais rijas demonstrações da nossa vitalidade tiveram lugar. Nunca a pretensão unificadora topou resposta como a que lhe deram em 1384, e, durante mais de um quartel do século XVII, os concelhos arrojados da boa terra transtagana. Mas eu, meus Senhores, reputo escusada a pá de Aljubarrota, mais os caldeirões de Alcobaça, para alegarmos com vigor o vigor do nosso direito. O chauvinismo é um declive perigoso. Aumenta e diminui, conforme lhe apraz. E eu não sei de mal maior que as ilusões de certo patriotismo – patriotice, diria o Eça – que fala no cajado de Viriato e nos dentes duros do alferes-mor da bandeira em Toro!

Milita ainda em favor do Alentejo a circunstância histórica de não suceder ali o que sucede com a fronteira hispano-francesa. Na fronteira hispano-francesa – é um geógrafo castelhano quem no-lo informa numa publicação oficial –, um lavrador, sem levantar o arado e sem sair da mesma propriedade, pode lavrar em duas nações distintas. Embora o regime da propriedade no Alentejo seja o regime latifundiário, é esse um facto que não acontece nunca. A propriedade corresponde em toda a latitude aos limites políticos e naturais do país. Não é indiferente uma circunstância destas em face do depoimento produzido, pois, remontando a organização dos latifúndios alentejanos à época afonsina da Reconquista, entrevê-se bem como são quase milenárias, pelo menos, as lindes que dividem a nossa província das províncias espanholas limítrofes. Eu recordarei que quem segue a linha férrea do Leste não é sem diferença na vegetação e no facies do solo que atravessa a fronteira. Para trás fica-lhe a colina sagrada de Elvas, entoando um hino heróico na pinha gloriosa das suas ameias e das suas torres. Rodeia-a um colar de morros airosos, cheios de olivedo denso, cujo azeite já aos clássicos latinos de Quinhentos merecerá elogios de nobreza. Há verdura, há manchas de água na sede imensa da campina. Pois transpõe-se o Caia com uns pobres choupos exilados marcando-lhe o rumo. O terreno, que se viera abaixando, achata-se de súbito. Toma-o uma desolação de pavor. Parece que assomou ali um vento bíblico de flagelo. Nem uma azinheira estorcendo a figura anã em atitudes dolorosas de enigma! Tudo queimado, tudo ardendo, como uma praga! Até as margens do Guadiana são despidas de arvoredo. O rio desliza numa preguiça suja. Só ao fundo, sobre um recorte de serranias dúbias, faíscam em sinal de vida as rosáceas incendiadas das igrejas de Badajoz. É uma visão da infância que eu aprendi de cor e que me ensinou o coração a ser português, quando nem a consciência nem os livros mo haviam ensinado ainda. Se aí há alguém, meus Senhores, que nascesse como eu naquela prega de «Antre-Tejo-e-Guadiana», dar-me-á razão no que evoco e não precisa de mais nada para se retirar convencido.

Mas, devolvendo-me ao fio da minha exposição, eu peço para assentarmos na insularidade lusitana e na continentalidade castelhana como condição basilar do antagonismo dos dois povos. Oiçamos de novo José Augusto Coelho: «Assim, a aragem constante que sopra de um grande mar, tendendo a equilibrar mais ou menos as temperaturas, dá a toda a extensão da zona atlântica que compreende a região asturiana, a Galiza e Portugal, um tom de equilíbrio, portanto, de insularidade, que são incontestáveis; obstáculos opostos ao aceso das correntes que derivam do Atlântico dão, pelo contrário, a toda a vasta zona castelhano-murcio-andaluza-aragonesa um fundo de continentalidade, de desequilíbrio nas temperaturas, de excessos de calor ou frio que fazem de esta parte da Ibéria um centro mesológico essencialmente apto para o desenvolvimento das grandes energias explosivas, ao mesmo tempo intensas e irregulares, de momentâneos e extraordinários arrojos e de prontos esgotamentos.» «Mas, acima de tudo, a humidade e a secura é que melhor ainda caracterizam estas duas zonas da Ibéria. A zona asturiano-galecio-portuguesa está, em geral, constantemente mergulhada num banho de humidade e, porque é abundantemente irrigada, são caudalosos os seus rios e é luxuriante a sua vegetação; a outra zona, mais isolada do vasto Atlântico, é acentuadamente seca; são pobres os seus cursos de água e, considerando as coisas em globo, mais enfezada é a sua vida vegetal.»

«Assim, se olharmos a Península de uma maneira geral pelo lado da distribuição das temperaturas e dos fluidos, ela aparece-nos dividida nas duas zonas acima indicadas; e isto como já anteriormente nos aparecera quando a consideramos pelo lado dos limites, situação e configuração. As duas regiões – a seca e a húmida – são, pois, duas zonas ibéricas bem definidas por contrastes nítidos e irredutíveis.» Versículo novo da criação do Mundo: fez o Sol à Espanha, fez o Mar a Portugal. E Deus nosso Senhor, que promoveu a diversidade do meio, promoveu com isso a diversidade do habitante. De facto, o carácter castelhano, imperialista, duro, truculento, com solenidades que impõem e exageros que chegam à loucura, é bem a psicologia do planalto, sua mansão natal, com rochas a prumo e asperezas bélicas no aspecto contraído. A índole benigna do homem da vertente atlântica, emotivo e criador, entregando-se tanto às vibrações arrebatadoras da Esperança, como aos soluços líricos da Saudade, outra coisa não é senão a riba marítima a transmitir-lhe ao feitio toda a doçura de um clima estável. O modo por que Castela consegue suplantar a obsoleta monarquia leonesa e atrair ao seu suseranato as baixas circunvizinhas, é ainda o regime orográfico, expresso no maciço central da Ibéria, quem no-lo explica suficientemente. Bem diversas se nos afiguram as veigas do Guadalquivir com água bastante e verdura farta, gozando já de uma certa humidade. Mas se nos lembrarmos de que semelhante humidade é a humidade da região marroquina e que, ao vir o estio, tudo desaparece – água e verdura –, fica provada a natureza continental de uma faixa geográfica que parece à primeira vista destruir a nossa tese pelas afinidades que nos sugere com a região oceânica da Península. Enclausurada no seu planalto, como numa casa-forte, Castela tira da posição aguerrida que a natureza lhe deu o segredo profundo do seu génio nacional. Apanhando quase o quadrilátero da zona galecio-lusitana, Portugal é determinado na sua psicologia pelos vários condicionalismos físicos que desde o íntimo das idades o predestinaram para pátria livre. Se não, vejamos.

Ferozmente exclusivista, vivendo da expansão guerreira por virtude do planalto que povoa, o Castelhano cinge-se em ferrenhas organizações aristocráticas, desenvolve um incompadecido espírito de casta, vai à hipertrofia da personalidade, é a exaltação, é a ênfase, é o individualismo na sua excessiva forma egotética. Se tem um ideal colectivo, esse ideal é o ideal épico, marcado à perfeição nos poemas do ciclo do Cid. Cria a pintura e é grande no misticismo pela mesma projecção da personalidade de que derivam as visões dementadas do bom cavaleiro manchego. É a propensão inata da família ibérica que nunca se soldou ao solo, que foi sempre uma enorme banda conquistadora, mantendo-se em hegemonia por uma fechada constituição feudal. Castela assimila as sobrevivências góticas que sobrenadaram por entre as oscilações da ocupação sarracena. E nem se compreende que a Epopeia significasse a qualidade madre do seu temperamento, se o castelhano não viesse, como vinha, de uma família errante de invasores, nutrindo-se pelo desfruto sôfrego da terra à custa dos elementos produtivos, que seriam no nosso caso as raras massas autóctones. Atalaiada no planalto central da Ibéria, que lhe é como um ninho de águia, Castela tributa e saqueia as extensões que abrange. Nas altas e baixas da sua energia frenética, é sempre altiva e fidalga, desperdiçada e violenta, intolerante, mas grave. Já Kant notava que o castelhano até dançando o fandango era majestoso. «¡Yo soy castellano!» – eis uma frase que resume no seu entono um tratado inteiro de psicologia.

É que Castela revive o fundo celtibérico da população peninsular, acrescido pela contribuição das aluviões bárbaras posteriores. O famoso homem loiro de Chamberlain, Woltmann e Lapouge, passado à Espanha em épocas sucessivas e em sucessivos êxodos, remanesce em Castela no seu gosto irreprimido de comando. A noção germânica do Poder, definida pela ideia da posse como um apanágio territorial, Castela a incarna, Castela a vulgariza. Não carecemos de mais prova que a história da sua colonização. É o extermínio do indígena e é o consumo, até ao esgotamento, das riquezas naturais do solo. Ainda por aqui nos distinguimos, e fundamentalmente. Compare-se o Brasil, como obra do nosso génio, às vizinhas repúblicas latinas da América. A estabilidade do Brasil repousa na unidade de raça e de sentimentos, de que é tão senhora a gente da zona galecio-lusitana. A vida acidentada e contraditória das outras nacionalidades neo-ibéricas, é o mais convencedor sinal da divergência étnica e psíquica que impossibilita hoje ainda a Espanha de uma verdadeira comunhão nacional. Não existe, realmente, em Espanha o que se chama o tácito consenso de uma pátria. Há os vários particularismos provinciais, há lá profundas diferenças de tipo e de aspirações. «Na Espanha não existe um tipo senão em conjunto» – dizia Moret no Ateneu de Madrid, discursando sobre o Cinco de Outubro. – «Aqui há Bascos, Castelhanos, Catalães, Levantinos, etc. O que não há, é verdadeiramente um tipo espanhol.»

Transportadas para um sistema colonial, ainda mais heterogéneo, de tais diversidades, agravadas agora pela mistura com elementos inferiores, resultou o conflito constante em que as democracias espanholas do Novo-Mundo se debatem e afundam. Falta-lhes o agente de forte contenção centralizadora que evitou na Península o descalabro do Estado pela preponderância activa de Castela contra as tendências dispersivas das demais partes do agregado político.

Esse esforço exasperado de Castela individualiza-se na epopeia do Cid e é a grande qualidade histórica da alma ibérica. É ele que, ao adoçar-se em simples cavalheirismo, gera a comédia heróica – a comédia de capa-e-espada; e, pelos claros-escuros de um espírito exarcebado em hipertrofias de visão, se traduz na admirável escola de pintura, das maiores do mundo, com que a Espanha gloriosa de Ribera e Zurbarán justamente se enaltece. É este também o motivo principal da sua literatura mística, uma das primeiras e das mais ricas.

Interessante é opor na presente altura, minhas Senhoras e meus Senhores, à idiossincrasia do génio castelhano um depoimento insuspeito acerca da índole mais afectiva do português. É de Elisée Reclus, tão ignorado como nosso amigo, o passo que transcrevo. Ele aí vai: «Les voyageurs se louent beaucoup des bonnes façons, de l’obligeance, de la bonté naturelle des campagnards du Portugal, non encore gâtés par les habitudes du commerce: quoique, ayant à l’étranger une réputation de barbarie, due sans doute au souvenir de leurs crimes de conquête dans l’Inde et le nouveau Monde, la plupart des Portugais ont une tendresse compatissante pour ceux qui souffrent. Ils aiment le jeu, mais ils ne se disputent point; ils ont la passion des courses de taureaux, mais ils ont soin de garnir de liège les pointes des cornes, et l’animal est épargné pour de nouveaux simulacres de luttes. Bien différents à cet égard de leurs voisins les Espagnols, ils traitent bien les animaux domestiques et se distinguent même par un talent spécial pour apprivoisier les bêtes sauvages: sur les bords du Guadiana, ils élèvent leur fouine, dont ils se servent comme d’un chat contre les rats et les serpents. Dans leurs rapports mutuels, les Portugais sont doux, prévenants, polis: dire d’un Lusitanien qu’il est ‘mal élevé’ est offenser de la manière la plus sensible. On s’étonne aussi de l’élégance, seulement trop cérémonieuse, de leurs discours. Se distinguant à leur avantage des Galliciens, qui parlent un patois difficile à comprendre, les paysans portugais ont en général une grande pureté de langage; ils s’expriment avec une facilité et un choix de paroles des plus remarquables chez un peuple si pauvre en instruction. On n’entend aucun jurement, aucune expréssion indécente, sortir de leur bouche! Quoique grands parleurs, bavards même, ils s’observent avec soin dans leur conversation.»

Muito favorecidos pelo que respeita ao cuidado da linguagem, embora não praguejemos como o castelhano clássico, duas coisas há que destacar: a acusação de criminosos na nossa aventura ultramarina e o reconhecimento das nossas virtudes de afectividade e do bom arranjo social. A nossa acção no Ultramar é uma bela página de proselitismo civilizador. Até uma das razões de queda do nosso império colonial é o termos sido mais missionários que negociantes. Declara-o, por exemplo, o historiador inglês Stephens. Não encararei aqui a obra dos jesuítas portugueses na Índia e na América. Quero unicamente levantar um juízo menos exacto. E quanto à afectividade da Raça, está nela, incontestavelmente, um dos traços que mais nos distanciam do espanhol.
Reclus alude às touradas, à domesticação dos animais bravios, ao respeito do português por si próprio. Fundamentalmente, tudo o que o ilustre publicista menciona é filho da nossa impenitente natureza lírica. Toca-se com o lirismo do português o ponto psicológico que mais autonomia confere à Raça. É o problema das origens que nos surge de envolta com o problema do Romanceiro. O Romanceiro pressupõe a comoção anímica que, partindo da preferência dada aos aspectos emocionais, importa um fundo psíquico que não é o do Castelhano, em boa verdade. Cotejemos dois fragmentos, arrancados às Lições de Filologia Portuguesa, de Leite de Vasconcelos:

Ferid los caualleros, por amor de caridad!
Yo so Rui Dia, el Cid Campeador de Binar!
Todos fieren enel ag do está Pero Vermueç.
«Trecientas lanças son, todas tienen pendones;
Senos Moros mataron, todos de senos colpes ;
Ala tornada que faen otros tantos son.
Veriedes tantas lanças premer & alçar,
Tanta adagara foradar & passar,
Tanta loriga falssa desmanchar,
Tantos pendones blancos salir vermeios em sangre,
Tantos buenos cavallos sin sus dueños andar.
Los Moros laman Mafomat, & los Christianos Santi Yagu (e)
Caven en un poco de lugar Moros muertos mil (ccc ya)...
 
Eis como num retalho dos poemas do Cid se vinca a linha primacial da Castela arrogante do planalto com o seu gosto incontido da aventura militar.

Quando vos vi, fremosa mia senhor,
logo vos soube tan gran ben querer,
que non cuidei que ouvesse poder,
per nulha ren, de vus querer melhor ;
e ora já direi-vus que mi aven:
cada dia vus quero mayor ben!»
 
É como, contrariamente, na faixa atlântica se manifesta o génio lusitano. São as queixas profundas do amor, é a gran coyta docoraçon. Como o meio abrupto do plató central da Ibéria levaria a um isolamento erriçado de casta, a depressão marítima da vertente ocidental causava por força das circunstâncias uma comunicabilidade constante entre os povos que nela moravam. A predisposição para a convivência e para o cultivo dos sentimentos delicados da alma é filha no Lusitano do seu equilibrado clima insular. Por igual razão a agricultura floresceria cedo entre os nossos remotos antepassados. A prática da agricultura, aferrando-os ao solo, imprimiu-lhes preferências sedentárias e elevou-os à compreensão poética da Natureza através dos ritos agrários e da adoração enternecida dos Lugares.

Como derivante do sedentarismo e sendo a forma espiritual do instinto que prendia ao solo, a religião dos Mortos concede ao homem primevo da região galaico-lusitana um sentido especial de existência em que vivos e defuntos se solidarizam nos laços afectivos de uma mesma comunhão. É o ethos comunitário do Português, que o Município concretiza admiravelmente como célula primária da Pátria. Desse bucolismo ingénito veio a nossa poesia do amor, tão ungida da compreensão das coisas simples. O nosso ascendente sente-se um todo uno com as realidades diárias que o ambiente lhe familiariza e de que ele não é mais que uma parte integrante. Mostra-o a riqueza incalculável do nosso folclore, no qual reside, sem dúvida, um dos maiores títulos da nossa independência. Acreditou-se por muitos anos que era aos Árias – a esses aposentados povos iniciadores – que nós devíamos os tesoiros poéticos dispersos na tradição oral. Assim se imaginava e o imagina ainda a ciência oficial, que é, como toda a gente sabe, do tempo em que apareceram as diligências. Porém, em face das conclusões rigorosas da arqueologia, admite-se hoje pelos trabalhos memoráveis de Martins Sarmento que a Argonáutica não é mais que a reprodução aliteratada de um périplo fenício, desenvolvido sobre as águas do Oceano-Atlântico. Idêntico substractum se descobre para os poemas de Homero, reputados como uma adaptação ao Mediterrâneo levantino de algumas esmaecidas lendas marítimas, comemorativas das navegações fabulosas dos povos do Ocidente. O fundo real desse ciclo poético parece alcançar o alto período bronzífero, de que a civilização egenética é a consagração máxima, tanto mais que a arte náutica no oeste-europeu é mais antiga que as decantadas expedições navais da Fenícia. Como sem o estanho se não podia fabricar o bronze e o Levante não possuía aquele metal, é deste ponto oculto da terra – da misteriosa Tharsis da passagem célebre de Ezequias – que irradiam as grandes correntes civilizadoras, olhadas e ensinadas pelo gorduroso pedantismo universitário como advindas vagorosamente dos planaltos recônditos da Ásia.

A navegação no Ocidente sobe à idade da pedra. Às Cassitérides (as ilhas Sorlingas, ou a península de Cornwall, segundo uns, a Península Ibérica, segundo outros) se ia buscar o estanho, que os traficantes traziam para Tartessus, no sul da Ibéria, acompanhando a costa amorável de Portugal, então a Ophiusae frons do texto enigmático de Rufus Festus Avienus na Ora marítima. Das travessias perigosas, com naufrágios frequentes e acontecimentos de tragédia, se entreteceriam fábulas e narrativas ritmadas, mais tarde sujeitas a uma lição uniforme pela clara inteligência helénica. Não é outra a genealogia da Odisseia; e, para o testemunhar, são suficientes os subsidios que o Romanceiro nos fornece. Na Nau-Catrineta temos os errores de Ulisses, temos na Bela-Infanta o regresso do herói e a fidelidade experimentada de Penélope. Tanto é como eu o cuido, que em Trás-os-Montes a Bela-Infanta é cantada ainda como a continuação da Nau-Catrineta. Num livro que acabo de publicar, O Valor da Raça (consintam Vossas Excelências que eu me reclamize!) o problema é estudado com a largueza que estes limites me não consentem. Aponto eu nele, conforme a interpretação de Teófilo Braga, a sobrevivência de diversos quadros fundamentais da criação homérica em muitas das xácaras que embalaram a nossa meninice. O rimance da Donzela na fonte lembra o episódio de Nausica. No tipo popular da Galharda transmontana nós vemos a perversidade de Circe. E no D. Marcos do meu Alentejo subsiste a dedicação do leal Eumeu.

A capacidade idealista do homem da vertente atlântica da Península filia-se, pois, no fundo primitivo das populações oeste-europeias. No druidismo abrange-se a divinização dos segredos e forças da Natureza, tão própria da alma ocidental. A beleza dos temas líricos que as festas do São João e do Natal, das Janeiras e do Maio-Moço, ainda nos evocam, não são, como se julga, uma transmissão dos Árias iniciadores. Geraram-se com as necessidades emocionais do pequeno dolicóide, que, espalhado ao longo das ribeiras do Oceano, com o ser, como já se disse, um sobrevivo do cataclismo que engoliu a Atlântida, constitui o tipo fundamental da população portuguesa. Nesse larguíssimo quadro étnico se compreendia o trato geográfico que é hoje a zona asturo-galaico-lusitana. O eminente Menéndez Pidal acentua bem o parentesco destas três regiões pelos depoimentos que recolheu da musa popular asturiana. O Romanceiro manifesta-se assim como um sinal de afinidade rácica. Silius Italicus já aludia na Púnica às canções que os galegos entoavam marchando para a guerra. Em versos duros como calhaus, eis como interpreta Filinto Elísio a passagem de Silius Italicus:

Rica manda Galécia a Juventude
Sagaz em fibras, vôos e chamas sacras,
E que ora em pátria língua canções bárbaras
Uiva, ora açoita o chão com pés alternos,
E folga c’os escudos ressonantes
Salmear a compasso...
 
São as tripudiis hispanorum, as carmina barbara dos escritores latinos. Apiano, descrevendo os funerais de Viriato, fala dos cânticos guerreiros que o celebraram. «Cavaleiros e infantes» – narra ele – «corriam, em diferentes direcções, à roda da pira, proclamando os feitos do desventurado caudilho, segundo era costume entre os hispanos.» É o bradar sobre finados do alvará de D. João I, que persistiu até às preocupações romanistas da época em sinal da poesia ingénita do Português. A inclinação melancólica do Lusitano revela-se de pronto nas toadas inspiradas pelo motivo universal da Morte. É, afinal, o nosso lirismo de sempre, que, na psicologia claríssima da Grei, imprime o mais forte vínculo de individualidade. Será, porventura, alguma coisa que se aproxime das idealizações supremas da poesia castelhana?

Castela não conhece a linguagem branda do coração. Vibra e desfaz-se toda nas alucinações sangrentas da Epopeia. A Epopeia importa consigo uma origem guerreira, apenas verificável numa raça ocupadora. Já não acontece o mesmo com o lirismo galaico-lusitano. Filho da terra, balbuciando queixas ingénuas, em que o fio corrente da emoção é esmaltado de delicadas comparações naturalistas, só uma comunidade que pratica a agricultura, e ama o «verde pino», e sabe o regresso das Estações, é que o poderia sentir e erguer-se a tamanhos vôos de sensibilidade. Essa comunidade tinha de ser forçosamente autóctone. Se o não fora, o seu temperamento, em vez de agrário e contemplativo, havia de ser forçosamente truculento e enfático. Levava-se, não para as endeixas e pastorelas dos nossos Cancioneiros, mas para as declamações grandíloquas do verso heróico. De modo que – resumindo – Castela é a Epopeia; Portugal, o Poema de Amor. Não olvidemos agora que a depressão atlântica da Península é naturalmente inclinada para a sociabilidade, enquanto o planalto central da Ibéria se fecha com o seu habitante no mais áspero dos exclusivismos. Vê-se como o meio físico promove, com efeito, o determinismo psicológico.

 
III

À dualidade de psicologia corresponde o antagonismo de raça. Eu assinalei já o nosso lirismo ingénito como um indício de autoctonia e as simpatias épicas de Castela como uma prova de alienigenato. O Lusitano, como fundamento da nacionalidade portuguesa, é, ao que parece, indígena da Península. Não acontece o mesmo com o tipo estrutural do castelhano. O Lusitano identifica-se mais ou menos com o grupo de Beaumes-Chaudes e pertence ao velho fundo pelágico, etiquetado de Mediterranensisou Meridionalis. É o H.-Japeticus de Bary ou a chamada raça ibero-insular da classificação de Deniker. Considerando esse velho fundo étnico como sobrevivo da Atlântida submersa, ou pelo menos inspirado pela extraordinária cultura desaparecida com o legendário continente, eu qualifico o seu representante mais característico de H.-Atlanticus contra a designação de H.-Mediterranensis, imposta por Broca. Abunda nos long-barrows da Grã-Bretanha e as suas diferenciais antropológicas são as do dolicóide meão. Tem a cabeça longa, a estatura baixa, os cabelos são escuros e a cor morena. Tal é o homem de Mugem tido por nosso autóctone. O seu porte sofreu um acréscimo sensível em virtude de cruzamentos posteriores com indivíduos da família dita de Grimaldi. Da aliança do tipo de Beaumes-Chaudes com o tipo de Grimaldi resultou o padrão fundamental da gente portuguesa. «Quando olhamos para o mapa das raças europeias de Ripley ou de Deniker, esta população ibero-insular salienta-se, no seu recanto da península, à beira do Atlântico, como a mais dolicocéfala e homogénea da Europa nos seus caracteres somáticos» – escreve Fonseca Cardoso. É em semelhante homogeneidade que eu assento o sentido íntimo da nossa história e uma das razões mais directas da autonomia de Portugal.

«De tudo o que até aqui temos exposto se vê que, existindo em todos os distritos do país casos puros de braquicefalia e de dolicocefalia, não deixa por isso de ser a população portuguesa das mais, senão a mais, regularmente fundida da Europa» – observa Sant’Ana Marques nos Materiais de Antropologia Nacional. E se de aqui quisermos tirar prova do direito que ao nosso povo assiste de independentemente se manter, como desde séculos o tem feito com sorte vária, e se adoptarmos o critério de que essa fusão representa o verdadeiro cimento da unidade nacional, não há dúvida de que se devem manter as fronteiras luso-hispânicas.» «Não o mesmo para a vizinha Espanha», continua Sant’Ana Marques, «onde encontramos focos primitivos (dois pelo menos), um nas costas do Levante e outro nas do Cantábrico, que podiam ter aspirações regionais com algum fundamento antropológico.» Registemos o facto. Enquanto Portugal se assinala antropologicamente como um país de população homogénea, nós vemos destacarem-se do cunho geral da população espanhola dois núcleos divergentes que, segundo Sant’Ana Marques, justificariam muito bem todas as tendências de diferenciação regionalista que porventura possam manifestar. Trata-se da mancha dolicocéfala da faixa mediterrânica com expressão mais forte em Alicante, e da braquicefalia acentuada de algumas províncias do norte e noroeste, com Oviedo por índice máximo. Oiçamos a tal respeito o catedrático D. Federico Olóriz no seu notável estudo, Distribución geográfica del índice cefálico en España.

«Comparando las columnas del cuadro IX con la cuarta del cuadro VIII – diz o ilustre sábio – se observa que en todas las provincias, excepto Santander, Lugo y Oviedo, el grupo de mesalicéfalos domina sobre el de braquicéfalos, y que en todas, sin excepción, domina también, y en partes proporcionales, sobre el de dolicocéfalos. Resulta, pues – prossegue D. Federico Olóriz – que, observando ahora la composición de las series, como antes al examinar sus índices medios, aparece la población mesaticéfala dominando en el conjunto de España y en casi todas sus provincias...» Olóriz ressalva em seguida a zona de Alicante e confirma depois, num balanço final, os resultados do seu inquérito. Assim, acrescenta que «el agrupamiento de los índices individuales de todos los españoles observados demuestra que la proporción de los dolicocéfalos de menos de 70 y de los braquicéfalos de más de 90 unidades es depreciable, pues no alcanza ni a medio por 100; en tanto que es de 60 por 100 el número de los mesaticéfalos, es decir, que las tres quintas partes de los españoles presentam el índice cefálico entre 75 y 90 exclusive: los dos quintos restantes se distribuyen entre los subdolicocéfalos y los subbraquicéfalos con mucha desigualdad...»

Estabelecida, de um lado, a maior dolicocefalia do português, e posta em relevo, do outro, a forma mesaticéfala do espanhol, não caímos em falsidade se fixarmos, portanto, com Fonseca Cardoso e Sant’Ana Marques, nesta característica antropológica, uma das principais características que fisicamente distinguem os dois povos. É certo que Sant’Ana Marques, possuído da lição de Olóriz, para o qual, como bom iberista, não há fronteiras naturais entre as duas nacionalidades – é certo que Sant’Ana Marques, ao estudar a distribuição do nosso índice cefálico ao longo da raia, pretende sustentar que a diferença existente entre as suas observações fronteiriças e as observações idênticas de D. Frederico Olóriz não acusa mais diversidade que a verificada dentro da própria Espanha nas variantes recolhidas de região para região. No entanto, Sant’Ana Marques lá foi reconhecendo e aceitando que a nossa autonomia dispõe de razoáveis alicerces étnicos. Não se perde em tais hesitações o malogrado Fonseca Cardoso. Terminantemente afirma que «em torno dos seus limites fronteiriços vêem-se os índices mesaticéfalos a fazer destacar o núcleo da dolicocefalia portuguesa».

É um problema grave este das nossas origens e principalmente no que respeita às nossas afinidades com o castelhano vizinho. Efectivamente, os caracteres antropométricos é que nos podem fornecer alguns dados essenciais para o esclarecimento da questão, ainda antes dela se colocar no campo histórico e arqueológico propriamente dito. Fonseca Cardoso é dos melhores mestres para se seguir. Escutêmo-lo:

«O índice cefálico médio dos portugueses é de 76,4 – no crânio 74,5 (Ferraz de Macedo e Silva Bastos). Comparando-o com os da população europeia, é o mais dolicocéfalo. O espanhol é de 78,2 (Olóriz), mesaticéfalo; o italiano e francês braquicéfalo, respectivamente 82,7 (Livi) e 83,6 (Collignon).

«Patenteando uma grande homogeneidade na nossa população, os índices médios pelos 17 distritos variam apenas de 78,7 a 75,2. Os seus agrupamentos, confrontados com os das três nações que mais se nos aproximam, indicam que Portugal recebeu na sua composição étnica a influência dos dois elementos cefálicos: o dolicocéfalo e o braquicéfalo, como essas nações; porém, sendo mais forte a dosagem do primeiro e mínima a do segundo. Por oposição à França, que é mais braquicéfala, o nosso país é mais dolicóide, distanciando-se assim do espanhol, que apresenta a forma intermediária mesaticéfala.»

O mesmo Fonseca Cardoso insiste numa diferencial antropológica em relação à Galiza e ao nosso Minho, que não será arriscado tomar-se como uma das causas que impediram, na devida altura, a fusão dos dois condados, tão parentes pelas inclinações e pelo génio. «A Galiza afasta-se, no agrupamento da cor, do minhoto, apesar de este ser considerado como do mesmo ramo callaico pelos antigos, os quais no entanto distinguiam os do sul do Minho com os sobrenomes de limienses e brácaros, e os do norte de lucenses. Em verdade, na população de Lugo destaca-se nítidamente uma influência kymrica; as velhas muralhas que ainda hoje cingem a cidade guardam o tipo étnico do velho galego. À medida, porém, que nos aproximamos da Corunha e da região do Cabo Ortegal, o tipo torna-se mais moreno, braquióide, de face larga. É que esta parte da província sofreu a influência dos antigos ocupantes do Cabo Nério, os celtas ou ártabros, de raça braquicéfala.

«A Galiza, pelo que observei quando a percorri, apresenta uma população mestiçada pelo elemento moreno e braquióide e pelo louro dolicóide, em maior percentagem sobre a velha população neolítica, dolicocéfala e morena; ao passo que o minhoto português é o produto mestiçado dessa raça de Beaumes-Chaudes, em percentagem mais forte com a nórdica loura e ainda com um resto da braquicéfala. Tais são as diferenças étnicas dos dois povos que o rio Minho separa.» Costa Ferreira no estudo A Galiza e as províncias portuguesas do Minho e Trás-os-Montes inclina-se, todavia, para opinião contrária, considerando a Galiza como um prolongamento étnico da população minhota. Ora, sendo o substractum desta o pequeno dolicóide de Mugem mestiçado com demoradas influências braquicefalizantes, bom é recordar agora o testemunho de D. Federico Olóriz. O eminente antropologista reputa o braquicéfalo como o elemento étnico mais constante no NO. da Península, tendo o dolicóide como atenuado sensivelmente «desde Castilla hacia el Oceano». Feita a pergunta natural sobre qual dos dois tipos assenta o tipo chamado galego, D. Federico Olóriz, sem se pronunciar categoricamente, inclina-se a reputar o braquicéfalo como o que mais caracteriza a gente da Galiza. É a lição professada por Fonseca Cardoso, que, como vimos, assinala ao galego uma percentagem maior de valores braquióides sobre um possível fundo autóctone dolicocéfalo. Já não sucede outro tanto no Minho, onde a sobreposição do braquicéfalo não abafou tão compactamente o nosso pequeno homem moreno.

Quanto a mim, não se baseia em causa diversa o facto de a Galiza não se ter fundido nunca com Portugal, não obstante a identidade de procedências e de destino comum que unificava as duas regiões no mais estreito dos parentescos. É para reparar que já a Crónica dos Godos trata, em relação a nós, de alienígenas os habitantes da Galiza. Um instinto tão vivo de separatismo trazia com certeza as suas raízes de muito longe. Trazia-as da recuada noite histórica em que o fundo jacente do homem de Mugem se vira suplantado mais numa parte do que noutra pelas correntes do braquicéfalo imigrante. Assim se compreende que na época neogótica a Galiza padecesse como Portugal não padeceu a tutela custosa do barão leonês. Assim se compreende que se atrofiassem em mera divergência regionalista para com o futuro político da Galiza as belas aptidões de raça que fizeram de Portugal, ao depois, um país independente.

Quando uma simples alteração de equilíbrio étnico bastou para cavar distâncias irreparáveis entre povos gémeos em tudo – em ascendência e em finalidade –, já por aqui se avalia como um factor de tamanha importância não havia de actuar no divórcio eterno de Portugal e Espanha, sendo no caso mais complexo do confronto das duas nacionalidades o agente-Raça infinitamente bem mais difícil de congraçar. Provou-se já a homogeneidade impressionante do povo português. Ela é o cimento da nossa razão de ser como pátria livre. Representa para nós uma qualidade tão segura e tão individualizante, que nós podemos quase olharmo-nos como uma raça íntegra, tanto quanto uma raça histórica se pode ter em semelhante conta. Claro que a consciência nacional dispõe, deste modo, de um apoio solidíssimo, logo que se veja restituída ao domínio de si própria e ao justo entendimento das suas grandes aspirações tradicionais. Ainda hoje a capacidade do crânio português vale quantitativamente o mesmo que os nossos crânios neolíticos. Sabe-se que o aumento ou a diminuição da capacidade craniana em nada afecta o desenvolvimento intelectual. É, portanto, mais um subsídio a confirmar-nos nos nossos pergaminhos de povo autónomo, que o é, não só por disposições expressas do meio geográfico, mas também por virtude da sua relativa pureza genealógica.

O que nos oferece, em contraposição, a Espanha? Diz Sant’Ana Marques que mais de metade das suas observações acusavam um índice oscilando entre 75 e 76 – «o que nos leva a concluir que em algum daqueles dois números assenta o tipo étnico dominante em Portugal». Em Espanha encontra-se, porém, um tipo étnico entre 77 e 78 e outro mais elevado de 80. É o tipo secundário de Olóriz. Não carecem de justificação mais documentada os provincialismos irrequietos do reino vizinho, com a flâmula irredentista da Catalunha por porta-bandeira.
No estado espanhol há várias nacionalidades latentes que a supremacia unitária de Castela evitou a tempo que crescessem para uma completa suficiência orgânica. No estado português há apenas a nação portuguesa – a não ser agora a conquista do estrangeiro do interior, revivescência étnica dos pretos e dos judeus, de que o Santo-Ofício nos não livrou inteiramente. Um invencível fundamento de ordem rácica impede, pelo exposto, a realização da miragem iberista, já de antemão desmentida pelas leis físicas que submeteram um dos dois países da Península ao regime continental do planalto, enquanto condicionavam o outro na insularidade amorável da depressão atlântica.

Ao argumento batido de que a raça é a mesma, nós respondemos com um desmentido insofismável. Tanto assim é que «o português liga-se com o aquitano, o corso, o sardo, o siciliano e o habitante do sul do continente italiano da Apúlia, Calábria e Basilicata e o tipo berbere do norte de África» – nota Fonseca Cardoso; mas não manifesta uma afinidade tão estreita, como essa, com o espanhol que lhe mora ao pé da porta. É que o espanhol, de um modo geral, não é um descendente do pequeno dolicóide, ou H.-Mediterranensis. Deniker incorpora-o com o português na raça classificada de ibero-insular. Contudo, não me parece rigorosa a sistematização do autor competentíssimo do magnífico manual, Races et peuples de la Terre. A forma mesaticéfala do espanhol difere mais ou menos sensivelmente do tipo fundamental da família portuguesa, que é o tipo de Mugem, alterado na sua estatura, por virtude de cruzamentos remotos com representantes da linha dita de Grimaldi.

Para alguns antropologistas de nome, como Georges Hervé, por exemplo, a raça de Mugem (assim chamada no prefácio de Quatrefages ao livro de Cartailhac, Les âges préhistoriques de l’Espagne et du Portugal) não é senão a raça dolicocéfala de Laugerie-Chancelade, que, sucedendo à raça mais antiga de Neandertal e atravessando-se talvez com ela, «aurait également peuplé la péninsule durant la dernière époque quaternaire». Primeiro ocupador da Ibéria, como se vê, o pequeno dolicocéfalo não resistiu em toda a Península à invasão do braquicéfalo, da raça cevénola, naturalmente, que se lhe sobrepôs e o abafou quase por completo. Acantonando-se nos árduos colles da faixa ocidental, o homem meão, repelido, manteve-se aqui num estado de relativa independência. Lança as raízes do Lusitano futuro. E mais tarde, quando se quiserem estudar as origens da poesia popular no Ocidente, só por meio da sobrevivência do pequeno dolicóide em Portugal, na Galiza, na Provença e na Sicília, se explicará a extraordinária similitude dos temas líricos que o folclore e a crítica têm recolhido em partes tão afastadas umas das outras. Os ensinamentos de antropologia, aparentando-nos mais com o aquitano e com o corso de que com o espanhol, ajudam-nos a restabelecer o quadro geográfico que o homem da raça de Mugem abrangia. Apanhava ele a bacia do Mediterrâneo, donde a designação de H.-Meridionalis, ou Mediterraneus. Quando, no declinar do neolítico, se produzem as grandes deslocações do braquicéfalo, são precisamente os pontos em que logrou resistir à subversão geral aqueles em que Fonseca Cardoso insiste como habitados por populações mais próximas da nossa que a população do país vizinho. No sudeste da Espanha, o antropólogo belga Victor Jacques, ao examinar os restos humanos recolhidos na necrópole pré-histórica de Argar, determinou-lhes para o volume cefálico uma composição idêntica à da nossa gente de Mugem. É uma prova de que a Península seria habitada em globo pelo pequeno dolicóide. A forma mesaticéfala do espanhol actual, confrontada com a prevalência no português dos caracteres fundamentais do tipo de Mugem, demonstra-nos, pois, o predomínio de uma influência estranha, que desde altos séculos lhe teceu a genealogia com outros elementos que não os da nossa velha árvore étnica.

Socorremo-nos agora das luzes da pré-história para uma melhor colocação do problema. O homem chamado de Mugem descobriu-se-nos no vale do Tejo, praticando já o sedentarismo nesse recuado período mesolítico em que nós não conhecíamos ainda a agricultura. É um facto admirável que nos entrega a chave da pátria vindoira. As simpatias localistas do homem de Mugem geraram sem dúvida as instituições agrícolas que, ao depois, ao vir da proto-história, se expressam nas citânias de além-Douro, de onde em seguida derivam as arimanias, ou federações militares, por meio das quais o Lusitano se defendeu largos tempos do avanço das tropas romanas.

O Município, como necessidade da polícia e do fisco imperial, define juridicamente esse nosso localismo instintivo. As ligas guerreiras cedem mais tarde o lugar às behetrias, ou mancomunidades agrárias da Reconquista, que se apoiavam no estatuto de vizinhança. Com a nossa sociedade histórica já organizada, são finalmente as behetrias que atingem a plenitude de uma consciência una, como razão estrutural da nacionalidade, ao proclamarem um Príncipe seu regedor vitalício e hereditário. A nação portuguesa tirou-se de si mesma – do embrião que o homem de Mugem representa para nós, nos seus decididos gostos sedentários. Alexandre Herculano enganava-se, por isso, quando nos negava a raça e se sorria da Lusitânia de Estrabão, na qual supunha ver um pedantismo heráldico dos nossos humanistas de Quinhentos.

Compreende-se já por que é que o Concelho é a lareira sempre animada da Pátria. No Concelho reside o meio-vital da Nacionalidade, visto consagrar o gosto do nosso autóctone pelo arreigamento e lhe garantir a incorruptibilidade étnica, mediante a fixidez à terra, como resguardo seguro contra as mestiçagens perturbadoras, mais frequentes e de maior insistência nos agrupamentos urbanos. Trux et natura ferox – já dos Lusitanos escreviam os analistas latinos. Era a virtude esplêndida do nosso indígena, cujo tronco se perde nas impossibilidades máximas da ciência. Paleontólogos há como Ricardo Severo, um dos trabalhadores iluminados da Portugália, que lhes confundem quase o nascimento com os últimos arrumos geológicos das bacias do Tejo e do Sado. Talvez que se suba demais na afirmação. Mas que lindo não é, meus Senhores, concebermos um momento essa humanidade pré-adamita, que surge para a existência de envolta com o próprio solo que há-de povoar um dia! Alta e sagrada génese seria assim a da Pátria Portuguesa! Mas de um modo ou de outro, o que é certo é que, enquanto o pequeno dolicóide se nos mostra aborígene na vertente ocidental da Península, o Ibero é invasor, tira as ramarias genealógicas tanto do braquicéfalo rotulado de alpino, como de prováveis êxodos asiáticos.

Iber, segundo Paniagua, significa «o que vai vendendo e andando». Teremos um feitio nómada, explicado pelo shamanismoambulante das imigrações acádicas. D. Francisco Fernández y González, na Historia general de España, atribui ao Ibero uma ascendência proto-semita. Hovelacque e Hervé no Précis d’anthropologie fazem coincidir a raça ibérica com a raça mediterrânico-ocidental. É a designação que aparece em Deniker, a que nós já nos referimos como menos exacta. D’Arbois de Jubainville quer que o Ibero nos viesse do noroeste de África, «ou de terres actuellement disparues, dont Açores et Canaries seraient des témoins». A mim afigura-se-me que se usa e abusa do significado histórico e étnico da palavra Ibero. Iberos seriam indiferentemente todos os habitantes da Península para os gregos e romanos que já lhe chamavam Ibéria. Agora o tipo que se procura mencionar especialmente debaixo daquela indicação nada tem, quanto a mim, com o pequeno dolicóide, para que se haja de incorporar na raça com pouco rigor qualificada de ibero-insular. A mais antiga reminiscência que se conhece dos Iberos é o êxodo para a Sicília, por volta do século XII antes da nossa era, de um povo natural de Espanha, que se retiraria diante de uma invasão conquistadora. É em Tucídides que se alude a essa deslocação dos Sicanos. Com Vacher de Lapouge, eu entendo que a assolação belicosa não podia ser senão a dos Lígures – gente de meia estatura, robusta e braquicéfala. É a imigração importante do declínio do neolítico. Os Lígures seriam assim os verdadeiros Iberos que, entrando na Península em som de guerra, conseguiram sobrepor-se à população autóctone, que, recalcada fortemente pelos adventícios, ou desapareceu, fugindo, ou se deixou absorver, com revivescências aqui e além, conforme se deduz das observações do antropólogo belga Victor Jacques na Andaluzia. A faixa atlântica da Península constituiu, sem dúvida, um desses poucos focos de resistência contumaz. É aí que se filia decerto o antagonismo irreparável dos dois povos. Estudando as diversidades fonéticas que separam o idioma português do idioma espanhol, Schleicher considera-as como consequência de uma diversidade fisiológica. Pois a diferença que vai do pequeno dolicóide ao Lígure exótico, estabelece os fundamentos de uma divergência tão profunda. Estruturalmente é já a razão de psicologia que leva Castela para a Epopeia, enquanto nos comunica a nós o segredo do mais enlevado lirismo.

É que mesmo no fundo de preferências literárias tão opostas se descobre o eterno motivo do divórcio das duas nacionalidades. Nós somos autóctones no mais recuado tronco das nossas linhagens. Castela é inicialmente um povo de imigrantes. Dolicóides de porte médio, já vimos que os portugueses aproximam-se mais do provençal e do siciliano que do espanhol, seu vizinho. Semelhante afinidade explica-nos a íntima ligação que existe entre a lírica trovadoresca e os recursos poéticos do génio popular no ocidente da Península. Sabe-se hoje pelos trabalhos de um notável académico espanhol que o provençalismo tira as suas raízes da poesia galega, mediante a influência do cancioneiro de Abencuzman, poeta hispano-árabe de Córdoba. Não é uma tese para se debater aqui. Aproveitam-se-lhe unicamente as conclusões que tendem a proclamar a sobrevivência de uma admirável riqueza de ritmos e de imagens nos cantos orais da gente que demorava a noroeste da Península. Os escravos cristãos, daí transitados, como preferidos, aos bazares muçulmanos da Andaluzia, transmitiríam aos centros cultos os segredos da sua musa tradicional. É uma prova dessa corrente literária, até agora obscurecida, o referido cancioneiro de Abencuzman.

Por seu lado, o elemento islamita, penetrando na Aquitânia, reavivaria o fundo emocional do antigo habitante, provindo da mesma árvore que o nosso, quando lhe comunicasse, num meio excepcionalmente preparado, a herança recebida da velha alma ocidental, errante agora nos pobres dialectos locais dos miseráveis postos em preço nas grandes feiras do sul da Península. Resolve-se subitamente deste modo um embrulhado problema de crítica de origens. Impressionava bastante o facto de a poesia provençal actuar com tanto vigor na corte do nosso D. Dinis, sem deixar vestígios proporcionados em Castela e Leão, por onde naturalmente viria ter connosco. O ponto de vista étnico, estabelecendo como firme o parentesco do aquitano com o português, forneceu-nos já uma claridade inesperada. As investigações memoráveis de D. Julián Ribera y Tarragó equacionam de vez a questão. É que tanto o provençalismo como a poesia doce dos nossos Cancioneiros não são, nem um nem outra, o resultado de uma literatura de importação. São revivescências poderosas de uma raça soterrada que teve como ninguém o sentimento das coisas naturais e a posse das mais profundas contemplações poéticas – é-me grato acentuá-lo sempre.

Aqui demos nós outra vez com o nosso pequeno dolicóide. O pequeno dolicóide é, sem sombra de incerteza, o pelasgo do Ocidente. Pertence ao amplo quadro populacional que, abrangendo as costas do Atlântico, se elevou às criações maiores do druidismo, tão perto às vezes dos melhores ditames da sabedoria cristã. O pelasgo era autóctone. Praticava a agricultura. Por isso a poesia da natureza e com ela as queixas doridas do amor não tardariam a amanhecer para o espírito de uma raça sedentária e pacífica, a quem o culto dos Mortos elevou depressa às mais altas crepitações do animismo. É o pelasgo que, pelo seu feitio construtivo, desenvolve a admirável civilização do período bronzífero, indo ganhar as expressões imorredoiras da Arte no esplendor sem rival da civilização egenética. Povo marítimo, teve também como poucos a compreensão patética dos mistérios do grande Oceano, que ele atravessava em barquinhas rudimentares já desde o descair da idade da pedra. A Odisseia parece desta forma gerada nos seus traços essenciais pelo profundo génio pelágico. Ainda hoje na tradição do nosso romanceiro se guardam traços vivos desse facto. Recordarei novamente duas xácaras: a Nau Catrineta e a Bela Infanta, que em Trás-os-Montes se cantam como o complemento uma da outra. Não teremos nelas, em delicioso embrião, todo o drama palpitante dos errores de Ulisses e do seu regresso à suspirada Ítaca?

Ora é o que não sucede com o factor capitulado do Ibero. Antes da divulgação dos ritos incineratórios, o homem meão do oeste da Península enterra os seus defuntos na prática religiosa de um preceito secularíssimo. O Ibero, segundo Silius Italicus, abandonava os cadáveres à devastação das aves de rapina, para que elas conduzissem os espíritos mais depressa aos céus. É um rito terrífico em que se advinha um forte sabor asiático, como que um começo de moloquismo fenício. Denuncia-nos bem a ascendência proto-semita de Ibero. E não se precisa de mais nada para se assentar histórica e etnograficamente na divisão que desde sempre separou os nossos dos vizinhos de ao pé da porta.

É o Ibero, como se disse, o Lígure invasor dos últimos arrancos do neolítico. «Il est certain que les Ligures ont formé un peuple important dès une époque ancienne, la légende des Sicanes nous montre les Ligures faisant acte de conquérants à une époque de beaucoup antérieure au 12e siècle» – escreve Vacher de Lapouge. – «Ils faisaient encore bonne figure au 8e siècle, car Hésiode les cite parmi les grands peuples habitant les confins du monde.» No entanto, para Vacher de Lapouge os verdadeiros Iberos, os históricos, «ceux qui portaient ce nom à titre ethnique et non comme habitants de la péninsule, apparaissent seulement vers l’an 500».

Seja como for, nós perante o êxodo dos Sicanos temos que aceitar uma deslocação de povos peninsulares diante de uma raça invasora mais forte. É nessa raça que repousa principalmente o substracto étnico do castelhano. Tão cedo as irredutibilidades do tipo adventício se definiram para com o autóctone da Península, foragido nos alcantis da depressão ocidental, que não é para desprezar a semelhante respeito a opinião de um dos maiores arqueólogos portugueses. «A actividade comercial entre os povos do sudoeste da Espanha e da Inglaterra, que o périplo do século VI acentua (Avieno, Ora marítima, 113-114), contrasta singularmente com a ausência quase completa de relações ontre os primeiros e os povos da costa oriental da península» – repara Martins Sarmento a páginas 223 de Os Argonautas. Dir-se-ia que a gente das duas regiões nem se entende, nem se quer entender. Ajudam-nos a utilizar este facto em favor da nossa tese as conclusões antropológicas a que chegou Victor Jacques, depois de examinar os restos humanos recolhidos na estação andaluza de Argar. O pequeno dolicóide permanecera ali. E se nos recordarmos da civilização turdetana, velha de seis mil anos no tempo de Estrabão, com as suas leis escritas em verso e os seus poemas antiquíssimos, apanhamos mais uma prova da presença do homem de Mugem pela alta capacidade lírica e construtiva dos seus descendentes. É irrecusavelmente o pelasgo do Ocidente, tão bem caracterizado por Salomon Reinach como o legítimo pai do druidismo.

Já não ocorria outro tanto com o Lígure ou Ibero. Entrado aqui como conquistador, como conquistador haveria que continuar. Assim o deixa entrever o passo transcrito de Martins Sarmento – sem nos perdermos em esmiuçamentos da Ora marítima, de que obteríamos os melhores resultados. A situação difícil de ocupador em que o Lígure se manteve e ainda a sua decidida predilecção fusionista levam-no a misturar-se com o Celta, em seguida a combates preliminares em que ambas as forças se medem sem se debelarem. Eis como nasce a nação celtibérica. É natural que o Lígure, de origem semita, ganhasse a Hespanha pelo norte de África, coincidindo, desta maneira, a sua marcha com um êxodo saído da Mesopotâmia, em que o elemento sumero-acadiano dominava em absoluto. Não disponho de espaço para descrever as jornadas desse êxodo, que, segundo muitos, se bifurcaria, convergindo para a Península, uma ponta pelas gargantas pirenaicas, até onde caminharia desde as portelas do Cáucaso, a outra ponta, atravessando o Estreito, depois de passar ao sul do Egipto e vir dar consigo às raízes do Calpe. Na Península, realizado o acto de conquista, pelo cruzamento com o Celta mais belicoso ainda, nós já sabemos como o Lígure funda a nação celtibérica. É interessante reproduzir aqui uma opinião de Díez. Para o eminente sábio, as palavras do vocabulário peninsular que designam assuntos e objectos guerreiros, guerra inclusivamente (Wera), são de exclusiva precedência germânica. O homem loiro assinalava-se depressa no seio das populações sedentárias, cuja autoctonia brigava por natureza com o sentimento aristocrático do comando e da expoliação.

A conformação mesaticéfala do espanhol ilumina-se agora para nós, em vista do casamento do Lígure com o Celta. Vem a propósito destacar mais uma diferença profunda dos dois tipos – do Ibero e do Lusitano. Marcou-se já a sociabilidade franca do português e o individualismo ferrenho do espanhol. Não será demais destacar a inversa resistência étnica do Lusitano e as íntimas simpatias alogénicas do Ibero. Oiçamos Teófilo Braga, por acaso verdadeiro na sua observação: «As duas raças peninsulares, ibérica e lusitana, somaticamente diferenciadas nos seus tipos, eram, pelas tendências sociológicas, ainda mais divorciadas. O Ibero unificava em si todos os povos adventícios, alargando o seu poder e conformando-se com a unidade política, fosse ela imposta pelos conquistadores romanos, germânicos e árabes, ou pela autoridade religiosa da intolerância católica em uma quase teocracia; o luso, sempre apoiado nas suas liberdades locais, nas garantias municipalistas, embora se enfraquecesse pelo isolamento, tirava da pureza da sua raça a resistência com que persistia através de todas as invasões que sofreu a Espanha, conservando todos os seus caracteres étnicos.» Efectivamente, se um fechado isolamento aristocrático impede que o Ibero se misture com as populações anónimas subjugadas, a mesma inclinação da sua natureza o leva a pactuar com todos os ramos ocupadores que a Península conheceu, com o fim único de manter as posições de desfruto sôfrego, em que sempre se conservara para com o resto dos povos peninsulares. Assim, alia-se ao Celta sem relutâncias de maior, colabora mais tarde com os Visigodos e aceita as facilidades que os Árabes lhe oferecem, auxiliando-os na extensão dominadora e colocando-se o próprio Ibero à frente de muito emirado. O casamento do filho de Musa com Egilona, viúva de Rodericus, é mais que um episódio político de aproximação, vale bem como o melhor dos símbolos.

São inegáveis, como se expõe, as predilecções fusionistas do Ibero debaixo do ponto de vista rácico. Já não sucede o mesmo debaixo do ponto de vista social, em que o unitarismo teocrático de Castela não cede nunca, nem às circunstâncias do meio, nem às conveniências do momento. É um testemunho disso a violenta história colonial da Espanha. Pelo contrário, o individualismo étnico do Lusitano é mais que notório, embora o solicitem para uma sociabilidade aberta, não só a sua índole comunitária, mas também as contingências da situação geográfica, colocando-o entre o continente e o mar. De facto, pelo apego localista, expresso nas instituições municipais ao depois, é que o Lusitano se defende sempre e se aguenta intacto. O estatuto territorial é o fundamento da sua existência colectiva, enquanto o génio castelhano, dominando no planalto, se apoia inteiramente no estatuto pessoal. Uma a uma, houveram os romanos que escalar as citânias do nosso Minho e Douro. Anteriormente acompadrados com os Iberos, os Celtas tinham-nos devastado, mas não assimilado. E aqui se revela para nós, na preponderância do tipo loiro na Galiza sobre o tipo moreno do autóctone, um dos mais fortes motivos que impossibilitaram aquela região peninsular de seguir com a autonomia de Portugal o rumo natural do seu destino histórico. Segundo Gayangos, a Crónica do moiro Rasis aponta as cidadelas do ocidente da Península como em contínuas sublevações contra a supremacia muçulmana. Esse motivo local, traduzindo a aptidão sedentária do homem de Mugem, é o motivo primário da nossa existência de povo-livre – não me farto nunca de o repetir. São as behetrias da Reconquista, saídas das antigas comunidades agrárias da Raça, que lançam os alicerces da Nacionalidade e se reconhecem na magistratura suprema de Afonso Henriques. São, séculos volvidos, as vilas da fronteira que em 1384, no florescer da alma concelhia, aclamam o Mestre e o sustentam no trono contra o pendão mais forte de D. Beatriz. São os municípios do Alentejo que fazem frente com as suas ordenanças a vinte e oito anos de luta pegada, durante a extraordinária guerra da Aclamação. São ainda as vilas de 1384 que, erigidas em juntas em 1808, expulsam os franceses e tratam de organizar a defesa da nossa autoctonia constituída em razão medular da vitalidade pátria.

A virtude da homogeneidade étnica do Lusitano é aonde se revela. A sociabilidade dele manifesta-se, por exemplo, na nossa aventura colonial. O inglês Stephens chama-nos mais missionários que conquistadores. Tanto esse predicado nos dirigiu o caminho, que a própria integridade da raça esteve comprometida seriamente, se não fossem as disciplinas sanitárias da Inquisição. O imperialismo famoso de Afonso de Albuquerque repousava-se no entrelaçamento do elemento português no Oriente com o elemento indígena, para que o nosso domínio se estratificasse assim nos vínculos mais sólidos do parentesco. O que fazia, porém, a Espanha na América? O libelo do frade Las Casas que me sirva de resposta. Não é sobeja, no entanto, uma transcrição do escritor brasileiro Pereira da Silva. «E prima ainda – escreve ele – uma distinção notável entre as duas nações conquistadoras: se aparece entre os Portugueses um Maciel Parente ou Pedro Coelho que praticam arbitrariedades contra os Brasis do Norte, castiga-os a Coroa, e não passam eles de uma quase imperceptível excepção na ordem dos chefes portugueses; enquanto que inventam os castelhanos os mais descomunais suplícios para se alagarem no sangue dos Americanos, e extinguir-lhes a raça, não lhes bastando as caçadas por meio de cães de fila, e o extermínio no meio e fora dos combates. Diversa é a história de conquista do Brasil da história das colónias do Peru, da Colômbia, do México, do Chile e de Guatemala, onde quase nenhum efeito produziam as fulminações de Las Casas.»

Quanto às nossas instituições civis e económicas, a sociabilidade característica da Raça traduz-se vigorosamente pelo mais enraizado comunitarismo. É como se criam as Misericórdias e os celeiros comuns, os maniagos e as mercearias. Não há outra nação no mundo que como a nossa se chamasse Grei, e Grei se sentisse em todas as horas difíceis da sua vida. Possuido desse formidável sentido de solidariedade do presente com o passado e com o futuro, João de Barros deixaria nas Décadas meia dúzia de palavras inspiradas, em que o espírito da história portuguesa se resume inteiramente. «Grande glória é morrer por nossa Lei, por nosso Rei, que são as mais justas causas de morrer» – diz o varão insigne de Quinhentos. A Grei que é a congregação dos nossos parentes, amigos e compatriotas, a que chamamos república, celebra o nosso nome de geração em geração. Não se encontra na história de Espanha um sentimento tão nítido de comunhão nacional. A Grei «é a congregação dos nossos parentes, amigos e compatriotas» – repita-se ainda a definição admirável de João de Barros. E seja para a comparar com aquela de Afonso o Sábio que secamente encara a colectividade (pueblo) como o «ajuntamento de todos os homens comunalmente». São duas concepções sociais bem opostas: uma cheia da razão eterna do agrupamento, a outra firmando-se apenas atomisticamente no número dos indivíduos existentes.

Havendo falado das Misericórdias como um sinal maravilhoso do génio da Grei, não deixo de sublinhar o alto significado social que se desprende de tão piedosas corporações. É que pelas Misericórdias a assistência tomou um aspecto novo de confraternidade, com o próprio rei inscrevendo-se como irmão e abolindo-se o antigo regime hospitalar em que as albergarias pertenciam exclusivamente às classes que as organizavam. Com a instituição das Misericórdias, nós vemos alguma coisa de parecido com o assombroso movimento franciscano da Idade-Média. Tão nossa é a instituição das Misericórdias que eu encontrei num opúsculo do cónego Aires Varela – Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguela, o primeiro ano da Recuperação de Portugal[2] – a seguinte passagem acerca de Albuquerque: «esta vila é fundação de portugueses, e por isso tem casa de Misericórdia, com confraria ao nosso modo».
Para fixar a psicologia amorável do povo português e o seu juízo fraternal da sociedade, eu não me posso esquecer de aludir ao Compromisso da Misericórdia de Évora, com data de 1516. É ver a delicadeza com que se recomenda a esmola aos «envergonhados» e a «maneira que se há-de ter com os que padecem por justiça». Porém, o que é único é o capítulo sobre o modo de se fazerem as amizades. Ei-lo em parte:

«O proveador e oficiais da dita confraria com o capelão dela sabendo que algumas pessoas entre elas há desavenças ou ódios trabalharão quanto for possível de fazerem entre eles amizades ou quando quer que para isso forem requeridos e provocarão umas ditas pessoas para que perdoem por amor de Deus uns aos outros todo erro e injúrias que tiverem recebidas e outras quaisquer coisas semelhantes em maneira que todos vivam em paz e em amor do Senhor Deus e dos próximos e que não vivam em ódios e malquerenças as quais amizades se farão sempre em os dias de quaresma por serem dias de pendença e assim pelo ano quando o caso acontecer…»

Bom seria que meditassem neste trecho de verdade cristã os ingénuos que, indo atrás da calúnia maçónica, julgam ainda o passado como um negrume denso de crimes, em que os padres e os reis se regalavam tiranizando meia humanidade e mandando a outra metade para a fogueira. Onde é que fica a fraternidade de agora, servida por espiões e pela cadeia, ao pé da fraternidade singela dos irmãos das nossas misericórdias, saindo pela Quaresma a congraçar vila e termo? A obrigação que tinham de «fazerem amizades» indica uma vez mais o feitio brando e emotivo de português. Tão doce ele é e tanto contrasta com a dureza do génio castelhano, que o jesuíta espanhol Cienfuegos, ao referir-se aos adeuses saudosos de Carlos V a sua esposa morta, D. Isabel de Portugal, escreve esta passagem eloquente: «Las demostraciones del Emperador en esta desgracia fueron iguales a la pérdida, llorando tanto tiempo, y con tanta alma, que se conocía bien que con el amor y el trato de la Emperatriz se le había pegado toda la ternura Portuguesa.»[3] É a ternura ingénita da Grei que enche os nossos nobiliários de casos miserandos de amor, e que em D. Afonso IV, o Bravo, toma expressão singular, quando, doído da sorte de Briolanja abandonada, mandou retocar esse episódio célebre do Amadis.

Feita esta instrução psicológica, importa agora, com fundamento na diferença de raças, cavar o divórcio irreparável da índole moral dos dois povos. O génio do Planalto, determinado e regido pela secura continental, opõe-se ao génio da Ribeira, todo submetido à amabilidade estável de um magnífico clima insular. Correspondentemente, é o Orgulho a qualidade e o defeito do Castelhano, que se encarquilha e enclausura na mais cerrada hipertrofia do eu. É a Vaidade o defeito estrutural do Lusitano, como consequência de um largo trato social que o egotismo espanhol não pratica. O orgulho nutre-se de si para si. A vaidade sustenta-se do aplauso dos outros. É o «fazer-figura» consagrado do portuguesinho valente – o tradicionalíssimo «vício da basófia», apontado já pelo Regente, precisamente em tais termos, ao carácter português. O humanista Nicolau Clenardo fala da nossa ostentação espectaculosa, contando de pessoas que em casa se alimentavam de rabanetes por não terem mais para comer, mas que na rua se conduziam entre cortejos vistosos de pajens e charameleiros. O orgulho castelhano é o eterno conflito do eu com o ambiente, expresso na paranóia típica de D. Quixote. É ainda o aprumo de Pizarro no poema de Heredia, Les conquérants de l’or:

Pizarre, ayant jadis peu harté les écoles,
Car en Estrémadure il gardait les pourceaux,
Sur le velin royal d’où pendait les grands sceaux
Fit sa croix, déclarant ne savoir pas écrire,
Mais d’un ton si hautain que nul ne peut rire.
 
Até nas deficiências da psicologia, o individualismo do Ibero e o comunitarismo do Lusitano proclamam a cada hora a distância irreparável que os divide! Bom é insistir ainda na presente altura na Epopeia e no Lirismo como chave-mestra da minha tese. A Epopeia, dada a essência feudal que a caracteriza, é por via disso a expressão de um sentimento colectivo apenas verificável numa raça belicosa e conquistadora – como fica dito. Assim as origens exóticas do Ibero histórico provam-se admiravelmente pelo lado da Epopeia. No seu estudo notável, L’Epopée Castillane, o grande Menéndez Pidal demonstra-nos a génese germânica dos poemas do ciclo do Cid. Na realidade o espanhol e o germano são primos muito chegados. O consórcio do Ibero com o Celta atesta-nos essa inclinação natural. É a ideia bárbara da posse – é a ideia mediévica da terra que inspira toda a existência tumultuária da Espanha. «Castilla, tierra de los castillos» – eis tudo! É que Castela encarnava bem o ímpeto imperialista do Ária, raptor orbis, sagrado por Chamberlain e Woltmann como antepassado do teutão actual. Poderão reparar-me, no entanto: mas Castela desmembra-se da monarquia de Leão e queima em Burgos o código visigótico.

É um constraste que mais auxilia as minhas vistas, porque, apesar do nome, o código visigótico era de precedência romanista e eclesiástica. Contrariava, por conseguinte, o espírito germânico instalado no planalto central, já pela proibição de práticas violentas, como o duelo judiciário e os juízos-de-Deus, já pelo amparo concedido nos concílios de Toledo às pobres populações rurais da Península.

A fácil aclimatação das gestas carolíngias em Espanha corrobora a inclinação fundamental do génio do planalto para o espírito germânico. D. Carolina Michaëlis nota com felicidade que o Rimance não é nada uma expressão poética da alma espanhola. Representa antes, quando dá em aparecer, a degenerescência da Epopeia, que, ultrapassado o ciclo feudal, se não ajustou às necesidades e às aspirações da nova era civil que surgia. Já não acontece connosco outro tanto.

O Romanceiro interpreta bem as altas qualidades líricas do português. Tão estranhas elas eram ao próprio idioma espanhol, que Afonso o Sábio compõe no nosso idioma as Cantigas de Santa Maria; e seria igualmente em linguagem galécio-portuguesa que Afonso Onzeno rimaria os seus versos de amor.

Não está esquecida a filiação da poesia trovadoresca no lirismo popular das regiões a noroeste da Península por intermédio da poética hispano-árabe de Córdova. O factor étnico projecta uma luz extraordinária na revivescência desses profundos dons de emoção, aqui, em Portugal, e além, na Aquitânia – precisamente onde o nosso dolicóide conseguiu resistir às sobreposições das famílias invasoras. Lembrêmo-nos dos Sicanos, fugindo da Península para a Sicília diante da assolação ibérica. Também na Trinacria da boa tradição latina o bucolismo florescia como património inato do povo. É este problema das origens do lirismo ocidental um tema para largo exame, tanto mais que nele descansa uma das principais razões da nossa autonomia. Não posso eu encará-lo como devera. No entanto, assinalados já alguns dados essenciais, recordarei ainda que D. Joaquín Costa, reconhecendo na poesia popular portuguesa um carácter mais arcaico que em nenhuma outra dos restantes povos hispânicos, assevera algures que na Lusitânia existiria uma região não muito extensa que oferece ao historiador uma importância excepcional, porque lá se conservaram mais tempo «o culto, a língua e os costumes dos primitivos hispanos». São os descendentes legítimos da raça de Mugem, que nós encontrámos no Minho prevalecendo contra a influência turbulenta do homem loiro e que na Andaluzia se revelou aos estudos de Victor Jacques na necrópole de Argar.

A região privilegiada, que D. Joaquín Costa consagra como o refúgio da velha alma autóctone da Península, era a «metade inferior da Lusitânia extremenha, a NO. da Tartésside», com umas vinte e tantas léguas em quadrado. Segundo Plínio, os Lusitanos dominaram do Guadiana ao Promontório-Sacro, sendo constrangidos pelos Romanos a irem habitar na margem direita do Tejo. Aluda-se agora aos Cinetos e aos Cempses – aqueles vizinhos dos Tartéssios, demorando sobre o Sinus Atlanticus, conforme a lição do périplo fenício que Rufus Festus Avienus plagiou na Ora Marítima. Aos Cinetos pertenceriam os lendários reis Gárgoris e Hábis, heróis-civilizadores dos Lusitanos. Como Frei Bernardo de Brito tinha razão! É que para lá do mito existia uma profunda verdade. O berço real da Lusitânia ficava assim perto do mar, ao que parece – para aquém do Tejo. Não nos regulemos pela Lusitania, circunscrição romana. Essa é já arbitrária, obedecendo apenas a necessidades simétricas de administração. Em datas apagadas, mais altas que as alvas da história, os lusitanos viveriam na orla marítima do sul português. As suas moradas no interior da mesopotâmia transtagana manifestam-se ainda hoje nos cumes designados por «Castelos-velhos». A vinda de outras gentes em som de guerra ocasionou naturalmente a deslocação das massas indígenas para a zona mais montanhosa do país. É daí que Viriato comanda a ofensiva aborígene, como fora pela bacia aberta do Guadiana que os celtas entraram, constituindo uma mancha notável junto a Évora.

Em auxílio da nossa tese acode a etimologia que muitos atribuem à palavra Lusitania. O elemento radical topológico de Luso é para semelhante versão o termo leç, que significa «borda» ou «margem». Os terrenos marginais do Tejo chamam-se Leçirias ainda agora. Dá-se também o nome de léus a certos barcos costeiros, como depõe Antoine Conflans, falando do litoral andaluz. Na canção n.° 246 do Cancioneiro da Vaticana aparecem empregadas as palavras leç e lex como designando «margem». Teófilo Braga interroga se o mesmo radical não presidiria à formação do vocábulo «Lisboa». Interessante é frisar que, tendo o mar preparado um meio físico especial no ocidente da Península que serviria de pátria a uma grei de lavradores e de navegantes, igualmente o mar lhe daria o nome – Lusitânia –, em lembrança eterna do carinho das águas pela linda riba de Portugal. «Portugal» lembraria também a ascendência marítima da Nacionalidade, baptizando-se com o apelido do pequeno castro a cavaleiro do Douro, onde implicitamente a natureza foraleira da Raça se consorciava com a sua futura acção no Atlântico. Há destinos a cumprir até nas coisas que mais casuais se nos afiguram! Castilla, terra dos Castelos – Lusitania, terra da margem – uma, o domínio militar da Conquista, a outra, a expansão insensível dos litorais.

Mas, recorrendo ao fio da minha exposição, tão longa já, eu pergunto agora se, conservando-se na região do Guadiana ao Promontório-Sacro o foco mais puro da autoctonia peninsular, não seria antes das gentes empurradas dali para o norte do Tejo com as sucessivas ocupações exóticas, que teria partido o profundo impulso lírico que hoje se toma como filho do génio galaico-lusitano? Não se encontrará na inversão dos termos do problema uma explicação bastante aos motivos por que a Galiza se deixou mais facilmente contaminar pelas misturas célticas de que o Minho, o Minho bem mais que Trás-os-Montes e as Beiras? Não haverá aqui um fundamento ignorado da revivescência étnica do Lusitano no tipo histórico do português – revivescência que o galego não pôde acompanhar por causas mais íntimas, afinal, que as que se supõem? Não se nos mostrará de futuro a Galiza como uma esfera de influência da genialidade lusitana, nunca como um ponto irradiador dela? Eu não sei o que de positivo se pode assegurar em assunto de tamanha transcendência. O que sei – e é o que importa – é que os temas líricos do cancioneiro da Vaticana apresentam vestígios mais arcaicos do que em nenhum outro país românico, não sendo os personagens, tomados da sociedade cavalheiresca, mas do povo, nem o amor dos nossos trovadores pautado pelas teorias cortesanescas da Provença. Há que contar com uma qualidade tão poderosa, como é a do nosso lirismo, para nos opormos em frente da hegemonia castelhana como um povo livre, com perpétuos direitos a uma independência incontestável. Castela não conhece a língua branda do coração. A prova está em que as Cantigas a Santa Maria se compuseram em idioma galécio-português. Confirma-o de um modo geral o marquês de Santillana na sua célebre Carta ao Condestável de Portugal: «E depois acharam esta Arte – escreve ele –, que maior se chama, e Arte comum, creio, nos reinos da Galiza e Portugal, onde não há que duvidar, que o exercício desta ciência mais que em nenhumas outras regiões e províncias de Espanha se acostumou, em tanto grau, que não há muito tempo quaisquer dizidores ou Trovadores destas partes, ou fossem castelhanos, andaluzes, ou da Extremadura, todas as suas obras compunham em língua galega ou portuguesa.» À luz da crítica também Bouterweck assim o entendia, ao afirmar que «Portugal pode ser considerado como a verdadeira pátria da poesia pastoril».
É um título inquestionável de autonomia esta capacidade idealista do Lusitano. Que encontramos nós em Castela que se lhe assemelhe? O Romanceiro é já uma degenerescência do estado anterior da Epopeia. E os arrebatamentos místicos de Santa Teresa e de São João da Cruz são ainda a mesma alma exaltada, passando da cavalaria ardente do Profano à cavalaria mais ardente do Divino.

Como o lirismo nos distingue imorredoiramente, assim nos distingue o fundamento autóctone que ele denuncia no nosso arreigamento bucólico à terra. Bem pelo contrário, o intenso génio épico de Castela indicia-nos mais um termo da irredutibilidade dos dois povos vizinhos, mas nunca irmãos. No ciclo do Cid o espírito castelhano clama a sede de carnificina, o exaspero do mando, o grito assoberbante do senhor feudal. Nós, por nossa banda, vivendo em solo nosso, não conhecíamos a sensação violenta da Conquista. Há, é certo, a xácara galega do Monte Medúlio, há a lenda do abade João de Monte-Mor, há o eco da canção trovadoresca, referente à tomada de Santarém: «Ay sentirigo! Ay sentirigo! / Al Alfanx e al seserigo!»

Porém, uma das poucas vezes que fomos em arrancada pela Espanha fora a debandar o poder da Moirama, logo apareceu connosco a necessidade do desabafo épico. Refiro-me ao poema perdido de Afonso Giraldes. É que só então vivêramos as extraordinárias circunstâncias em que a Idade-Média concebeu a Epopeia. Porque o rimance do Monte Medúlio, a lenda do abade João e o estribilho comemorativo da tomada de Santarém não passam de uma superexcitação do nosso temperamento lírico diante da terra invadida. Assim se compreende porque as gestas carolíngias em nada nos influenciam. Já nos perturba e encanta a Matéria-bretã, de que o nosso romanceiro anda cheiinho, e que apenas impressiona a Espanha, quando o período do Cid se extingue e à sociedade feudal se substitui uma sociedade mais pacífica e construtiva. O que é em Portugal uma tendência inata da poesia popular representa para a Espanha a queda de todo o impulso heróico que entregou ao planalto castelhano a preponderância da maior parte da Península. Os motivos da aclimatação imediata da Matéria-bretã entre nós, comparados com os da sua influência tardia e mesmo indirecta na literatura espanhola, estão implicitamente dados na natureza emotiva daquela e no arremesso bélico que inspira a poesia tão característica do ciclo carolíngio. «A fantasia tão viva, tão livre, tão encantadora, que anima as histórias do ciclo bretão contrasta com a gravidade inteiramente marcial, estritamente histórica das melhores gestas» – observa Golther. É em torno de Artur que a Matéria-bretã gravita, possuída do ardor cavalheiresco e do culto cristianíssimo da lealdade. Artur, dormindo em Avalon, havia de tornar para expulsar o estrangeiro e ressurgir a antiga grandeza morta. Trata-se de uma resistência sentimental à ocupação pesada do homem loiro, encarnado no seu tipo completo de saxão. A exaltação melancólica que entre nós se exprime individualmente na Saudade, exprime-se para a consciência comum no mito irredentista do Encoberto – é o prestígio religioso da Esperança, conferindo um destino imortal às raças caídas em cativeiro. A Esperança agita a clarividência profética dos bardos bretões. Artur é irmão de Sebastião e ambos descendentes do mito atlântico de Saturno.

Com os olhos postos na Matéria de Bretanha, Gaston Paris pondera: «Podem descobrir-se ali vestígios de uma antiga mitologia, geralmente mal entendida, quase impossível de se reconhecer...» É no carácter humano e contemplativo dessa mitologia que assenta a diferença a estabelecer entre a epopeia castelhana e o romanceiro português. O romanceiro português filia-se no fundo poético de que brotou a Matéria-bretã. Silvaninha, Claralinda, Conde da Alemanha não são figuras importadas – são figuras mitológicas do Ocidente. Não admira por isso que a degenerescência da epopeia castelhana em rimance em nada contribuísse para a criação de uma outra forma literária do nosso génio: a novela de cavalaria. O Amadis de Gaula é hoje pelos estudos do meu chorado amigo António Tomás Pires (um nome que Vossas Excelências devem saber de cor!), o Amadis de Gaula é hoje pelas laboriosas investigações do primeiro folclorista português – não o esqueçamos, minhas Senhoras e meus Senhores! –, uma glória absolutamente nossa. Pela novela de cavalaria o Lusitano mostra-se inclinado mais às seduções do ideal bretão que ao reflexo rubro das proezas dos Doze-Pares de França. É na escola de Galaaz que Nun’Álvares segue o aprendizado do heroísmo. Ruy Díaz de Vivar não o conforma, nem de leve lhe fala à alma. Há que acentuar nos dois modelos de bravura lendária o divórcio que sempre separou o aristocratismo de casta do guerreiro germânico da solidariedade devotada dos cavaleiros da Távola-Redonda. A escolha de Nun’Álvares no exemplo a imitar não cava ainda fundamentalmente as aspirações irreconciliáveis dos dois povos? E – coisa singular, que é obrigação não deixar no olvido! –, dada a nossa recusa ingénita para as expressões supremas da Epopeia, somos nós exactamente na hora fatal de Quinhentos a única nacionalidade que se imortaliza no poema da acção máxima, como a Renascença a sonhava através da utopia do Uomo-universale. Enclausurada no particularismo ferrenho do mundo gótico, Castela, que tanto sentira a Epopeia, não podia agora concebê-la, porque ela excedeu já o aro limitado de uma gesta mediévica, para se verter na linguagem ritmada de um grande sentimento cosmopolita. Precisamente, a sociabilidade nativa do Luso levava-o ao encontro desse sentimento pela página inexcedível das Descobertas, em que a vida de um povo minúsculo se ampliava e fundia na aspiração mais vasta de uma nova época da história.
Estão mais que delimitadas as diversidades irredutíveis do Ibero e do Lusitano. No duelo eterno dos dois elementos antagónicos reside a principal condição da nossa existência secularmente autónoma. Povo comunitário, não é demais repetir que sempre permanecemos inassimiláveis. Não nos dominou por isso o Celta, engrossado pelo gosto fusionista do Ibero. É o habitante do planalto que para cá se transfere no acompanhamento do conde D. Henrique. À viva força o barão leonês quer-nos impor a quadratura feudal. A sociedade indígena não a suporta, já está aqui organizada por meio das mancomunidades agrárias. A luta que entrecorta a dinastia afonsina, travada entre os ricos-homens arrogantes nos seus privilégios jurisdicionais e os homens-bons dos concelhos, é o divórcio étnico do Ibero com o Lusitano a manifestar-se irreparavelmente. Venceu o Lusitano personificado no homem-meão. E quando a morte de D. Fernando abre a questão sucessorial, é ainda o barão leonês que se levanta com o estandarte de Dona Beatriz.

Sacode-o o homem-meão para além das fronteiras, opondo-lhe o Mestre como rei. Vossas Excelências, minhas Senhoras e meus Senhores, recordam-se como ganhámos a batalha dos Atoleiros? Dum lado, luzidíssima, a cavalaria de Castela atira-se com garbo, escumejando. Do outro lado, espera-a a sebe erriçada da nossa peonagem, unida pelo esforço três vezes santo do Condestabre. E os peões ganharam a sorte da batalha. Cavalos e cavaleiros rolaram esmagados contra essa obscura muralha humana, com as puas adiantadas em defesa, como uma parede crivada de picos. É um símbolo, como Vossas Excelências advinham, a acção dramática dos Atoleiros. Postos em frente, de uma banda, o habitante do planalto central com todos os seus dotes de comando e de arremesso; da outra banda, o morador da vertente atlântica, pacífico, mas resistente e indebelável. Coube a vitória ao segundo, porque estava em sua casa e o distinguia, mais que àquele, o amor entranhado ao torrão. Não nos esqueçamos que, antes de a peleja romper, Nun’Álvares apeou-se da mulinha e beijou a terra comovidamente. E se nós quisermos verificar nos próprios domínios do campo místico o separatismo que não consentiu nunca, nem consentirá jamais que Portugal seja de Castela, ainda aí o contraste é soberano. Se São Domingos de Gusmão, salvando a disciplina da Igreja da anarquia obscurantista e anti-social dos heresiarcas, é o espírito militante de Castela, São João de Deus, fundando hospitais e recolhendo pobrezinhos, é o espírito comunitário do Lusitano.

Expostas as circunstâncias de meio e de raça que nos dividem para sempre, lancemos mão de um exemplo bem palpitante para a última demonstração. Nós também temos a nossa Alsácia cativa, minhas Senhoras e meus Senhores! Na outra margem do Guadiana, Olivença, há mais de cem anos no poder da Espanha contra a fé dos tratados, não deixou obliterar os vínculos do sangue e da língua que a prendem à mãe-comum. Entrada para a coroa portuguesa no reinado de D. Dinis, foi tal a penetração do nosso génio que, tomada em Seiscentos pelo duque de São Germano, Olivença deu-nos uma formidável lição de lealismo e sacrifício. Eu lha conto, minhas Senhoras e meus Senhores. Caída debaixo do jugo inimigo, não se opôs o general ocupador à saída dos vizinhos, certo de si para si que nunca a praça se despovoaria. Mas o êxodo alcançou proporções tão grandes que, para evitar um abandono total, o duque de São Germano mandou prometer por pregão aos que ficassem os bens e a mais fazenda dos que iam abalando. Imediatamente, à uma, num só movimento, toda a gente de Olivença a abandonou sem hesitar.

Recuperada logo depois, viemos perdê-la definitivamente em 1801 – na vergonhosa guerra dos Quinze-dias. Pelas decisões do Congresso de Viena pertencia-nos a sua restituição. Mas os nossos homens-públicos, preocupados com os Imortais-Princípios e com uma constituição «mais liberal que a de Cádis», não curavam de coisas mínimas. E Olivença lá ficou. Lá ficou fiel, lá ficou leal, falando ainda agora o português. Bebe-se com o leite materno, herda-se nas transmissões do sangue a dedicação assombrosa de Olivença. Quando o curso de Direito valia indiferentemente para os dois países, era à universidade de Coimbra que os filhos de Olivença, já espanhola, se vinham formar. Existe um velho advogado desses tempos. E o português não morre em Olivença – continua-se lá a falar, como se fosse a língua pátria. Ponha a Espanha a sua meditação neste singelíssimo exemplo. Se em mais de um século, com todos os agentes desnacionalizadores de que um Estado ocupante dispõe – como é a escola primária, como é a burocracia, como é o serviço militar, como é a compressão administrativa – a Espanha não conseguiu até ao presente estrangular a vitalidade portuguesa de uma simples cidadezinha da província, como é que ela absorveria uma nação inteira, anarquizada embora, mas com a consciência dos seus destinos intacta, posto que adormecida?

 
IV

Vou terminar, meus Senhores. O assunto é largo, daria para um curso. O difícil foi pô-lo dentro dos justos limites de uma conferência. Tão pobres, tão desvalidas que as minhas palavras sejam, elas terão ido direitas ao coração de Vossas Excelências. A todos pertence um quinhão nas responsabilidades deste duro momento. Fugir a elas é o mesmo que deitar um baraço ao pescoço, que morrer de morte de ignomínia! Em minha casa dorme no berço um filhinho de dez meses. É essa criança, meus Senhores, quem mais que ninguém me ordena que cumpra o meu dever presente. Na deserção de brios e iniciativas que vai à nossa volta, a posterioridade, da qual o meu filhinho é para mim o símbolo palpitante, nos chamará um dia a contas rigorosas. Se pelos nossos desatinos a Pátria houver de ir remoçar-se no purgatório de uma invasão, eu não quero que o meu filho, quando o conhecimento lhe chegar, a si mesmo pergunte: «Mas nesse instante, aonde é que estava meu Pai?» Quando outra recompensa não recolhesse da minha atitude inquebrantável de combatente pela verdadeira tradição portuguesa, bastaria a noite de hoje com a presença inolvidável de Vossas Excelências para que de futuro os factos dissessem ao meu filho onde se encontrava o seu Pai.

Encontrava-se aqui, confirmando, quase três séculos volvidos, o esquecido voto das cortes-gerais de 1668. Eu o repetirei ainda – ao velho título da nossa independência, tão nobremente provada no conflito a que os Três-Estados do Reino assim traziam a sentença final. «Por serem de séculos imemoriais tão opostos os ânimos, e tão diversos os intuitos de uma e outra nação, era impossível unirem-se em tempo algum sem total ruína da Nação portuguesa.» Guardemos o grito dos procuradores dos concelhos! Seja ele a máxima que ande vincada na nossa memória! Como moço que sou, consintam-me Vossas Excelências que eu me dirija aos moços principalmente. É à juventude que cabe o encargo religioso de descer a Pátria da cruz e de acordar para a alva única da ressurreição. Em toda a parte é a mocidade quem agita hoje o grande facho de resgate. Elevai as almas, gente nova de Portugal! Nós não vimos ainda os cavaleiros inimigos galopando através dos choupos da courela natal – como no prefácio célebre de Paul Bourget. Mas, como o jeune homme a quem ele é endereçado, temos sobre os nossos ombros todo o peso dos tempos vindouros.
A Pátria será, moços do meu País, o que for amanhã a soma das nossas energias. Olhai para a França retalhada. São os rapazes do inquérito de Agathon, são les jeunes gens d’aujourd’hui que se batem pela riba patrum ameaçada de hasta pública. A terra e os mortos os alevantam às cumeadas supremas do Heroísmo. Só de tradição lhes veio o dom que imprimiu finalidade e sentido unânime às suas existências vibrantes.

Façam os rapazes lusitanos o mesmo emprego generoso do seu entusiasmo. Um belo instinto conservador os põe em repulsa perante o leilão tremendo em que a Pátria se vende como uma escrava sem nome. Consagradas aos moços franceses, são bem para nós as palavras de Gustave Le Bon no livro La vie des vérités. «A evolução da juventude» – escreve o ilustre sociólogo – «é notabilíssima. Tendo visto a Pátria atravessar horas sombrias e as ruínas materiais e morais acumularem-se de dia para dia, compreendendo enfim para que absurdo nos conduziam os negadores e destruidores, a mocidade afasta-se deles e solicita outros mestres. Aos metafísicos estéreis ela opõe as realidades, a vida, a necessidade de acção. Saída dos livros, a mocidade contempla o mundo. A observação dos povos que se extinguem lhes mostra que decadências irreparáveis se não provocam pela diminuição dos caracteres e pelas quiméricas tentativas de agitação social. Tendo verificado nas nações que dominam o mundo qual seja o papel da disciplina, da energia e da vontade, as gerações novas compreendem já que não pode haver civilização que dure sem resistência mental e por conseguinte sem a prática de certas regras universalmente respeitadas. As forças morais lhes aparecem então como os únicos recursos sólidos da vida.» Assim se exprime um alto preceptor da inteligência contemporânea. Oiçamo-lo nós, moços lusíadas, a quem a lição dos acontecimentos já desviou dos perigos românticos da liberdade de maiúscula faustosa!
O exercício das forças morais só a tradição no-lo confere. Escute-se apenas o verbo que edifica. Confessemos um acto de fé no porvir. O homem só é grande quando submete o seu capricho de um momento ao interesse superior da colectividade. Se o velho das histórias não plantasse nogueiras para os netos colherem os frutos, os netos não lhe lembrariam a memória – a sua passagem terrena, ditada exclusivamente pelo seu egoísmo, seria inútil, seria vã. Elevai as almas! Elevai as almas! O Portugal Maior espera por nós, para romper as pedras do sepulcro e sentir a glória do Terceiro-Dia. Cavaleiros da Grei, ajuramentai-vos debaixo da invocação de Nun’Álvares! Nun’Álvares pertence-nos – é o nosso epónimo tutelar. Ele tem uma espada para nos defender na terra e um rosário para nos guardar do Céu. Erga-se-lhe uma estátua, faça-se-lhe uma festa!

A festa a Nun’Álvares deve ser a nossa velada de armas. Eu conto convosco, moços portugueses. Não deixareis ficar por falso o vosso irmão mais velho! E a Pátria há-de saber o que são tempos melhores! Dorme-se hoje o sono secular do Encoberto. Mas como os grãos de trigo desenterrados em Pompeia floresceram em seara farta, a alma sempre forte do Luso renascerá. Se, porém, o Deus de Afonso em Ourique se não recordar mais das suas promessas e o fim dos fins se aproxima, nem mesmo assim desanimemos. Portugal é na eternidade Portugal.

O esquecimento não pode nada contra a «pequena casa lusitana». Desfeitos na poalha álgida da sepultura, nós proclamaremos ainda a revivescência admirável da Grei no sacrifício em que os nossos anos ardentemente se consumirem. É Castela quem o afirma, é Calderón de la Barca quem o afiança. Tão fundo o insigne dramaturgo lera na nossa fereza de povo livre que no Príncipe Constante obrigou o castelhano vernáculo de seiscentos a ceder diante de um verso seu moldado em pura língua de Camões.

Esse verso, meus senhores, somos todos nós – é toda a Pátria amada que estremecemos. Ele, o verso de maravilha, reconhece as razões invencíveis que sustentam Portugal de pé, por muito que os vendavais se desencadeiem sobre as nossas cabeças, como outrora em cima das casquinhas de noz em que dávamos a volta à Esfera. Ele, o verso formidável, reconhece o direito sagrado de Portugal a ser senhor dos seus caminhos e manter-se com honra na assembleia das nações. Saiba-se de cor o verso vingador – o verso como o qual outro não há, bradando tão alto a nossa vitalidade de assombro! A Pátria não morrerá, meus Senhores! E não morrerá, porque nós somos tais – lá diz Calderón de la Barca. «Que ainda mortos, somos portugueses.»
Tenho dito.
 

 
Nota:

A complexidade da tese que me foi distribuída na série de conferências realizadas pelo Integralismo Lusitano na Liga Naval Portuguesa, obrigou-me a produzir apenas afirmações de carácter geral para não abusar da condescendência do auditório que me escutaria. Sendo eu o primeiro dos conferentes, não podia deixar de aludir ao Iberismo como doutrina política. Esse facto engrossou o assunto que me pertencia desenvolver, já de si de bastante peso pela reunião dos dois temas – Território e Raça – na mesma conferência. Pensou-se primeiro em separar a parte geográfica da parte étnica. Não houve, porém, quem se encarregasse daquela, porque das competências convidadas não se obteve senão a resposta de que não existiam na natureza da Península motivos palpáveis que justificassem fisicamente a nossa independência...

Às costas com uma responsabilidade medonha, reduzi-me o mais que pude, limitando-me durante a exposição a simples afirmações gerais, como dizia. Todavia, hoje que as conferências proferidas e as não proferidas saem a público em volume para documentar, quando mais não seja, o esforço de uma geração que se não vendeu; eu, sem alterar uma linha na estrutura da minha palestra, entendi fundamentar e alargar algumas das razões apresentadas, por irem infelizmente contra as detestáveis ideias-feitas por que se rege a mentalidade dominante no nosso pobre País. Devia esta explicação a quem me ouviu e agora me leu. Formulada ela, resta-me apontar as principais fontes bibliográficas de que me socorri:

– Reseña geográfica y estadística de España. Publicação oficial.
– Notas sobre Portugal, vol. 1.
– José Augusto Coelho, Evolução das sociedades ibéricas.
– Abel Hovelacque e Georges Hervé, Précis d’anthropologie.
– Vacher de Lapouge, Race et milieu social.
– Portugália. Materiais para o estudo do povo português.
– Martins Sarmento, Os argonautas.
– D. Julián Ribera y Tarragó, Discursos leídos ante la Academia Española.
– S. Deniker, Les races et les peuples de la terre.
– Teófilo Braga, História da Literatura Portuguesa. I. Idade Média.
– Costa Goodolfim, As Misericórdias.
– Elisée Reclus, Nouvelle Géographie Universelle, vol. 1.
– D. Juan del Nido y Segalerva, La Unión Ibérica.
– Fernando de los Ríos, Mi misión en Portugal.
– António Sardinha, O valor da Raça.
– H. Morse Stephens, História de Portugal, tradução de Silva Bastos.
– Manuel Severim de Faria, Notícias de Portugal.
– D. Federico Olóriz, Distribución geográfica del índice cefálico en España.
– Sant’Ana Marques, Materiais de antropologia nacional.
– Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa.

 


[1] «Uma Cidade branca em campo azul sobre um mar de ondas verdes e douradas», em memória de Porto de Cale. Assim descreve António de Vilas Boas e Sampaio na Nobiliarquia Portuguesa as primeiras armas do Reino, que os iberistas perfilharam.

[2] Edição do meu amigo e ilustre bibliófilo elvense, sr. António Torres de Carvalho.

[3] La vida del grande San Francisco de Borja, Madrid, 1717, lib. Il, Cap. V, § 2, p. 55.
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... saltando por cima de um século inteiro de falsificações e embustes, eu aponto o internacionalismo maçónico como a causa mortal da nossa ruína. - António Sardinha
O IBERISMO
Manda em nós o estrangeiro do interior. É o estrangeiro do interior quem calúnia o nosso Passado e cobre de descrédito as suas gloriosas instituições, para que as raízes de Portugal se enfraqueçam e nós não sejamos dentro de breve senão um terreno raso para as experiências do internacionalismo maçónico.​
(...)

Falseando o princípio católico de que toda a autoridade legítima vem de Deus, gera-se num sentido vicioso de investidura pessoal o absurdo direito divino dos dinastas, a quem os doutores reformados concedem até a prerrogativa da ordenação sacerdotal. (...) Os preceitos germânicos da posse tinham-se sobreposto aos ditames claros de S. Tomás. Os Reis reinam já por si, - pelo seu capricho absoluto, e não pelo direito da sociedade em se conservar.
(...)

[António Sardinha rejeita a doutrina protestante do direito divino dos reis e as suas consequências na ordem internacional]

Foi Port-Royal, foi a Enciclopédia, - é Jean-Jacques, é o Liberalismo. Pelo amor cerebral das ficções inventa a transcendência opressiva da Lei. A lei passa a determinar a sociedade, em vez de unicamente a exprimir. Surge daqui a paranóia parlamentar, tendo surgido antes, numa série de terminações em "ismo", dentro da religião, o Jansenismo, em política religiosa, o Regalismo, e no campo do direito publico, o Absolutismo. No fundo sempre o Indivíduo, sempre a opinião caprichosa, sempre o "livre-exame!" (...) Pombal (...) expulsa os jesuítas como terríveis republicanos, por eles defenderem as razões políticas de S. Tomás. (...) Na separação dos dois poderes - do poder temporal e do poder espiritual - é que descansa a mais sólida garantia da liberdade.
(...)

Não se ignoram as consequências dessa desastrada "regeneração" [com antecedente no Pombalismo,  refere-se aqui à "regeneração" pretendida pelos "Liberais", depois de 1834]. Aplicado sem mais ensaios à nacionalidade portuguesa, o critério rectilíneo da Lei deu a a extirpação dos nossos velhos quadros institucionais. O instinto foraleiro da pátria foi negado pela montagem estrangulante do Estado burocrático. Demitiu-se o municipalismo próprio da Grey. Votaram-se ao extermínio as corporações de artes e ofícios com a sua expressiva Casa dos Vinte-e-Quatro por órgão e porta-voz. A base pluralista da representação repeliu-se por arcaica. As Cortes-Gearis tiveram-se como uma coisa gótica, como uma velharia caduca. O Indivíduo passou a ser, ao longo do agrupamento social, a célula originária de toda a actividade. O "livre-exame" fazia bom caminho entre nós. Faculta-lhe os progressos a hipertrofia romântica da sensibilidade. Servia-o na sombra o internacionalismo maçónico.
(...)

[1851] O nosso suicídio revestia-se de linhas resignadas com o Iberismo, que, falida a experiência cartista, se apossou de certos eventos com predomínio nos círculos reputados por cultos. Portugal olvidara a integridade do seu "meio-vital".

[após resumir a sucessão de projectos iberistas:]
A fórmula de amanhã em política exterior há-de ser, sem dúvida, não união-ibérica, mas aliança-peninsular. Nós não teremos desse modo a vergonha de Olivença! Não terá a Espanha a ignomínia de Gibraltar!

​- António Sardinha, O Território e a Raça.
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Manda em nós o estrangeiro do interior. É o estrangeiro do interior quem calúnia o nosso Passado e cobre de descrédito as suas gloriosas instituições, para que as raízes de Portugal se enfraqueçam e nós não sejamos dentro de breve senão um terreno raso para as experiências do internacionalismo maçónico.
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sem crer não se pode querer
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Da Reforma nos veio a Razão-Pura. Da Reforma nos veio a Revolução-Francesa. (...) Reaccionário, - exactamente! Porque ser reaccionário é estar com a herança filosófica de Taine, é aceitar os melhores ditames de Comte, de Le Play e Renan, é receber de Fustel de Coulanges a lição imparcial da História que é História.
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Falseando o princípio católico de que toda a autoridade legítima vem de Deus, gera-se num sentido vicioso de investidura pessoal o absurdo direito divino dos dinastas, a quem os doutores reformados concedem até a prerrogativa da ordenação sacerdotal. (...) Os preceitos germânicos da posse tinham-se sobreposto aos ditames claros de S. Tomás [de Aquino]. Os Reis reinam já por si, - pelo seu capricho absoluto, e não pelo direito da sociedade em se conservar.
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Foi Port-Royal, foi a Enciclopédia, - é Jean-Jacques, é o Liberalismo. Pelo amor cerebral das ficções inventa a transcendência opressiva da Lei. A lei passa a determinar a sociedade, em vez de unicamente a exprimir. Surge daqui a paranóia parlamentar, tendo surgido antes, numa série de terminações em "ismo", dentro da religião, o Jansenismo, em política religiosa, o Regalismo, e no campo do direito publico, o Absolutismo. No fundo sempre o Indivíduo, sempre a opinião caprichosa, sempre o "livre-exame!" (...) Pombal (...) expulsa os jesuítas como terríveis republicanos, por eles defenderem as razões políticas de S. Tomás. (...) Na separação dos dois poderes - do poder temporal e do poder espiritual - é que descansa a mais sólida garantia da liberdade.
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Não se ignoram as consequências dessa desastrada "regeneração". Aplicado sem mais ensaios à nacionalidade portuguesa, o critério rectilíneo da Lei deu a a extirpação dos nossos velhos quadros institucionais. O instinto foraleiro da pátria foi negado pela montagem estrangulante do Estado burocrático. Demitiu-se o municipalismo próprio da Grey. Votaram-se ao extermínio as corporações de artes e ofícios com a sua expressiva Casa dos Vinte-e-Quatro por órgão e porta-voz. A base pluralista da representação repeliu-se por arcaica. As Cortes-Gearis tiveram-se como uma coisa gótica, como uma velharia caduca. o Indivíduo passou a ser, ao longo do agrupamento social, a célula originária de toda a actividade. O "livre-exame" fazia bom caminho entre nós. Faculta-lhe os progressos a hipertrofia romântica da sensibilidade. Servia-o na sombra o internacionalismo maçónico.
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Nunca um Rei de Portugal fora aclamado sem jurar primeiro guardar e defender as liberdades e os foros do seu povo.
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O nosso suicídio revestia-se de linhas resignadas com o Iberismo, que, falida a experiência cartista, se apossou de certos eventos com predomínio nos círculos reputados por cultos. Portugal olvidara a integridade do seu "meio-vital".
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A formula de amanhã em política exterior há-de ser, sem dúvida, não união-ibérica, mas aliança-peninsular. Nós não teremos desse modo a vergonha de Olivença! Não terá a Espanha a ignomínia de Gibraltar!
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... saltando por cima de um século inteiro de falsificações e embustes, eu aponto o internacionalismo maçónico como a causa mortal da nossa ruína. (p. 28)
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II - O TERRITÓRIO
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1915 - O Território e a Raça - Conferencia realizada na sala nobre da Liga Naval Portuguesa, em 7 de Abril de 1915, in A questão ibérica, Lisboa, 1916, pp. 10-76.
Relacionado
  • 1893 - Eduardo Prado, A ilusão americana -  [Esse livro teve singular destino: no Brasil foi proibido uma hora depois de posto à venda, isto é, proibido antes de lido; em Portugal, depois de composto na Imprensa Nacional, não pôde ser editado por ela.] 
  • 1915 - O Território e a Raça, Conferência realizada na Liga Naval Portuguesa, em 7 de Abril de 1915.
  • 1922 - O Pan-hispanismo, Contemporânea, nº 2, Junho de 1922, pp. 49-51.
  • ​1922 - La Unidad Hispánica, in Unión Ibero-Americana, Julio y Agosto de 1922, pp. 67-73.
  • ​1924 - Madre-Hispânia
  • 1924 - A Aliança Peninsular,
  • 1930 - A Aliança Peninsular - Antecedentes & Possibilidades, 2ª edição, Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde la Mortera, Porto, Livraria Civilização.
  • 1930 - La Alianza Peninsular, Prólogo de Ramiro de Maeztu, tradução de marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Río, Madrid, 1930; 
  • 1939 -  La Alianza Peninsular, 2ª edição em espanhol, tradução e prólogo de marquês de Quintanar, prólogo da 1ª edição espanhola de Ramiro de Maeztu, e "Unidad y Dualismo Peninsular", estudio de José Pequito Rebelo, Segovia, El Adelantado, 1939.
  • 1943 - À Lareira de Castela - Estudos Peninsulares, Lisboa.
  • 1972 - Aliança Peninsular, 3ª edição, Lisboa, Biblioteca do Pensamento Político, com nota prévia de Mário Saraiva (4ª edição, Lisboa, 1974).
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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