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Palavras sobre a Arte do Povo

Adriano Xavier Cordeiro

RESUMO
Este discurso de A. Xavier Cordeiro, proferido na Exposição de Arte Regional, em 1917, destaca a importância da arte popular como expressão genuína da alma portuguesa e sua influência na arte culta. Defende a necessidade de valorizar as tradições e o sentimento nacional para criar uma arte verdadeiramente portuguesa com beleza estética e moral.
  • Arte popular como semente da arte culta: A arte popular, criada pela emoção espontânea do povo, é a base da arte culta que deve florescer a partir dela, não por imitação, mas por inspiração na sua beleza intrínseca.   
  • Expressão da alma nacional: As manifestações artísticas do povo, como o trabalho do oleiro, o canto do pastor e o trabalho da rendeira, refletem a alma lírica, melancólica e piedosa dos portugueses.   
  • Missão moral da arte: A arte deve unir o belo e o bom, promovendo uma beleza moral que afaste desvios e vícios, pois a verdadeira arte está na harmonia e na expressão espiritual.   
  • Nacionalização da arte: Criar uma arte nacional é fomentar o amor à pátria, visto como a mais elevada virtude, e assim fortalecer a identidade cultural portuguesa.  
  • Respeito pela arte estrangeira: Xavier Cordeiro valoriza a arte de outros países quando esta expressa sua própria alma nacional, defendendo a coexistência de admiração internacional com a valorização da arte portuguesa.   
  • Inspiração para artistas: Cordeiro apela para que artistas portugueses busquem inspiração nas formas, cores e ritmos da arte popular para criar obras que expressem a verdadeira identidade nacional.  
  • Importância da tradição e terra: Amar a tradição e a terra é fundamental para compreender a alma do povo e, assim, construir uma arte que seja genuinamente portuguesa. 
  • Valorização do povo e suas tradições: Ao reconhecer e respeitar a inspiração popular, evita-se a descaracterização cultural e o afastamento das raízes, promovendo o orgulho e o interesse espiritual do povo nas suas próprias expressões artísticas.

PALAVRAS SOBRE A ARTE DO POVO
 
Pronunciadas na Exposição de Arte Regional
 realizada no Palácio Franco dos Santos em 17 de Março de 1917,
por Xavier Cordeiro.
 
 
(Lisboa, Tipografia do Anuário Comercial, 1917.)



 [ ​1917_-_a_xavier_cordeiro_-_palavras_sobre_a_arte_do_povo.pdf ] 

Assim que a Terra em que os homens por longo costume e tempo foram criados gera uma tal conformidade entre o seu entendimento e ela…
- Fernão Lopes, Crónica de el-rei Dom João I.
 
Porém, que assim à carga cerrada e a olhos fechados, logo seja o alheio uso recebido, só porque é alheio, e logo o próprio despedido, só porque é próprio, digo-vos que é um vício digno de grão vitupério em quem o afecta.
- Dom Francisco Manuel de Mello, Apólogo dialogais.

 
Minhas Senhoras e meus Senhores:
 
Tenho por norma de procedimento não recusar nunca o meu concurso, por modesto que seja, a uma obra que eu julgue proveitosa.

Foi por isso que, quando as Ilustres Senhoras que, com tão gracioso gesto, organizaram esta linda exposição me pediram pra vir colaborar neste auto de Beleza, imediatamente acedi, sem mesmo insistir na fácil e verdadeira desculpa da minha incompetência.

Não sou um artista nem um esteta: possui apenas, mercê de Deus, um pouco de emoção para vibrar diante das coisas belas. E quando essas coisas belas me falam da linda e boa Terra de Portugal, quando surgem espontâneas da alma lírica do nosso povo sobre todos lírico, a minha emoção funde-se no sentimento que delas dimana, como se fosse uma perdida nota no larguíssimo acorde de inspiração que palpita e se desprende do respiro profundo da Terra.

O oleiro que molda a sua ânfora, pondo-lhe nas asas a singela graça alada em que exprime a sua aspiração inconsciente de artista; o zagal que, enquanto apascenta os rebanhos, vai com a ponta da sua faca abrindo sulcos de graça na cana das rocas, no corpo esguio dos fusos, ou na curva macia da colher com que a pobreza come o seu caldo abençoado; a rendeira que concebe o milagre da sua renda ténue como a espuma do mar, ou como as nuvens do céu; o tecelão que espiritualiza e anima com o ritmo da cor a manta que defende do frio dos invernos com o seu claro matiz de primavera: todos esses obscuros obreiros, enfim, têm dentro de si a cantar, a chorar, ou a rezar a alma cantante, melancólica e piedosa de Portugal.

Uma ave que canta sobre uma ramada verde, um coração que uma seta faz sangrar, uma cruz que, entre flores, nos abre os braços, na única promessa em que se pode esperar e crer – eis os motivos ornamentais preferidos pela arte espontânea do nosso povo, cuja alma é feita de uma canção, de uma écloga e de uma prece.

Diante de cada uma dessas manifestações da pura emotividade popular, devemos sentir erguer-se, numa palpitação mais larga de vida e de amor, o nosso coração de portugueses.

Nesses rudes mas tão sinceros intérpretes da Alma Nacional está a voz eterna e profunda da Raça a chamar-nos para as origens mais puras da nossa sensibilidade. É preciso obedecer-lhe, se quisermos ser portugueses.


*


Eu tive, quando era menino e moço, uma parenta velha, muito velha, que tinha o lindo nome de Violante e vestia sempre de roxo. Com uma saudade tanto mais viva quanto mais recuados vão sendo esses tempos de calma doçura, recordo as longuíssimas tardes de Verão passadas no espaçoso eirado da casa, tendo em baixo a frescura da horta e do pomar, onde a água cantava, pianissimo, a canção criadora das regas, e ao longe o recorte sombrio da serra, onde pastores contemplativos interrompiam, pela hora extática das Avé-Marias, o canto elegíaco das flautas, para abrirem sobre o peito, recolhidamente, o sinal redentor da Cruz.

Dona Violante, na sua cadeira de braços, ia-me dizendo com uma voz tão antiga que parecia vir de outras eras, e tão velada como se fosse murmurada detrás da grade de um convento, lindas xácaras e romances que lhe ensinara, quando fora também menina e moça, uma outra aparenta tão velha como ela o era então.

Ia chegando a criadagem da labuta da lavoura, e esses homens simples ali ficavam esbatidos nas sombras da noite, que vinha a desenrolar-se da serra, embalados por aquela melopeia, a comover-se comigo com as tristezas de Dona Silvana, com os lances de leal cavalaria de Dom Claros de Além-Mar, ou com os trágicos amores do Conde Nilo e da Infanta, que nem na vida nem morte, se puderem separar…

Bem haja a boa Dona antiga que foi, sem o saber, a mestra suavíssima da minha sensibilidade!

Com ela aprendi a amar o Passado, que ela própria para mim personificava; aprendi a amar a Terra, que em volta de nós adormecia, naqueles poentes de balada, e cujos horizontes muitas vezes perscrutei inquieto, quando a sua voz em que um frémito ainda passava, me dizia os horrores dos pedreiros-livres que, em certo dia, tinham vindo de França, devastando na passagem as hortas e as searas e profanando os sepulcros e os altares. Com ela aprendi a compreender o povo, que vinha pedir-lhe a bênção de madrinha e contar à sua sempre atenta solicitude as alegrias das colheitas fartas, ou as amarguras da ruim moléstia que levara as melhores reses do redil…
*
Um português que ame a sua terra, que se não tenha ainda deixado corromper pela febre de exotismo que anda no ar, a pairar como uma nuvem funesta, não pode deixar de sentir uma bela comoção ao entrar nesta salas.

De aqui se divisam, num relance, as lindas províncias de Portugal: o Minho alegre com as suas cores ardentes, o misticismo rude das serranias da Beira, a religiosidade silente da planície alentejana – todos os recantos ásperos ou floridos desta Terra de Promissão, aqui mandaram um pouco da sua alma, numa romaria encantada.

Como fervoroso nacionalista que sou, verifico com desvanecido prazer que começa enfim em Portugal a compreender-se o alto significado da arte regional criada pela emoção ingénua do nosso povo.

A arte popular não basta, é certo, para que o país possua uma Arte sua. Mas certo é também que, sem que exista e se compreenda a arte popular, não pode país algum afirmar que tenha uma Arte nacional.

É necessário que arte popular coexista com a arte culta, ou de élite.

Entre as duas dá-se uma relação semelhante à que existe entre a semente e a flor que dela nasce.

A arte popular é a semente, é o princípio gerador de que a arte culta deve florir.

Não podemos nem devemos pedir a um ceramista que molde um vaso ou uma jarra decorativa igual à ânfora ou à infusa que sai das mãos rudes de um oleiro; não podemos nem devemos pedir a um arquiteto que copie servilmente a casa humilde e graciosa das aldeias de Portugal e a transporte para a cidade; não podemos nem devemos crer que um compositor componha, para a orquestra ou para o piano, a mesma melodia singela que o pastor toca na sua flauta, ou que os rapazes e mai-las raparigas cantam nas eiras, pelas escamisadas, ao luar de Agosto; não podemos pretender que o poeta faça quadras iguais às que improvisam os cantadores nas desgarradas, ou às que os cegos gemem, numa voz tão velada como os seus olhos, quando andam na peregrinação sem fim, a dizer as desgraças do povo, por casais e herdades: mas o que todos nós, portugueses, devemos exigir ao ceramista, ao arquitecto, ao músico, ao poeta, é que descubram nessas expressões espontâneas da alma popular o princípio misterioso de beleza que nelas reside, para dele fazerem desabrochar a flor requintada de Arte, que satisfaça o nosso espírito sequioso de alta e aristocrática beleza, e dê ao mesmo tempo ao nosso coração o belo prazer de palpitar num alvoroço de festa, revendo-se numa obra de arte, que seja bem portuguesa.

Tal é, em meu entender, a missão da arte popular. Ela será o ponto de partida do caminho iluminado que a arte de élite tem a percorrer, em demanda da Beleza.

Orientada assim, a Arte terá sempre uma alta missão moral e social a cumprir, qual é a de prender os povos à Terra em que nasceram, abrindo-lhes o coração e os olhos para o que de belo existe no torrão a que devem estar arreigados como uma árvore que não morre, porque tem as raízes nas sepulturas e a ramagem sempre a florir, no renovo constante de novas vidas que vão surgir como incessantes primaveras.

A arte tem, sem dúvida, uma missão que não é apenas de realização de beleza plástica, de cor, de som ou de ritmo: é também de beleza moral, sem o que pode transformar-se no lôbrego e tortuoso caminho, que conduz à negação, ao vício, ao crime ou à loucura.

O Belo pelo Belo apenas, no significado mórbido da expressão, coloca-nos à beira do despenhadeiro em que se quebram todas as disciplinas do espírito.

A Arte sem uma absoluta eu euritmia, sem a confluência de todos os ritmos da vida espiritual, não é Arte.

Se eu como homem abomino as aberrações morais, o crime, todos os desvios mórbidos do espírito, enfim – como é que os hei-de amar em estética e elevá-los à categoria de motivos inspiradores da obra de arte?

A criatura que por qualquer forma contraria a Natureza, cedendo às solicitações doentias do seu espírito, comete sempre actos que, sendo maus em Moral, são infalivelmente feios em Arte.
Quebrada a euritmia por uma das faces, a obra da Arte falhou, ficando pelo menos inútil e vazia do sentido.

O Belo e o Bom têm de andar estreitamente ligados na mente do artista: que da criação artística ressalte sempre uma ideia de Moral.

Ora a Arte que tem por fim uma obra de nacionalização é sempre harmonicamente bela, porque realiza um tipo ideal de Beleza e de Moralidade.

Nacionalizar é fomentar o amor da Pátria, e o amor da Pátria é o conjunto supremo de todas as virtudes, a expressão do espírito em que a maior soma de beleza se pode conter.

Não se suponha que esta doutrina cria um exclusivismo cioso e feroz, um chauvinismo absurdo, pelo qual só se compreenda e admire a arte do nosso País.

Não é assim: bem português me considero eu e, contudo, não recusei nunca a minha admiração às manifestações da arte estranha, desde que essa arte seja para o seu país de origem o que para nós deve ser a nossa.

Eu admiro mais a França através de Mistral ou de Barrès do que através das lindas páginas mortas de Anatole ou de Flaubert. Compreendo e sinto muito mais a Espanha que palpita e vive nas telas de Goya ou no teatro de Benavente, do que aquela que mal entrevejo em alguns dos livros vãos de Blasco Ibáñez.

Mas é exatamente porque as outras nações têm, ou se vão forçando por ter uma Arte, que nós, portugueses, a devemos ter também, para que não nos seja preciso atravessar as fronteiras, ou esperar que os estrangeiros a atravessem vindo até nós, para sentirmos o deslumbramento da obra de Arte.

A posse de uma Arte que nos pertença fará com que possamos apreciar a dos outros povos, comparando-a com a nossa sem humilhação nem tristeza.

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Minhas Senhoras e meus Senhores: - se me fosse lícito formular de aqui algum pedido a quem com tão cativante bondade me tem escutado, pedir-vos-ia que, se pensais em realizar alguma obra de arte, tenhais sempre presentes no coração e nos olhos os motivos de cor, de linha, de ritmo e de som que emergem da alma do povo, pois eles são a legítima e não contrafeita expressão da alma Nacional.

Contribuamos todos, na medida do nosso esforço, para que Portugal tenha uma Arte Portuguesa.

Para isso, é preciso que saibamos amar a Tradição e a Terra e compreender a alma popular. Cerquemo-nos, pois, destas lindas coisas simples, fazendo a nossa casa bem portuguesa, e o resto virá depois, naturalmente e sem esforço.

Assim cooperaremos eficazmente na tão necessária obra da nossa nacionalização, ao mesmo tempo que animaremos estas indústrias humildes de que tantos humildes obreiros vivem, espiritualizando-se e ganhando o pão de cada dia.

Mostraremos assim ao povo das nossas províncias que ele só é interessante e merece o nosso carinhoso interesse espiritual quando se deixa conduzir pelas direcções espontâneas da sua espontânea inspiração.

E este último benefício não será de todos o menor, porque quando o povo se convencer dessa verdade, não voltará a ser possível o estranho e horrendo espetáculo que ainda há bem pouco tempo tive a amargura de presenciar: em uma das mais lindas aldeias da Estremadura, camponesas escamisando milho numa eira, com blusas talhadas pelos figurinos da cidade e cantando ao luar pálido… de espanto, a portuguesa e as coplas pornográficas das cartolinhas….
 

(O produto da venda deste folheto reverte a favor de uma instituição particular de beneficência.)
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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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