António de Macedo Papança
1º conde de Monsaraz
(Reguengos de Monsaraz, 18 de Julho de 1852 - Lisboa, 17 de Julho de 1913)
1º conde de Monsaraz
(Reguengos de Monsaraz, 18 de Julho de 1852 - Lisboa, 17 de Julho de 1913)
António de Macedo Papança, 1.º conde de Monsaraz, foi um poeta nascido em 1852 no Alentejo, cuja obra marcou profundamente a literatura regionalista portuguesa do século XIX e início do XX. Reconhecido por sua poesia lírica e sonetos, destacou-se também como tradutor e figura social influente.
- Formação e geração literária: Estudou Direito em Coimbra, vindo a integrar uma geração notável de intelectuais e poetas, como Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Cesário Verde, Fialho d'Almeida.
- Primeiros sucessos literários: Seu livro de estreia, "Crepusculares" (1876), e o poema "Catharina d'Athayde" (1880), recitado na Universidade de Coimbra durante as comemorações do centenário de Camões, consagraram-no como um dos principais poetas portugueses da época.
- Amizade com Cesário Verde: Foi amigo íntimo do poeta Cesário Verde, a quem dedicou uma elegia após sua morte, mostrando um forte vínculo pessoal e literário entre ambos.
- Reconhecimento social e político: Agraciado com o título de visconde pelo rei D. Luiz, envolveu-se na política progressista, foi deputado e par-do-reino, mantendo prestígio em círculos literários e sociais.
- Obra regionalista: Publicou "Musa Alentejana" (1909), um marco da poesia regionalista portuguesa, exaltando o Alentejo com poemas como "As cegonhas" e sonetos que retratam a paisagem e costumes locais.
- Trabalho como tradutor e dramaturgo: Traduziu obras do francês, incluindo peças de teatro, e escreveu o primeiro hino para as escolas primárias portuguesas, mostrando versatilidade literária.
- Últimos anos e legado: Passou os seus últimos anos em Coimbra, orientando o filho Alberto e outros jovens estudantes que, em 1913-14, fundaram o Integralismo Lusitano. Deixou um livro póstumo, "Lira do Outono", que continua a tradição regionalista da sua obra.
- Falecimento e homenagem: Faleceu em 1913 após doença prolongada, tendo sua morte sido amplamente sentida e homenageada na sociedade portuguesa.
CONDE DE MONSARAZ
António de Macedo Papança, 1. ° conde de Monsaraz, nasceu em Reguengos de Monsaraz (Alentejo), a 18 de julho de 1852 e faleceu em Lisboa a 17 de julho de 1913.
Tendo feito os seus primeiros estudos em Lisboa, na Escola Académica, vai para Coimbra matricular-se na faculdade de Direito em que se formou em 1874, aos 22 anos.
Na linda cidade do Mondego, ele pertenceu a uma das mais notáveis gerações académicas que por ela tem passado, e encontrou-se na camaradagem e amizade de alguns dos mais altos espíritos da nossa terra, como sejam António Cândido, João Penha, Gonçalves Crespo, Teixeira de Queiroz, Guerra Junqueiro, Bettencourt Rodrigues e com os poetas brasileiros Filinto d'Almeida e Garcia Redondo.
Em Coimbra, o seu talento revelou-se de pronto e o estudante Macedo Papança era dos mais queridos e considerados poetas da sua geração.
O volume de estreia, Crepusculares (1876), impô-lo desde logo como uma esperança segura, e os seus versos começaram a correr o país de norte a sul, em festas elegantes de salões.
Mas o seu definitivo triunfo nas letras foi conquistado na velha Sala dos Capelos da Universidade, quando ali foi recitar o seu belo poema Catharina d' Athayde.
Era em 1880.
Tratava-se de celebrar o centenário de Luís de Camões.
Esse movimento de espírito e de sentimento nacional, que resultou numa apoteose grandiosa e sentida ao maior dos portugueses, encontrou aplauso e entusiasmo na Universidade de Coimbra, onde Camões passou os primeiros anos de estudante.
No grande sarau da Sala dos Capelos, fizeram-se ouvir os mais ilustres representantes das letras e das ciências da douta Coimbra.
A academia, como nunca, vibrava, agitava-se, tratava de organizar sob a direção de João Arroio, um orfeão, promovia-se a inauguração de um monumento a Camões, vindo a festa dos estudantes a realizar-se um ano depois da da Universidade.
Mas dos notabilíssimos saraus da Universidade e do Instituto de Coimbra, a nota dominante, imperecível, foi a recitação do poema de Macedo Papança -- Catharina d' Athayde.
Erguido nas doutorais da opulenta Sala, entre os lentes e a mais distinta e culta assistência de que há memoria, ele recitou o seu poema sobre os amores infelizes de Camões e de Natércia, levantando à sua volta um delírio de aclamações. Desde então, o seu nome ficou consagrado como um dos primeiros poetas portugueses.
A Catharina d'Athayde vulgarizou-o. Sabia-se de cor nos seus mais sentidos trechos, em todas as famílias cultas de Portugal, e ainda António de Macedo Papança não tinha trinta anos.
Depois, a carreira literária do Poeta prosseguiu brilhantemente.
A sua casa de Lisboa tornou-se o cenáculo de uma geração inteira: por ela passaram, fazendo leitura dos seus manuscritos, Pinheiro Chagas, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teixeira de Queiroz, Cesário Verde, Luiz Osório, Gonçalves Crespo, Magalhães Lima, António Cândido, Gervásio Lobato, Júlio Cesar Machado, Fialho d'Almeida, Visconde de Ouguela, Latino Coelho, D. João da Camara e outros muitos escritores e poetas ilustres, que foram seus amigos.
Entre todos, Macedo Papança estimava o infeliz poeta Cesário Verde, que morreu tuberculoso, sendo ainda muito novo.
É geralmente sabido que o pai de Cesário Verde, negociante de cutelaria, homem prático o laborioso, não tinha em muita conta o talento literário do poeta, fazendo-o trabalhar na loja, que começou a ser frequentada por uma geração inteira de escritores e artistas que ele detestava, porque lhe iam distrair o filho.
Havia, porém, uma excepção:
Macedo Papança confessava-se filho de um lavrador alentejano, ele mesmo lavrador, falando de cereais, de cortiça, de gados... O pai de Cesário Verde aceitava assim do melhor grado, a convivência dos dois grandes poetas, dos quais um lhe aparecia disfarçado em lavrador, em pessoa de respeito...
Nos últimos dias da sua vida, Cesário Verde pedia comovidamente a Macedo Papança que lhe escrevesse uma elegia, porque ele ia morrer.
O autor da Catharina d'Athayde prometeu, mas obrigou Cesário Verde a igual compromisso de afeto. Coube no primeiro o dever de cumpri-lo, tendo escrito, após a morte do amigo, as sentidas estrofes – A Cesário Verde, que terminam assim:
E sorris ao destino que te leva,
Pobre existência, ao desamparo e à treva
Do eterno sono, o corpo agonizante;
Porque da morte a onda transitória
Rouba o cadáver, mas entrega à história
A alma triunfante!
Por isso abro o teu livro, e enquanto o leio
Beijo-te o rosto, aperto-te ao meu seio,
Sinto pulsar teu coração cativo,
Oiço-te a fala na leitura absorto….
.......................................................
Ah! sim, tu estás eternamente morto
E eternamente vivo!
Além dos escritores da sua geração, Macedo Papança foi sempre honrado com a amizade literária e pessoal de el-rei D. Luiz, que o agraciou com o título de visconde, e do grande lírico João de Deus, a cuja memoria até à morte se conservou fiel e dedicado.
Em 1882, por ocasião do centenário do marquês de Pombal, publica o poema – O Grande Marquês, sobre a figura notável do ministro de D. José, e logo a seguir - A Lenda do Jesuitismo, ambos reunidos pouco depois, no volume - Telas Históricas.
No Grande Marquês, avultam páginas de um grande vigor, como a da decadência de Portugal, desde o desastre de Alcácer até D. José, o suplicio dos Távoras em Belém, a luta contra os jesuítas e outras.
E como uma inscrição de gloria sobre cem anos andados, o poeta rematava assim O Grande Marquês, com estas palavras de louvor e perdão:
“Morreu, ressuscitou! Cem anos são passados;
No altar que a pátria ergueu aos génios consagrados
É hoje a festa d'ele! Apagam-se os rancores;
O povo enche esse altar de palmas e de flores,
E corre a ver passar nas ruas da cidade,
O déspota a sorrir no andor da liberdade”
Escreve a seguir — Do Último Romântico, Páginas Soltas e traduz do francês, de colaboração, o drama de François Coppée - Severo Torelli, que constituem o 2º volume das suas obras, publicadas em 1909.
As Páginas Soltas pertencem – A arquiduquesa, As duas monjas, poesias bem conhecidas de todos, assim como a elegia – A Cesário Verde.
No mesmo ano de 1909, publica o notável volume de versos regionalistas - Musa Alentejana, onde a grande província portuguesa é cantada e sentida em versos, que honram no mais alto ponto, a poesia contemporânea de que ele foi um respeitado e querido mestre.
Nesse volume foi incorporado o belo poemeto Benvinda, maravilha de emoção, e dele fazem parte a poesia - As mondadeiras, que entrou há muito nas melhores antologias das escolas; A Cruz de Trovisco, A Santa Cruz, Tragédia Rústica, Moças de Béncatel, Os Ciganos, notável pintura de costumes alentejanos, e As Cegonhas, que ficarão sendo um monumento eterno de poesia lírica, um cântico de ternura e saudado pela planície transtagana a que o espirito do Poeta para sempre ficou preso pelo sangue e pelo génio.
Aqui oferecemos essa bela poesia aos nossos leitores que não a conheçam e ela lhes dará a justa medida do que é e do que vale esse formoso livro que se chama Musa Alentejana:
AS CEGONHAS
Em julho, as cegonhas ajuntam-se em bandos,
Desertam dos ninhos e partem voando,
Fugindo aos calores;
Acabam nos campos as ceifas ardentes,
São mortas as relvas, as águas dormentes
E murchas as flores.
Ajuntam-se em bandos, nas margens dos rios,
Caladas, tristonhas, de aspetos sombrios,
Até que, aos milhares,
As azas abertas, as pernas retesas,
Os bicos em riste, das largas devesas
Se ampliam nos ares.
Onde ides tão altas, cegonhas, cegonhas,
Buscar novos climas, caladas, tristonhas.
Seguir novos trilhos?
Não tendes já nada que aqui vos detenha
Nas torres, nas faias, nas serras de lenha,
Criados os filhos?
Criados os filhos, não tendes já nada
Que possa prender-vos à terra sagrada
Das várzeas risonhas;
Por isso com eles dos ninhos partistes
Com eles voastes, saudosas e tristes,
Cegonhas, cegonhas!
E até para o ano, se Deus nos der vida,
Que o instinto da espécie vos move e convida
De novo a voltar.
Veremos o bando que em julho nos deixa,
Em março de volta, co'as azas em flecha
Remando no ar!
Freirinhas cingidas de véus alvacentos,
Fugiram, regressam de novo aos conventos
Na paz do Senhor,
E havemos de vê-las a olhar como d'antes,
Curvadas, imóveis, dos altos mirantes,
Os campos em flor.
Havemos de vê-las, imóveis, absortas,
Á hora das regas, no fresco das hortas,
Em estos sensuais,
A filosofarem nas coisas eternas,
Os corpos de arminhos, e os bicos e as pernas
De vivos corais.
Nas velhas igrejas havemos de vê-las
Em êxtases, graves, leais sentinelas
De Deus que as protege,
E pelos serviços que aos campos tem feito,
Havemos de vê-las no amor, no respeito
Do crente e do herege.
Nos verdes quinchosos, cegonhas,
Deus dá-vos
Em volta dos ninhos papoilas e cravos
E ervilhas-de-cheiro,
E rosas silvestres trepando e açucenas
Que à noite perfumam os pastos e as penas
Do vosso canteiro.
Deus dá-vos, cegonhas, o gozo de olhardes,
Na paz, na agonia das místicas tardes
Os gados tranquilos,
A' veia bebendo das águas correntes,
Enquanto se escuta, nas calmas vertentes,
A troça dos grilos.
E a ânsia das rolas e as queixas da nora,
Em prantos que a terra sedenta devora
N'um rude cansaço,
As vozes do tempo, do espaço infinito,
Que gritam confusas — «Deus seja bendito,
No tempo e no espaço!»
Cegonhas, cegonhas, que nunca vos falte
Convosco o mais vivo, mais límpido esmalte
Que alegra a paisagem!
Cá tendes o ninho na torre da ermida,
Até para o ano, se Deus nos der vida,
E adeus, boa viagem!
Por este livro, notável entre os maiores dos últimos tempos, o conde de Monsaraz colocou-se na primeira ala dos que julgam o principal dever do artista pertencer à sua terra e ao seu país.
Foi a Musa Alentejana o primeiro livro que em Portugal marcou a tendência regionalista nos domínios da poesia, naquela província tão característica, que teve em Fialho d'Almeida outro grande apaixonado, e à qual ficou devendo das melhores páginas que o imortalizaram merecidamente.
Da Musa Alentejana fazem também parte os magníficos sonetos - No monte, A calma, Os bois e Silêncio trágico, que a seguir transcrevemos:
A faina principiou de manhã cedo,
Manhã de junho, quente, abafadiça:
Os machados, na arranca da cortiça,
Rasgam de cima abaixo o arvoredo.
E o sobreiral vetusto, no segredo
Das trágicas paixões, na dor submissa
Dos vegetais, dir-se-á que se espreguiça
N'um êxtase espectral de espanto e medo.
Mas quando ao fim da tarde olho o montado
E vejo em carne viva, ensanguentado,
O velho sobreiral, sinto que encerra,
Na tortura sem voz dos infelizes,
A dor que vai dos troncos às raízes
Chorar, gritar no âmago da terra!
Foi um esmerado cultor da forma e um primoroso tradutor, como o atestam as versões que fez da Griselia, em verso livre (1892), o celebre mistério em 3 actos, de Armand Silvestre e Eugène Morand, da comédia Eckermann Chatrian — O amigo Fritz, representada com sucesso nos teatros de D. Maria II e D. Amelia; de D. Cesar de Bazan, uma das melhores coroas de glória de Augusto Rosa, sempre aplaudida e admirada.
O conde de Monsaraz foi o poeta que o Governo encarregou de escrever o primeiro hino destinado às escolas primarias do Reino o que em pouco tempo se generalizou, sendo cantado em coro pelas crianças.
Foi uma figura social do mais alto relevo, dotada de excecionais qualidades de charme, um aprumo e uma distinção da mais legitima fidalguia. Tinha o dom de conquistar dedicações e professava com a maior nobreza o culto da amizade.
Entrando na política, filiou-se no partido progressista, sendo eleito deputado algumas vezes pelo círculo da sua terra, vindo a ser nomeado par do Reino em março de 1898.
Nos mais concorridos e distintos salões do seu tempo, foi uma individualidade inconfundível, um finíssimo conversador, recitando primorosamente os seus versos com o entusiasmo ardente da sua alma de alentejano que tanto se orgulhava de ser.
Na sua convivência e amizade teve sempre um dos primeiros lugares, o antigo diretor deste Almanach e distinto poeta, dr. Rodrigues Cordeiro.
Era cavaleiro da Ordem de Sant'lago e Gran Cruz de Afonso XII de Espanha, pertencendo desde muito novo, à Academia Real das Ciências de Lisboa e ao Instituto de Coimbra.
Os últimos anos de atividade literária passou-os em Coimbra para onde voltava agora, coberto de cabelos brancos, ao fim de trinta anos, para seguir de perto a formatura de seu filho. E à sua volta, como se fosse um camarada mais velho, com o mesmo espirito de mocidade de sempre, agrupavam-se a melhor parte dos estudantes de Coimbra, desde os premiados, queridos de Minerva, até aos cábulas com talento que ele acolhia, aconselhava e dirigia, tornando-se os serões da sua casa dos Militares, verdadeiras noites de arte que marcaram um momento na vida intelectual da velha cidade universitária.
Perante ele foram lidas as mais notáveis estreias literárias de uma geração que surgia para a vida intelectual.
À geração de seu filho se irmanou o Conde de Monsaraz, convencido já da necessidade de voltar à terra esquecida, a procurar os motivos eternos de a engrandecer e honrar.
Colaborou em várias revistas e jornais, como Evolução, Cenáculo, Mosaico, Renascença, Literatura Ocidental, Ribaltas e Gambiarras, Museu Ilustrado e outros.
Nas mãos de alguns dos seus amigos ficaram dezenas de cartas do conde de Monsaraz que são, muitas delas, modelos de estilo epistolar.
O ilustre poeta de que estamos dando estes ligeiros traços, não escrevia prosa para o publico.
Podendo tê-lo feito e tendo-o feito algumas vezes, ocultava cuidadosamente essa face do seu talento literário.
Sabemos que fez jornalismo, de camaradagem com Pinheiro Chagas, que sustentou durante muito tempo uma assídua colaboração para um jornal do Brasil, mas nunca deu importância, superior a uma referência passageira, aos seus trabalhos em prosa.
Em todo o caso, nas suas cartas que oxalá viessem a ser publicadas para bem da sua memoria e honra das letras portuguesas, ficaram claramente afirmados os seus recursos de escritor.
Se nunca escreveu um livro ou uma peça de teatro em prosa, por um excesso de escrúpulo de quem no verso tinha a consciência de uma grande superioridade - devemos lamentar a sua resolução, que nos privou injustamente desse prazer.
Foi dos maiores sonetistas da língua portuguesa, sem que o culto da forma que elevara ao mais alto grau, preterisse nele a profunda emoção lírica que repassa toda a sua obra. A morte do Conde de Monsaraz foi sentida em todos os meios cultos da sociedade portuguesa, e toda a imprensa, sem distinção de cores nem de partidos, prestou ao ilustre Morto as homenagens de justiça e gratidão que à sua memoria eram devidas.
Cumpre agora à Província natal do grande Poeta que tanto lhe devia em amor e carinho, indo procurar nela os motivos da sua mais alta e comovida inspiração, pagar-lhe essa divida de reconhecimento, perpetuando de forma condigna, o nome do Filho ilustre que tão nobremente a soube cantar em sua lira de oiro.
Tendo-se-lhe agravado a doença de que há anos sofria, foi procurar no estrangeiro o alívio aos seus males, permanecendo alguns meses na Suíça.
Os desgostos que no exilio lhe causavam os destinos da Pátria, a saudade da terra e do sol de Portugal, concorreram para agravar-lhe a doença que o havia de prostrar algum tempo depois.
Voltando a Portugal, em pouco mais de três meses, extinguia-se aquele nobre espírito o grande coração, no meio da surpresa e da saudade de quantos algum dia o conheceram.
Ainda mesmo no exilio a que a doença o obrigara, nalguns intervalos de repoiso, não deixou de escrever os seus versos, compondo entre as neves da Suíça, sobre lembranças e saudades do Alentejo, algumas poesias admiráveis, como o poemeto - A Lavradora do Freiro, de carácter regionalista.
O Conde de Monsaraz deixou inédito um volume de poesias, subordinadas ao título - Lira do Outono, escrito na mesma orientação regionalista da Musa Alentejana.
Estando em via de publicação, por cuidado e diligencia de seu filho, o distinto poeta, sr. Alberto de Monsaraz, herdeiro do talento e do nome ilustre de seu Pai, à sua amabilidade devemos o grande prazer de encerrar estas linhas, com o seguinte soneto daquele livro póstumo:
MEU PAI
Percorro a casa toda em alvoroço,
Ando por toda a parte a ver se os vejo...
Ninguém! Apenas em minha alma os posso
Lobrigar aos clarões do meu desejo.
Passam hirtos, n'um lúgubre cortejo,
Os velhos que eu amei quando era moço...
Fantasma de meu Pai, lançai-me um vosso
Olhar e o amor e a paz d'um vosso beijo,
Parai. Parou!... Fita-me... É ele, é ele!
Santo! não me apavora nem repele,
Chora... A cabeça branca estremeceu...
Corro... corre. Abro os braços... abre os braços...
O espelho ao fundo é que reflete os traços
D'um velho triste que, ai de mim! sou eu.
Tendo feito os seus primeiros estudos em Lisboa, na Escola Académica, vai para Coimbra matricular-se na faculdade de Direito em que se formou em 1874, aos 22 anos.
Na linda cidade do Mondego, ele pertenceu a uma das mais notáveis gerações académicas que por ela tem passado, e encontrou-se na camaradagem e amizade de alguns dos mais altos espíritos da nossa terra, como sejam António Cândido, João Penha, Gonçalves Crespo, Teixeira de Queiroz, Guerra Junqueiro, Bettencourt Rodrigues e com os poetas brasileiros Filinto d'Almeida e Garcia Redondo.
Em Coimbra, o seu talento revelou-se de pronto e o estudante Macedo Papança era dos mais queridos e considerados poetas da sua geração.
O volume de estreia, Crepusculares (1876), impô-lo desde logo como uma esperança segura, e os seus versos começaram a correr o país de norte a sul, em festas elegantes de salões.
Mas o seu definitivo triunfo nas letras foi conquistado na velha Sala dos Capelos da Universidade, quando ali foi recitar o seu belo poema Catharina d' Athayde.
Era em 1880.
Tratava-se de celebrar o centenário de Luís de Camões.
Esse movimento de espírito e de sentimento nacional, que resultou numa apoteose grandiosa e sentida ao maior dos portugueses, encontrou aplauso e entusiasmo na Universidade de Coimbra, onde Camões passou os primeiros anos de estudante.
No grande sarau da Sala dos Capelos, fizeram-se ouvir os mais ilustres representantes das letras e das ciências da douta Coimbra.
A academia, como nunca, vibrava, agitava-se, tratava de organizar sob a direção de João Arroio, um orfeão, promovia-se a inauguração de um monumento a Camões, vindo a festa dos estudantes a realizar-se um ano depois da da Universidade.
Mas dos notabilíssimos saraus da Universidade e do Instituto de Coimbra, a nota dominante, imperecível, foi a recitação do poema de Macedo Papança -- Catharina d' Athayde.
Erguido nas doutorais da opulenta Sala, entre os lentes e a mais distinta e culta assistência de que há memoria, ele recitou o seu poema sobre os amores infelizes de Camões e de Natércia, levantando à sua volta um delírio de aclamações. Desde então, o seu nome ficou consagrado como um dos primeiros poetas portugueses.
A Catharina d'Athayde vulgarizou-o. Sabia-se de cor nos seus mais sentidos trechos, em todas as famílias cultas de Portugal, e ainda António de Macedo Papança não tinha trinta anos.
Depois, a carreira literária do Poeta prosseguiu brilhantemente.
A sua casa de Lisboa tornou-se o cenáculo de uma geração inteira: por ela passaram, fazendo leitura dos seus manuscritos, Pinheiro Chagas, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teixeira de Queiroz, Cesário Verde, Luiz Osório, Gonçalves Crespo, Magalhães Lima, António Cândido, Gervásio Lobato, Júlio Cesar Machado, Fialho d'Almeida, Visconde de Ouguela, Latino Coelho, D. João da Camara e outros muitos escritores e poetas ilustres, que foram seus amigos.
Entre todos, Macedo Papança estimava o infeliz poeta Cesário Verde, que morreu tuberculoso, sendo ainda muito novo.
É geralmente sabido que o pai de Cesário Verde, negociante de cutelaria, homem prático o laborioso, não tinha em muita conta o talento literário do poeta, fazendo-o trabalhar na loja, que começou a ser frequentada por uma geração inteira de escritores e artistas que ele detestava, porque lhe iam distrair o filho.
Havia, porém, uma excepção:
Macedo Papança confessava-se filho de um lavrador alentejano, ele mesmo lavrador, falando de cereais, de cortiça, de gados... O pai de Cesário Verde aceitava assim do melhor grado, a convivência dos dois grandes poetas, dos quais um lhe aparecia disfarçado em lavrador, em pessoa de respeito...
Nos últimos dias da sua vida, Cesário Verde pedia comovidamente a Macedo Papança que lhe escrevesse uma elegia, porque ele ia morrer.
O autor da Catharina d'Athayde prometeu, mas obrigou Cesário Verde a igual compromisso de afeto. Coube no primeiro o dever de cumpri-lo, tendo escrito, após a morte do amigo, as sentidas estrofes – A Cesário Verde, que terminam assim:
E sorris ao destino que te leva,
Pobre existência, ao desamparo e à treva
Do eterno sono, o corpo agonizante;
Porque da morte a onda transitória
Rouba o cadáver, mas entrega à história
A alma triunfante!
Por isso abro o teu livro, e enquanto o leio
Beijo-te o rosto, aperto-te ao meu seio,
Sinto pulsar teu coração cativo,
Oiço-te a fala na leitura absorto….
.......................................................
Ah! sim, tu estás eternamente morto
E eternamente vivo!
Além dos escritores da sua geração, Macedo Papança foi sempre honrado com a amizade literária e pessoal de el-rei D. Luiz, que o agraciou com o título de visconde, e do grande lírico João de Deus, a cuja memoria até à morte se conservou fiel e dedicado.
Em 1882, por ocasião do centenário do marquês de Pombal, publica o poema – O Grande Marquês, sobre a figura notável do ministro de D. José, e logo a seguir - A Lenda do Jesuitismo, ambos reunidos pouco depois, no volume - Telas Históricas.
No Grande Marquês, avultam páginas de um grande vigor, como a da decadência de Portugal, desde o desastre de Alcácer até D. José, o suplicio dos Távoras em Belém, a luta contra os jesuítas e outras.
E como uma inscrição de gloria sobre cem anos andados, o poeta rematava assim O Grande Marquês, com estas palavras de louvor e perdão:
“Morreu, ressuscitou! Cem anos são passados;
No altar que a pátria ergueu aos génios consagrados
É hoje a festa d'ele! Apagam-se os rancores;
O povo enche esse altar de palmas e de flores,
E corre a ver passar nas ruas da cidade,
O déspota a sorrir no andor da liberdade”
Escreve a seguir — Do Último Romântico, Páginas Soltas e traduz do francês, de colaboração, o drama de François Coppée - Severo Torelli, que constituem o 2º volume das suas obras, publicadas em 1909.
As Páginas Soltas pertencem – A arquiduquesa, As duas monjas, poesias bem conhecidas de todos, assim como a elegia – A Cesário Verde.
No mesmo ano de 1909, publica o notável volume de versos regionalistas - Musa Alentejana, onde a grande província portuguesa é cantada e sentida em versos, que honram no mais alto ponto, a poesia contemporânea de que ele foi um respeitado e querido mestre.
Nesse volume foi incorporado o belo poemeto Benvinda, maravilha de emoção, e dele fazem parte a poesia - As mondadeiras, que entrou há muito nas melhores antologias das escolas; A Cruz de Trovisco, A Santa Cruz, Tragédia Rústica, Moças de Béncatel, Os Ciganos, notável pintura de costumes alentejanos, e As Cegonhas, que ficarão sendo um monumento eterno de poesia lírica, um cântico de ternura e saudado pela planície transtagana a que o espirito do Poeta para sempre ficou preso pelo sangue e pelo génio.
Aqui oferecemos essa bela poesia aos nossos leitores que não a conheçam e ela lhes dará a justa medida do que é e do que vale esse formoso livro que se chama Musa Alentejana:
AS CEGONHAS
Em julho, as cegonhas ajuntam-se em bandos,
Desertam dos ninhos e partem voando,
Fugindo aos calores;
Acabam nos campos as ceifas ardentes,
São mortas as relvas, as águas dormentes
E murchas as flores.
Ajuntam-se em bandos, nas margens dos rios,
Caladas, tristonhas, de aspetos sombrios,
Até que, aos milhares,
As azas abertas, as pernas retesas,
Os bicos em riste, das largas devesas
Se ampliam nos ares.
Onde ides tão altas, cegonhas, cegonhas,
Buscar novos climas, caladas, tristonhas.
Seguir novos trilhos?
Não tendes já nada que aqui vos detenha
Nas torres, nas faias, nas serras de lenha,
Criados os filhos?
Criados os filhos, não tendes já nada
Que possa prender-vos à terra sagrada
Das várzeas risonhas;
Por isso com eles dos ninhos partistes
Com eles voastes, saudosas e tristes,
Cegonhas, cegonhas!
E até para o ano, se Deus nos der vida,
Que o instinto da espécie vos move e convida
De novo a voltar.
Veremos o bando que em julho nos deixa,
Em março de volta, co'as azas em flecha
Remando no ar!
Freirinhas cingidas de véus alvacentos,
Fugiram, regressam de novo aos conventos
Na paz do Senhor,
E havemos de vê-las a olhar como d'antes,
Curvadas, imóveis, dos altos mirantes,
Os campos em flor.
Havemos de vê-las, imóveis, absortas,
Á hora das regas, no fresco das hortas,
Em estos sensuais,
A filosofarem nas coisas eternas,
Os corpos de arminhos, e os bicos e as pernas
De vivos corais.
Nas velhas igrejas havemos de vê-las
Em êxtases, graves, leais sentinelas
De Deus que as protege,
E pelos serviços que aos campos tem feito,
Havemos de vê-las no amor, no respeito
Do crente e do herege.
Nos verdes quinchosos, cegonhas,
Deus dá-vos
Em volta dos ninhos papoilas e cravos
E ervilhas-de-cheiro,
E rosas silvestres trepando e açucenas
Que à noite perfumam os pastos e as penas
Do vosso canteiro.
Deus dá-vos, cegonhas, o gozo de olhardes,
Na paz, na agonia das místicas tardes
Os gados tranquilos,
A' veia bebendo das águas correntes,
Enquanto se escuta, nas calmas vertentes,
A troça dos grilos.
E a ânsia das rolas e as queixas da nora,
Em prantos que a terra sedenta devora
N'um rude cansaço,
As vozes do tempo, do espaço infinito,
Que gritam confusas — «Deus seja bendito,
No tempo e no espaço!»
Cegonhas, cegonhas, que nunca vos falte
Convosco o mais vivo, mais límpido esmalte
Que alegra a paisagem!
Cá tendes o ninho na torre da ermida,
Até para o ano, se Deus nos der vida,
E adeus, boa viagem!
Por este livro, notável entre os maiores dos últimos tempos, o conde de Monsaraz colocou-se na primeira ala dos que julgam o principal dever do artista pertencer à sua terra e ao seu país.
Foi a Musa Alentejana o primeiro livro que em Portugal marcou a tendência regionalista nos domínios da poesia, naquela província tão característica, que teve em Fialho d'Almeida outro grande apaixonado, e à qual ficou devendo das melhores páginas que o imortalizaram merecidamente.
Da Musa Alentejana fazem também parte os magníficos sonetos - No monte, A calma, Os bois e Silêncio trágico, que a seguir transcrevemos:
A faina principiou de manhã cedo,
Manhã de junho, quente, abafadiça:
Os machados, na arranca da cortiça,
Rasgam de cima abaixo o arvoredo.
E o sobreiral vetusto, no segredo
Das trágicas paixões, na dor submissa
Dos vegetais, dir-se-á que se espreguiça
N'um êxtase espectral de espanto e medo.
Mas quando ao fim da tarde olho o montado
E vejo em carne viva, ensanguentado,
O velho sobreiral, sinto que encerra,
Na tortura sem voz dos infelizes,
A dor que vai dos troncos às raízes
Chorar, gritar no âmago da terra!
Foi um esmerado cultor da forma e um primoroso tradutor, como o atestam as versões que fez da Griselia, em verso livre (1892), o celebre mistério em 3 actos, de Armand Silvestre e Eugène Morand, da comédia Eckermann Chatrian — O amigo Fritz, representada com sucesso nos teatros de D. Maria II e D. Amelia; de D. Cesar de Bazan, uma das melhores coroas de glória de Augusto Rosa, sempre aplaudida e admirada.
O conde de Monsaraz foi o poeta que o Governo encarregou de escrever o primeiro hino destinado às escolas primarias do Reino o que em pouco tempo se generalizou, sendo cantado em coro pelas crianças.
Foi uma figura social do mais alto relevo, dotada de excecionais qualidades de charme, um aprumo e uma distinção da mais legitima fidalguia. Tinha o dom de conquistar dedicações e professava com a maior nobreza o culto da amizade.
Entrando na política, filiou-se no partido progressista, sendo eleito deputado algumas vezes pelo círculo da sua terra, vindo a ser nomeado par do Reino em março de 1898.
Nos mais concorridos e distintos salões do seu tempo, foi uma individualidade inconfundível, um finíssimo conversador, recitando primorosamente os seus versos com o entusiasmo ardente da sua alma de alentejano que tanto se orgulhava de ser.
Na sua convivência e amizade teve sempre um dos primeiros lugares, o antigo diretor deste Almanach e distinto poeta, dr. Rodrigues Cordeiro.
Era cavaleiro da Ordem de Sant'lago e Gran Cruz de Afonso XII de Espanha, pertencendo desde muito novo, à Academia Real das Ciências de Lisboa e ao Instituto de Coimbra.
Os últimos anos de atividade literária passou-os em Coimbra para onde voltava agora, coberto de cabelos brancos, ao fim de trinta anos, para seguir de perto a formatura de seu filho. E à sua volta, como se fosse um camarada mais velho, com o mesmo espirito de mocidade de sempre, agrupavam-se a melhor parte dos estudantes de Coimbra, desde os premiados, queridos de Minerva, até aos cábulas com talento que ele acolhia, aconselhava e dirigia, tornando-se os serões da sua casa dos Militares, verdadeiras noites de arte que marcaram um momento na vida intelectual da velha cidade universitária.
Perante ele foram lidas as mais notáveis estreias literárias de uma geração que surgia para a vida intelectual.
À geração de seu filho se irmanou o Conde de Monsaraz, convencido já da necessidade de voltar à terra esquecida, a procurar os motivos eternos de a engrandecer e honrar.
Colaborou em várias revistas e jornais, como Evolução, Cenáculo, Mosaico, Renascença, Literatura Ocidental, Ribaltas e Gambiarras, Museu Ilustrado e outros.
Nas mãos de alguns dos seus amigos ficaram dezenas de cartas do conde de Monsaraz que são, muitas delas, modelos de estilo epistolar.
O ilustre poeta de que estamos dando estes ligeiros traços, não escrevia prosa para o publico.
Podendo tê-lo feito e tendo-o feito algumas vezes, ocultava cuidadosamente essa face do seu talento literário.
Sabemos que fez jornalismo, de camaradagem com Pinheiro Chagas, que sustentou durante muito tempo uma assídua colaboração para um jornal do Brasil, mas nunca deu importância, superior a uma referência passageira, aos seus trabalhos em prosa.
Em todo o caso, nas suas cartas que oxalá viessem a ser publicadas para bem da sua memoria e honra das letras portuguesas, ficaram claramente afirmados os seus recursos de escritor.
Se nunca escreveu um livro ou uma peça de teatro em prosa, por um excesso de escrúpulo de quem no verso tinha a consciência de uma grande superioridade - devemos lamentar a sua resolução, que nos privou injustamente desse prazer.
Foi dos maiores sonetistas da língua portuguesa, sem que o culto da forma que elevara ao mais alto grau, preterisse nele a profunda emoção lírica que repassa toda a sua obra. A morte do Conde de Monsaraz foi sentida em todos os meios cultos da sociedade portuguesa, e toda a imprensa, sem distinção de cores nem de partidos, prestou ao ilustre Morto as homenagens de justiça e gratidão que à sua memoria eram devidas.
Cumpre agora à Província natal do grande Poeta que tanto lhe devia em amor e carinho, indo procurar nela os motivos da sua mais alta e comovida inspiração, pagar-lhe essa divida de reconhecimento, perpetuando de forma condigna, o nome do Filho ilustre que tão nobremente a soube cantar em sua lira de oiro.
Tendo-se-lhe agravado a doença de que há anos sofria, foi procurar no estrangeiro o alívio aos seus males, permanecendo alguns meses na Suíça.
Os desgostos que no exilio lhe causavam os destinos da Pátria, a saudade da terra e do sol de Portugal, concorreram para agravar-lhe a doença que o havia de prostrar algum tempo depois.
Voltando a Portugal, em pouco mais de três meses, extinguia-se aquele nobre espírito o grande coração, no meio da surpresa e da saudade de quantos algum dia o conheceram.
Ainda mesmo no exilio a que a doença o obrigara, nalguns intervalos de repoiso, não deixou de escrever os seus versos, compondo entre as neves da Suíça, sobre lembranças e saudades do Alentejo, algumas poesias admiráveis, como o poemeto - A Lavradora do Freiro, de carácter regionalista.
O Conde de Monsaraz deixou inédito um volume de poesias, subordinadas ao título - Lira do Outono, escrito na mesma orientação regionalista da Musa Alentejana.
Estando em via de publicação, por cuidado e diligencia de seu filho, o distinto poeta, sr. Alberto de Monsaraz, herdeiro do talento e do nome ilustre de seu Pai, à sua amabilidade devemos o grande prazer de encerrar estas linhas, com o seguinte soneto daquele livro póstumo:
MEU PAI
Percorro a casa toda em alvoroço,
Ando por toda a parte a ver se os vejo...
Ninguém! Apenas em minha alma os posso
Lobrigar aos clarões do meu desejo.
Passam hirtos, n'um lúgubre cortejo,
Os velhos que eu amei quando era moço...
Fantasma de meu Pai, lançai-me um vosso
Olhar e o amor e a paz d'um vosso beijo,
Parai. Parou!... Fita-me... É ele, é ele!
Santo! não me apavora nem repele,
Chora... A cabeça branca estremeceu...
Corro... corre. Abro os braços... abre os braços...
O espelho ao fundo é que reflete os traços
D'um velho triste que, ai de mim! sou eu.
Relacionado
- António Sardinha, Conde de Monsaraz in Ao ritmo da ampulheta, 1925.