1935 - Afonso Lopes Vieira - Éclogas de agora
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E se acaso um bom velho
de olhos azuis e de alma enamorada [Henrique de Paiva Couceiro]
se dispõe a guardar o gado solto,
os maus zagais do prado
vão e pegam-lhe fogo!
...
in Écloga II.
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E se acaso um bom velho
de olhos azuis e de alma enamorada [Henrique de Paiva Couceiro]
se dispõe a guardar o gado solto,
os maus zagais do prado
vão e pegam-lhe fogo!
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in Écloga II.
Por gentil oferta de Isabel Rougier, inclui-se aqui um apontamento retirado do acervo de seu bisavô, Henrique de Paiva Couceiro, em que este regista uma passagem do capítulo PECADOS VELHOS do livro A Aliança Peninsular (1924), de António Sardinha:
Henrique Mitchell de Paiva Cabral Couceiro, 1861-1944
António Sardinha - O Direito de Revolta
António Sardinha discute o conceito de direito de revolta, tomando como exemplo a figura de Paiva Couceiro, que foi considerado traidor por se insurgir contra o regime, mas cuja ação é defendida como legítima quando o governo trai os valores fundamentais da pátria. A pátria é apresentada como património moral e coletivo, para além do território, e o patriotismo implica respeito pelas tradições e pela herança dos antepassados. O texto argumenta que o direito de revolta, reconhecido por teólogos, juristas e pela própria Igreja, é comparável ao direito de legítima defesa, sendo justificado em situações de tirania, corrupção ou violação dos princípios essenciais da sociedade. A legitimidade da revolta é sustentada por autores como Vareilles-Sommières e pela doutrina cristã, desde São Tomás de Aquino até Leão XIII, e pode ser exercida mesmo por uma minoria, sempre que esteja em causa a defesa da pátria e dos seus valores.
António Sardinha discute o conceito de direito de revolta, tomando como exemplo a figura de Paiva Couceiro, que foi considerado traidor por se insurgir contra o regime, mas cuja ação é defendida como legítima quando o governo trai os valores fundamentais da pátria. A pátria é apresentada como património moral e coletivo, para além do território, e o patriotismo implica respeito pelas tradições e pela herança dos antepassados. O texto argumenta que o direito de revolta, reconhecido por teólogos, juristas e pela própria Igreja, é comparável ao direito de legítima defesa, sendo justificado em situações de tirania, corrupção ou violação dos princípios essenciais da sociedade. A legitimidade da revolta é sustentada por autores como Vareilles-Sommières e pela doutrina cristã, desde São Tomás de Aquino até Leão XIII, e pode ser exercida mesmo por uma minoria, sempre que esteja em causa a defesa da pátria e dos seus valores.
As férias da Páscoa tinham terminado, e como a prometida revolução se não desse, Sardinha escrevia-me de Monforte, num gracejo que não escondia o contentamento...
«... Resigno-me, pois, a voltar a Coimbra com a República Portuguesa, quando me estava anunciado só voltar com o reino de Portugal! Esperei, esperei, e se me descuido acontecia-me como aos sebastianistas! Eh, Luís! Em má hora te meteste a privações! Em má hora armaste em Bandarra! E caíste em ir para o exílio, contando voltares triunfante, com D. Paiva à frente, comandando a gloriosa milícia! Surriada, Luís, surriada!»
«... Resigno-me, pois, a voltar a Coimbra com a República Portuguesa, quando me estava anunciado só voltar com o reino de Portugal! Esperei, esperei, e se me descuido acontecia-me como aos sebastianistas! Eh, Luís! Em má hora te meteste a privações! Em má hora armaste em Bandarra! E caíste em ir para o exílio, contando voltares triunfante, com D. Paiva à frente, comandando a gloriosa milícia! Surriada, Luís, surriada!»
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Paiva Couceiro, que até aí não expressara qualquer reivindicação monárquica, vai levantar a bandeira azul e branca significativamente despojada de coroa Real[11], explicando que o fim do levantamento que dirige é o de “promulgar apenas as medidas indispensáveis ao estabelecimento de um regimen de Ordem e de Liberdade egual para todos, dentro do qual se realizem eleições em termos de traduzirem, de facto, a expressão da Vontade Nacional”[12].
Ainda que a solução plebiscitária não fosse inédita[13], as tropas comandadas por Couceiro não tropeçaram apenas nas forças militares que lhe saíram ao caminho. O rei deposto, D. Manuel II, colocando de forma clara a “questão basilar da sua candidatura à coroa”, pronunciou-se abertamente contra o “carácter neutralista” daquele movimento, e o próprio rei de Espanha fez saber que lhe agradaria pura e simplesmente uma restauração. Mas o comandante Paiva Couceiro não transigiu: “negava-se a ser um restaurador de dinastias. A sua espada não a punha ao serviço exclusivo de um rei, mas da Nação. A esta e só a esta cabia o direito de escolher o soberano”[14]. E foi assim que a incursão de Outubro se lançou sem substanciais apoios externos, com uma organização revolucionária confinada às províncias do norte do país, quase exclusivamente preparada pelos padres e por notáveis locais.
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Paiva Couceiro, que até aí não expressara qualquer reivindicação monárquica, vai levantar a bandeira azul e branca significativamente despojada de coroa Real[11], explicando que o fim do levantamento que dirige é o de “promulgar apenas as medidas indispensáveis ao estabelecimento de um regimen de Ordem e de Liberdade egual para todos, dentro do qual se realizem eleições em termos de traduzirem, de facto, a expressão da Vontade Nacional”[12].
Ainda que a solução plebiscitária não fosse inédita[13], as tropas comandadas por Couceiro não tropeçaram apenas nas forças militares que lhe saíram ao caminho. O rei deposto, D. Manuel II, colocando de forma clara a “questão basilar da sua candidatura à coroa”, pronunciou-se abertamente contra o “carácter neutralista” daquele movimento, e o próprio rei de Espanha fez saber que lhe agradaria pura e simplesmente uma restauração. Mas o comandante Paiva Couceiro não transigiu: “negava-se a ser um restaurador de dinastias. A sua espada não a punha ao serviço exclusivo de um rei, mas da Nação. A esta e só a esta cabia o direito de escolher o soberano”[14]. E foi assim que a incursão de Outubro se lançou sem substanciais apoios externos, com uma organização revolucionária confinada às províncias do norte do país, quase exclusivamente preparada pelos padres e por notáveis locais.
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O SENTIR DO HERÓI NA DESPEDIDA DA VIDA
A morte de Couceiro foi glorioso remate da sua vida feita de heroísmos. No mesmo ano em que Deus o levou ao prémio da Bem-aventurança, escrevemos para o “Mensageiro do Coração de Jesus”, órgão do Apostolado da Oração em Portugal, umas linhas que ali foram publicadas em seu número de Setembro de 1944 a págs. de 434 e seguintes. Não resistimos à tentação de as reproduzir aqui, completando-as com algumas informações recebidas mais tarde. Dizíamos então:
“A 11 fevereiro do ano corrente, dia da festa de N. Senhora de Lourdes, por volta da uma da tarde, fechava o curso dos seus longos e acidentados oitenta e três anos de idade o famigerado Comandante Henrique de Paiva Couceiro, popularíssimo caudilho da Monarquia. Toda a imprensa de todos os créditos políticos ou representativa dos mais variados interesses foi unânime no testemunho público das virtudes morais e cívicas deste grande português. - “Carácter sem mácula”; “O Nun’Álvares da nova Idade”; “a figura ideal de português”; “O português sem mácula, que viveu deslocado no seu tempo. Alma de elite, poucos tiveram, como ele, em tão alto grau, o culto da Honra e do Dever”; “Campeão de recorte medievo”; “Dobram-nos perante o seu corpo, comovidamente, como perante um Grande de Portugal, que passou definitivamente as soleiras da História, em que não cabem todos” ... E, como estes, quantos outros dizeres expressivos da grandeza moral deste homem! Coisa notável: havendo ele sido de todos os nossos cabos de guerra o mais parecido com Mouzinho de Albuquerque que nos lances da aventura guerreira, por exemplo no combate de Magul, e no êxito feliz das loucuras da sua temeridade de cavaleiro medieval, contudo a atenção dos comentadores da sua vida fixa-se tanto, agora, no maravilhoso dos seus feitos militares, quanto na integridade do seu viver e na nobreza e lealdade do seu carácter.
É que realmente custa menos ser herói do que virtuoso.
Couceiro o confessou um dia, numa tarde de Maio, na sua residência de St. Amaro de Oeiras, ao declarar a um dos seus dedicados adeptos: “Só Deus sabe o trabalho que tive, pela vida fora, para me conservar sempre pobre!”
Nem o que lhe era devido ele reclamou!...quanto mais aceitar o que traria perigo de lhe fazer perder a independência!
Quem estas linhas escreve conheceu e privou intimamente com Paiva Couceiro durante bastantes anos, até poucos dias antes da sua morte, e pode testemunhar da fé vivíssima e da piedade viril do Comandante. Sua Mãe, inglesa de sangue e de nação, tivera de exilar-se para Portugal por se ter convertido de protestante à Fé Católica. Este holocausto mereceu-lhe a bênção dos filhos que educou no amor de Deus e no culto da Pátria. Couceiro era por dentro e para Deus o que foi sempre por fora para os homens: a verdade, a retidão, a justiça, a lealdade, consciência delicada, alma a viver sempre na Graça do Senhor. Sentia verdadeira paixão de admiração por N. Senhor Jesus Cristo. Nunca foi para uma batalha nem avançou em incursões monárquicas sem primeiro se confessar e comungar.
Um mês antes do seu falecimento fomos visitá-lo, prevenidos de que o seu estado era gravíssimo. Encontrámos o Comandante estendido num canapé e embrulhado no seu velhíssimo capote de oficial de artilharia, delido do tempo e do uso (1). Ele era sempre duríssimo no trato do seu corpo. Estendidas sobre uma mesa, ao lado, três espadas: a do seu exercício diário de esgrima, a de Magul e as das incursões da Galiza. Em frente, pendurado ao alto, na parede, um grande crucifixo de bronze. Couceiro só sabia falar de Portugal, do nosso império ultramarino e da sua aspiração de ver a Pátria integrada definitivamente nos trilhos da sua missão histórica e providencial.
Quando sua filha Helena, religiosa de Santa Doroteia, foi mandada para Angola, o Comandante rejubilou, parecendo-lhe que no apostolado da filha em África estaria ele mesmo a trabalhar pelo engrandecimento e consolidação do império português do ultramar.
Naquela hora da nossa última visita, mostrando-se Couceiro apreensivo pelo que o futuro podia ainda trazer de riscos a Portugal, apontamos-lhe para o Crucifixo como sinal de esperança. O Comandante então, num movimento decidido de energia e convicção profunda, exclamou de olhos no Crucifixo: “Aquele é que é o meu Rei!”
E logo, a explicar: “Olhe, este crucifixo era de meu avô, soldado de D. Miguel. Morreu no cerco do Porto à frente de uma companhia, num assalto.
” E dizia estas palavras num tom de quem se sentia honrado e feliz da valentia do seu antepassado.
Por ordem terminante do médico, o doente fora trazido de Santo Amaro para Lisboa, havia poucos meses, e fixara residência num prédio da Avenida Praia da Vitória. Esta mudança facilitou aos amigos do Comandante mais frequente trato com ele e deu por isso ocasião a que todos melhor pudessem seguir as manifestações da sua alma, sempre nobilíssima, mesmo em frente da morte.
Tudo o que então falava era de referência só à sua incomensurável paixão de amor a Portugal e ao seu divino Rei Nosso Senhor Jesus Cristo.
O seu diálogo preferido era com Jesus Crucificado, cuja imagem, queria ter sempre diante dos olhos. Entre muitas das suas falas desses últimos dias, fixaremos aqui as seguintes, que são boa síntese de todas as mais:
- “Só tenho uma coisa a fazer: sofrer, calar e andar para a frente:”
“Ele (e apontava para o Crucifixo) sofreu, muito mais por nós, para nos salvar. É justo que eu também sofra por Portugal.”
“Sozinho não posso nada, mas com Ele vou para toda a parte”; e dirigindo-se ao Crucifixo: “Pega-me pela mão e leva-me para onde quiseres.”
“Ele é o meu amor de sempre, de toda a minha vida!”
Que formosura de alma na morte, a destes grandes homens de guerra! Que valentia de ânimo! E que ricos de coração! O Marechal Gomes da Costa, em luta com a agonia final, exclamava: “Isto é que é uma batalha!” E como quem pretendia dar uma explicação da sua tão cristã preparação para a viagem da Eternidade e da sua esperança, asseverava. “Eu tive sempre muita Fé!”
Era outro grande, da plêiade dos escolhidos de Deus para a epopeia africana.
Couceiro morre aos pés de Jesus Crucificado, como o soldado caído no fragor da batalha, diante do seu Rei, exclamando, contente de morrer ali aos pés dele em holocausto de obediência e de dedicação.
- “O meu Rei!...Ele é o meu amor de sempre, de toda a minha vida!...
O Comandante recebeu piedosamente os Sacramentos que lhe foram administrados pelo seu confessor ordinário rev. P.e Júlio Marinho, S.J. Fez as suas disposições: quis ser amortalhado com o hábito de S. Francisco de Assis; legou as suas espadas aos seus mais fiéis e dedicados companheiros de armas; e os seus terços e medalhas de Nª Senhora mandou que os repartissem pelos dois Sacerdotes com quem tratava das coisas da sua alma.
O seu funeral, sem horas militares nem ostentação de aparatosas representações oficiais, teve, contudo, o aspeto de consagração popular em que todas as classes sociais e, de mistura com a multidão de antigos combatentes, a flor da mocidade académica e da Escola de Guerra, aclamavam em Paiva Couceiro o símbolo do valor, da honra, e do amor, sacrificado até ao heroísmo, com que todo o português deve servir e engrandecer o seu Deus e a sua Pátria.
Padre Sebastião Pinto da Rocha, S.J.
“A 11 fevereiro do ano corrente, dia da festa de N. Senhora de Lourdes, por volta da uma da tarde, fechava o curso dos seus longos e acidentados oitenta e três anos de idade o famigerado Comandante Henrique de Paiva Couceiro, popularíssimo caudilho da Monarquia. Toda a imprensa de todos os créditos políticos ou representativa dos mais variados interesses foi unânime no testemunho público das virtudes morais e cívicas deste grande português. - “Carácter sem mácula”; “O Nun’Álvares da nova Idade”; “a figura ideal de português”; “O português sem mácula, que viveu deslocado no seu tempo. Alma de elite, poucos tiveram, como ele, em tão alto grau, o culto da Honra e do Dever”; “Campeão de recorte medievo”; “Dobram-nos perante o seu corpo, comovidamente, como perante um Grande de Portugal, que passou definitivamente as soleiras da História, em que não cabem todos” ... E, como estes, quantos outros dizeres expressivos da grandeza moral deste homem! Coisa notável: havendo ele sido de todos os nossos cabos de guerra o mais parecido com Mouzinho de Albuquerque que nos lances da aventura guerreira, por exemplo no combate de Magul, e no êxito feliz das loucuras da sua temeridade de cavaleiro medieval, contudo a atenção dos comentadores da sua vida fixa-se tanto, agora, no maravilhoso dos seus feitos militares, quanto na integridade do seu viver e na nobreza e lealdade do seu carácter.
É que realmente custa menos ser herói do que virtuoso.
Couceiro o confessou um dia, numa tarde de Maio, na sua residência de St. Amaro de Oeiras, ao declarar a um dos seus dedicados adeptos: “Só Deus sabe o trabalho que tive, pela vida fora, para me conservar sempre pobre!”
Nem o que lhe era devido ele reclamou!...quanto mais aceitar o que traria perigo de lhe fazer perder a independência!
Quem estas linhas escreve conheceu e privou intimamente com Paiva Couceiro durante bastantes anos, até poucos dias antes da sua morte, e pode testemunhar da fé vivíssima e da piedade viril do Comandante. Sua Mãe, inglesa de sangue e de nação, tivera de exilar-se para Portugal por se ter convertido de protestante à Fé Católica. Este holocausto mereceu-lhe a bênção dos filhos que educou no amor de Deus e no culto da Pátria. Couceiro era por dentro e para Deus o que foi sempre por fora para os homens: a verdade, a retidão, a justiça, a lealdade, consciência delicada, alma a viver sempre na Graça do Senhor. Sentia verdadeira paixão de admiração por N. Senhor Jesus Cristo. Nunca foi para uma batalha nem avançou em incursões monárquicas sem primeiro se confessar e comungar.
Um mês antes do seu falecimento fomos visitá-lo, prevenidos de que o seu estado era gravíssimo. Encontrámos o Comandante estendido num canapé e embrulhado no seu velhíssimo capote de oficial de artilharia, delido do tempo e do uso (1). Ele era sempre duríssimo no trato do seu corpo. Estendidas sobre uma mesa, ao lado, três espadas: a do seu exercício diário de esgrima, a de Magul e as das incursões da Galiza. Em frente, pendurado ao alto, na parede, um grande crucifixo de bronze. Couceiro só sabia falar de Portugal, do nosso império ultramarino e da sua aspiração de ver a Pátria integrada definitivamente nos trilhos da sua missão histórica e providencial.
Quando sua filha Helena, religiosa de Santa Doroteia, foi mandada para Angola, o Comandante rejubilou, parecendo-lhe que no apostolado da filha em África estaria ele mesmo a trabalhar pelo engrandecimento e consolidação do império português do ultramar.
Naquela hora da nossa última visita, mostrando-se Couceiro apreensivo pelo que o futuro podia ainda trazer de riscos a Portugal, apontamos-lhe para o Crucifixo como sinal de esperança. O Comandante então, num movimento decidido de energia e convicção profunda, exclamou de olhos no Crucifixo: “Aquele é que é o meu Rei!”
E logo, a explicar: “Olhe, este crucifixo era de meu avô, soldado de D. Miguel. Morreu no cerco do Porto à frente de uma companhia, num assalto.
” E dizia estas palavras num tom de quem se sentia honrado e feliz da valentia do seu antepassado.
Por ordem terminante do médico, o doente fora trazido de Santo Amaro para Lisboa, havia poucos meses, e fixara residência num prédio da Avenida Praia da Vitória. Esta mudança facilitou aos amigos do Comandante mais frequente trato com ele e deu por isso ocasião a que todos melhor pudessem seguir as manifestações da sua alma, sempre nobilíssima, mesmo em frente da morte.
Tudo o que então falava era de referência só à sua incomensurável paixão de amor a Portugal e ao seu divino Rei Nosso Senhor Jesus Cristo.
O seu diálogo preferido era com Jesus Crucificado, cuja imagem, queria ter sempre diante dos olhos. Entre muitas das suas falas desses últimos dias, fixaremos aqui as seguintes, que são boa síntese de todas as mais:
- “Só tenho uma coisa a fazer: sofrer, calar e andar para a frente:”
“Ele (e apontava para o Crucifixo) sofreu, muito mais por nós, para nos salvar. É justo que eu também sofra por Portugal.”
“Sozinho não posso nada, mas com Ele vou para toda a parte”; e dirigindo-se ao Crucifixo: “Pega-me pela mão e leva-me para onde quiseres.”
“Ele é o meu amor de sempre, de toda a minha vida!”
Que formosura de alma na morte, a destes grandes homens de guerra! Que valentia de ânimo! E que ricos de coração! O Marechal Gomes da Costa, em luta com a agonia final, exclamava: “Isto é que é uma batalha!” E como quem pretendia dar uma explicação da sua tão cristã preparação para a viagem da Eternidade e da sua esperança, asseverava. “Eu tive sempre muita Fé!”
Era outro grande, da plêiade dos escolhidos de Deus para a epopeia africana.
Couceiro morre aos pés de Jesus Crucificado, como o soldado caído no fragor da batalha, diante do seu Rei, exclamando, contente de morrer ali aos pés dele em holocausto de obediência e de dedicação.
- “O meu Rei!...Ele é o meu amor de sempre, de toda a minha vida!...
O Comandante recebeu piedosamente os Sacramentos que lhe foram administrados pelo seu confessor ordinário rev. P.e Júlio Marinho, S.J. Fez as suas disposições: quis ser amortalhado com o hábito de S. Francisco de Assis; legou as suas espadas aos seus mais fiéis e dedicados companheiros de armas; e os seus terços e medalhas de Nª Senhora mandou que os repartissem pelos dois Sacerdotes com quem tratava das coisas da sua alma.
O seu funeral, sem horas militares nem ostentação de aparatosas representações oficiais, teve, contudo, o aspeto de consagração popular em que todas as classes sociais e, de mistura com a multidão de antigos combatentes, a flor da mocidade académica e da Escola de Guerra, aclamavam em Paiva Couceiro o símbolo do valor, da honra, e do amor, sacrificado até ao heroísmo, com que todo o português deve servir e engrandecer o seu Deus e a sua Pátria.
Padre Sebastião Pinto da Rocha, S.J.