Humanismo e Nacionalidade
Hipólito Raposo
Neste segundo capítulo do livro Sentido do Humanismo - reproduzido na revista Nação Portuguesa, nº 6, Dezembro de 1914, pp. 170-175 - são abordados o Humanismo, a Renascença e a Identidade Nacional. Hipólito Raposo argumenta que o Humanismo e a Renascença provocaram uma desnacionalização da cultura portuguesa, afastando-a das suas autênticas raízes e tradições. A imitação excessiva dos modelos clássicos levaram a uma perda da originalidade literária e cultural, substituindo expressões populares e autóctones por fórmulas estrangeiras. Essa tendência refletiu-se nas letras, com a preferência pelo latim e o desprezo pela literatura tradicional portuguesa. Do século XV em diante, apesar da aparente glória dos Descobrimentos e da expansão marítima, houve um enfraquecimento da consciência nacional, agravado pelo fenómeno da mestiçagem e pela introdução de elementos externos na sociedade e na cultura. Camões é apresentado como símbolo dessa contradição: embora glorioso, o seu poema “Os Lusíadas” vive mais da época renascentista do que da verdadeira alma portuguesa. Hipólito Raposo propõe aqui uma reflexão sobre a importância de afirmar a identidade nacional perante as influências externas trazidas pelo Humanismo e pela Renascença, defendendo que uma recuperação da consciência nacional e um renascimento autêntico de Portugal só poderá ser alcançado através da valorização das tradições populares. Este programa integralista de um reaportuguesamento de Portugal, rejeitando tanto o pessimismo como os modelos artificiais importados, esteve sempre no centro das suas preocupações mas, mais tarde, no texto intitulado "Lusitanidade" - in Pedras para o Templo (1933) - , Hipólito Raposo passou a ter uma perspectiva muito mais positiva da mestiçagem e da expansão portuguesa. - J. M. Q.
Taine, quando analisa as condições em que se produziu a pintura italiana da Renascença, referindo-se largamente ao favor dos Príncipes para com os humanistas e ao entusiasmo que os levava a descobrir e interpretar os velhos manuscritos, escreve estas palavras que não se harmonizam com o seu pensamento geral acerca desta época: «non seulement ils les déchiffrent et les étudient, mais ils s'en inspirent, ils se font anciens d'esprit et de cœur, ils écrivent en latin presque aussi purement que les contemporains de Cicéron et de Virgile. Le style devient tout d'un coup exquis, et l'esprit tout d'un coup adulte » [Philosophie de l'Art — vol. 1, p. 129 e ss.]
Nestas poucas linhas que servem de introito a um grande louvor, lê-se claramente uma condenação.
O humanismo aparecia, de súbito, como um processo estético artificial. Quando o século XV fez o balanço da cultura greco-latina, os estudiosos pensaram que não podendo a Antiguidade ser excedida, devia ser imitada ou igualada.
E vista em conjunto, a atividade literária dos dois séculos revela-se-nos como um duelo com o espírito clássico: são os mesmos motivos muitas vezes, idêntica língua em todos os casos.
Roma ressurgia com discípulos que parecem copistas, pelo desejo de serem romanos, antes que homens do seu tempo. Os motivos literários eram transportados intactos, à distância de quinze séculos de que se fazia taboa rasa.
A Renascença foi nos seus intuitos, uma ficção intelectual, e nas consequências, a negação do espírito particularista das nacionalidades.
Não era uma adaptação que se operava, como sucedeu por movimentos inconscientes, durante o período construtivo da Idade-Média; fazia-se uma trasladação de espírito, motivos e processos literários.
Mas a realidade, pela diferença de condições sociais, contradizia esta direção regressiva: se o Olimpo fora a esperança algum dia, do mais alto trono já os deuses tinham caído em ruína e a Mitologia doirada que os Poetas latinos cantaram, reduzia-se secamente a uma reserva de lugares-comuns para a inteligência de agora [Alexandre Herculano, História de Portugal, volume I, p. 3].
Camões, em toda a Epopeia, é vítima desta contradição: a ficção literária e o sentimento da realidade.
E a paixão clássica tão longe era levada que até utilizava os mais grosseiros processos de invenção.
Conhece-se o caso do nosso erudito André de Resende a descobrir em Évora lápides romanas que ele mesmo previamente enterrara!
[Hübner - Inscriptionum Hispaniae Latinarum Suplementum, p. 805-—: "...Resendii enim aliorumque fraudes dudum explosae sunt...”; Archivo Hist. Português — vols. III, VII e VVIII; D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Notas Vicentinas, p. 84 e ss.]
A unidade do saber determinava forçosamente a sua universalização. A pátria comum do pensamento era Roma, todos haviam de reconhecer-se como filhos da mesma fonte civilizadora.
Os humanistas, por isso, não tinham pátria.
Na Universidade de Coimbra ou nos Colégios de humanidades que a cercavam, vinham ensinar mestres de toda a Europa, e Portugal enviava para todas as nações cultas os seus pedagogos, especialmente para a França onde os bolseiros d' El-Rei foram os preceptores da renascença francesa.
[Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 57 e ss.; Teófilo Braga, Camões, Época e Vida, p. 77 e ss.; e História da Universidade de Coimbra, Il, p. 147 e ss; Coimbra Doutora, p. 25.]
Recebiam as nações uma herança gloriosa e opulenta que as perturbaria na sua regular ascensão. Perdia-se a consciência do caminho já percorrido.
Os elementos mentais nacionalizados, ocultavam a sua modéstia na vergonha do desprezo a que eram condenados. Os próprios símbolos, a forma expressiva mais irredutível, a heráldica feudal, cristã ou burguesa, eram substituídos pela simbologia clássica.
Jupiter entronizava-se de novo, renascido de algum velho barbado, trazido dos arrabaldes de Roma ou de Florença.
Mas o poder de despedir o raio só lho reconheciam algumas páginas de estilo. O seu prestígio estava morto e morta com ele a sinceridade do artista, primeira condição do espírito criador.
Onde tinham ficado, para nós, as endechas, os vilancetes velhos, os rimances, os motes glosados, baladas, cantigas, quadras — tantas formas preciosas que desde o período sincrético se foram afeiçoando pela índole de cada povo, ao génio de cada língua?
Essas expressões literárias e quantas o Cancioneiro de Resende salvou, são os documentos em que a alma da Raça se confessa vivamente e que a crise humanista escureceu no seu desdém por elas.
Assim temos de o reconhecer todos, ainda que muitos timidamente o façam, quando sujeitamos os dois períodos ao mais rápido confronto.
Teófilo Braga, cuja obra é intencionalmente uma proclamação do espírito nacional, assim o confirma nestas curtas palavras: «A nacionalidade portuguesa foi comprimida na sua crença religiosa pela intolerância católica, na autonomia jurídica pelo civilismo romanista, na independência política pelo cesarismo monárquico, e no gosto poético pela imitação dos modelos clássicos» (Gil Vicente e as origens do Teatro Nacional, p. 11).
A intuição de Garrett muito cedo lhe revelou esta verdade e por isso é que o seu Romanceiro deve ser considerado, pela intuição que o guiou, a maior das suas obras.
Da compreensão, mais ou menos clara, do mesmo pensamento, outros esforços nascem a seguir e que no seu conjunto, podemos denominar hoje a companha da consciência nacional.
Os contos tradicionais recolhidos por Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso e outros, toda a obra de Martins Sarmento, Estácio da Veiga e Alberto Sampaio, os trabalhadores sábios da Portugalia, a monumental Revista Lusitana, as contribuições eruditas de A. Tomás Pires, Dr. Ataíde Oliveira e tantos quase obscuros cooperadores, arqueólogos e folcloristas, são uma poderosa afirmação de cultura, em que se revela um grande intuito reparador.
Do resultado destes esforços que a ciência oficial tanto tem contrariado, hão de provir ao certo conclusões de valor real, denunciando a verdade esquecida para opor ao artificialismo literário que há quatro séculos nos desnacionalizou o espirito e a arte.
Nesses trabalhos de consciência que tantas boas-vontades interessam, desde o estudo da língua e literatura primitivas, das artes menores, do folclore, até às afirmações do pensamento político, às tentativas de nacionalização da arquitetura e às formas de ritmo de alguns poetas e prosadores, é que deve ser procurado o segredo da nossa direção futura.
Daqui a meio século, quando o espírito crítico melhor for esclarecido com novas aquisições e sínteses e a vida das nações latinas entrar na inteira consciência do seu destino, será apreciado com rigor o significado de essa convulsão intelectual da Renascença que, parecendo um benefício pela unificação a que tendia, interrompeu o movimento de integração que se viera operando.
Estaremos, de facto, diante dum caso de fatalidade histórica pelo qual a ninguém podemos responsabilizar e que, a ser compreendido no seu efeito final, seria mesmo inconjurável.
Nada impede, porém, que sobre as consequências dele pronunciemos livremente o nosso juízo: enuncia-se uma formula de justa equivalência, afirmando que Renascença quer dizer desnacionalização.
Certo é que o nosso Ocidente é romano historicamente.
Mas antes de P. Cornelio Scipião aqui trazer as suas legiões, já a vida social tomara aspecto próprio: havia língua, religião, instituições e cultos.
O problema das nacionalidades começa a definir-se depois do ano mil, quando já se iam prendendo á terra as novas populações que nela se tinham fixado.
Segue-se um grande período de sincretismo social - o heterogénio torna-se homogénio para novamente e lentamente se diferenciar.
Na partilha, a cada nação que os acidentes naturais ou as espadas da conquista delimitavam, pertencia certo numero de elementos para resolver o problema do seu destino: persistência de alguma tradição primitiva ou autóctone, acrescida de todos os subsídios históricos, romanos, barbáricos, mouriscos etc.
As nações novas deveriam ser a síntese social e mental de todos estes dados parcelares [Ricardo Severo, Origens da Nacionalidade Portuguesa.]
Com eles ir-se-hiam definindo até á afirmação da sua unidade e plena consciencia.
Era o destino das novas monarquias ibéricas.
Portugal assim foi subindo, do século XII ao século XV, bastando-lhe trezentos anos para assumir fisionomia própria. Davam-lha a posição geográfica, a tradição histórica da luta com a Espanha e com os moiros, a índole emotiva e cismarenta, a idealidade aventureira.
Existiam três verdades que são ainda neste estertor convulsivo da hora presente, a única esperança a seguir: na ordem económico-social, o municipalismo, no domínio do espírito, a emoção lírica, na esfera política, o sentimento da independência, como única forma concreta de patriotismo, em face de Castela.
Nesse século, a individualização das duas nações era perfeita, embora a concorrência das mesmas causas irmanasse em aspiração e realizações de domínio e expansão, os dois povos peninsulares.
Foi o génio da Península que traçou o mapa da Terra, mas a Esfera, arvorada agora em
divisa de um Reino ou de um momento histórico, era um símbolo universal e morreu com a louca ambição de império que o erguera nos castelos e pendões.
Se o Humanismo, no seu significado geral, desnacionalizava as letras e a cultura, a expansão marítima desvairava-nos a consciência nos bazares do Oriente.
Á corrente comum juntava a nossa audácia um século de glorias e de heróis que traziam consigo a perdição [Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 75, 76 e 149].
O problema político que fora deslocado da África para a Índia, encontrava apenas soluções negativas, ao fim de vinte ou trinta anos.
Tinha razão o Velho do Restelo, ao erguer a sua imprecação agoirenta.
Ele era a voz do bom-senso, o espírito dos Lares que ficavam chorando o seu abandono.
O Império da Terra, ambicionado no Algarve d'Além-mar por Afonso V, ainda renascia na cabeça sonhadora de Dom Sebastião um século mais tarde, para esse querido Rei moço receber, por decreto do destino, a lição de um erro que não era dele.
Os heróis de Quinhentos, conquistadores da Índia, não são já os rudes batalhadores de Aljubarrota e Azamor: são modelos retóricos que o Humanismo recortava em Plutarco [A Expressão no Teatro — p. 15 e 16.]
Em Camões, o heroísmo dos portugueses tem sempre os seus antecedentes nas eras clássicas, fazendo-se a exaltação por paralelos (Teófilo Braga, Camões, Época e Vida, p. 119 e ss).
Com o mesmo espírito, cada capitão procurava encarnar determinado tipo de guerreiro.
Ser valente para quase todos, era preparar a atitude em que a História os havia de recolher.
É típico aquele caso do grande Afonso d'Albuquerque, a mandar joias a Rui de Pina para que ele o não esquecesse na sua
Crónica ...
Alexandre Herculano não tem razão para o censurar, a crítica presente o absolve dessa fraqueza, pois a culpa não a merece individualmente o conquistador do Oriente.
Todos os capitães esperavam, como garantia de imortalidade, o seu Jacinto Freire...
Por isso, a Alma Portuguesa, nos seus defeitos e maiores virtudes, a idade de Quatrocentos a revelara, mas o século seguinte não lhe recolheu a herança.
E, tristes de nós, que, vencidos pelo erro que tal tendencia representa, não podemos censurar, mas apenas lastimar tanto esforço de vontade mal aproveitado.
Temos de venerar Camões como um símbolo glorioso, embora ele escrevesse um livro de génio que pertence mais à sua época do que à sua Pátria.
O Camões português, altíssimo e eterno, ficou mais ainda nas líricas e nos sonetos.
Os Lusíadas começam por ser um hino e acabam numa elegia: o fim nega o princípio, tal como o destino da Nação que entrava no seu eclipse de morte.
O Poeta exprimia nobremente e com a maior grandeza, um momento que foi magnifico, mas que era funesto. Ele mesmo o reconheceu ainda, para maior desdita [Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 76]. O seu Poema é o hino e o epitáfio de uma orgia de glória de cujo cansaço ainda não pudemos refazer-nos.
Na sua significação política, os Lusíadas têm de ser considerados um documento errado; como hinário de sentimento nacional, maior livro não há no mundo; e como obra de arte, são um produto da Renascença, desde o nome que mestre Resende inventara num dos seus carmes latinos [Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Notas Vicentinas - pag. 77, n.º 69 e José Maria Rodrigues, Fontes dos Lusíadas, pp. 6-10].
Ao plano estético do poema sacrificou Camões a justiça devida ao Infante D. Henrique a quem apenas dedicou um verso.
Escureceu a glória de Bartolomeu Dias que realizou a façanha de dobrar o Cabo, destronando o velho Ptolomeu, sem ao menos se referir ao grande Navegador que abriu as portas do Oceano Indico (Aug. Epiphanio da Silva Dias, Os Lusíadas, introd. p. XIV).
Sem que tal conjectura possa envolver (segundo a ordem de ideias que venho seguindo), o mais leve agravo á memoria do Poeta que de muito cedo venerei como sagrada, poderemos supor que só o imperfeito conhecimento da língua latina levaria Camões a escrever os Lusíadas em português.
Mas este pensamento era tão natural e lógico, que um século depois vinha dar-lhe realização o humanista Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo.
Não repugnaria a Camões escrever os seus versos em latim, considerado então a língua culta por excelência e um titulo de honra para os indivíduos e para as nações [Dante começou a escrever o Inferno em versos latinos e o humanista Poggio lastima que ele mudasse de resolução, atribuindo ao estilo latino tanta importância que no seu entender, a Divina Comedia não ficaria assim inferior aos poemas antigos: ... si litteris latinis constaret, ulla ex parte poetis superioribus postponendum. Burckardt - obr. cit., vol. I, pag. 313.]
Alguns dos nossos cronistas escreveram em latim a História de Portugal, e nesta língua compuseram poemas excelentes alguns engenhos de alta lira.
Os Lusíadas em latim teriam erguido mais alto o pregão eterno.
Na sua hostilidade ao espírito das nacionalidades, o Humanismo levava também a sua influência aos domínios da arte.
Pelo fim do século XV, a última fase do gótico em Portugal, caracteriza-se pela aposição de elementos nacionais, motivos marítimos, vegetalismos do continente e da África, cordas, conchas, redes, velas, tudo sobrepujado da esfera armilar que os nossos mareantes ensinaram a construir.
Esta nacionalização do gótico, chama-se vulgarmente estilo manuelino. E a arte bem conhecida das capelas imperfeitas da Batalha, do Convento de Cristo, dos Jerónimos, dos túmulos de Santa Cruz, da Torre de Belém e de outros monumentos.
Estes novos elementos, puramente decorativos, visto conservar-se gótica a linha estrutural ou já influenciada pela maneira do Renascimento, não podem constituir um estilo, no sentido corrente do termo.
O chamado estilo manuelino é um estádio estético confuso, em que duas solicitações contrárias, a tradição e a moda, se vieram chocar.
Poderia ter-se convertido essa tendencia em estilo nacional, se fosse possível deter por mais cinquenta anos, a onda da Renascença ou se em Portugal esta apenas entrasse como subsídio construtivo, à maneira dos países do Norte.
Por 1520 dominava o manuelino; dez anos depois, já o arco de pleno cintro estava imposto definitivamente.
E o mesmo erro que de longa data, em jornais e revistas se generalizou quanto à natureza do estilo manuelino, é aconselhado ou até prescrito nos compêndios e lições escolares, quanto aos modelos da literatura clássica, eternamente inexcedíveis e dignos de ser imitados, em obediência a um conceito de beleza imutável que herdámos de Platão, o divino (Antonio Arroyo - Soares dos Reis e Teixeira Lopes, pag. 21 e seg.)
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Os elementos tradicionais da cultura e do sentimento da raça eram assim apreciados por João de Barros, na Introduçam ao Espelho de Casados:
«Quando os mancebos começam a ter entendimento do mundo gastam o tempo em livros muy desnecessarios e pouco proveitosos para si nem para outrem, assim como na fabullosa historia de Amadis, nas patranhas do Santo Grial, nas sensaborias de Palmeirim, e Primaliom, e Florisendo, e outros asi, que haviam mister totalmente exterminados que já de nenhuma cousa servem, onde ha tantos outros de que se pode tirar proveito, asi como de Santo Agostinho e de Sam Jeronimo e de Seneca, e para passar o tempo em mores façanhas que as de Esplandiam, leam a Livio Valerio Curcio, Suetonio, Eutropio e outros muitos historiadores... ».
Com este espírito, inconscientemente antinacional, se foi perdendo na tradição literária tudo quanto havia de ingénua graça nas velhas trovas e narrativas, de verdade e de emoção portuguesa, sacrificadas a uma tendencia invencível e funesta.
Depois, mais de três séculos temos vivido de motivos clássicos na literatura, estrangeiros em nossa casa, caindo na miséria estética do gongorismo das letras e da arte (pelo estilo barroco), ligando-nos apenas Bernardim e Crisfal, pela naturalidade e doçura do sentimento, às bucólicas de Rodrigues Lobo e encontrando-se em Dom Francisco Manuel de Melo, o primeiro escritor que se desgostava com a mania clássica.
Se o povo não tivesse guardado o depósito da tradição na melopeia dos rimances, essas baladas dos lentos serões, que devem ter nascido nas lareiras da Península e o seu ritmo ser marcado pelo rodar do fuso com que donas e servas fiavam o linho sobre a pedra redonda do lume — sem o povo, os documentos mais directos e sinceros da nossa sensibilidade não os poderíamos possuir.
Bendita a ignorância que os salvou!
Ao subsolo da sua memória, por essas províncias, nós iremos buscá-los e com eles e com tudo o que é nosso é que a verdadeira renascença há-de ser feita.
Em poucos anos talvez, uma grande síntese demonstrará, contra o erro funesto de Oliveira Martins, que a nacionalidade não é um capricho do acaso, vivendo oito séculos da complacência alheia.
O seu pessimismo é dos maiores venenos doutrinários que podem levar á morte a mais enérgica organização.
Contra todos os negativistas havemos nós de erguer-nos em nome da verdade histórica, afirmando dignamente até à morte, o direito que temos à vida.
Desde a tutela humanista que a consciência coletiva não é despertada, senão para repelir algum perigo visível e jamais para o conjurar.
Ao período da Renascença começa a referir-se agora a decadência das nações latinas.
Em Portugal em que a sua influência mais penetrou, o nosso período áureo é comparado ao Século de Augusto em factos e pessoas.
Se tal processo crítico não fosse a mais solene abdicação de consciência histórica, poderíamos ainda juntar mais um elemento que, abundando na antiga Roma, não faltou á ínclita Lisboa, sua rival: os escravos (Oliveira Martins, obr. cit., pag. 137 ss]
Vinham as legiões nas galés, desde o século XV, os míseros guinéus que eram vendidos como reses.
Nenhum povo da Terra foi mais dono de homens do que nós fomos. E esses rebanhos encarvoados, trazidos aos milhares, se não puderam dominar-nos pelas leis, transfundiram-se no sangue, gerando mestiços e deprimindo a energia moral da raça.
Os escravos em Roma eram de todas as cores e os nossos eram também diversos - negros, moiros e judeus.
Não alongaremos mais a análise deste desvairo glorioso e funesto, em que a Nação foi de súbito interrompida no seu máximo florescimento, para estudar a sorte da língua, já tão rica de recursos expressivos, quando a corrente humanista nela irrompeu com invencível vitalidade.
[Hipólito Raposo, Sentido do Humanismo, 1914, pp. 31-52.]
Nestas poucas linhas que servem de introito a um grande louvor, lê-se claramente uma condenação.
O humanismo aparecia, de súbito, como um processo estético artificial. Quando o século XV fez o balanço da cultura greco-latina, os estudiosos pensaram que não podendo a Antiguidade ser excedida, devia ser imitada ou igualada.
E vista em conjunto, a atividade literária dos dois séculos revela-se-nos como um duelo com o espírito clássico: são os mesmos motivos muitas vezes, idêntica língua em todos os casos.
Roma ressurgia com discípulos que parecem copistas, pelo desejo de serem romanos, antes que homens do seu tempo. Os motivos literários eram transportados intactos, à distância de quinze séculos de que se fazia taboa rasa.
A Renascença foi nos seus intuitos, uma ficção intelectual, e nas consequências, a negação do espírito particularista das nacionalidades.
Não era uma adaptação que se operava, como sucedeu por movimentos inconscientes, durante o período construtivo da Idade-Média; fazia-se uma trasladação de espírito, motivos e processos literários.
Mas a realidade, pela diferença de condições sociais, contradizia esta direção regressiva: se o Olimpo fora a esperança algum dia, do mais alto trono já os deuses tinham caído em ruína e a Mitologia doirada que os Poetas latinos cantaram, reduzia-se secamente a uma reserva de lugares-comuns para a inteligência de agora [Alexandre Herculano, História de Portugal, volume I, p. 3].
Camões, em toda a Epopeia, é vítima desta contradição: a ficção literária e o sentimento da realidade.
E a paixão clássica tão longe era levada que até utilizava os mais grosseiros processos de invenção.
Conhece-se o caso do nosso erudito André de Resende a descobrir em Évora lápides romanas que ele mesmo previamente enterrara!
[Hübner - Inscriptionum Hispaniae Latinarum Suplementum, p. 805-—: "...Resendii enim aliorumque fraudes dudum explosae sunt...”; Archivo Hist. Português — vols. III, VII e VVIII; D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Notas Vicentinas, p. 84 e ss.]
A unidade do saber determinava forçosamente a sua universalização. A pátria comum do pensamento era Roma, todos haviam de reconhecer-se como filhos da mesma fonte civilizadora.
Os humanistas, por isso, não tinham pátria.
Na Universidade de Coimbra ou nos Colégios de humanidades que a cercavam, vinham ensinar mestres de toda a Europa, e Portugal enviava para todas as nações cultas os seus pedagogos, especialmente para a França onde os bolseiros d' El-Rei foram os preceptores da renascença francesa.
[Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 57 e ss.; Teófilo Braga, Camões, Época e Vida, p. 77 e ss.; e História da Universidade de Coimbra, Il, p. 147 e ss; Coimbra Doutora, p. 25.]
Recebiam as nações uma herança gloriosa e opulenta que as perturbaria na sua regular ascensão. Perdia-se a consciência do caminho já percorrido.
Os elementos mentais nacionalizados, ocultavam a sua modéstia na vergonha do desprezo a que eram condenados. Os próprios símbolos, a forma expressiva mais irredutível, a heráldica feudal, cristã ou burguesa, eram substituídos pela simbologia clássica.
Jupiter entronizava-se de novo, renascido de algum velho barbado, trazido dos arrabaldes de Roma ou de Florença.
Mas o poder de despedir o raio só lho reconheciam algumas páginas de estilo. O seu prestígio estava morto e morta com ele a sinceridade do artista, primeira condição do espírito criador.
Onde tinham ficado, para nós, as endechas, os vilancetes velhos, os rimances, os motes glosados, baladas, cantigas, quadras — tantas formas preciosas que desde o período sincrético se foram afeiçoando pela índole de cada povo, ao génio de cada língua?
Essas expressões literárias e quantas o Cancioneiro de Resende salvou, são os documentos em que a alma da Raça se confessa vivamente e que a crise humanista escureceu no seu desdém por elas.
Assim temos de o reconhecer todos, ainda que muitos timidamente o façam, quando sujeitamos os dois períodos ao mais rápido confronto.
Teófilo Braga, cuja obra é intencionalmente uma proclamação do espírito nacional, assim o confirma nestas curtas palavras: «A nacionalidade portuguesa foi comprimida na sua crença religiosa pela intolerância católica, na autonomia jurídica pelo civilismo romanista, na independência política pelo cesarismo monárquico, e no gosto poético pela imitação dos modelos clássicos» (Gil Vicente e as origens do Teatro Nacional, p. 11).
A intuição de Garrett muito cedo lhe revelou esta verdade e por isso é que o seu Romanceiro deve ser considerado, pela intuição que o guiou, a maior das suas obras.
Da compreensão, mais ou menos clara, do mesmo pensamento, outros esforços nascem a seguir e que no seu conjunto, podemos denominar hoje a companha da consciência nacional.
Os contos tradicionais recolhidos por Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso e outros, toda a obra de Martins Sarmento, Estácio da Veiga e Alberto Sampaio, os trabalhadores sábios da Portugalia, a monumental Revista Lusitana, as contribuições eruditas de A. Tomás Pires, Dr. Ataíde Oliveira e tantos quase obscuros cooperadores, arqueólogos e folcloristas, são uma poderosa afirmação de cultura, em que se revela um grande intuito reparador.
Do resultado destes esforços que a ciência oficial tanto tem contrariado, hão de provir ao certo conclusões de valor real, denunciando a verdade esquecida para opor ao artificialismo literário que há quatro séculos nos desnacionalizou o espirito e a arte.
Nesses trabalhos de consciência que tantas boas-vontades interessam, desde o estudo da língua e literatura primitivas, das artes menores, do folclore, até às afirmações do pensamento político, às tentativas de nacionalização da arquitetura e às formas de ritmo de alguns poetas e prosadores, é que deve ser procurado o segredo da nossa direção futura.
Daqui a meio século, quando o espírito crítico melhor for esclarecido com novas aquisições e sínteses e a vida das nações latinas entrar na inteira consciência do seu destino, será apreciado com rigor o significado de essa convulsão intelectual da Renascença que, parecendo um benefício pela unificação a que tendia, interrompeu o movimento de integração que se viera operando.
Estaremos, de facto, diante dum caso de fatalidade histórica pelo qual a ninguém podemos responsabilizar e que, a ser compreendido no seu efeito final, seria mesmo inconjurável.
Nada impede, porém, que sobre as consequências dele pronunciemos livremente o nosso juízo: enuncia-se uma formula de justa equivalência, afirmando que Renascença quer dizer desnacionalização.
Certo é que o nosso Ocidente é romano historicamente.
Mas antes de P. Cornelio Scipião aqui trazer as suas legiões, já a vida social tomara aspecto próprio: havia língua, religião, instituições e cultos.
O problema das nacionalidades começa a definir-se depois do ano mil, quando já se iam prendendo á terra as novas populações que nela se tinham fixado.
Segue-se um grande período de sincretismo social - o heterogénio torna-se homogénio para novamente e lentamente se diferenciar.
Na partilha, a cada nação que os acidentes naturais ou as espadas da conquista delimitavam, pertencia certo numero de elementos para resolver o problema do seu destino: persistência de alguma tradição primitiva ou autóctone, acrescida de todos os subsídios históricos, romanos, barbáricos, mouriscos etc.
As nações novas deveriam ser a síntese social e mental de todos estes dados parcelares [Ricardo Severo, Origens da Nacionalidade Portuguesa.]
Com eles ir-se-hiam definindo até á afirmação da sua unidade e plena consciencia.
Era o destino das novas monarquias ibéricas.
Portugal assim foi subindo, do século XII ao século XV, bastando-lhe trezentos anos para assumir fisionomia própria. Davam-lha a posição geográfica, a tradição histórica da luta com a Espanha e com os moiros, a índole emotiva e cismarenta, a idealidade aventureira.
Existiam três verdades que são ainda neste estertor convulsivo da hora presente, a única esperança a seguir: na ordem económico-social, o municipalismo, no domínio do espírito, a emoção lírica, na esfera política, o sentimento da independência, como única forma concreta de patriotismo, em face de Castela.
Nesse século, a individualização das duas nações era perfeita, embora a concorrência das mesmas causas irmanasse em aspiração e realizações de domínio e expansão, os dois povos peninsulares.
Foi o génio da Península que traçou o mapa da Terra, mas a Esfera, arvorada agora em
divisa de um Reino ou de um momento histórico, era um símbolo universal e morreu com a louca ambição de império que o erguera nos castelos e pendões.
Se o Humanismo, no seu significado geral, desnacionalizava as letras e a cultura, a expansão marítima desvairava-nos a consciência nos bazares do Oriente.
Á corrente comum juntava a nossa audácia um século de glorias e de heróis que traziam consigo a perdição [Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 75, 76 e 149].
O problema político que fora deslocado da África para a Índia, encontrava apenas soluções negativas, ao fim de vinte ou trinta anos.
Tinha razão o Velho do Restelo, ao erguer a sua imprecação agoirenta.
Ele era a voz do bom-senso, o espírito dos Lares que ficavam chorando o seu abandono.
O Império da Terra, ambicionado no Algarve d'Além-mar por Afonso V, ainda renascia na cabeça sonhadora de Dom Sebastião um século mais tarde, para esse querido Rei moço receber, por decreto do destino, a lição de um erro que não era dele.
Os heróis de Quinhentos, conquistadores da Índia, não são já os rudes batalhadores de Aljubarrota e Azamor: são modelos retóricos que o Humanismo recortava em Plutarco [A Expressão no Teatro — p. 15 e 16.]
Em Camões, o heroísmo dos portugueses tem sempre os seus antecedentes nas eras clássicas, fazendo-se a exaltação por paralelos (Teófilo Braga, Camões, Época e Vida, p. 119 e ss).
Com o mesmo espírito, cada capitão procurava encarnar determinado tipo de guerreiro.
Ser valente para quase todos, era preparar a atitude em que a História os havia de recolher.
É típico aquele caso do grande Afonso d'Albuquerque, a mandar joias a Rui de Pina para que ele o não esquecesse na sua
Crónica ...
Alexandre Herculano não tem razão para o censurar, a crítica presente o absolve dessa fraqueza, pois a culpa não a merece individualmente o conquistador do Oriente.
Todos os capitães esperavam, como garantia de imortalidade, o seu Jacinto Freire...
Por isso, a Alma Portuguesa, nos seus defeitos e maiores virtudes, a idade de Quatrocentos a revelara, mas o século seguinte não lhe recolheu a herança.
E, tristes de nós, que, vencidos pelo erro que tal tendencia representa, não podemos censurar, mas apenas lastimar tanto esforço de vontade mal aproveitado.
Temos de venerar Camões como um símbolo glorioso, embora ele escrevesse um livro de génio que pertence mais à sua época do que à sua Pátria.
O Camões português, altíssimo e eterno, ficou mais ainda nas líricas e nos sonetos.
Os Lusíadas começam por ser um hino e acabam numa elegia: o fim nega o princípio, tal como o destino da Nação que entrava no seu eclipse de morte.
O Poeta exprimia nobremente e com a maior grandeza, um momento que foi magnifico, mas que era funesto. Ele mesmo o reconheceu ainda, para maior desdita [Oliveira Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença em Portugal, p. 76]. O seu Poema é o hino e o epitáfio de uma orgia de glória de cujo cansaço ainda não pudemos refazer-nos.
Na sua significação política, os Lusíadas têm de ser considerados um documento errado; como hinário de sentimento nacional, maior livro não há no mundo; e como obra de arte, são um produto da Renascença, desde o nome que mestre Resende inventara num dos seus carmes latinos [Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Notas Vicentinas - pag. 77, n.º 69 e José Maria Rodrigues, Fontes dos Lusíadas, pp. 6-10].
Ao plano estético do poema sacrificou Camões a justiça devida ao Infante D. Henrique a quem apenas dedicou um verso.
Escureceu a glória de Bartolomeu Dias que realizou a façanha de dobrar o Cabo, destronando o velho Ptolomeu, sem ao menos se referir ao grande Navegador que abriu as portas do Oceano Indico (Aug. Epiphanio da Silva Dias, Os Lusíadas, introd. p. XIV).
Sem que tal conjectura possa envolver (segundo a ordem de ideias que venho seguindo), o mais leve agravo á memoria do Poeta que de muito cedo venerei como sagrada, poderemos supor que só o imperfeito conhecimento da língua latina levaria Camões a escrever os Lusíadas em português.
Mas este pensamento era tão natural e lógico, que um século depois vinha dar-lhe realização o humanista Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo.
Não repugnaria a Camões escrever os seus versos em latim, considerado então a língua culta por excelência e um titulo de honra para os indivíduos e para as nações [Dante começou a escrever o Inferno em versos latinos e o humanista Poggio lastima que ele mudasse de resolução, atribuindo ao estilo latino tanta importância que no seu entender, a Divina Comedia não ficaria assim inferior aos poemas antigos: ... si litteris latinis constaret, ulla ex parte poetis superioribus postponendum. Burckardt - obr. cit., vol. I, pag. 313.]
Alguns dos nossos cronistas escreveram em latim a História de Portugal, e nesta língua compuseram poemas excelentes alguns engenhos de alta lira.
Os Lusíadas em latim teriam erguido mais alto o pregão eterno.
Na sua hostilidade ao espírito das nacionalidades, o Humanismo levava também a sua influência aos domínios da arte.
Pelo fim do século XV, a última fase do gótico em Portugal, caracteriza-se pela aposição de elementos nacionais, motivos marítimos, vegetalismos do continente e da África, cordas, conchas, redes, velas, tudo sobrepujado da esfera armilar que os nossos mareantes ensinaram a construir.
Esta nacionalização do gótico, chama-se vulgarmente estilo manuelino. E a arte bem conhecida das capelas imperfeitas da Batalha, do Convento de Cristo, dos Jerónimos, dos túmulos de Santa Cruz, da Torre de Belém e de outros monumentos.
Estes novos elementos, puramente decorativos, visto conservar-se gótica a linha estrutural ou já influenciada pela maneira do Renascimento, não podem constituir um estilo, no sentido corrente do termo.
O chamado estilo manuelino é um estádio estético confuso, em que duas solicitações contrárias, a tradição e a moda, se vieram chocar.
Poderia ter-se convertido essa tendencia em estilo nacional, se fosse possível deter por mais cinquenta anos, a onda da Renascença ou se em Portugal esta apenas entrasse como subsídio construtivo, à maneira dos países do Norte.
Por 1520 dominava o manuelino; dez anos depois, já o arco de pleno cintro estava imposto definitivamente.
E o mesmo erro que de longa data, em jornais e revistas se generalizou quanto à natureza do estilo manuelino, é aconselhado ou até prescrito nos compêndios e lições escolares, quanto aos modelos da literatura clássica, eternamente inexcedíveis e dignos de ser imitados, em obediência a um conceito de beleza imutável que herdámos de Platão, o divino (Antonio Arroyo - Soares dos Reis e Teixeira Lopes, pag. 21 e seg.)
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Os elementos tradicionais da cultura e do sentimento da raça eram assim apreciados por João de Barros, na Introduçam ao Espelho de Casados:
«Quando os mancebos começam a ter entendimento do mundo gastam o tempo em livros muy desnecessarios e pouco proveitosos para si nem para outrem, assim como na fabullosa historia de Amadis, nas patranhas do Santo Grial, nas sensaborias de Palmeirim, e Primaliom, e Florisendo, e outros asi, que haviam mister totalmente exterminados que já de nenhuma cousa servem, onde ha tantos outros de que se pode tirar proveito, asi como de Santo Agostinho e de Sam Jeronimo e de Seneca, e para passar o tempo em mores façanhas que as de Esplandiam, leam a Livio Valerio Curcio, Suetonio, Eutropio e outros muitos historiadores... ».
Com este espírito, inconscientemente antinacional, se foi perdendo na tradição literária tudo quanto havia de ingénua graça nas velhas trovas e narrativas, de verdade e de emoção portuguesa, sacrificadas a uma tendencia invencível e funesta.
Depois, mais de três séculos temos vivido de motivos clássicos na literatura, estrangeiros em nossa casa, caindo na miséria estética do gongorismo das letras e da arte (pelo estilo barroco), ligando-nos apenas Bernardim e Crisfal, pela naturalidade e doçura do sentimento, às bucólicas de Rodrigues Lobo e encontrando-se em Dom Francisco Manuel de Melo, o primeiro escritor que se desgostava com a mania clássica.
Se o povo não tivesse guardado o depósito da tradição na melopeia dos rimances, essas baladas dos lentos serões, que devem ter nascido nas lareiras da Península e o seu ritmo ser marcado pelo rodar do fuso com que donas e servas fiavam o linho sobre a pedra redonda do lume — sem o povo, os documentos mais directos e sinceros da nossa sensibilidade não os poderíamos possuir.
Bendita a ignorância que os salvou!
Ao subsolo da sua memória, por essas províncias, nós iremos buscá-los e com eles e com tudo o que é nosso é que a verdadeira renascença há-de ser feita.
Em poucos anos talvez, uma grande síntese demonstrará, contra o erro funesto de Oliveira Martins, que a nacionalidade não é um capricho do acaso, vivendo oito séculos da complacência alheia.
O seu pessimismo é dos maiores venenos doutrinários que podem levar á morte a mais enérgica organização.
Contra todos os negativistas havemos nós de erguer-nos em nome da verdade histórica, afirmando dignamente até à morte, o direito que temos à vida.
Desde a tutela humanista que a consciência coletiva não é despertada, senão para repelir algum perigo visível e jamais para o conjurar.
Ao período da Renascença começa a referir-se agora a decadência das nações latinas.
Em Portugal em que a sua influência mais penetrou, o nosso período áureo é comparado ao Século de Augusto em factos e pessoas.
Se tal processo crítico não fosse a mais solene abdicação de consciência histórica, poderíamos ainda juntar mais um elemento que, abundando na antiga Roma, não faltou á ínclita Lisboa, sua rival: os escravos (Oliveira Martins, obr. cit., pag. 137 ss]
Vinham as legiões nas galés, desde o século XV, os míseros guinéus que eram vendidos como reses.
Nenhum povo da Terra foi mais dono de homens do que nós fomos. E esses rebanhos encarvoados, trazidos aos milhares, se não puderam dominar-nos pelas leis, transfundiram-se no sangue, gerando mestiços e deprimindo a energia moral da raça.
Os escravos em Roma eram de todas as cores e os nossos eram também diversos - negros, moiros e judeus.
Não alongaremos mais a análise deste desvairo glorioso e funesto, em que a Nação foi de súbito interrompida no seu máximo florescimento, para estudar a sorte da língua, já tão rica de recursos expressivos, quando a corrente humanista nela irrompeu com invencível vitalidade.
[Hipólito Raposo, Sentido do Humanismo, 1914, pp. 31-52.]
Neste capítulo de Sentido do Humanismo (1914), o período da Renascença é apresentado por Hipólito Raposo como um período de desnacionalização e de decadência; a expansão portuguesa como causa da decadência (na linha de Antero de Quental); e a mestiçagem como negativa - "deprimindo a energia moral da raça" [Aquilino Ribeiro e Raul Proença, do grupo da Seara Nova, terão, nos anos de 1920, uma perspectiva semelhante, se bem que mais agreste e chegando, no caso de Proença, ao ponto de defender a Eugenia].
A perspectiva de Hipólito Raposo a respeito da Expansão portuguesa alterou-se depois substancialmente. Em 1933, no texto intitulado "Lusitanidade", esta é descrita como "uma procissão civilizadora que há cinco séculos está passando":
"Há mais de cinco séculos que Portugal anda a correr mundo, a transfundir a sua alma cristã nas almas dos gentios de todas as latitudes, o seu sangue na vida de outras raças, oferecendo à história dos homens o mais belo testemunho de esforço coletivo. Contra essa certeza, não prevalecerá a ignorância ou a ingratidão de alguns, entre os milhões que com nossos maiores aprenderam a falar, nem por isso o Brasil poderá deixar de ser, entre tantas terras e gentes da Lusitanidade, a carne da nossa carne, alma da nossa alma irmã.
Pelo Brasil, Portugal revive no sangue e sobrevive no espírito, prolongando-se no futuro em luminosa imortalidade. Aos nossos corações de poetas e cavaleiros gostoso é saber que lá por longe, na orla ocidental do Lago Atlântico, ainda permanecem alguns fiéis semeadores de afetos lusitanos, jardineiros das flores da alma, na linda pátria de que a Nação Portuguesa foi o berço e de que por saudosos afetos, sempre será o lar paterno."