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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
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A Língua e a Arte

Hipólito Raposo

Para dar realidade ao sonho ibérico que seria um pesadelo eterno para os portugueses, seria necessário refundir a alma da nossa raça, roubar-lhe os excessos da sua sentimentalidade lírica, o seu espírito de aventura, a luz nunca extinta da Esperança no Encoberto, e anulá-la depois de encontro ao ardor violento, à dureza da gente castelhana.
Era conseguir o absurdo de fundir uma gota de sangue com uma lágrima, não distinguir um abutre de um rouxinol que morre cantando, juntar na mesma boca uma súplica e uma praga.
E já que o Acaso, Deus da Historia, não quis que assim fosse, não quereremos nós jamais que assim seja!
- H. R.

 ( Conferência feita na Liga Naval Portuguesa, em 21 de Abril de 1915 )

 [ ​1916_-_a_questão_ibérica_-_integralismo_lusitano.pdf ]

RESUMO
Este texto apresenta uma análise das diferenças e especificidades linguísticas, literárias e artísticas de Portugal e Espanha, desde a civilização romano-hispânica até ao século XIX,  defendendo as singularidades das identidades portuguesa e castelhana.
O latim vulgar foi a base comum das línguas neolatinas na Península, tendo a autonomia linguistica portuguesa resultado de transformações diferenciadas em Portugal e Castela provocadas pelas invasões, reconquista e isolamento geográfico. Analisa com minúcia fenómenos fonéticos e morfológicos, como a ditongação, a nasalização e a existência do infinitivo pessoal, sublinhando a profunda individualidade do português face ao galego e ao castelhano.
Na literatura, contrapõe o lirismo português — marcado pela saudade, doçura e introspecção — à veia épica, violenta e heróica dos textos castelhanos. Destaca episódios e poemas paradigmáticos de cada país, desde o “Poema del Cid” ao lirismo trovadoresco, mostrando como estilos, temas e sensibilidades divergem radicalmente. Realça a predominância do teatro em Espanha (com nomes como Lope de Vega e Calderón) e a sua relativa debilidade em Portugal, onde o lirismo e o subjetivismo suplantam a dramaticidade coletiva.
No campo artístico, evidencia as influências orientais, românicas, góticas e mouriscas sobre a Península, mas defende que, apesar das trocas e contactos, Portugal e Espanha desenvolvem estilos próprios. Sublinha o caráter rural, disperso e regional da arte portuguesa, em contraste com o urbanismo e centralismo de Castela. Exalta a originalidade do manuelino e da ourivesaria portuguesa, bem como a especificidade das manifestações populares e religiosas em ambas as nações.
Conclui que a fusão das duas identidades seria impossível, pois cada povo tem uma alma, uma sensibilidade e um destino próprios, celebrando a individualidade linguística e cultural de Portugal e sua independência política.
A língua como expressão máxima da civilização hispano-romana
Começando por situar a língua como o mais alto índice de civilização da Hispânia romana, enfatiza que, mesmo após as invasões bárbaras e o consequente esquecimento da cultura literária clássica, a força transformadora da língua sobreviveu como traço de continuidade. A dominação romana foi marcada pela assimilação e tolerância, respeitando a diversidade dos povos e costumes, mas impondo o latim vulgar como língua comum, diferente do latim clássico dos autores eruditos. Este latim popular, falado por soldados e colonos, foi o embrião das línguas neolatinas que surgiriam na Península Ibérica.

O impacto das invasões e da reconquista
Com a queda do Império Romano e as invasões bárbaras, seguiu-se um período de crise e reordenação. A Igreja emergiu como instituição salvadora do saber e da tradição clássica. Os godos, que sucederam aos invasores, procuraram restaurar o direito romano e cristianizar o território, mas o seu poder esmoreceu, abrindo caminho para a invasão árabe e uma nova onda de influências culturais. Os árabes, apesar de conquistadores, revelaram-se tolerantes, e o contacto entre civilizações permitiu a sobrevivência e cruzamento de tradições.
A reação neogótica, organizada na resistência cristã das Astúrias e da Galiza, seria o ponto de partida para a reconquista e, posteriormente, para a formação das nacionalidades peninsulares. Portugal nasceu desse processo, resultado de uma lenta diferenciação, marcada por lutas, resistências locais e a emergência de uma consciência própria.

Diferenciação das línguas neolatinas
O texto destaca o processo de formação das línguas neolatinas na Península, salientando a importância do romance galego-português, surgido nas margens do Minho, como manifestação linguística das tendências de diferenciação das nacionalidades. A partir do latim vulgar, cada região desenvolveu características próprias, influenciadas pelo isolamento, pelo contacto com outras línguas e pelas condições sociais e culturais.

Vocalismo e consonantismo: traços distintivos
Exemplos concretos são apresentados para ilustrar as diferenças fonéticas entre português e castelhano, como a ditongação das vogais tónicas, o tratamento de certos grupos consonânticos e a evolução dos ditongos latinos. O português revela um vocalismo complexo e uma tendência para a nasalização, enquanto o castelhano apresenta soluções fonéticas distintas. A morfologia também apresenta diferenças profundas, sendo notável no português a existência do infinitivo pessoal, fenómeno único nas línguas do mundo.

O estatuto do galego e do português
Rejeita a ideia de que o português seja apenas um dialeto do galego, argumentando que, apesar das semelhanças iniciais, foi o português que atingiu o estatuto de língua nacional, enquanto o galego permaneceu restrito por razões políticas e sociais. O galego-português, especialmente na poesia trovadoresca dos cancioneiros, representa um património comum, mas a evolução histórica separou os destinos de ambas as línguas.

​Testemunhos sobre a individualidade da língua portuguesa
Diversos autores nacionais e estrangeiros são citados para confirmar a distinção e a originalidade da língua portuguesa, realçando a sua doçura, musicalidade e flexibilidade expressiva. Enquanto grandes clássicos como Cervantes e Lope de Vega exaltam a beleza e suavidade do português, críticos mais severos, como Ludwig Tieck e o imperador Maximiliano do México, apresentam juízos depreciativos, que o autor relativiza como fruto de incompreensão e preconceito.
João de Barros e Carolina Michaëlis de Vasconcelos são evocados como defensores da dignidade, riqueza e autonomia da linguagem portuguesa, sublinhando a sua organicidade e coerência, especialmente na tradição trovadoresca, onde se manifesta a fusão entre sentimento e forma.

Confronto literário: poesia épica e lírica
A segunda parte do texto aprofunda o confronto entre as tradições literárias portuguesa e castelhana. Em Castela, a narrativa épica emerge como forma dominante, com o "Poema del Cid" a exaltar o heroísmo, a violência e o sentido nacionalista. Em contraste, a tradição lírica portuguesa, desde os trovadores até aos poetas palacianos, privilegia o sentimento, a saudade, o amor e a doçura, com destaque para a poesia de D. Sancho I e os versos de Paio Soares de Taveiros.
A poesia galego-portuguesa, marcada pela musicalidade e pelo ritmo da dança, revela uma sensibilidade mais terna, familiar e popular, em oposição ao formalismo e ao moralismo que caracterizam, progressivamente, a poesia espanhola do século XV.

Literatura de ação, teatro e romances
O texto analisa a lógica evolução da literatura de ação em Castela, desde o romance de tradição oral até à formação do teatro. Em Portugal, a tradição teatral é mais episódica e influenciada por modelos estrangeiros, com Gil Vicente como o principal expoente, mas sem a continuidade espanhola. Ao nível dos romances populares, destaca-se a diferença de abordagem dos temas do amor — enquanto o romance espanhol tende para a malícia e a transgressão, o português exalta a nobreza, a honra e a castidade.

As artes plásticas e a arquitetura
A análise artística percorre as influências orientais e ocidentais na Península, a distinção entre o urbanismo castelhano e o ruralismo português, e a sua manifestação na arquitetura (românica, gótica, manuelina, plateresca). Monumentos emblemáticos como a Sé de Coimbra, Santa Maria da Batalha, Santiago de Compostela e a Catedral de Burgos ilustram o esplendor artístico das épocas. Na pintura, salientam-se as figuras de Nuno Gonçalves, Grão Vasco e Sequeira em Portugal, e Ribera, Zurbarán, Murillo, Velázquez e El Greco em Espanha, destacando o carácter mais lírico, familiar e terno dos portugueses, face ao realismo violento e trágico da tradição espanhola.
 
Considerações finais
Hipólito Raposo conclui que, apesar das origens comuns, as diferenças históricas, sociais, emocionais e culturais moldaram fisionomias nacionais distintas. A diversidade que se formou entre portugueses e castelhanos enriquece a Península e justifica as autonomias políticas.

J.M.Q.




​SUMÁRIO
I - A língua como índice máximo da civilização hispano-romana. Invasões dos bárbaros e esquecimento da cultura literária. Os árabes e a reação neogótica. As línguas neolatinas da Península: diferenciais no vocalismo e consonantismo, na época da transição. O galego-português. Expressão literária de Portugal e Castela: o poema del Cid e o lirismo dos trovadores; romances de la Doncela de Francia e da Donzela que vai à guerra; o lirismo de Juan de Mena e os poetas palacianos portugueses. Literatura de ação: as novelas e o teatro espanhol; carácter lírico dos autos de Gil Vicente; significação universal dos Lusíadas.

II - Arte primitiva na Península; influências orientais. A mesquita árabe e a basílica dos cristãos, Época românica: Santiago de Compostela e a Sé de Coimbra, Período Gótico: Catedral de Burgos e Santa Maria da Batalha. Significação político-social das fundações religiosas em Portugal. Urbanismo castelhano e as vilas portuguesas (ruralismo); influência na produção das obras de arte. Pablo Vergós e Nuno Gonçalves: sua interpretação e sentido. Preferências por motivos violentos na arte castelhana; as cenas familiares, os milagres e virtudes dos Santos nos nossos pintores. Plateresco e Manuelino, exprimindo uma crise de transição estética: seus contrastes. O século XVI português: mestre de Tarouca - Cristóvão de Figueiredo, Grão Vasco, Sanches Coelho. Esplendor da arte espanhola; os grandes pintores Ribera, Zurbaran e Murillo. O sangue português de Velázquez, El Greco, um caso de exílio em Espanha. Goya na continuidade da escola espanhola, Os Vieiras e Sequeira em Portugal, Divorcio de duas nações. A voz de um destino.

​


Minhas senhoras, meus senhores:


O mais incompleto conhecimento da civilização peninsular logo conduz à certeza de que vivemos num ocidente historicamente romano.

Dizem-no-lo os despojos dos mortos na cinza das sepulturas, eternamente o proclamam as inscrições rememorando votos religiosos, façanhas guerreiras ou preceitos de lei.

Aqui se amontoam as ruínas de um templo ou se desmoronam de cansaço as muralhas de uma cidade, gloriosa de trinta assédios; pelos caminhos velhos, em toda a vastidão do território das Espanhas, marcos, fontes musgosas, arcarias de pontes atestam a duração de um domínio que foi forte e soube ser fecundo.

De século em século, a picareta do arqueólogo não cessa de cavar e o seio da Terra parece inesgotável, nunca está completa a colheita de tão vasta sementeira civilizadora.

São esculturas de mármore e de bronze, expondo ao sol numa ressurreição de milagre, o esplendor da sua nudez ou a gloriosa majestade dos seus vestuários; vidros, cerâmica de formas robustas, objectos de adorno, moedas rebrilhantes — todo esse despojo opulento de um povo-rei que à Espanha trouxe deuses e heróis, os escudos dos soldados e os éditos dos Imperadores, nos convence de que o domínio romano não se fez para comerciar, à maneira dos Fenícios, nem simplesmente para submeter gentes, no pensamento de Cartago.

Na Espanha seguiram os Romanos a sua política de assimilação pela tolerância: reconhecendo a diversidade das nações dos costumes e das leis, nunca deixaram de mostrar, desde a India ao Cabo da Roca, que entre todos, o maior, o mais poderoso e amigo da justiça, era aquele cuja cabeça se chamava Roma.

Todos sabem como foi feita a conquista da Península, os meios empregados para submeter as populações remotas que estanciavam na orla do mar e que inquietavam o Senado e zombavam dos pretores mais ardilosos e valentes.

A ocupação da terra-patrum foi difícil e conseguida por último à custa da traição dos companheiros de Viriato que já agora temos de considerar o chefe da grande dinastia de heróis que recortam os seus perfis de aço em todo o horizonte da História.

Dos ribas do mar e dos recôncavos sombrios das montanhas, a energia oculta da Raça, erguida à voz de Viriato, defronta-se com as legiões e corta o voo às águias de Roma. Mas o destino era mais forte, tinha de cumprir-se, e aos Lusitanos, dizimados e surpreendidos com a morte traiçoeira do seu maior caudilho, só restavam os direitos de funeral para chorarem à volta da pira em que se consumiu o corpo do Herói, a liberdade da Terra amada e cantarem sobre a glória triste daquelas cinzas, a grandeza sobre-humana dos seus feitos.

Mais de cinco séculos vai durar a dominação dos Romanos a quem a Península delimitava o Império pelas bandas do Sol-Poente. E agora, com todo o aparato civilizador da sua ocupação, vinha também a língua que deveria sobrepor-se definitivamente aos falares primitivos da Ibéria.

A cultura literária hispano-romana foi intensa e brilhante, com filósofos, poetas e historiadores; mas não é este o momento nem o lugar para tratar dela. Teríamos de ir muito longe.

A língua que as populações peninsulares aprenderam dos Romanos, não foi o latim clássico de Cícero ou de Virgílio: do mesmo modo que hoje a gente do povo não fala como as pessoas cultas, também há dois mil anos, os soldados, colonos e mercadores que vinham do Lácio para a Espanha, não sabiam exprimir-se com correção gramatical; nem pronunciar as palavras a rigor.

Todos nós verificamos, a cada momento, a distância que nos separa do nosso criado ou de qualquer trabalhador analfabeto.

Numa palavra, o latim que veio a generalizar-se na Península era o chamado latim vulgar — sermo vulgaris, sermo rusticus— e foi dele que se originaram os idiomas modernos, sendo incorreto dizer-se, por exemplo, que as línguas portuguesa e espanhola são filhas da latina, pois que a nossa língua de hoje tem de ser considerada, no período da sua vida histórica, como desenvolvimento e continuação do latim, através da fala de mais de cinquenta gerações.

Nenhum facto social acompanha tão de perto a vida política dos povos como as línguas. Só pelo triunfo dos generais de Roma o latim se propaga de um extremo a outro do mundo.

Aqui, na Hispânia, tão completamente se substituía às línguas originárias, ao celta, ao proto basco, ao ibero, que já no decorrer do século IV era o romance ou língua neorromana, embora com diferenças regionais, a linguagem comum a toda a Península, aparte o basco que permaneceu isolado.

Por serem bem conhecidas de V. Exas, dispenso-me de expor as condições histórias em que se produziu a queda do Império Romano do Ocidente, com as invasões dos bárbaros alastrando como um dilúvio de fogo e de sangue, sobre a Europa ocidental e meridional.

Esse turbilhão exterminador e fecundo ao mesmo tempo, em que se amassaram as populações submetidas à unidade imperial foi o grande facto que nos separa do mundo antigo, pertencendo à Igreja, já triunfante do paganismo, a glória de ter salvado os pergaminhos das velhas letras e de ter estabelecido, no meio da desordem geral, com a sua hierarquia e tradição do governo, o traço que nos liga às idades clássicas.

Começa então a Idade-Média, o período mais criador de quantos a História reza. À Península, seguindo atrás do Sol, como era tradição dos mitos antigos, vinham povos sobre povos, lutando uns com outros — Alanos, Suevos, Vândalos — e na sua sina errática de peregrinos do orbe, esta courela estreita os detinha, diante da vastidão furiosa do mar.

Vêm também os Visigodos: fortes e dominadores, nenhuma resistência lhes conteria o ímpeto de avassalar. Trazem consigo um grande destino — restaurar o direito romano esquecido nos pergaminhos e nas inscrições e erguer ao alto a cruz de Cristo, depois das palavras solenes de Recaredo.

Mas, por último, apagaram-se os esplendores da corte de Toledo e amorteceram as energias do tempo de Leovigildo.

Os Árabes espreitavam, de além do Estreito, o desfalecimento derradeiro, e quando a mão traidora de Julião lhes abre as portas, a hoste de Tarique é uma nova praga que pisa o solo de Espanha avassalando-a à voz de comando dos enviados do Profeta.

Para salvar os últimos filhos dos Godos dão-lhes abrigo as montanhas e é delas que há de partir também o primeiro clamor dessa epopeia de sacrifício que foi a reconquista neogótica.

No meio da civilização vencida e ao contacto dos seus vícios e prazeres, os Maometanos ultrajam o Corão, esquecidos dos terrores infernais que queimam as suas páginas, e tornam-se uns dominadores tolerantes, brandos, deixando às populações os seus costumes e até as suas crenças.

O Califado de Córdova (1031) desmembram-no as mais ambiciosas rivalidades, enquanto a reação cristã se organiza e fortifica, a ponto de Afonso VI de Castela e Leão se apoderar da cidade de Toledo e estabelecer nela a sua corte.

Foi este grande rei que, acolhendo para a cruzada muçulmana os Condes Raimundo e Henrique de Borgonha, lhes deu duas filhas por mulheres e largas terras de senhorio.

E como as populações moçárabes não tinham perdido o seu carácter nem costumes, visto a conquista ter sido um domínio e não uma fusão, os reis e condes da reconquista haviam de encontrar nelas o mesmo espírito de hostilidade ao estrangeiro invasor.

A terra era comum, sentimentos e tradições iguais, consciência da mesma opressão, tudo estava unindo em aspirações redentoras as massas do povo, preso aos labores da terra, por veigas e outeiros.

Haveria na Ocidental Praia já mesmo o sentimento da diferença entre o Oeste e o Centro, entre o Lusitano e o Ibero, eternamente inconciliáveis e separados, segundo acusam os mais antigos testemunhos. Não era um casamento de príncipes que por milagre faria a a separação: esse facto político apenas viria consagrá-la.

A tantas energias abatidas faltava a direção que lhes desse unidade e sentido: o Conde Dom Henrique de Borgonha seria a providencia que as havia de suscitar.

Assim nasceu Portugal.

Todos sabem à custa de que esforços esta Pátria se foi constituindo, já talhando as fronteiras em terra de infiéis, flagelando a moirama de monte em fonte, já resistindo, em crises gravíssimas, à tendência centralizadora e absorvente do planalto castelhano.

Deixarei esse assunto, com o maior proveito para V. Exas, à competência dos meus camaradas e vou ocupar-me já da diferenciação da língua, um dos motivos da minha presença aqui.

As convulsões políticas que perturbaram o sossego destas populações de pastores e agricultores, não conseguiram romper a continuidade da evolução das línguas no território da Espanha.

A arremetida árabe, chegando a atravessar o Douro nos meados do século VIII, é sustada pelos soldados de Afonso I das Astúrias, o tutor dos lares e altares da terra de entre Douro e Minho e dos senhorios da Galiza, onde estacionavam os elementos de energia com que o país todo se havia de libertar.

Por esse tempo, nas margens do Rio Minho, na mais linda região de Espanha, falava-se um dialeto romance, um dos vários da Península, e talvez desde o princípio diferenciado de uma para outra margem. Era o romance galego-português que se vinha formando. As línguas correspondiam à tendência geral da diferenciação das nacionalidades, de que eram um dos maiores fatores.

Separavam-se os habitantes da velha Gália em langue d'oc e langue d'oil, o castelhano revela-se, afirma-se o catalão, aparecem o italiano e o romeno, definem-se todas os línguas neolatinas com os outros caracteres das nações.

Tinha de ser assim. Perdida a disciplina gramatical, esquecida a tradição e a cultura literária, na Espanha como no resto da Europa, ficou o latim popular entregue às leis das alterações fonéticas. A diversidade dos povos, o clima, as reacções de línguas estranhas, o isolamento em que outras viviam, foram marcando cada vez maiores diferenças entre si.

A falta de documentos escritos, mal suprida pelas inscrições em pedra ou bronze, não nos permite conhecer hoje com precisa segurança, a primeira estrutura dos diferentes dialetos peninsulares: castelhano, aragonês, catalão, galego-português.

Contudo, alguns documentos forenses, escritos em latim bárbaro do século VIII, já apresentam algumas palavras portuguesas que os notários por ignorância do vocábulo latino correspondente iam buscar à linguagem do povo.

A esta fase do romance galego-português é costume chamar português proto-histórico e vai até ao século XII em que nos aparecem os primeiros documentos literários.

O vocalismo portugués, quando tónico, ainda hoje se mantém sensivelmente igual ao do latim vulgar.

Mas parece certo que ele se distinguiu, desde sempre, logo na época romana primitiva, do vocalismo castelhano.

Uma das mais importantes transformações desse período, foi a ditongação das vogais acentuadas e, o em ie, ue: terra > tierra, corpo > cuerpo. Assim aconteceu, com mais ou menos generalidade, na Itália, na Rétia, na Gália.

Aqui na Península, porém, a lição dos factos é diferente ou inversa: enquanto o Centro realiza a ditongação e diz — piedra, fuero, o Oeste mantém as vogais simples — pedra, foro.

Se a vogal é seguida de um elemento palatal, a ditongação castelhana já não se verifica, mas produz-se a portuguesa, por meio da vocalização da consoante: directu < derecho / direito, nocte < noche - noite.

O ditongo ai (ay) do românico tornou-se e simples em Castela e ei em Portugal: fayto < hesto / feito, caballariu < cavallero / cavaleiro.

O ditongo latino au condensou-se na vogal ó em espanhol e deu em português o ditongo ou (oi): tesauru < tesoro / tesoiro.

Outra grande diferença a assinalar no vocalismo das duas línguas, é dada pelo carácter da vocalização portuguesa que é notavelmente complexa e atinge até as vogais extremas i, u, devendo remontar, segundo Bourciez, ao período pré-literário.

Muitos outros fenómenos haveria a notar, relativamente aos vocábulos dos tipos lana, avena, fine, corona, luna, se não me dominasse o receio de já estar abusando da paciência de V. Exas com assunto tão árido, e não estivesse reclamando atenção especial o ditongo mais característico e mais feio da língua portuguesa, o ditongo - ão.

Definido depois do meado do seculo XV, quando a nacionalidade subia para o seu florescimento, aparece este ditongo com os seus três plurais, a distanciar mais ainda o português do castelhano e das outras línguas co-irmãs.

Se V. Exas compararem as palavras mão, razão e pão com o espanhol, o francês, o italiano, no singular e no plural, facilmente terão compreendido, melhor do que eu lho explicaria, como neste particular a nossa língua daquelas se afasta, embora com desvantagem evidente para a sua beleza musical.

E como todas, o nossa língua não cessa de se transformar, de geração para geração, embora insensivelmente.

Há pouco mais de cem anos deixámos nós, por exemplo, de acentuar determinadas vogais, não pronunciando mais àmor, nàmoro, sèguro, dècreto, como ainda hoje dizem os brasileiros.

Se a diversidade das línguas espanhola e portuguesa não é tão notável quanto às consoantes, nas alterações da sua pronuncia encontramos factos inconciliáveis: em espanhol conservou-se o e (+ e, i) com o valor aproximado de ts; célebre, ciudad, ao passo que o português o reduz a s simples: ceia, cidade.

O y consoante, antes de vogal tónica, permanece, e antes de é, i, deu lugar a uma aspiração, fenómeno que em português se não regista, visto que no Oeste o mesmo fonema se reduz ora a g ora a j, conforme a vogal que segue: yacer, jazer; yerno, genro.

Enquanto no centro da Península, a partir do século XVI, o b se confunde com o v, sempre em Portugal se fez a distinção das duas consoantes, embora no Norte haja a tendência para as trocar:
binho, vurra.

O f inicial do latim dá em espanhol h (aspirado), enquanto hizo em português se conserva com o mesmo valor: filiu <  higo / filho.

O grupo cl dá um espanhol ll e em português normalmente ch: clamare llamar / chamar.

É para notar que a pronúncia actual da consoante ch começou a preponderar nas classes cultas de Portugal, por influencia do francês, a partir do século XVIII, pois até então as palavras chamar e chave, por exemplo, diziam-se tchamar, tchave, como ainda hoje se exprime a população dos campos.

No século XI ou XII, o l intervocálico do romance português cai em regra, depois de guturalizado; color > coor; palatiu > paaço, e o n, já antes dessa época, ao cair, nasalizava por compensação a vogal precedente: corona > corõa, donu > dõo.

Em espanhol tais factos não se deram e, enquanto em Portugal o l, em certas circunstâncias se palatiza, no centro da Península passa a gutural; folia < hofa / foina, mulier - mujer / mulher.

Todos os fenómenos que apontei são uma curta enumeração de diferenciais irredutíveis, afirmadas desde as épocas da formação das duas línguas, e que a consideração do tempo e do lugar me obriga a não levar mais longe, para não cansar a atenção amável de V. Exas.

Caminhando paralelas e acompanhando o desenvolvimento histórico das duas nações, embora permutando os seus recursos, as duas línguas peninsulares foram sempre os elementos mais distintivos dos povos que fizeram gloriosa a civilização da antiga Ibéria.

Não as acompanharei nas diferenças morfológicas, tão numerosas e profundas, entre as quais avulta a da existência do infinito pessoal, espécie de paradoxo que nenhuma língua do mundo criou, senão a portuguesa, e contentemo-nos para o intuito que aqui me trouxe, com os caracteres já enunciados.

Muitos autores espanhóis pretendem que o português é um dialecto ou uma extensão do galego.

Ainda agora o veio repetir no seu recentissimo livro — História de la lengua y literatura española, o sr. D. José Rogério Sánchez.

Trata-se de uma interpretação errada dos factos da história das línguas. Dado mesmo que a identidade dos falares d'além e d'àquem Minho fosse sempre absoluta, nunca tal expressão seria exacta, porque foi o português que atingiu o grau de língua nacional, enquanto o galego, separado dele por causas políticas ou mesmo étnicas, ficou reduzido à condição de dialecto, e na opinião de [James] Fitzmaurice-Kelly ele não é mais qu'une variété du portugais. [Littérature espangnole] 

E nós, com os melhores fundamentos, sempre reivindicámos a Galiza como nossa irmã, pois com ela, numa aspiração comum de beleza, procurámos seguir o sentido divino dos ritmos, escrevendo e cantando a poesia trovadoresca dos Cancioneiros que daqui, por intermédio de Córdova, seria comunicada à Provença, na opinião do sr. D. Julian Ribera y Tarragó, sustentada no seu discurso de admissão à Real Academia Española.

A própria bandeira regional da Galiza é azul e branca, cores iguais às da bandeira por que espera não só a convicção política, mas o sentimento de harmonia e de beleza da maior e melhor parte da Nação.

Mas, quanto ao castelhano, a nossa diferenciação é reconhecida pelas maiores competências, desde [Friedrich Christian] Diez, o patriarca da moderna filologia.

O sábio alemão Schleicher afirma: "cada um destes povos tem uma aversão profunda por certas combinações de vogais e consoantes... Esta diversidade fonético-acustica é baseada sobre uma diversidade fisiológica."

Bourciez, depois de atribuir a diferença que separa as duas línguas da Península ao clima e ao carácter dos dois povos, acrescenta: «Il y a dans la prononciation espagnole quelque chose de l'ápreté qu'ont le splateaux de l'Ibérie centrale, quelque chose aussi de la fierté des hidalgos; sous l'influence d'un climat délicieux, le portugais semble au contraire avoir subi une sorte d'amollissement progressif.»" ["Há na pronúncia do espanhol algo da rudeza dos planaltos do centro da península ibérica, algo também do orgulho dos fidalgos; sob a influência de um clima delicioso, o português parece, pelo contrário, ter sofrido uma espécie de amolecimento progressivo."]

Podia multiplicar indefinidamente os testemunhos, se alguma dúvida pudesse restar a alguém acerca da individualidade da nossa língua. São os próprios espanhóis a acusá-la, quando reconhecem a doçura e a beleza do idioma que falamos.

Cervantes, querendo exaltar, em certo passo das suas obras, os encantos de Valência e a graça harmoniosa da linguagem da terra deixou-nos esta confissão insuspeita: «Con quien sola la Portuguesa puede competir en ser dulce y suave.»

Na sua descrição da Tapada, bosque célebre dos antigos duques de Bragança, Lope de Vega, introduzindo várias ninfas cantando louvores em diversas línguas, diz da nossa que se seguiu à latina e italiana, estes versos:

Assi cantando fue la Portuguesa
Con celebrado aplauso larga historia,
A quien, por la dolçura, que professa
Entr'ambas concedieron la victoria.

Estrangeiros há que à nossa língua não reconhecem direitos a semelhantes louvores.

Ludwig Tiek calunia-a deste modo: «É essa uma curiosa linguagem que muito pueril me parece ainda. O português engole quasi tudo e profere e suspira internamente mais sílabas do que os que lhe soam pela boca e pelos labios. Mais ocupado, porem, é ainda o nariz; muito mais mesmo do que em francês. Isso dá ares, com efeito, do porco ou do leitão.»

Outro que nos quis mal foi o imperador Maximiliano do México, cuja morte trágica nos move facilmente a perdoar-lhe as palavras mal-humoradas que da nossa língua disse: «Quem não ouviu o português, não sabe como o diabo fala com sua avó; pois um tal pronunciar roufenho, sibilante, escabroso, composto de grunhidos, um tal nasalar língual e palatal, através de um aglomerado de todos os sons grosseiros e desagradáveis, só o diabo encolerizado o pode inventar.» (Frankfurter Zeitung, de 7 de outubro de 1910).

Na língua como no resto, raras vezes os estrangeiros são justos para connosco, não correspondendo à hospitalidade mais que generosa com que no nosso país são acolhidos.

Quero ainda invocar o grande clássico João de Barros que tanto amou a nossa fala e que na curiosa obra intitulada - Diálogo em louvor da nossa linguagem, escreveu estas solenes palavras:

«Esta perrogativa de sobre todalas linguagees presentes: magestade pera cousas graues, e hua eficácia baroil que representa grandes feitos. E o sinal onde se isto mais cláro ue é na musica, que naturálmente acerca de cada naçám segue o módo da fála: linguage gráve, musica graue, e sentida.»
​
E, por último, esta decisiva opinião da muito ilustre Senhora Dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos, a benemérita editora do Cancioneiro da Ajuda: "A linguagem dos trovadores é um português ilustre, selecto, convencionalmente unitário e arcaico, mas perfeitamente orgânico e coerente, claramente determinado nas suas formas e tendências, caraterizado por todas as feições peculiares que o distinguem do castelhano."

Português ou galego-português ilustre, pois havia identidade quase completa entre a língua da província do Noroeste da Espanha e a do reino de Portugal.» (C. Aj., pag. XVIII-XIX.)

Mas todos estes testemunhos, como tantos outros adormecidos no pó de antigos calhamaços ou formulados à luz da mais serena crítica — tudo quanto poderia aqui citar ainda seria pouco, ante o interesse que me solicita a comparar o espírito dos dois povos expresso nos documentos das suas literaturas.

Nada mais eloquente do que esse confronto. E como seja a poesia a forma literária em que a sensibilidade mais alta e delicadamente se patenteia, escolherei trechos em verso, comparando época a época as duas literaturas até ao século XVI, em que ambas as nacionalidades já definiram as suas feições.

A manifestação literária mais antiga da literatura castelhana passa por ser o Poema del Cid. Tem por assunto, como V. Exas decerto sabem, as hazañas de don Rodrigo de Bivar, el Cid Campeador.

Como em quase todas as nações, em Castela também a narrativa épica precedeu a historia e o Cid aparece logicamente como o primeiro herói nacional: o flibusteiro é o símbolo da supremacia de Castela sobre Leão.

O Poema é a crónica rimada, em versos duros e semi-bárbaros, da lide famosa de Castela contra os mouros e contra os que ofendiam a honra da terra e da gente, o primeiro grito violento de uma nacionalidade que irrompe.

É um documento de psicologia eloquentíssimo, onde há violências, terrores de morte, campos ensanguentados, sortidas de devastação, ferocidade e extermínio. É a grande canção de gesta de Castela.

Dele recorto alguns versos do episódio trágico que se refere à vingança que o Herói tirou dos infantes de Carrion, seus genros, por terem ofendido gravemente suas mulheres, despindo-as, açoitando-as até as deixarem num lago de sangue, desmaiadas e entregues às aves e às feras das florestas de Colpes.

Trata-se do duelo entre os partidários do Cid e os dos infantes, num fragmento que a distinta actriz, senhora D. Marina Rodrigues vai ter a bondade de nos dizer:

"Pero Bermúdez, el que antes retó
con Fernán González de cara se juntó;
friéron-se en los escudos sin todo pavor;
Fernán González à Pero Bermudez el escudo le pasó,
​prisole en vacio, en carne no le tomó 
bien en dos lugares el astil se quebró;
firme está Pero Bermudez: por eso no se encamó;
um golpe recebiera, mas otro firió.
Quebrantó la bloca del escudo, aparte se la echó;
pasóselo todo, que nada no le valió;
metióle la lanza por los pechos, que nada no le valió;
Tres golpes de Loriga tiene Fernando, aqueste los prestó;
los dos lo desmangan y la tercera fincó;
el velmez con la camisa y con la guarnición
de dentro de la carne una mano se la metió:
por la boca afuera la sangre le salió.
Quebráronle las cinchas, ninguna no le hubo pro:
por la grupa del caballo en tierra lo echó.
Así lo tenian las gentes que mal ferido es de muerte.
El dejó la lanza y al espada metió le mano;
Cuando lo vió Fernán González conuvo á Tizón:
antes que el golpe esperase dijo: ¡Vencido soy !
Otorgáronselo los fieles, Pero Bermúdez le dejó."

Enquanto esta forma poética acendia o entusiasmo do povo e dos reis de Castela, cantando-se nos campos de batalha como um hino de guerra, em Portugal vibrava a lira trovadoresca nas mãos do primeiro rei-artista que tivemos e se chamou Sancho I.

Façanhas havia-as goriosas, do velho tempo do seu pai e já quando ele era infante e foi mandado pelo Alentejo a investir contra os mouros de Sevilha, porque Dom Afonso nele reconhecia «grande animo e partes de capitão».

Como um flagelo, Dom Afonso Henriques guerreava do Douro ao Tejo, tomava Lisboa e rechaçava através da planície transtagana, as hostes mouriscas em confusão que diante daquele duro inimigo do Profeta, iam levantando as tendas para o Sul.

Mas não há um herói nacional, porque na audácia da conquista todos o eram naquelas eras bárbaras.

Foi nos intervalos de paz em que ia povoando o Reino que Dom Sancho se revelou poeta.

"O sentimento da saudade, escreve a senhora Dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos, já era familiar aos coevos de D. Diniz.

Em 1200, «morrer de amor» já era costume dos mimosos de alma atormentada. Já então os grandes olhos de criança das damas portuguesas inspiravam pela sua meiga e dorida expressão, ao mesmo tempo sensual e soberanamente espiritual e casta, amores apaixonados, mais vezes de perdição do que de salvação." (Cancioneiro d'Ajuda, I, p. 9)

Foi o amor seguramente que inspirou a mais velha das poesias portuguesas (1189) e esse primeiro lamento literário foi inspirado na última das amantes do Rei, aquela «senhor branca e vermelha», a estonteadora Dona Maria Paes Ribeiro, a Ribeirinha, filha de Paio Moniz e sobrinha de Martim Moniz, o herói da porta do castelo de Lisboa.

Ausente de Coimbra, porventura na Guarda que então andava reconstruindo, não se esquecia o Rei da Ribeirinha, que lá ficara na alcáçova do castelo, olhando para o Mondego, e para ela escreveria, como um namorado fiel, a seguinte poesia, toda feita de suspiros:

Ay eu coitada, como vivo
eu gran cuydado por meu amigo

           que ei aongado! Muito me tarda
           o meu amigo na Guarda!


Ay eu coitada, como vivo
eu gran desejo por meu amigo

            que tarda e não vejo. Muito me tarda
            o meu amigo na Guarda!


Mas o mais autêntico poeta do amor, e que primeiro ardeu no fogo do ciúme, foi Paay Soares de Taveiroos, já infeliz como todos os poetas apaixonados e que amava, por maior desventura, a própria favorita do Rei Dom Sancho que parece se comprazia em martirizá-lo com os mais cruéis desdens.

Pelo mesmo tempo, João Soares de Paiva, o trovador, exila-se na Galiza onde morre apaixonado por uma infanta de Portugal e acima de todos, cumpre não esquecer o mais glorioso dos protomártires do coração, Pedro Rodrigues da Palmeira - o que morreu de amor por Dona Maria Pais de Valadares.

A poesia trovadoresca castelhana, representada quase toda nas 420 Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio, tem um carácter religioso exclusivamente, são louvores a Nossa Senhora para cuja composição o Rei se serviu do galego, ao mesmo tempo que mandava escrever em espanhol a lei das Siete Partidas.

Até então, a literatura castelhana era puramente narrativa e foi o talento deste rei que lhe deu a forma lírica.

Inutilmente procuraremos paralelo entre o espírito da poesia galego-portuguesa e a castelhana.

As musas da nossa poesia alvorescente ou são a senhor nobre, palaciana, desprezadora de galanteios e adorações, ou a rapariga do povo, branda, doce, cheia de castidade, vigiada pelo cuidado da mãe que a defende dos perigos da inexperiência.

Os seus prazeres mais confessados são ver o seu amigo (namorado), bailar diante dele, encontrarem-se nas romarias em ermidas ou santuarios da serra e do mar, em Santa Maria das Leiras, em San Servando, em cujos terreiros os bailados seriam apenas de raparigas, de mãos dadas, debaixo das avelaneiras floridas ou mesmo nos adros das igrejas, como ainda agora acontece nas aldeias mais remotas das nossas províncias.

​
Sempre os portugueses tiveram fama justa de bons bailadores e a dança muito querida foi dos próprios soberanos.

Basta lembrar as sortidas de Dom Pedro I da Alcáçova para o Rossio de Lisboa, dançando no meio do povo, entre archotes, num delírio semi-louco, e ocorre-me ainda aquele caso de regozijo nacional, quando do casamento do Príncipe Dom Afonso, filho de Dom João II, em que velhos e velhas honrados «com o sobejo prazer foram juntos cantar e bailar deante del-rey e a rainha».

Saindo o monarca da Sé, veio ao seu encontro Briolanja Anriquez, cantando e tangendo um pandeiro. Vendo-a, «el-rei com prazer a tomou nas ancas da mula e a levou assim com muita honra onde a rainha estava».

Esta passagem da crónica de Resende alguma prova nos traz da tirania com que tratavam o povo escravo os reis absolutos de Portugal...

E não estranhem V. Ex.as que a propósito da poesia eu me detenha em referencias à dança, pois muitas vezes as poesias (bailatas) eram escritas no ritmo da dança e quase sempre próprias para serem cantadas com acompanhamento de instrumentos músicos. Era a expressão integral do ritmo que se verificou na infância de todos os povos. Mas, antes de deixar a época dos trovadores, quero aqui revelar duas admiráveis composições: uma cantiga de romaria e uma bailata, ambas do Cancioneiro da Vaticana.

A primeira pertence a um trovador chamado Mendinho e é a fala de uma namorada que fora à ermida de San Simion; à beira-mar, e ali ficara esperando tempos esquecidos, o seu amigo que não vinha, enquanto as ondas, crescendo, subindo sempre, ameaçavam engoli-la.

E por último, sem ninguém que a salve, sem barqueiro, nem remador, a pobre donzela com resignação ou desespero deixa-se afogar, esperando, esperando até à morte o amigo que nunca chega.
A formosíssima poesia das mais belas deste ciclo literário, é a melhor, quase a única produção deste grande poeta trovador. A outra é a bailata de Joan Zorro.

A distinta actriz, senhora D. Beatriz d'Almeida, vai ter a amabilidade de nos recitar uma e outra :

Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi-as ondas que grande son!
        eu atendend'o meu amigo!
        eu atendend'o meu amigo!

Estava na ermida, ant'o altar,
e cercaron-mi-as ondas grandes do mar
        eu atendend'o meu amigo!
        eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi-as ondas que grande son!
e nen ei barqueiro, nem ei remador!
        eu atendend'o meu amigo!
        eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi-as ondas grandes do mar
e nem ei barqueiro e nem sei remar!
         eu atendend'o meu amigo!
         eu atendend'o meu amigo!

E nem ei barqueiro, nem ei remador.
e morrerei fremosa, no mar maior!
         eu atendend'o meu amigo!
         eu atendend'o meu amigo!

E nem ei barqueiro e nem sei remar
e morrerei, fremosa, no alto mar!
         eu atendent'o meu amigo!
         eu atendend'o meu amigo!

Bailata

​Bailemos agora, por Deus, ay velidas.
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quen for velida como nos, velidas,
                 se amigo amar
so aquestas avelaneiras frolidas
                  verrá bailar.

​Deixemos agora a poesia trovadoresca para atender documentos mais directos da sensibilidade inculta nas duas nações.

Interroguemos o povo, o poeta errante e cego como Homero, e confrontemos as suas criações mais belas: os rimances.

Em poucas nações como em Castela, a literatura de acção terá sido tão lógica e seguido mais natural destino. A canção de gesta, quando as sombras dos heróis se apagam, degenera no rimance, e quando ao espirito já não basta a simples narrativa, o romancero alimentará o teatro.

Eis aqui a síntese da evolução literária de Castela, depositária da tradição heróica dos Visigodos.

Tomando dois rimances de duas antologias, procurei que assunto deles fosse quanto possível aproximado, pelas circunstâncias que revestem a acção em que se desenvolvem.

Num e noutro o motivo do amor aparece: importa saber agora como cada uma das mulheres procede.

​O espanhol pertence ao ciclo dos Romances viejos e chama-se Romance de la Infanta de Francia; o nosso é o bem conhecido romance da Donzela que foi à guerra.

O primeiro é a história de uma infanta que, dirigindo-se a França e tendo errado o caminho, se encosta a um carvalho à espera de alguém que a guie na jornada.

Logo aparece um cavaleiro que, a pedido dela, se presta a levá-la consigo no mesmo cavalo.

No meio do caminho, longe, o cavaleiro fez-lhe propostas de amor que a donzela recusa, declarando-se filha de um malado, e não podendo por isso ele tocar-lhe sem descer à condição dela, tornando-se malado também. O apaixonado detém o seu impulso.

Entrando em Paris, já a salvo do perigo, a donzela moteja da covardia do cavaleiro que, tendo la niña en el campo, deixara perder a ocasião...

Com um pretexto ingénuo, pede-lhe agora que volte, mas ela recusa-se, declarando-se filha do rei de França e ameaçando orgulhosamente todo aquele que no seu corpo tocasse.

É à senhora D. Marina Rodrigues que eu peço a fineza e o prazer de nos recitar este rimance:
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O romance da Donzela que vai à Guerra é a bem conhecida xácara que todos os lares portugueses conhecem e que nós, os provincianos, em lentos serões, ouvimos contar desde o berço às criadas e à gente das debulhas.

Um velho cavaleiro, saudoso da sua valentia, lastima-se de não poder ir à guerra, nem dar um filho que o substitua, visto que na sua descendência apenas tem filhas.

A mais velha, porém, toma a resolução de se vestir de homem, resistindo a sorrir às objecções do pai quanto ao perigo de vir a ser descoberta, e apresenta-se armada na hoste onde batalha sete anos, com o nome de D. Martinho.

Um moço guerreiro que era o capitão, começou a desconfiar do sexo de D. Martinho pelos olhos que ao seu desejo de amar se afiguram de mulher. Manifesta as suas duvidas à experiência do pai que o aconselha a usar de vários artifícios de que a donzela triunfa sem dificuldade.

Por último, sendo convidada para nadar e tendo-se começado a despir, por discreta, levando até ao extremo a ilusão da sua pessoa, providencialmente um pagem lhe vem entregar uma carta com más novas: a morte da mãe, a doença do pai.

Partem ambos cavalgando por longos caminhos até chegarem aos altos paços do pai da donzela que lhe apresenta o pretendente e lhe declara que só ele a conhecera pelos olhos, que por outra coisa não.

É para notar o contraste destas duas composições: uma cheia de malícia, de intenções reservadas de pecado; outra um documento de nobreza, de finura, de castidade, que a Sra. D. Beatriz d'Almeida vai ressuscitar aqui:
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Eu podia ampliar os confrontos desta natureza, passando do amor a outros sentimentos, à crueldade, à vingança, à honra ofendida, que para tudo há exemplos elucidativos.

Lembraria, por exemplo, a história triste do Conde Ninho e da princesa que por ele se deixou matar e o romance tão português e cristão, chamado a Nau Catrineta.

Tenho, porém, de pedir a outros poetas as razões do que venho afirmando, para ficar bem demonstrado que no período de formação das duas nacionalidades, o sentimento poético de uma e outra divergia inconciliavelmente.

No decorrer do século XV, as influências italianas eram já decisivas na poética espanhola, ao passo que os melhores poetas que Resende reuniu no Cancioneiro Geral, mantinham fidelidade à tradição dos trovadores.

Mais que os portugueses, os poetas espanhóis são conceituosos, moralistas e difusos na expressão.

Abunda neste período a poesia narrativa de carácter religioso, o marquês de Santillana nacionaliza o soneto, mas o lírico espanhol mais ilustre deste período é Juan de Mena, médico e favorito do rei de Castela João II e geralmente considerado naquele tempo, o príncipe dos poetas da sua terra.

Entre as mais afamadas poesias de Juan de Mena, conta-se a que é dirigida a una dama, décimas bem rimadas. daquela frieza palaciana que também invadiu muitos dos nossos poetas quatrocentistas.

Peço à senhora D. Marina Rodrigues a bondade de nos recitar algumas estrofes dessa célebre composição:
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​Em contraste a tão refolhuda admiração, em que há mais formalismo literário do que verdadeiro sentimento, lembro-me da pequena poesia do Cancioneiro de Resende, de que é autor João Rodrigues de Castelo Branco, simplesmente intitulada - Cantigua partindo-se.

​Pela última vez, a senhora D. Beatriz d'Almeida vai dar-nos o prazer da sua recitação nesta noite:
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Se não fosse o respeito que me impõe a provada e generosa paciência de V. Exas, poderia ainda comparar duas poesias elegíacas, quase contemporâneas: uma de Jorge Manrique - A la muerte del maestro Don Rodrigo, su padre, outra de Garcia de Resende — Trovas à morte de D. Inês de Castro.

Elas patenteiam eloquentemente o que é o convencionalismo de um e a profunda emoção do outro.

E se fosse meu propósito entrar no século XVI, bem me parece que o lirismo de Bernardim, Cristovam Falcão e Diogo Bernardes é alguma coisa diverso de Garcilaso de la Vega, Fray Luís de Léon e Santa Teresa, embora nos últimos tenhamos muito a descontar de influência italiana.

Já não quero invocar o lirismo de Camões, trezentos sonetos eternos em que foi cantado o amor e que fariam dele o maior lírico de Portugal, se não tivesse escrito os Lusíadas.

Neste momento, já diferenciadas e para sempre inconfundíveis as duas línguas e as duas literaturas, a sua direcção futura não fará mais que distanciar-nos.

Sete séculos de cultura literária são um largo campo para seguir o curso de cada uma das directrizes.

Em Espanha, a epopeia é a primeira tendência que marca a fisionomia intelectual e afectiva do povo; em Portugal é o lirismo, a poesia subjectiva, cortada de lamentos doridos, a gran coyta do coraçon que ficou gemendo eternamente na letra confusa dos códices medievais.

O lirismo português toma a forma bucólica pelo sentimento da contemplação, tão próprio da nossa índole cismarenta e saudosa, essa sensibilidade de criança que todos temos e já tivera o Infante que foi depois Dom Afonso IV, para mandar cortar no romance Amadis de Gaula, algumas passagens de crueldade para com a donzela Briolanja.

É ainda o lirismo nacional que na forma regular dos autos vive na obra sempre moça de Gil Vicente, quando cria a Mofina Mendes e o Auto Pastoril Português.

O mais imperfeito conhecimento da nossa história literária, denuncia ao primeiro aspecto uma triste verdade que não reconheço vantagem alguma em disfarçar: a pobreza da nossa literatura teatral.
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Desde o momento em que este género alcançou em Portugal a consagração dos escritores, subindo das naves e adros das igrejas para os salões dos reis e dos nobres, num ciclo bem amplo de quatro séculos, as letras portuguesas foram honradas por nomes famosos na história, na poesia, no romance, nas viagens, mas para citar duas excepções, temos de passar de Gil Vicente a Garrett e esperar ainda o terceiro grande escritor de teatro a quem vamos pedir a certeza de uma continuidade tradicional que garantir possa ao teatro foros de nobreza iguais aos dos outros géneros literários.

Qual será a causa desta grande deficiência?

Nós que em três seculos de ambição e domínio, por conquistas e descobrimentos, fomos, na verdade, um povo de acção, cobrindo com lágrimas de tragédia a Terra que era nossa; que soubemos ser donos de homens e sofrer a servidão; nós, o povo que melhor sabe chorar, que temos o coração à flor dos lábios e sempre na alma o nódoa do luto pela dor do nosso vizinho: este povo sensível adorável, todo extremos nos seus lances, não tem no teatro a expressão da sua vida.

Por outras palavras, o teatro português não tem sido um aspecto definido do nosso medo de ser literário, uma função reveladora da nossa tendencia, em que a raça, a lingua, a violencia, a doçura, o sangue e as lágrimas, as crenças, as superstições, todas as ideias e sentimentos que se fundem para o caracter de um povo — tenham expressão de realidade.

A mais verdadeira interpretação de Gil Vicente é a que o reputa, embora na forma dramática, como um dos mais altos poetas líricos de Portugal.

Criou a sua imaginação uma vasta galeria de figuras, bem portuguesas e verdadeiras, mas em todas as suas obras, quarenta e tantas produções conhecidas, falta o conflito dos caracteres, aquilo que verdadeiramente constitui o drama ou a comédia.

Gil Vicente, um dos quinhentistas a quem mais deve o nosso amor de portugueses, não fez escola digna da sua iniciativa.

António Ferreira, escriptor de plena Renascença, só pôde prender-se á terra em que nasceu por ter escolhido para assunto de uma tragédia de forma clássica, uma tradição da nossa Idade-Media, a morte de D. Inês, e por ter empregado intencionalmente nas suas obras, sempre a lingua portuguesa.

Para explicar a surpresa da rápida decadência do teatro e dos outros géneros literários de Quinhentos, nós aprendemos nas escolas a atribuir a causa de todos esses males à influencia nefasta (é este o adjectivo) da Inquisição e dos Jesuítas.

Este processo, revelador de uma deplorável deficiência crítica, aproveitado para servir intuitos sectários e odientos, simplifica a questão e evita o trabalho honesto de uma análise justiceira.

Abstraiamos por momentos da Inquisição e dos Jesuítas, quer dizer, suprimamos, por hipótese, estes dois chamados elementos ou factores de decadência literária e facilmente teremos compreendido que, sem eles, a nossa ruína era também inevitável.

Eu bem sei que, no ponto de vista estético, a acção dos Jesuítas foi nula e até prejudicial em todos os aspectos, pelo seu excessivo intelectualismo, mas não creio, porque a verdadeira história mo ​ensina, que fossem eles e a Inquisição os antecedentes de uma doença anterior ao seu aparecimento.

A própria grandeza importava a decadência.

Que outro destino poderia ter um povo de pouco mais de um milhão de habitantes, que tinha por senhorio meia esfera terrestre e que pela aventura ou pelo dever, abalava da ribeira de Lisboa nas armadas de guerra ou de comércio, abandonando os arados e as enxadas sobre a terra inculta?

O Velho do Restelo tinha razão: ele era um símbolo vivo, profetizando a imensa ruína que há séculos estamos contemplando.

A sua figura que o génio de Camões levantou na praia à hora do adeus, era o Portugal do esforço obscuro que tinha erguido as aspirações e provocado o florescimento milagroso de uma Pátria, o povo mourejador dos pastores, agricultores e pescadores — os homens bons dos concelhos que conheceram a paz fecunda das horas de trabalho e o estremecimento heróico da hora da abalada para a defesa dos lares e dos túmulos ameaçados.

Não foi a Inquisição, nem podiam ser os Jesuítas que diabolicamente vieram abafar a voz da Pátria, perdendo a sua literatura.

Os índices expurgatórios (que tantas vezes fazem saudades nos dias de hoje), a opressão, o sectarismo religioso, traduzindo a definição da unidade e força do Catolicismo pós tridentino que evitou na Península a dissolvência do livre-exame luterano — são elementos quase exclusivamente destinados à concretização de juízos pouco conscienciosos.

Querem V. Exas a prova desta heresia da história dos compêndios oficiais? Intolerância, maior ainda, houve-a em Espanha onde a Inquisição, a serviço de uma feroz política do imperialismo causou um numero de vítimas proporcionalmente superior ao dos três ou quatro tribunais, e foi justamente esse período, el siglo de oro da literatura espanhola.

​Pois foi à luz vermelha dos autos-de-fé, como diria qualquer liberalista de coração sensível, que Lope de Vega, Calderon de la Barca, Tirso de Molina e Cervantes escreveram as mais gloriosas páginas da literatura espanhola.

E já que a lógica para aqui me arrastou, não me dispenso de assinalar essa característica da literatura castelhana — a abundância e excelência do seu teatro, em todas as épocas da sua historia, enquanto, como aliás fiz notar, o nosso teatro é episódico, sem continuidade tradicional, incaracterístico, porque aceita servilmente a lição traduzida do estrangeiro. Bem sabem V. Ex.as que não temos teatro de costumes, nem comedias de caracteres, nem violentas tragédias. É a índole lírica a dominar sempre, a impor em todas as peças o episódio da ternura amorosa.

As maiores tempestades domésticas podem terminar num beijo ou na intervenção amiga de qualquer conhecido ou parente. Mesmo nos bairros de vicio, raro é o fadista que mata a amante e não chora o arrependimento do seu crime sobre a folha ensanguentada da navalha.

Neste momento, o nosso teatro reduz-se ao esforço isolado de dois ou três cultores bem conhecidos, mas como que vive fora de nós, desorbitado de uma intenção nacional que o vivifique.

​Em Espanha, ele está florescente, é a mais alta afirmação da sua vitalidade intelectual e os seus dramaturgos afiguram-se-me dos maiores do todo o mundo.

E já tarda a esperança de saírmos da miséria da nossa vida de teatro, uma espécie de feira da ladra das letras, um grande balcão à volta onde elogiadores mercenários dizem nas gazetas que trabalha pela arte o homem de negócios que é o empresário, a quem a gente pode comprar o direito de se divertir e de mostrar os fatos novos à assembleia, a pretexto de ouvir uma coisa traduzida de França, por qualquer jornalista faminto e analfabeto.

Se do teatro passamos à epopeia, não é licito, em boa crítica, opor os nossos Lusíadas à carência desse género em Espanha. Os castelhanos tiveram epopeia quando a deviam ter, no ciclo de formação da sua nacionalidade. A idade heróica tinha passado quando a Renascença chegou, e o grande livro de Camões é a expressão cosmopolita de uma acção que nós tiveramos a glória de realizar, mas que pertencia ao mundo inteiro. Na verdade, a nossa expansão ultramarina não intensificou o espírito nacional, nem coordenou as energias da Raça em ordem a um grande destino histórico, adentro dos limites europeus. Ao contrário, a inquietação pela aventura, o vão da alma portuguesa por outros climas e latitudes, produziram-nos a decrepitude de que até agora não pudemos ainda refazer-nos.

Os Lusíadas, a maior das epopeias neoclássicas, com motivação e antecedentes no mundo antigo, não se tornaram até hoje o cântico da Raça, tendo ficado inacessíveis à compreensão do povo, como elemento literário de sentido nacional.

Os traços que tenho esboçado, parece-me autorizarem a afirmação de que, na formação das respectivas línguas, e nos caracteres das duas literaturas, Espanha e Portugal se revelam com fisionomias próprias, de índole, sentimentos e realizações diversos e, portanto, com sentidos inconfundíveis, capazes de reforçar dentro do seu aspecto, as razões para a autonomia política que aqui estamos defendendo.

E para amar a nossa língua, das mais vigorosas, ricas e belas que se ouvem sobre a Terra, que em cada manhã nos canta na música suavíssima dos pregões - lembremo-nos de que por ela nos podemos fazer entender nas cinco partes do mundo aonde chegou a nossa audácia e o nosso domínio, conforme já notára orgulhosamente o velho Duarte Nunez de Leão: «E manifesto he que como entre todas as nações que no mudo ha, nenhua se alogou tanto de sua terra natural, como a nação Portuguesa, pois sendo do ultimo occidente, & derradeira parte do mundo, onde (como Plinio diz) os elemetos da terra, agoa, aar, fazem sua demarcação, penetrarao tudo o que o mar Oceano cerca, & consigo leuaram fua lingoa, (Origem da Ling. Port.).

E aonde quer que a língua portuguesa se fale, nos dialectos crioulos d'Africa, ou nas grandes cidades da América, em todos os povos e latitudes, no seu timbre canta ou chora a alma da Pátria, e enquanto para a falar houver um português, Portugal não morrerá!


​II



​Ninguém poderá esperar que nestes curtos momentos, eu vá fazer a história geral da arte na Península Hispânica.

Seria impossível e desnecessário ao fim que aqui me trouxe.

O que mais importa averiguar é se, depois da cristianização da Espanha e nos períodos que imediatamente proclamaram pelas armas, pelos costumes, pelas leis e pela língua, a independência e a diversidade das duas nações, alguns índices de diferenciação pela arte foram acusados.

O carácter da arte primitiva da nossa Península tem desorientado os juízos da crítica mais competente e não se passa um lustro, sem que novas conjecturas se formulem, acerca da sua origem significação e destino.

Perante os vestígios de diversas civilizações mortas, até à vinda dos Romanos, parecem acusar-se influências do Egito, da Pérsia, da Fenícia, de Micenas e Creta.

E à vista dos despojos que cada ano aumentam, umas vezes o juízo dos sábios concede à Espanha a glória da autoctonia da sua mais recuada civilização, outras a velha Península é apenas um campo de penetração, aberto a todas as procissões de povos, nos seus roteiros incertos.

Hoje é a Espanha o ponto de convergência das ambições comerciais ou da acção dos heróis que decaíram da graça dos deuses nas margens do Mediterrâneo, amanhã será esta região do Sol-Poente a pátria dos primeiros homens da Pré-história, mãe-criadora das próprias civilizações, vizinhas da Grécia.

Creio que, neste momento, a mais recente revelação sobre a genealogia da arte hispânica é a de M. Dieulafoy, [Espagne et Portugal / Portugal ] atribuindo a estrutura dos velhos monumentos da Península à influência da arte persa do tempo dos Sassanidas.
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A arte árabe que aqui triunfaria depois da batalha de Guadalete, acabaria de afeiçoar pelos modelos do Oriente, as construções dos novos senhores da Espanha, tanto mais que no século VIII a arte cristã ainda não estava bem caracterizada.

Mas, a par destas importações forçadas, as velhas esculturas de homens e animais, o guerreiro de Ossuna, o busto de Elche (1897), a porca de Murça, o toiro de Ávila, as pinturas nas grutas de Altamira e outras, os despoblados espanhóis e as nossas citânias testemunham claramente a antiguidade da arte na Península.

Deu-se naturalmente com a arte o que aconteceu com as raças e, portanto, com as civilizações: a contínua sobreposição e fusão de influências diversíssimas que tantas vezes anulariam com as melhores aparências, a primitiva individualidade da civilização hispânica.

Assim falam os exemplos dos gregos, fenícios e romanos.

O domínio visigótico, posto que duradoiro e forte, não se assinalou, a não ser por alguns ensaios de arquitectura rudimentar para as bandas das Astúrias, como Santa Cristina de Sena, San Miguel de Lino e pela existência de algumas esculturas e coroas votivas.

As duas civilizações em contacto, posto que em luta quase permanente, os árabes e os cristãos — a arquitetura religiosa dos neogodos aceita a lição das mesquitas, solidamente construídas, com abóbadas de pedra, e então logo a linha dos arcos se modifica, renovam-se os elementos decorativos e as pequenas igrejas cristãs vêem levantar-se ao lado o seu minarete muçulmano, por todo o território: San Pedro de las Puellas, San Miguel de Escalada, San Juan e San Pablo in San Juan de las Abadessas.

Mas enquanto a Espanha, avassalada por inimigos de raça e religião tão diferentes, permutava com os invasores os seus recursos construtivos; enquanto a mesquita se tornava basílica e a pequena basílica de origem romana, recebia os elementos mouriscos para a sua segurança e adorno, a Europa central, unificada agora pelo ceptro de Carlos Magno, repoisava do cansaço de tantas guerras, robustecia a organização feudal e criava a arte românica.

Na Península, a mesquita de Córdova, apropria-se do plano das três naves da basílica, e das influências que a arte cristã levou às mesquitas. Não é menor aquela que induziu os construtores a transgredir o preceito do Alcorão, reproduzindo a figura humana.

Assim se dava o divórcio entre a arte árabe e a arte mourisca, do mesmo modo que os califas de Espanha se rebelariam contra a hegemonia do Oriente.

A arquitectura românica, comunicada de França às orientais da Península, encontrou a sua mais bela expressão na catedral de Santiago de Compostela, mandada reconstruir por Afonso VI.

Pela semelhança das linhas interiores deste templo e do de San Vicente de Ávila, é verosímil que a Sé Velha de Coimbra descenda da arte românica do norte da Península, não havendo nada de especial a caracterizar a sua arquitectura, senão talvez o destino que lhe foi dado, de reforçar as muralhas de defesa junto da Alcáçova.

E aqui temos a significação social da Sé Velha de Coimbra, um dos mais belos exemplares do românico de àquem Pirineus: era a consagração religiosa da cidade tomada aos moiros pelo primeiro Rei de Portugal e a utilização da sua fábrica para a resistência, sob a protecção imensa de Deus.

Mas, qualquer que tenha sido a razão (brevidade ou economia) o arco românico português da Sé de Coimbra e das pequenas igrejas que dela descendem, Santiago, San Salvador e outras, apresenta-se desprovido de esculturas e mais linear do que decorativo, ao passo que o românico norte-espanhol é ornado geralmente de esculturas nos tímpanos das portadas.

Alcobaça, doada com largos domínios por Dom Afonso Henriques aos filhos de São Bernardo, talvez como reconhecimento dos serviços que o grande Santo lhe prestara junto do Papa - Santa Maria de Alcobaça, reconstruída três vezes, é um exemplar de estilo romano-gótico, pelas modificações que os cistercienses de França lhe trouxeram.

Venerável para todos os portugueses, bastaria que sobre as lages do seu templo repoisassem as maravilhosas arcas de pedra que guardam os despojos de Dom Pedro e Dona Inês, para que esse mosteiro se tornasse um lugar de peregrinação e devoção saudosa.
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Dom Pedro, mandando lavrar à cabeceira do seu Túmulo a legenda de um adeus eterno de amor — Até a fim do mundo, não previra que a rapina dos soldados de Napoleão (todos artistas, como por muito bom dinheiro veio dizer a Lisboa entre os mais inconscientes aplausos, Mr. Jean Richepin), haviam de violar o túmulo da mãe de seus filhos, arrastando-lhe o cadáver pelo chão.

O século XIII espanhol é rico de empreendimentos de arte.

É durante ele que se levantam, no todo ou em parte, as três grandes catedrais de Burgos, Toledo e León, comparáveis, segundo Dieulafoy, aos mais belos exemplares contemporâneos da França de onde os modelos foram trazidos.

Ainda não era tempo de as nacionalidades intervirem na caracterização das artes maiores: a existencia das maçonarias medievais. enviando mestres e obreiros para toda a Europa, a pedido de reis e abades de mosteiros, determina a universalização do mesmo estilo que normalmente irradiava de França. Assim foi com o românico, dopois com o gótico, mais tarde para a Espanha e mais ainda para Portugal com a Renascença.

Com os arquitectos, vinham imaginários, pintores, decoradores, um intenso formigueiro humano que vivia durante duas ou três gerações, à sombra das grandes catedrais.

De um lado, o castelo símbolo da hierarquia militar e civil; do outro, a catedral, centro da vida espiritual e estética da Idade Média. Como as condições dos países eram semelhantes, revelava a vida social uma face bastante homogénea.

Em relação a Portugal, Castela diferia notavelmente: a organização feudal aclimou-se no planalto, por virtude da persistência da tradição gótica. Entre nós, a vida social reduzia-se a uma federação de comunidades agrárias, de base familiar, a que os reis afonsinos iam conferindo foros e privilégios de uma grande amplitude.

Esta observação sobre o caracter unitário, centralista, de Castela, e a nossa organização concelhia, de pequenos núcleos económicos, é necessária para determinar as condições do desenvolvimento da arte em Espanha e Portugal.

Lá, muitas e populosas cidades, riqueza acumulada, grandes senhores territoriais; entre nós, numerosíssimas vilas de pequena população, divisionismo da propriedade e, relativamente mesmo, pequenos domínios e jurisdições senhoriais.

Numa palavra, urbanismo de um lado, ruralismo do outro.

Acrescente-se agora à pequena população do país o carácter dispersivo da sua vida, a falta de riqueza, e teremos surpreendido o segredo das razões que levam, em exclamações de desânimo, certos compatriotas nossos, a lamentar a inferioridade da nossa arte, em relação à espanhola.

Não se trata de pôr em equação a realização estética dos dois países: seria desde logo comprometer a solução do problema. É pueril discutir, como já tenho visto fazer, qual dos dois patrimónios vale mais: o nosso ou o dos nossos vizinhos. Como não posso deixar de considerar a obra de arte, senão em relação com a vida social e, portanto, com o país de origem, claramente se depreende que as obras de arte, a meu ver, salvo para estudos de técnica, só devem apreciar-se dentro de cada nação, como valores concorrentes, e nunca sujeitá-las a confrontos, sem base nem fundamento.

Sendo o índice mais elevado das civilizações, as artes não podem avaliar-se em abstrato, mas como expressões derivadas de motivos sociais e políticos que em cada nação são diferentes.

Suponhamos que os Estados Unidos da América, por uma extravagancia nacional, se lembravam de mandar construir numa planície, uma catedral modelada pela de Reims e até mais grandiosa do que esta, ou que queriam erguer ali a nossa Batalha, tal como ela nasceu do entusiasmo pela vitória.

Facto semelhante não traria a mais pequena parcela de aumento ao património artístico dessa riquíssima nação e o monumento resultaria numa monstruosidade sem sentido.

Esta divagação era-me necessária para afirmar que, no ponto de vista do seu significado social, a arte portuguesa é verdadeira, lógica e muito mais eloquente do que a espanhola.

Isso é o que mais altamente interessa o fim que me propus, quando tomei este encargo.

Alcobaça e a Sé de Coimbra consagram factos históricos da ocupação política dos primeiros tempos, o Castelo de Almourol e o Convento de Tomar marcam o dominio da terra pelos Templários, no mestrado de Gualdim Pais,- e assim a Sé de Lisboa, a da Guarda (primitiva), a de Viseu, a de Évora.

A Batalha proclama a definitiva posse da Terra, os Jerónimos, o completo senhorio dos Mares.

Em vão procuraremos apenas na piedade religiosa dos antepassados as grandes iniciativas e empreendimentos dos nossos reis.

Na Espanha pelos séculos XIV e XV, a arte mourisca impõe-se à arte cristã e torna-se nacional, continuando sempre a favorece-la os monarcas sucessores de Afonso X (1253-1284).

Segóvia, Saragoça, Toledo, o Alcazar de Sevilha, a capela Vilaviciosa da Catedral de Córdova, a Alhambra de Granada, proclamam bem alto o que foi, em três séculos, a arte do centro da Península, enquanto o Oriente e o Ocidente se mantinham na tradição romano-gotico-bisantina.

Quer dizer, a arte mourisca que foi arte nacional em Castela, na Andaluzia sobretudo, nunca foi em Portugal, mesmo na Sé de Évora, senão um subsídio de caracter decorativo, quase exclusivamente.

As artes menores no nosso país revelam notáveis influências mouriscas no mobiliário, na cerâmica, nas alfaias de toda a espécie, nos tectos das casas em alfarge, na estampagem dos tecidos, etc., mas nunca a arte mudegar substituiu as tradições da arte portuguesa que é preciso ir buscar ao fundo das idades.

Quem ensinou os Lusitanos a ornamentar a pedra dos sacrifícios da cividade do Sabroso, a chamada pedra formosa pelos arqueólogos?, a decorar os jugos dos bois e os cajados dos pastores, a escolher os modelos dos adornos de oiro e prata filigranados que em Guimarães e cercanias ainda hoje revestem um aspecto verdadeiramente inconfundivel de originalidade?

Na mesma região aonde se diferenciara a língua, talvez por ser diversa a raça, a arte vivia do seu próprio esforço, de pais a filhos, dando origem e razão de vida a todo o prodígio da nossa arte ornamental e religiosa.

Aqui se nos oferece o esplendor de uma arte bem nacional, individualizada nos seus recursos, e superior á de toda a Espanha — a ourivesaria, de que saíram as maravilhas dos museus de Coimbra, Guimarães e Lisboa, a Custodia dos Jerónimos, arte que ainda hoje encontra impulso, com a melhor direcção e gosto no sentido tradicional, nas oficinas da Casa Leitão.

Comparável à ourivesaria, só a cerâmica, a graciosa arte do do barro, a que José Queiroz tem consagrado trinta anos de estudo benemérito e fecundo, e que, desde os púcaros de barro das olarias de Estremoz, por onde Dom Sebastião bebeu diante de um legado do Papa, até aos azulejos de San Roque, do Palácio Fronteira em Benfica e da Quinta da Bacalhoa, e às faianças riquíssimas do Rato, das Caldas, do Porto e de Coimbra — está patenteando nobremente a nossa capacidade plástica e o nosso senso da policromia.

No século XV, a construção da Batalha, em memória das armas gloriosas de Aljubarrota, e cuja porta principal foi medida pela altura de uma lança de um guerreiro — é um facto do mais alto significado político que perpétua as vitórias da independência e afirma o bendito esforço dessa era de Quatrocentos em que a Nação tomava consciência do seu sentido de viver.

Que importa que tenha sido estrangeira a traça do gótico florido que lhe rendilha as pedras, se tantos mestres e obreiros portugueses lá deixaram as suas siglas ou os seus apelidos nas lages sepulcrais ?

Os nomes dos estrangeiros, ou viessem de Inglaterra por ofícios de Dona Filipa de Lencastre, ou de França, a pedido do próprio Rei, esses nomes perderam-se em incertezas, mas os que a nossa memória sempre guarda são os de Afonso Domingues e Mateus Fernandes que não podem ter maior cunho de nacionalização.

Quando Espanha sepulta em túmulos de maravilha os seus fidalgos, reis ou heróis e os cobre com estátuas jacentes dos mortos, Portugal deixa pelos edículos das catedrais os mesmos monumentos de devoção; e quando o seu pintor Pablo Vergós pinta Santo Antão, Abade e Exorcista e a vida de San Vicente, num intuito meramente piedoso, Nuno Gonçalves, com o mesmo motivo de culto a São Vicente, padroeiro da cidade de Lisboa, erguia os seus trípticos que são o mais legítimo motivo de orgulho da pintura portuguesa e a mais bela expressão da nossa vida social do século XV.

Pablo Vergós, que aliás era catalão, tratou a vida de San Vicente no seu aspecto mais doloroso, nos transes do martírio, nas grelhas ou no cavalete; enquanto o nosso pintor, para o mesmo assunto, cria um Santo cheio de meiguice e bondade, abrindo o Evangelho aos reis, aos príncipes e ao povo, num dos painéis, e recebendo noutro as homenagens do clero e dos nobres cavaleiros, tocando com a mão o peito valente de um deles.

E é para notar que no painel em que estão reunidas as maiores energias da Dinastia de Avis, Dom Henrique, Dom Afonso V, o futuro Principe Perfeito, apareçam também os homens do povo, a arraia-miúda que era o braço do Infante na empresa dos mares.

As tábuas de Nuno Gonçalves, cuja milagrosa ressurreição nós devemos agradecer ao grande investigador da historia da arte nacional, Joaquim de Vasconcelos, a Luciano Freire e José de Figueiredo, são o retrato da Sociedade Portuguesa do século XV, um retrato autentico, de uma eloquente mudez para quem o souber interrogar.

Em vão procuraremos entre os primitivos espanhóis, sejam discípulos de Flandres ou da Italia, um documento mais sentidamente da sua raça, mais homogéneo e expressivo do que estas seis tábuas.

Elas vieram revelar decisivamente a nossa capacidade estética e provar que, para além de Grão Vasco e da sua escola, a arte da pintura se exercitava há longo tempo em Portugal, muito antes de Van Dyck vir à corte de Dom João I.

O carácter de brandura e suavidade que do clima e da tepidez da atmosfera nos penetrou a índole — lá se eternizou essa doçura lírica que tanto contrasta com os tons vigorosos dos pintores espanhóis da última metade do século.

Outro aspecto geral da nossa arte, em face da espanhola, é a religiosidade sem violências, nem excessos, um sentimento de ternura familiar, diante de Deus, da Virgem e dos Santos, sem terrores, nem incertezas pela hora extrema.

Com verdade faz notar o Dr. José de Figueiredo que os nossos pintores aproveitam dos Santos de preferência a sua vida gloriosa, os milagres e as virtudes, poupando-se normalmente à reprodução das cenas de martírio, às atitudes violentas, aos movimentos desordenados e sanguinários de que está cheio o hagiológio cristão.

Segundo o mesmo crítico e ilustre director do Museu Nacional de Arte Antiga, os calvários dos pintores portugueses, na disposição e interpretação da grande tragédia, afastam-se dos flamengos, alemães e italianos da mesma época, os quais são mais para sugestão artística do que para efeitos de emoção.

Nos nossos, a dor surda da tragédia dá a única razão de ser às figuras que ali vivem só por ela e da qual são inseparáveis.

Enfim, nunca uma vista educada poderá deixar de distinguir, à parte as diferenças de escola, o espanholismo dos quadros de Gallegos e de António del Rincon, dos de Cristovão de Figueiredo e Jorge Afonso, pintores do princípio do século XVI.

​A escultura, tanto na Espanha como em Portugal, existia nas formas iconográficas para adornar os portais, os altares ou cobrir os túmulos: era a escultura gótica, de carácter bastante uniforme, que andava quase um século atrasada dos artistas florentinos.

Na arquitectura da Península produz-se por este tempo um facto importante que marca a transição do gótico florido da última fase para a sobriedade de linhas da Renascença.

Em Espanha, esse estilo de excessiva composição, pela sua semelhança com as peças de ourivesaria, denominou-se plateresco, pois foi de facto um ourives, platero, que para lá o trouxe.

Aqui em Portugal, essa nacionalização do gótico, caracterizada pela introdução de elementos portugueses, motivos marítimos e exóticos, vegetalismos do continente e da África, cordas, conchas, redes, velas, tudo sobrepujado da esfera que os nossos mareantes percorriam, chamou-se o estilo manuelino. É a arte que se admira nas Capelas Imperfeitas da Batalha, no Convento de Cristo, nos Jerónimos, em Santa Cruz de Coimbra, na Torre de Belém e noutros monumentos, quase todos trabalhados pelos mesmos mestres.

O plateresco de Valladolid, Segóvia, o crucero de Burgos, Salamanca, Toledo, embora combatido por influências contrárias, pelo gótico de um lado, pelo clássico do outro, obteve bastante favor, mas foi de curta duração e empregou-se de preferencia na arquitectura civil.

Dieulafoy, apesar das suas notáveis qualidades de observador e crítico que às vezes não excluem a leveza com que os franceses costumam tratar o que lhes não pertence, afirma que o estilo manuelino é uma hipertrofia dos estilos gótico, mudejar e plateresco.

Como bom francês, teria sido mais patriota e talvez mais justo, procurando-lhe influências da sua pátria, semelhanças do túmulo de Margarida de Bourbon, nas igrejas de Brou e da Madalena, em Troyes. De França nos vieram dois grandes mestres, João de Rouen e Nicolau Chartranês, o primeiro dos quais por cá constituiu família.

Mas, próxima ou remota que fosse a semelhança entre o manuelino e o plateresco, os elementos decorativos que caracterizam aquela fase da arte no nosso país, dão-lhe uma individualidade impressionante, denunciam a confusão da vida social portuguesa nesse período de ambição e loucura que arrancava as lástimas ao Senhor de Basto dirigidas por Sá de Miranda, porque via o Reino a despovoar-se com o cheiro da canela e atrás das maravilhas contadas das torres de Narsinga.

Se o manuelino nada mais nos deixasse do que a janela do Convento de Cristo e a Custódia dos Jerónimos, isso bastaria para lhe dar carta de naturalização.

Aconteceu nas artes plásticas o que na literatura se deu com os autos de Gil Vicente, sobretudo.

Duas solicitações, a tradição e a moda, mantiveram os artistas numa continua indecisão, e quando a pura Renascença acabou por triunfar, logo o manuelino foi esquecido, como se vê na própria capela-mor dos Jerónimos, impedindo assim que esse estádio estético chegasse a ganhar foros de estilo nacional, na curta duração de vinte a trinta anos.

É conhecido o entusiasmo com que em Portugal foi acolhida a renascença italiana. Dom João II e Dom Manuel mandavam vir artistas de Roma e de Veneza, cidade com a qual Lisboa começou a entreter relações permanentes, depois da mudança da rota das Indias.

De Lisboa para Roma partia também a embaixada que o Rei Venturoso enviava à corte de Leão X e que deslumbrou o opulento pontífice, à vista da riqueza do presente que o monarca português lhe punha aos pés: um pontifical bordado a oiro e recamado de pedrarias, porventura trabalhado por artistas nacionais, visto essa arte ter atingido entre nós nesse século um notável desenvolvimento e perfeição.

No curiosíssimo livro - Miscelanea, espécie de gazetilha joco-séria em que Garcia de Resende nos deixou um largo testamento de bom-humor, assim é descrito esse movimento artístico:

Pintores, luminadores
Agora no cume estão.
Ouriveses, escultores
São mais sotis e melhores
Que quantos no mundo são.

Esta passagem traduz bem o entusiasmo pelas artes e certifica a gloria do seu florescimento na primeira metade do século XVI de que nos chegaram os nomes de Vasco Fernandes, de Viseu, Eduardo, Vaz, o Velascus de Santa Cruz de Coimbra, e artistas estrangeiros, além de Sansovino, Cristovão de Utrecht e Frei Carlos.

As obras deste período, com um carácter de homogeneidade que a Espanha não conhecia, influenciada ora pela Flandres, ora pela Italia, desapareceram na sua maior parte, como se deduz dos numerosos documentos escritos que a elas se referem.

É sabido que Portugal foi sempre lauta boda não só para a Espanha, mas para toda a Europa e agora até para a América que há anos aqui envia risonhos embaixadores para nos levarem a troco de algumas libras esterlinas, quadros em madeira e cobre, antigas telas, colchas, marfins, rendas, loiça, esmaltes, porcelanas e tudo quanto a geral ignorância há por bem entregar-lhes.

A transferencia de quadros nossos para o estrangeiro começou com o domínio dos Filipes e hoje por toda a Espanha existem eles espalhados, sem possível identificação.

A nossa escola de pintura tinha tanto carácter que por séculos se atribuíram a Grão Vasco, ao pintor de Viseu, inumeráveis quadros que não podiam ser dele apenas pelo parentesco insistente dos modelos e decorações.

Mas o que dele nos ficou, autêntico, bem como do mestre de Tarouca que para a igreja da mesma vila pintou um São Pedro e um São Miguel e foi mestre de Vasco Fernandes, basta para documentar preciosamente o grau de esplendor a que fora levada a pintura no decurso do século XVI em que ainda brilha a fama de Sanches Coelho que a Espanha nos tem pretendido usurpar.
E agora que a decadencia se vinha anunciando com os mais negros presságios, quando subiam o Tejo as naus carregadas de riqueza e de pestíferos, a Espanha ia entrar no seu período de florescimento e preparava-se para nos receber a herança.

Com a sua unidade politica assegurada, dominando em Itália e nos Países-Baixos, um império tão extenso que dentro dele o sol nunca se punha, a arte espanhola, desenvolvendo-se numa época de relativa tranquilidade, há de ser no seu século a primeira da Europa, depois da decadência italiana.

Mas, antes de mais nada, cumpre advertir que não podem ser considerados pintores espanhóis, todos os que em Espanha exercitaram a sua arte: os que lhe vieram de Flandres, de Itália, el Greco e o português Sanches Coelho.

Nesta hora má que a minha fé de português quer chamar de expiação e de resgate ao mesmo tempo, porque a Pátria deve valer mais para o culto do nosso afecto do que aqueles que sobre ela têm tripudiado numa cabra-cega trágica e sanguinária — neste momento em que tantos perigos rumorejam agoiros funestos, eu não quero relembrar a miséria que foi a fatalidade histórica do fim do século XVI, a catástrofe em que todas as energias antigas desfaleceram e só em abundância se mostraram a traição e a desvergonha.

V. Ex.as todos bem conhecem, a fraqueza desse período lutuoso que ao estrangeiro nos entregou, como um corpo inerte, vindo a nação a sufocar as melhores aspirações, os mais largos empreendimentos e tendo-nos os usurpadores tirado tudo, até o direito de levantar a voz em queixumes, só nos deixaram abertos os olhos para ver a voz em queixumes, só nos deixaram abertos os olhos para ver e chorar na própria terra, a ruína de um triste cativeiro.

E como a Nação entrava num eclipse que podia ser de morte, a arte morria também: onde não há sentimentos e aspirações colectivas, onde falta a unidade moral, a arte fica reduzida a uma habilidade de paciência, sem um sentido superior que a dignifique, na comunhão geral de um afecto duradoiro.

Os quatro nomes eternos do grande século de Espanha são bem conhecidos de todos: Ribera, Zurbaran, Vellasquez e Murillo.

Ribera trouxe da Itália a luz violenta de Caravaggio e a inspiração de Corregio e, apesar de tudo, o pintor francês Bonnat assim caracteriza o seu espanholismo: «... il est toujours d'un réalisme intense qui, dans l'exécution, dans l'expression de la forme, touche parfois à une sorte de férocité instinctive. Il se complait dans la représentation des supplices, des martyres. Les mendiants, les vieillards aux rides profondes, sont se modèles de prédilection». [Ele é sempre de um realismo intenso que, na execução, na expressão da forma, toca por vezes uma espécie de ferocidade instintiva. Deleita-se na representação de torturas, de martírios. Mendigos, velhos com rugas profundas, são os seus modelos favoritos.]

Aqui têm V. Ex.as, em poucas e autorizadas palavras, bem definido o carácter preponderante de um dos mais célebres pintores de que a Espanha merecidamente se orgulha.

Basta citar os quadros — Martírio de São Bartolomeu e A Santíssima Trinidad, para relembrar até que ponto o sentido do trágico palpitava no grande pintor de Sevilha.

As predilecções de Zurbaran a quem a crítica muito cedo chamou o Caravaggio de Espanha, vão para as cenas religiosas intensas, para o atormentado misticismo de Santa Teresa e San Juan de la Cruz.

É o pintor dos visionários, dos monges extáticos, dos quais é o melhor exemplo o célebre Frade rezando que V. Exas daqui a pouco terão ocasião de ver.

Neste tempo e já antes, a escultura religiosa é uma expressão bem fiel do temperamento espanhol, realismo violento, angustiada tortura de que são principais interpretes Montañés e Alonso Cano.

Foi o ilustre escritor, Dr. Coelho de Carvalho, a primeira pessoa que, há quase trinta anos, reivindicou para o génio português uma influência particular nos quadros de Velasquez.

Tendo procedido a demorados confrontos, durante as suas viagens em Espanha, assim diz ele: «A influência da hereditariedade do sangue português de Velasquez na sua obra, aleguei-a para explicar a ausência completa da sentimentalidade ascética, e o equilíbrio de faculdades de análise crítica que Velasquez revela na compreensão psicológica dos seus retratados; qualidades que aliás já em Sanches Coelho se haviam revelado.»

Toda a crítica, quase unanimemente, considera Velasquez como um pintor à parte, sem antepassados nem discípulos, quanto à maneira de compreender a luz e à escolha dos motivos para os seus quadros. Podemos, por isso, reivindicar para a sensibilidade portuguesa, a melhor parte do génio do maior dos pintores da escola espanhola.

Já antes do nosso país saíra para trabalhar em Espanha o notabilíssimo pintor, Afonso Sanches Coelho.

Para o nacionalizarem, os nossos vizinhos chamaram-lhe Alonso e alteraram-lhe o ortografia dos apelidos.

Mas a verdade está hoje vitoriosamente esclarecida para o que concorreram, na maior parte, as investigações do Dr. José de Figueiredo, e já não pode ser considerado por ninguém espanhol, um pintor que em Portugal cresceu, se fez homem e artista e que só muito tarde passa ao país estrangeiro, na qualidade de pintor da Infanta de Portugal Dona Joana, tendo aqui deixado bastantes retratos, entre eles o Dom Sebastião, do Paço de Sintra, e o de uma Princesa que está no nosso Museu.

Resta, por último, referir-me a Murillo (1618-1682), o outro grande mestre da escola de Sevilha, o mais vulgarizado e querido pintor, pela ternura e piedade com que criou as suas Virgens, penetrando-as do mais doce e remontado idealismo que nunca excluiu as preferências do artista pelos motivos realistas que ele amava simultaneamente.

É o pintor da Imaculada Conceição e das cenas de rua mais vulgares. Salomon Reinach aprecia assim os dois aspectos da arte de Murillo: «Murillo a été l'interprète le plus éloquent de cette piété tendre et sensuelle qui s'associe, dans le pays des contrastes étranges, au gout des spectacles sanglants et a l'indifférence dédaigneuse des hidalgos.»" [ "Murillo foi o intérprete mais eloquente daquela piedade terna e sensual que, na terra dos estranhos contrastes, está associada ao gosto pelos espectáculos sangrentos e à indiferença desdenhosa dos fidalgos."]
​
Deixei para uma referência àparte, embora sem respeito pela cronologia, a arte tão esquisita e perturbadora do Greco, aquele misterioso Domenico Theotocopuli, da ilha de Candia, que tendo vivido e estudado na Itália Ticiano e Tintoreto. Corregio e Miguel Angelo, á Espanha passou com perto de trinta anos e aqui produziu uma vastíssima obra á volta da qual andam brigando as mais adversas opiniões.

O caso-Greco tem uma bibliografia opulenta e decerto não é das menores a contribuição da monografia do Dr. Ricardo Jorge.

Como nota o distinto professor, nos quadros do Greco em que o humano e o divino tem de ser representados, o pintor afirma-se realista e idealista, ao mesmo tempo.

A seguir, atribui as formas alongadas das figuras a um defeito de visão e alega em seu favor razões científicas que a sua competência médica abona.

El Greco está na moda, mas creio que de tanto estudo, só ficarão para a Espanha os retratos de espanhóis que ele pintou e a ventura de possuir o tesoiro de Toledo.

Quero dizer que o autor do Entierro del Conde de Orgaz, da Sagrada Familia, de San Francisco de Assis, de San Sebastian, jamais poderá ser legitimamente considerado um pintor nacional.

É um caso de exílio, mais estranho talvez, do que o do nosso Afonso Sanches.

​E quanto á discutida morbidez do pintor, lembro-me de formular uma hipótese que poderá ser temerária, mas que é inofensiva.

Como El Greco, ao pintar a realidade era realista no seu processo e representando o supra-sensível era de um arrojo extravagante — não poderia ele ser um medium, pois que não são senão fantasmas as figuras cinzentas dos anjos e dos outros santos, como aquela que V. Exas vão ver? A anormalidade visual do pintor não pode explicar tudo e é preciso que um julgamento final venha pôr termo à incerteza da crítica, cada vez maior.

Nunca se quebrou depois a tradição da grande arte espanhola e no século XVIII Goya é o artista supremo que, por entre o convencionalismo frio da época, consegue ser sempre do seu país e afirmar à Europa que a nobreza da arte de Rafael e Vinci, tinha um mestre para ser contado entre os maiores do mundo no seu tempo.

A pintura portuguesa do período correspondente era honrada principalmente com os dois Vieiras e Pedro Alexandrino, a escultura com António Ferreira e Machado de Castro, autor do monumento de D. José e chefe da escola dos presépios em que o pinturesco e a bondosa simplicidade do nosso povo para sempre ficaram vivendo no gracioso barro das suas figurinhas.

​Mas o maior de todos, aquele desenhador imortal que se prodigalizou em maravilhas como o Juízo Final, a Ascensão do Senhor, o Calvário e o Natal, chamou-se Domingos António de Sequeira e é a glória de uma raça.

Sem querer já entrar em confrontos com artistas do período contemporâneo que V. Ex.as decerto conhecem tão bem como eu, vou terminar aqui a longa e bastante tumultuária exposição do vastíssimo assunto da minha conferência.

Reconheço que muito disse, mas muito mais ficou por dizer e há de ser dito neste lugar pelos meus companheiros.

Para a minha boa vontade, seria compensação suficiente se de V. Exas, ao menos, aqui tivesse vindo buscar algum novo motivo para o seu orgulho de ser português.

A terra e a gente, pela palavra persuasiva de António Sardinha, já aqui se confessaram com outra luz e outra alma.

No planalto de Castela, o sol passa como o castigo de uma brasa viva requeimando a terra, sem arvores nem fontes.

Através dos céus de Portugal, ele corre o arco do horizonte, como uma custodia derramando um presente divino de esplendores, sobre o altar da terra florida.

Castilla é, pelo próprio nome, a terra dos castelos, dos grandes domínios, da tradição senhorial; Portugal para cuja designação fundira duas palavras a sua predestinação histórica, pediu ao mar o seu baptismo, a glória da sua vida e quase lhe ia devendo o túmulo, quando da jornada marítima voltou cansado aos pés de Santa Maria de Belem.

É a cantilena dos nautas, perdidos na volta do mar, a repeti-lo para sempre, como uma toada de agoiro:

Sobe, sobe, marujinho
Aquele mastro rial:
Vê se vês terras de Hespanha
Areias de Portugal.
.................................
.................................

E de todo esse error de tragédia, naus perdidas e corpos boiando sinistramente, por entre gemidos de almas-de-mestre nas solidões do céu e do mar,— ficou-nos o testamento, ditado pela dor dos que morriam ao coração dos náufragos que os milagres salvavam: esse testamento que olhos portugueses nunca poderão ler sem lágrimas, chama-se História Trágico-Marítima e é o livro mais triste de todo o mundo.

A gente das duas nações, por isso que era diferente, criou diversa a sua fala para nela muito cedo chorar lágrimas de amor, enquanto nos versos heróicos, ainda meio bárbaros, do Cid, clamam pragas sanguinolentas, atrozes vinganças de que as nossas letras não dão conta. São os próprios castelhanos que reconhecem e aplaudem a doçura da nossa língua e a sua aptidão para traduzir as mais delicadas aspirações de sentimento e não tenho notícia de iguais juízos nossos a respeito da língua espanhola.

E se algum filho de Portugal, com desprezo da justiça, de outro modo haja feito, deve ele pertencer à família de Cristovão de Moura que a Espanha comprou por bom preço.
A arte espanhola, em toda a sua gloriosa opulência, conhece expressões, atitudes violentas, gritos de cor, torturas e tragédias da alma e do corpo que em vão buscaremos na doce serenidade e tristeza dos nossos pintores de Quinhentos, quando o ascetismo atormentava de pavores a exaltação religiosa de Castela. Sempre a emotividade lírica ou uma familiar ternura comove a alma dos nossos artistas e ilumina a atmosfera dos seus quadros, quando eles ficam fiéis ao amor e ao espírito da sua terra.

​Através de todos os períodos, a heráldica em seus símbolos, dá expressão à índole divergente dos dois povos, no reflexo do seu poder supremo: o leão do escudo de Castela e o pelicano de Dom João II, rasgando o peito para dar o sangue aos filhos e inscrevendo-se pola grei.

São ainda as danças e cantares do povo, as touradas, a própria cozinha, as cores dos fatos das mulheres a denunciar diferenciais irredutíveis e clamando que só nos parecemos na cor da pele.

Se erguermos um galeria de tipos nacionais, grandes índices da alma das duas raças, nos diversos sentimentos e ações que as suas maiores personagens encarnaram, nós nunca poderemos aproximar El Cid Campeador de Gonçalo Mendes da Maia, Nun'alvares de Gonçalo de Córdoba, São Domingos de Guzman e São João de Deus, Frei Bartolomeu dos Mártires e Torquemada, Pizarro e Afonso d'Albuquerque, Santa Teresa e Sóror Mariana, Don Juan Tenório e Bernardim Ribeiro.

Para dar realidade ao sonho ibérico que seria um pesadelo eterno para os portugueses, seria necessário refundir a alma da nossa raça, roubar-lhe os excessos da sua sentimentalidade lírica, o seu espirito de aventura, a luz nunca extinta da Esperança no Encoberto, e anula-la depois de encontro ao ardor violento, à dureza da gente castelhana.

Era conseguir o absurdo de fundir uma gota de sangue com uma lágrima, não distinguir um abutre de um rouxinol que morre cantando, juntar na mesma boca uma súplica e uma praga. E já que o Acaso, Deus da Historia, não quis que assim fosse, não quereremos nós jamais que assim seja!
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Hipólito Raposo.

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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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