Juxta Crucem
António Sardinha
Pontos Essenciais
- O Cristianismo, inicialmente visto como uma disputa interna entre judeus, rapidamente se revelou uma força transformadora na história, abrindo caminho para uma nova era.
- A civilização grega é criticada pelo seu racionalismo superficial, enquanto o Egipto é valorizado pelo seu misticismo e busca do divino, ainda que de forma imperfeita.
- O Cristianismo distingue-se das religiões antigas ao apresentar Deus como Pai e Juiz, trazendo uma promessa de justiça e redenção para a humanidade sofredora.
- A instituição da penitência e dos sacramentos é vista como um elemento inovador, oferecendo esperança e renovação espiritual às consciências adormecidas.
- As instituições penitenciais da Igreja são apresentadas como um fermento social que elevou a sociedade, especialmente num contexto de escravidão e tirania.
- António Sardinha traça um paralelo entre a decadência da Cidade antiga e a crise espiritual da sociedade contemporânea, marcada pelo materialismo e pelo afastamento das leis divinas.
- A agonia de Jesus é simbolicamente repetida nas tragédias modernas, como as guerras, representando o sofrimento humano e a necessidade de esperança e confissão.
- Conclui com um apelo à esperança cristã e à aprendizagem dos caminhos que conduzem à ressurreição junto de Deus, mesmo perante as adversidades.
JUXTA CRUCEM (*)
No ano 60 da nossa era, ainda Porcius Festus, funcionário romano, não tinha do Cristianismo outra ideia que não fosse a de uma disputa entre judeus acerca de um certo Jesus defunto, do qual Paulo diz que não morreu, segundo as próprias palavras dos Atos dos Apóstolos. No entanto, a influência da religião nascente irradiava já pelo mundo, abrindo as avenidas a uma nova idade da história.
Ainda hoje, já quase duas vezes milenário o drama do Calvário, o erro de Porcius Festus é o erro de muita gente. A influência do Cristianismo admite-se como um incidente a mais na jornada religiosa da humanidade, sem que se atenda no que esse facto representa de único e de transcendental. Eu francamente declaro que o chamado ‘milagre grego’ nunca me deslumbrou. A civilização helénica é o racionalismo puro, é apenas a civilização da Linha. Escapa-lhe a essência íntima das coisas, e à alma, na sua riqueza profunda e dolorida, mal a conviveu, a não ser para a entregar aos anéis duríssimos da Fatalidade, no patético inexcedível da Tragédia. Mergulhando as suas raízes no mistério, é o Egipto o laboratório sagrado, onde, antes de Israel, Deus se adorou de mais perto, embora através da mentira dos deuses. O destino do homem, a sua depuração e a sua segunda vida, transfigurada no prémio das obras praticadas, foi no Egipto a base fundamental dos seus cultos herméticos e soleníssimos.
Assim se reconhece o motivo por que o Cristianismo, surgido à sua hora, reúne em si tanto elemento arrancado aos velhos ritos decaídos. Ecos adormentados da revelação primitiva, neles ficara durando, embora corrompida, a mesma lembrança de Deus que é Pai e Julgador. Miserável como nenhum outro povo da antiguidade, a Israel caberia, pela consciência da desgraça do mundo, a proclamação de uma alta justiça compensadora. Em todos, afinal, persistira, como flama débil, quase extinta, a adivinhação secreta de Aquele que nasceria de uma Virgem para nos dar um Mandato Novo.
Quando Ele um dia chegou, os seus não no quiseram. É então que nós contemplamos a razão sobrenatural do Cristianismo. Para que o ‘homem velho’ se despoje e liberte do erro original, participando da graça de Deus, Deus não hesita em revestir-se de formas transitórias, em se amoldar à nossa carne caduca. Pela lei do amor, eleva-nos, chama-nos até à posse de Si mesmo nos sacramentos. Nisto reside a Redenção. Nenhuma outra religião a pregou e só no Cristianismo Jesus, seu fundador, se prega a Ele próprio. A penitência se institui deste modo e uma aurora inesperada amanhece para as consciências, caídas num pesadíssimo sono de morte.
«Ignoradas pela antiguidade, que em frente da culpa não praticava senão uma indulgência censurável ou um rigor sem piedade – escreve Godefroid Kurth –, as instituições penitenciais foram nas mãos da Igreja o fermento poderoso por meio do qual o mundo se levantou.» Disseminada em plena sociedade pagã, com a escravidão à raiz e a tirania ao alto, a herança de Cristo, desde que concedia a todos os homens uma alma, tornava-se a asa invencível com que se transporiam os horizontes penosos da nossa penosíssima vida quotidiana. Foi um horror o agonizar da Cidade antiga! Sem um caminho, sem uma finalidade, apenas com Séneca debruçado para a nova lei que despontava, nada há melhor que se lhe compare do que os paroxismos da idade contemporânea, levada entre o oiro e a licença para o mesmo abismo inexorável em que o paganismo se despenhou. À distância nós compreendemos agora porque é que Santo Agostinho, do seu leito de morte, respondia, sereno, «Não é o fim, é o princípio!», aos que lhe gritavam, espavoridos, vendo a cavalaria bárbara quebrar-se de encontro aos muros de Hipona, «Mas isto é o fim do mundo!»
Achamo-nos, como outrora, ao voltar de uma página difícil da história. Com o sentido materialista da existência, que as democracias divulgaram, a sociedade deixou esmorecer o direito de Deus no egoísmo áspero dos corações. «Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos tenho amado» – disse o Senhor. Mas a voz do Senhor perdeu-se no tumulto das babilónias dissolutas. Por isso nós nos vemos desfeitos como o vaso de argila, de que fala o Salmista. Pareciam próximos os tempos anunciados pelo Filho do Homem: «Quando o Filho do Homem vier, encontrará ele a fé sobre a Terra?»
A verdade de Cristo quase que voltava a ser uma disputa estéril, sobre «um certo Jesus defunto, do qual Paulo afirma que está vivo» – segundo Porcius Festus, funcionário romano. Mas a Cruz com os braços abertos assistiria ainda a um calvário mais sangrento do que esse em que serviu de patíbulo. Pascal dissera-nos uma vez que Jesus continuava em agonia até que o mundo se acabasse. E a agonia de Jesus renasceu, espantosa, na agonia espantosa da guerra atual! Quando a claridade suprema da civilização não tardaria a apagar-se, o sacrifício desceu, ruidoso e opressivo, a purificá-la com o vento forte das hecatombes. «Non est remissio sine sanguine!» E a letra das Escrituras cresce do fundo dos séculos e é hoje uma sentença impressa a fogo no limiar da sociedade que estremece.
São Paulo aconselhava que não deixássemos extinguir o Espírito. Nós padecemos os flagelos da expiação, porque o deixámos extinguir. O que é a catástrofe, que nos pesa como o pior dos remorsos, senão o castigo do nosso orgulho? Na insensatez do gozo e da opulência, só a Linha nos apaixonou, só com a Força nos preocupámos. Captámos o Fogo, captámos a Água, quase que transpusemos o Ar – a Matéria tornou-se a nossa prisioneira. Fora, porém, das regras sagradas do Espírito, eis que a Matéria se desencadeia, e – oh! o pavor de uma civilização sem Deus, de uma civilização fria e calculista! – nós somos esmagados por ela, nós que nos julgávamos ser os seus dominadores!
E então, como na hora do Calvário, a agonia de Jesus repete-se. Repete-se na paixão das trincheiras, com esse «cordeiro portador das faltas de todo um povo», na frase admirável de Vallery-Rodot, que é nosso irmão, que é nosso filho, que é nosso pai, que somos nós mesmos, combatendo de noite e de dia na poeira e na lama. Metido no seu buraco, ele testemunha a Cristo no tormento sem-par de uma civilização naufragando pelo defeito do seu excesso. Confessemos, pois, a nossa culpa, abraçados à Cruz! Pecámos pela dureza – na loucura dos sentidos e na vaidade do entendimento. Em resposta, no ar, a Matéria revolteia despedaçando o homem, a quem não assiste mais a virtude invencível do Espírito. Se nada nos resta senão a Esperança, é a Esperança que a Mãe do Senhor faz florescer por sobre os Túmulos. Não sejamos como os pagãos que não têm esperança! – ensina o Ofício dos Mortos.
E, ajoelhados ao pé da Cruz, na humanidade de Deus chagado, possamos nós ainda aprender os caminhos que conduzem direitos à ressurreição junto d’Ele!
(*) “Juxta Crucem” é uma expressão em latim que significa “junto à cruz” ou “aos pés da cruz”. Esta expressão simboliza neste texto a atitude de humildade, confissão e esperança cristã diante do sofrimento, inspirando os fiéis a aprenderem, mesmo nas adversidades, os caminhos que conduzem à ressurreição e à renovação espiritual junto de Deus.
In Na Feira dos Mitos - Ideias e Factos, 1926