Obras de M. de Louis-Gabriel-Ambroise Bonald, 1754-1840 [ Internet Archive ]:
Não passam, com efeito, de falácias estéreis as promessas descentralizadoras das democracias. Tendo o indivíduo por princípio e fim de si mesmo, as democracias arruínam e oprimem todas as grandes bases da «constituição essencial» da sociedade. São contra a Família, são contra o Município, são contra a Corporação, são contra a Igreja, são contra a Nacionalidade. Pela disputa constante do mandarinato, enfraquecem no Estado aquilo que é sua pertença própria, tal como a defesa externa – diplomática e guerreira –, tal como a coordenação superior das tendências vitais da pátria; e tornam-no ferozmente despótico, pela sua omnipresença burocrática, nos variados ramos da autonomia local, provincial e associativa, em que deve figurar apenas como regulador. É que a democracia, assentando em alicerces tão movediços, ver-se-ia logo vítima da sua natureza anárquica, se não resolvesse a dificuldade por intermédio de uma administração fortemente centralizada. Eis porque Bonald escrevia, com a costumada incisão no comentário, que Bonaparte tinha sido obrigado a empregar uma força excessiva na sua administração porque não tinha nenhuma na sua constituição. É este o traço de apertado parentesco dos regimes revolucionários com os regimes absolutistas, ambos eles herdeiros naturais do cesarismo romano.
António Sardinha, in A Teoria das Cortes Gerais
António Sardinha, in A Teoria das Cortes Gerais