O livro de Amor de João de Deus
Afonso Lopes Vieira
E este Livro é um dos dons da pátria e uma das glórias do mundo: - Portugal e o universo sublimam-se num Poeta supremo na arte de adorar. Todos sentimos que este Livro viverá enquanto houver alguém que se exprima em português, enquanto houver um homem que ame uma mulher, e uma alma que se eleve a Deus. - A.L.V.
AMOR
Amo-te muito, muito !
Reluz-me o paraíso.
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso !
Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado,
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges,
Dir-se-há que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zefiro se atreve !
E ás vezes que te assalta
Não sei que idéa, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;
Que fogo é que em ti lavra
E as fôrças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra? ...
Oh ! se essa mudez tua
E como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua ;
Ou quando à luz que adoro,
Ás horas do infinito,
Nas rochas de granito,
Os braços cruzo e choro;
Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe !
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À TUA BUSCA, AMOR!
Não sei o que há de vago,
De incoercível, puro,
No vôo em que divago
À tua busca, amor !
No vôo em que procuro
O bálsamo, o aroma,
Que se uma forma toma,
E de impalpável flor !
Oh ! como te eu aspiro
Na ventania agreste !
Oh ! como te eu admiro
Nas solidões do mar!
Quando o azul celeste
Descansa nessas águas,
Como nas minhas mágoas
Descansa o teu olhar !
Que plácida harmonia
Então a pouco e pouco
Me eleva a fantasia
A novas regiões...
Dando-me ao uivo rouco
Do mar nessas cavernas
O timbre das mais ternas
E pias orações !
Parece-me este mundo
Todo um imenso templo!
O mar já não tem fundo
E não tem fundo o céu!
E em tudo o que contemplo,
O que diviso em tudo,
És tu... esse olhar mudo...
O mundo és tu... e eu!
PÁTRIA
Como o pródigo volta ao lar paterno
Desenganado do que em vão procura,
Eu, já desfalecido nesta lida
De sonhos sobre sonhos de ventura,
Desejava dormir o sono eterno
Abrindo junto ao berço a sepultura!
Fechar em suma o círculo da vida
No saúdoso ponto de partida !
Chegado pois, Senhor, aquele dia
Que se me apague a luz que me alumia,
Deixai-me descansar onde repousa
Meu santo pai, e sua terna esposa
— A minha santa mãe!
Ser-me há assim mais leve a fria lousa...
Que a terra onde se nasce é mãe também !