O Século XVII
António Sardinha
António Sardinha aborda aqui o "Século de prosa, - de análise ... entre todos, o século da cultura portuguesa", tratando dois temas-chave do seu pensamento político: o Sebastianismo e o Seiscentismo.
Ao investigar as origens e características do Sebastianismo, António Sardinha mostra como o mito de D. Sebastião, de raízes plurais, se consolidou pela fusão de elementos cristãos, proféticos e culturais portugueses. O Sebastianismo foi decisivo na constituição da identidade e do espírito nacional, bem como na dinâmica restauradora do século XVII, sublinhando o papel dos Jesuítas e do ensino humanista dos Seiscentistas como fatores para esse florescimento intelectual e cultural.
Ao investigar as origens e características do Sebastianismo, António Sardinha mostra como o mito de D. Sebastião, de raízes plurais, se consolidou pela fusão de elementos cristãos, proféticos e culturais portugueses. O Sebastianismo foi decisivo na constituição da identidade e do espírito nacional, bem como na dinâmica restauradora do século XVII, sublinhando o papel dos Jesuítas e do ensino humanista dos Seiscentistas como fatores para esse florescimento intelectual e cultural.
- O Século XVII: Revisão de um Século Esquecido. O século XVII português foi, por muito tempo, alvo de descrédito e narrativas superficiais que atribuíam à Companhia de Jesus uma influência obscurantista e retrógrada. No entanto, pesquisas e reflexões recentes, como as de Manuel Múrias, apontam para a necessidade de reabilitar esse século, valorizando as suas contribuições culturais, intelectuais e políticas. A revisão desse período permite perceber a densidade e originalidade do Seiscentismo, resgatando o seu lugar como um dos momentos mais ricos do génio nacional.
- A Companhia de Jesus e o Ensino. A Companhia de Jesus teve papel central na formação intelectual e moral de Portugal no século XVII. Os colégios jesuítas espalharam-se pelo país, democratizando o ensino e promovendo a instrução secundária como base para o desenvolvimento do espírito crítico e da cultura humanística. Esse investimento permitiu que a língua e a prosa portuguesas atingissem elevado grau de refinamento e estabilidade, consolidando-se como expressão máxima da cultura nacional. Ao contrário do que sugerem os seus detratores, os Jesuítas não restringiram o saber, mas serviram como impulsionadores da ciência, filologia e filosofia portuguesa.
- O Mito do Sebastianismo. O Sebastianismo, entendido como o mito do Encoberto, emerge como elemento central da cultura portuguesa no século XVII. Mais do que simples superstição ou herança judaica, o Sebastianismo corporiza o anseio nacional por redenção e grandeza. Inspirado por lendas célticas, profecias e o imaginário popular, assume feição cristã e universalista, tornando-se sinónimo de esperança e afirmação nacional. A crença no regresso de D. Sebastião exprime a fé do povo português na sua própria capacidade de renovação e conquista, integrando-se no movimento restaurador que culminou com a aclamação de D. João IV.
- Universalismo e Identidade Portuguesa. O mito sebástico confunde-se com a aspiração portuguesa à hegemonia espiritual e política, aproximando-se de temas partilhados por outros povos, mas assumindo entre nós traços específicos: a fusão do nacionalismo com o ideal católico, a valorização do papel providencial de Portugal e a ligação a lendas universais como a do Rei Artur. A análise das origens do Sebastianismo, suas conexões com o messianismo e as influências do cristianismo místico demonstram o seu carácter plural e integrador.
- O Papel dos Jesuítas, Humanismo e Escolástica. Outro aspecto relevante é a valorização do ensino humanista e da Escolástica, com destaque para o papel dos comentadores conimbricences, como Pedro da Fonseca, Manuel de Góis e Sebastião do Couto, além de figuras como Frei Francisco Foreiro e Frei Jerónimo de Azambuja. Os Jesuítas contribuíram decisivamente para a difusão do humanismo como método formativo, sem cair nos excessos individualistas da Renascença, e defenderam a autonomia individual na filosofia e na educação. Essas correntes prepararam o terreno para a emergência do pensamento nacionalista e para o florescimento da cultura portuguesa.
- O Sebastianismo como Mito Nacionalista. O Sebastianismo consolidou-se como mito fundador da nacionalidade renovada. Serviu de motor ao espírito restaurador do século XVII, motivando conjurados, diplomatas, militares e o povo a projetar Portugal como nação eleita e portadora de uma missão universal. A crença na vinda do Encoberto, longe de ser simples crendice, funcionou como inspiração coletiva, síntese de sentimentos e forças morais que alimentavam o ideal nacional e sustentavam a esperança em tempos de adversidade.
O SÉCULO XVII
Entre as mentiras convencionais da nossa história destaca-se o descrédito do século XVII como uma das mais universalmente aceites. Século em que a Companhia de Jesus exerceu uma verdadeira ditadura moral e intelectual, enegrecê-lo é dever de quantos, mordidos pelas piores gafas anticlericais, ainda se gastam no salivoso e anacrónico ódio contra os Jesuítas, verdadeiros obreiros do Portugal-Restaurado – do Portugal cujas virtudes tão sólidas como modestas são o admirável recheio desse não menos admirável século XVII.
Motivam as presentes reflexões o volume, recentemente aparecido – O Seiscentismo em Portugal – do dr. Manuel Múrias. Espírito disciplinado por uma prudente cultura, Manuel Múrias pertence a um reduzido, mas iluminado escol de moços que já descreram da mera eventualidade da renovação da pátria por virtude de uma simples transformação política, para plenamente entregarem as suas esperanças à ressurreição integral das directrizes obliteradas do génio português. Considerando o problema da revisão da nossa história como fundamental, logo lhe atraíu a atenção recolhida e douta o recolhido e douto século XVII. Cabe a Manuel Múrias a glória de haver, numa visão de conjunto, intentado a reabilitação de um largo período da nossa actividade nacional, ainda que aproveitando materiais carreados por outros, mas com um restrito fim monográfico. Efectivamente, desde Joaquim de Vasconcelos, arredando com mão segura o acervo de calúnias que enodoavam a figura de el-rei D. João IV, a Edgar Prestage e a J. Lúcio de Azevedo, um, contornando energicamente o complicado perfil de D. Francisco Manuel de Melo, o outro elevando à memória do Padre António Vieira um sólido e imperecível monumento, o século XVII já entrara como tema preferido nos trabalhos dos nossos eruditos mais reputados. Faltava-nos, porém, uma ementa do que ele fora, não em aspectos parciais e destruncados, mas como unidade sintética dentro do plano geral da nossa história. Sem a pretensão de arrumar o assunto, Manuel Múrias conseguiu dar-nos um volume fácil e persuasivo, em que se restitui ao Seiscentismo o sentido das suas magnificas contribuições, tão adulteradas e tão pervertidas por uma crítica sectária depois.
Quer-me parecer a mim que o descrédito do século XVII não é apenas obra da falsa e superficial historiografia do século passado. Sobe decerto a Pombal, a esse nefasto e vigoroso desnacionalizador, rendido por completo aos métodos da Enciclopédia, sobe, sem dúvida, à Dedução cronológico-analítica. A infamação dos Jesuítas, promovida por tão indigno como insubsistente libelo, caíu em cheio sobre o século XVII, nascido e conformado pela inspiração da Companhia. Mas se, despidos de preconceitos, o considerarmos através da joeira de um frio e imperturbável juízo, não tardaremos a reconhecer que ele, ao lado do século XV, é um século de puro e castiço lusitanismo.
Não aludiremos agora ao esforço político da Restauração, esforço em que as energias colectivas improvisaram uma magnífica plêiade de generais e de diplomatas, saídos quase todos das aulas da Companhia de Jesus e em cuja escolha o dedo de D. João IV se manifesta com adestrada felicidade. Mas fixar-nos-emos um pouco na campanha intelectual desenvolvida em torno e a favor da Restauração por um grupo de polemistas experimentados e pertinazes. Trata-se de um capítulo da nossa história que é simultaneamente um capítulo da história das ideias europeias. Aqui se acolheram os últimos defensores da liberdade cristã da Europa, numa hora em que o absolutismo real, engrossado pelos ventos da Renascença e da Reforma, estrangulava avidamente as derradeiras franquias e privilégios, tanto localistas como corporativos, legados pela Idade Média. Se, incontestavelmente, são castelhanos em parte os tratadistas que inspiram a agitação filosófica que a política da Restauração utilizaria com ressonância e labareda, devemos, em todo o caso, acentuar que muitos deles, com o insigne Suárez à frente, professaram em cátedras portuguesas, acrescendo ainda que, reavivado de São Tomás e dos seus diligentes comentadores, o alto pensamento que os guiava, se pertencia ao património mental da Europa, só na Península encontrou o seu último reduto – um reduto firme e consciente. Em face da galhardia com que os nossos polemistas de Seiscentos, educados em tão segura formação, combateram, contra o Direito Romano dominante, o conceito patrimonial do Estado, não nos aventuraremos a uma afirmação leviana se os saudarmos como os precursores das modernas correntes nacionalistas. Sustentavam já eles então, contraditando as copiosas apologias filipinas, divulgadas por toda a Europa, que «os Reis foram feitos para os povos, e não os povos para os Reis». E, por que outros não eram as lições e os ensinamentos dos Jesuítas, compreendemos agora porque, um século a seguir, o marquês de Pombal os expulsaria por «monarcómacos & sequazes dos republicanos». Os Jesuítas, sequazes dos republicanos, é de estarrecer, na verdade, M. Homais na sua botica em Rouen!
Este aspecto do nosso Seiscentismo, cuidadosamente assinalado por Manuel Múrias no seu excelente estudo, relaciona-se de perto com uma questão não menos acalorada, em que as nossas duas Universidades (Coimbra e Évora) figuraram igualmente como teatro. Aludo ao molinismo. Não ignoro que o livro do jesuíta Luís de Molina, professor da Universidade de Évora, sobre a concordância do Livre-arbítrio com a Graça, apareceu em Lisboa no ano de 1588. Mas um século no seu significado cultural e social não coincide as mais das vezes com os seus limites cronológicos. E quanto a mim, o século XVII, filho da Contra-Reforma, não é senão a demonstração de quanto se ajustaram à parte sã da alma portuguesa as direcções ditadas em Trento à catolicidade em crise. Ora o molinismo não se enquadra já no grande desvario de Quinhentos e corresponde inteiramente à mentalidade que dirigiria o nosso Seiscentismo. Conquanto espanhol, Luís de Molina, como todos os Jesuítas, achou entre nós maior eco do que na sua própria pátria, onde um virtuoso dominicano, Frei Domingos Báñez, confessor de Santa Teresa, o impugnou ruidosamente. A que conclusões chegava o molinismo? Obtiveram as suas disputas uma ampla repercussão europeia e não suponham que versavam uma querela inútil – um bizantinismo de argumentadores infatigáveis. Não! Defensores da liberdade política contra a concentração absolutista, os Jesuítas mostraram-se da mesma maneira, e com a mesma veemência, defensores da «liberdade interior» – da autonomia individual, seriamente ameaçada pelos excessos da doutrina da Predestinação, que suprimia toda a humana iniciativa. As teses de Molina honram a Companhia de Jesus e as nossas escolas. E, no seu Condenado por desconfiado, um outro Molina – Tirso de Molina, castelhano também – dar-lhes-ia expressão literária inolvidável.
Aponta Manuel Múrias no seu volume com suma acuidade a característica fundamentalmente intelectual do século XVII. Século da prosa portuguesa, século da fixação da língua, o define Manuel Múrias. Se as arcarias e as musicalidades excessivas do neoclassicismo conferem abundância e dinamismo ao idioma, enfim estabilizado, o folclore, com exemplo nos Apólogos dialogais, de D. Francisco Manuel de Melo, imprime-lhe imprevisto, sabor e até picturalismo, coisa rara nas literaturas contemporâneas, exceptuada a espanhola. Mas a linguagem, assim apurada, não se detinha num mero exercício verbal, num exclusivo arranjo plástico da palavra. Se as modas poéticas gafam com maneirismos de importação a nossa frondosa árvore lírica, não se veja nisso um sinal ou estigma de decadência! A viçosa floração mental do século XVII certifica-nos do contrário. E não é debalde que Manuel Múrias sumaria os serviços dos nossos missionários – Jesuítas, sobretudo, prezados ao conhecimento das línguas exóticas, preparando com recuada antecipação o caminho à filologia comparada. Título esse de glória, que é preciso reivindicar para os que, porventura, duvidem de que houve uma «ciência portuguesa», ajuntemos-lhe ainda o do Suarismo, oportunamente recordado por Manuel Múrias num momento em que a reviviscência da Escolástica tanta actualidade dispensa ao desprezado labor dos esquecidos mestres coimbrões.
Viajando em Portugal à volta de 1875, observava a tal respeito Menendéz Pelayo, ainda rapaz: «Hombres en lo demás doctos y juiciosos, estan llenos de preocupaciones respecto a la antigua filosofía, y solo así se explica el que tengan olvidados por completo a los comentadores de la Escuela Conimbricense y para nada tomen en cuenta el desarollo del Suarismo en Portugal que fue tan notable». E o brilhante polígrafo acrescenta: «Los libros más recientes vienen llenos de declamaciones contra la filosofia de los jesuitas, como si estuviésemos aún a la altura del siglo XVIII.» O reparo de Menéndez Pelayo atinge no íntimo a teia de falsidades em que até hoje o Seiscentismo se enredou entre nós. Vítima da superficialidade gárrula do século XVIII, o nosso Seiscentismo sofreu o descrédito que sofreu a Escolástica com a vitória das filosofias fáceis da Enciclopédia. Para que se aprecie a amplitude de tamanho desvio que nos levou a atirar para o limbo dos farrapos anónimos um dos mais inconfundíveis capítulos da nossa vida cultural, não falarei do renascimento do Tomismo, com o seu centro irradiador em Lovaina, nos termos em que falaria um publicista católico. Prefiro que escutemos um testemunho insuspeito, o de um agnóstico confesso, Gonzague Truc, no seu livro, Le retour à la Scholastique. Diz-nos ele: «La tradition philosophique arrêtée au XVIII siècle, sait-on que c’est avec l’esprit humain que l’on rompait? Voici donc que l’Église reprend son vieux rôle, qu’elle recueille pour la conserver, à travers l’indifférence ou l’hostilité des Barbares, la sagesse das anciens jours.»
Considera Gonzague Truc a Escolástica como uma extraordinária resultante da prudência de Aristóteles e do arrojo de Plotino, «como o melhor da meditação antiga vivificada e penetrada pela sensibilidade cristã». Para Gonzague Truc a religião não foi a única atingida, quando no século XVI a Reforma inaugurou o puro individualismo. «On a dit non et à l’autorité dogmatique, et à la discipline, et aux trésors du passé. On a tout daté de soi. On a imposé à l’esprit d’oublier le travail des siècles, de recommencer sur nouveaux frais.» E o autor do Le retour à la Scholastique concretiza o que significou para nós, ocidentais, o repúdio da Escolástica, perennis philosophia: «Au fond, l’oeuvre du monde moderne a consisté en ceci, à dresser un esprit issu de l’âpre génie des peuples envahisseurs contre la domination intellectuelle des peuples méditerranéens...» Opõe Gonzague Truc aos desvios da inteligência contemporânea a Escolástica – Gonzague Truc, cujo agnosticismo é necessário ter bem presente, para que o seu depoimento se pese nas suas condições de imparcialidade perante a Igreja, o que o valoriza excepcionalmente para a nossa demonstração. Assim, na incapacidade construtiva dos vários subjectivismos filosóficos que pretenderam substituir a Escolástica, esta «reste donc le témoin perpetuel de la seule pensée valable et la règle où les diverses disciplines doivent se venir mesurer». Não sei de apologia mais calorosa do que a de Gonzague Truc! O seu livrinho contribuirá indubitavelmente para transformar as opiniões correntes, depois do ascenso do falso racionalismo, sobre o alcance e os méritos da Escolástica. Ele ajuda-nos a restituir ao seu lugar perdido os velhos mestres conimbricences, que já Menéndez Pelayo, há quase cinquenta anos, achava envoltos num injusto e, para nós, deprimente esquecimento.
Podemos agradecer ao falecido e ilustre doutor Ferreira Deusdado o inventário da doutíssima actividade dos comentadores coimbrões no seu precioso opúsculo La philosophie thomiste en Portugal. Mencionemos o jesuíta Pedro da Fonseca, que alguns apelidam de «novo Aristóteles» e que Menéndez Pelayo nos indica como influindo grandemente na formação e na enunciação do molinismo. Na difusão e no comento do «Suarismo» nomearemos os padres Baltasar Teles, Manuel de Góis e Sebastião do Couto – os dois últimos autores do célebre Curso de Artes, publicado pelo Colégio Conimbricense, sendo a Lógica de Couto e o demais de Manuel de Gois. Foi europeu o Curso de Artes e debaixo da designação geral de Commentarii collegii Coninbrensis serviu de texto de ensino a toda a Europa culta. Mede-se já a importância de quanto nos roubou falseando, a interpretação exacta do século XVI, o antijesuítismo, contaminado por Pombal e pelo Enciclopedismo aos nossos pretensos críticos e historiadores. Ninguém ignora que num desdém vexatório pelo latim, Inocêncio só registou no seu Dicionário bibliográfico os autores que escreveram em português. Repelíamos deste modo um jesuíta como Manuel Álvares, a quem se deve o De Institutione Grammatica libri tres – compêndio notabilíssimo, igualmente espalhado por toda a Europa –, e o mercedário Frei Serafim de Freitas catedrático em Valladolid e eminente refutador de Grócio no seu De justo imperio Lusitanorum asiatico. Não falando nos orientalistas, Frei Jerónimo de Azambuja (Oleaster) e Frei Francisco Foreiro, teólogos ao concílio de Trento e insignes tradutores dos sagrados textos hebraicos. Bem nos recordamos que cronologicamente Frei Francisco Foreiro e Frei Jerónimo de Azambuja são do século XVI, mas intelectualmente incorporam-se já na corrente culta que originou e alimentou o nosso Seiscentismo. Tanto Frei Jerónimo de Azambuja como Frei Francisco Foreiro não se limitam nos seus trabalhos a uma versão rigorosa das Escrituras. Nos Commentarii in Pentateuchum Moysi, Frei Jerónimo Oleastro empenha-se em procurar o significado genuino e primitivo de cada palavra hebraica, subindo às suas etimologias e corrigindo, inclusivamente, a versão dos Santos Padres em bastantes passos. Frei Francisco Foreiro, na sua tradução das Profecias de Isaías, emprega processos idênticos, oferecendo-nos um notabilíssimo comentário filológico sobre os idiotismos da língua hebraica. Adicionemos aos seus nomes o nome do crúzio Pedro de Figueiró, ao qual, pela sua perícia no domínio e cultivo das letras sacras, chamaram os seus contemporâneos «alter Hieronymus».
Com semelhante preparação e tais antecedentes compreendemos já sem custo a que elevação intelectual nós subimos no século XVII. Insisto pelo carácter tridentino do nosso Seiscentismo, pela perfeita ortodoxia do seu pensamento e das suas tendências. Não porque me dirija agora qualquer intenção apologética. Mas, colocado em pleno critério objectivo, para que se destrua de vez o aleive injustificado que tem esse século como uma pausa humilhante na nossa história, acusando nele os frutos de uma longa e asfixiante tutela eclesiástica. A minha tese é a tese do dr. Manuel Múrias – tese que me facilitou motivo para as breves glosas com que a estou torneando. Exactamente, nos moldes e direcções impostas pela Contra-Reforma à sociedade portuguesa, é que reside o segredo do florescimento lusista do nosso Seiscentismo. Na Introdução ao Dicionário da Língua Portuguesa, de Pedro José da Fonseca, e impresso pela Academia em 1793, confessa-se louvavelmente que a idade mais elegante da pureza da nossa língua deve contar-se «desde o ano de 1540 em que começaram a ler na Universidade de Coimbra os insignes mestres que el-rei D. João III nela estabeleceu». Eis o reconhecimento de um facto que só por si enche de luminosidade o século XVII: graças ao ensino humanista, como os Jesuítas o professaram, a nossa língua se estabilizou na pena dos Seiscentistas, e estabilizou-se numa prosa onde mergulha as suas raízes quanto, no falar português, existe de sóbrio, de grave e de definitivo.
Eu não quero converter os meus leitores à admiração da Companhia de Jesus. Exijo-lhes apenas, como homens cultos e de boa-fé, que a encarem e julguem sem prevenção de espécie alguma. Um livro lhes recomendo, embora esse livro seja sectário no debate de mais de uma questão. É o estudo de H. Boehmer, professor da Universidade de Bona – um dos redutos do protestantismo intelectual –, e traduzido para francês pelo calvinista Gabriel Monod: Les Jésuites. Basta a leitura da obra de Boehmer para despojar de preconceitos inadmissíveis, no caso particular dos Jesuítas, quem se reja pelas luzes serenas da inteligência. Ora nós, portugueses, não podemos, na verdade, separar a nossa história da história da Companhia. Boehmer honestamente classifica como erróneas as imputações que atribuem a nossa decadência aos Jesuítas. A revisão do processo do século XVII põe-nos em frente da Companhia, levando-nos a verificar que, século jesuítico por excelência, é também essencialmente um século português, desde a medula à alma. Não constituiram os Jesuítas com os seus colégios e os seus professores um cerrado mandarinato para raros e escolhidos discípulos. Apostolizaram como poucos as primeiras letras e à Companhia se agradece a instituição e difusão da que hoje entendemos por «instrução secundária». Resolveram assim os Jesuítas hábilmente o problema do «humanismo». O mal da Renascença, com consequências bem funestas na dissolução individualista dos nossos dias, consistiu em arvorar o ideal humanista como tipo ou fim de vida. Apropriando-se dos recursos que as humanidades» traziam à cultura geral do espírito, os Jesuítas utilizaram o humanismo, não como uma finalidade, mas como um meio ou elemento de formação mental. Como o renascimento do Tomismo lhes dá hoje razão no seu apego à filosofia tradicional, não os reabilita menos a defesa recente e unânime das humanidades como clarificadoras do espírito nos adolescentes. Coincide o período escolar em que as humanidades se frequentavam com um período grave no nosso desenvolvimento moral e físico. Oiçamos Léon Daudet no seu formidável discurso, pronunciado na Câmara dos Deputados francesa em 27 de Junho de 1922, sobre a influência das humanidades no ensino secundario: «Vous savez que la maladie du jugement, qu’on apelle, d’après la racine grecque, l’aphronie, de a privatif et phronos, jugement, est un trouble cerebral et corporel qui prend les enfants à l’áge de onze ans et les accompagne jusqu’à l’âge de vingt ans, l’âge de l’echéance philosophique, des connaissances métaphísiques qui libèrent la personne humaine des préoccupations exclusives de l’instinct sexuel». E Daudet adita: «Pendant cette période, je considère que les humanités, même sous la forme réduite ou elles sont enseignées, sont la meilleure assise du jugement.»
Não nos é possível seguir Léon Daudet na dedução das suas considerações. Mas o pequeno trecho reproduzido intima-nos a importância capital das humanidades, não só como método de ensino, mas também como tratamento eficaz da psicologia tão revolta e desencontrada da adolescência. Explica-se, pois, o sucesso da acção pedagógica dos Jesuítas, que entre nós, no debatido século XVII, sobretudo, se disciplinaram inteligências, criaram, principalmente, «homens». Com esses «homens», provindos dos colégios da Companhia, se levantou e consolidou a fábrica difícil do Portugal Restaurado – dos seus generais, dos seus diplomatas, da sua burguesia, aos seus escritores e aos seus missionários. É um século em que, ao lado de um Salvador Correia de Sá, de um marquês de Marialva, de um D. Sancho Manuel, de um Matias de Albuquerque, no campo das batalhas, se perfilam nas pugnas subtis da política externa um Francisco de Sousa Coutinho, um Andrade Leitão, um João Rodrigues Sá e um António de Sousa de Macedo. Não nos faltam economistas, como que tocados de um antecipado sentido nacionalista, em Manuel Severim de Faria e em Duarte Ribeiro de Macedo. Sobrepuja a todos pela multiplicidade das suas aptidões o Padre António Vieira, expressão invulgar do Sonho e da Acção. É um século em que se constrói, desde as fortificações de Elvas, exemplar completíssimo do sistema Vauban, aos inumeráveis edifícios militares e civis, que as necessidades sociais e políticas da Restauração nos exigiam. Há uma justa correspondência em todas as camadas nacionais, uma como que equilibrada e salutar função de osmose e endosmose. O povo preenche com bela matéria-prima os quadros da pátria que se reedifica. E porque os Jesuítas exercem uma intensa ditadura nas almas e nos cérebros, não o suponham mergulhado no obscurantismo das inevitáveis declamações de uma história para gastos folhetinescos!
Conhece-se uma memorável consulta da Mesa de Consciência e Ordens dos fins do século XVI que nos ajuda a reconstituir a divulgação do ensino, levada a efeito pelos Jesuítas. «Essa consulta – elucida o malogrado doutor Ferreira Deusdado nos seus Educadores Portugueses – quer atalhar à falta de homens para outros exercícios lícitos e necessários da nação e mostra os inconvenientes que há em haver em Portugal muitos letrados pela facilidade com que pais tanto nobres como mecânicos, ainda que pobres, mandam aprender latim e artes, nos colégios, gratuitos, espalhados em todo o reino. Uns vogais, querem – continua Ferreira Deusdado – que se fechem os colégios ficando uma só classe, paga à custa dos ouvintes, outros que nenhum nobre possa matricular na Universidade mais de dois filhos, e o mecânico um só, e o cristão-novo nenhum, sem especial licença do Rei, porque ainda desta maneira sobejarão letrados nestes Reinos». Recortado de José Silvestre Ribeiro na sua História dos estabelecimentos científicos e literários, chama Ferreira Deusdado em seu reforço um excerto de Faria e Sousa. É como segue: «O Cardeal D. Henrique fundou em Évora um sumptuoso Colégio e Universidade para os Padres da Companhia, onde têm escolas-gerais de que se aproveitam os naturais daqueles sítios, com tal concorrência que vindo muitos para isso a deixar a cultura dos campos, em cujo exercício se criaram, a perderem-se muitas terras que produziam fertilmente o sustento de grande parte do Reino, levado por isso à necessidade de pedir pão aos seus próprios inimigos.»
Tão ligados ao viver íntimo de povo, não se admite mais a declamada lenda de obscurantismo que envolve simultaneamente os Jesuítas e o século XVII! Não se afirma nenhum paradoxo se dissermos que esse é o século em que, proporcionalmente, a cultura geral se acha difundida com maior largueza e penetração. Século de Sebastianismo ignaro, obtemperará em defesa última quem se atreva a permanecer fiel aos conceitos herdados da Dedução cronológico-analítica. Século de Sebastianismo, efectivamente, corroboro eu, mas sem que à palavra «Sebastianismo» atribua um sentido de baixa e estigmatizante alucinação. Se há em Portugal um período da sua sua história mais estruturalmente intelectual – insisto –, é, fora de dúvida, o século XVII. Como explicar então, a não ser por uma rara psicose colectiva, o sonho, a crença comum no Encoberto, de que participam ardentemente, antes e depois da Restauração, nobres e plebeus, ganhões e catedráticos? Motivo para extensas lucubrações, o Sebastianismo, como «religião da Esperança» e como «mito nacional», não merece os desdéns dos que objectiva e racionalisticamente se ocuparam dele, desde o confuso babilónico José Pereira de Sampaio (Bruno) a J. Lúcio de Azevedo e António Sérgio. Urge, porém, que o ilibemos das constantes ampliações romanescas que a cada hora o adulteram, tornando-o em teta esfalfada de uma não menos esfalfada bastardia lírica. Antes de tudo, no Sebastianismo revela-se, transfigura-se a aptidão universalista do génio nacional. É semelhante aptidão o sinal peculiar e próprio da alma hispânica. Ainda recentemente Oswald Spengler, tão afamado pelas suas teorias catastróficas acerca do futuro da «civilização ocidental», asseverava que os «espanhóis», primeiro que ingleses e prussianos, souberam dar à civilização europeia ideias universais. Tais ideias resumem-se no ideal católico, que a Península desposou como seu, ditando-o e servindo-o como uma projecção da sua fisionomia espiritual. A designação de Spengler ‘espanhóis’ é preciso corrigi-la por ‘hispânicos’, para que, mais exacta, abranja assim ‘portugueses’ e ‘castelhanos’. Ora a tendência espontânea para a hegemonia mundial, equivalente ao ville zur Macht faustiano, que Oswald Spengler reconhece nos «hispânicos», entrega-nos a chave da concepção sebastianista.
Se o temperamento dogmático e seco do castelhano, como nascido e medrado nas solidões pensativas da Meseta, o empurra para manifestações exclusivamente individuais e individualistas, como o D. Quijote, as gentes da ribeira atlântica, dispondo de uma outra sociabilidade e senhoras de uma feição lírica inconfundível, encontrariam no relevo de uma criação anónima o herói que lhes personificasse as aspirações, a um tempo comunitárias e imperialistas. A condição especial do Luso dentro da família peninsular, objecto de longos debates, fixa-se tipicamente no caso do Sebastianismo. Claro que «Sebastianismo» significa e importa um conjunto de sentimentos e de forças morais que excede a figura restrita de D. Sebastião, o qual foi o seu condensador. Entrelaçando agudamente a origem da crença sebástica com as entranhadas raízes do lirismo português, nota algures Menéndez Pelayo: «No es vana la antigua trandición que pone en Portugal o en Galicia la cuna del Amadis y de la mayor parte de los primitivos libros de caballerías, derivación muy libre e muy españolizada de los cuentos galeses y armoricanos. Allí debieron nacer por la misma ley de misterioso atavismo celtico que llevó a los portugueses a la conquista del Mar Tenebroso, fascinados por el espejismo de la islas encantadas y de la leyenda de San Brandán, y que a través de los siglos renueva hasta en sus mínimos pormenores el mesianismo del rey Artur, rex quondam resque futurus, en la esperanza nunca desfallecida y siempre renaciente, de los que todavía aguardan en día de niebla por la foz del Tajo al Rey Don Sebastián, redentor de su raza y fundador del sexto (sic) imperio apocalíptico.»
O parentesco evidente do mito do Encoberto com o mito do Rei Artur obrigava Menéndez Pelayo a recorrer para um recuado fundo étnico, que o insigne polígrafo qualificava de «céltico», forçado pelo celtismo erudito da época em que escrevia. Sem discutirmos agora qual a natureza desse substracto étnico, se céltico, se lígure, ou se até ibérico, convém recordar que na sua Historia de los heterodoxos españoles, Menéndez Pelayo, encostado a um passo célebre de Suetónio, nos fala de uma sibila de Clunia – fatidica puella – que prometera à sua tribo oprimida um salvador no futuro. Para os que se gastam a denunciar o Sebastianismo como uma afloração espúria do messianismo judaico, tanto as suas afinidades com o mito de Artur, como o facto apontado da fatídica puella de Clunia emancipam-no prontamente dessa indicada ascendência israelita. Os elementos bíblicos que transitaram para a religião sebástica forneceu-lhos a mística cristã. Na hora de Seiscentos, em que aparecia o opúsculo de Lucindo Lusitano (Luís Marinho de Azevedo) em favor de D. João IV – El Principe encubierto –, manifestado en quatro discursos políticos exclamados al rei D. Philippe IV de Castilla, Lisboa, 1642, corria também em Madrid El príncipe escondido (Meditaciones, de la vida oculta de Cristo, de los doce hasta lo treinta años), por Frei Marcos Calderón, Geral dos Mercedários e Pregador de Filipe IV. A linguagem do nosso mito nacionalista ajusta-se, pois, à linguagem simbólica da Igreja. Não carecemos, por isso, de degenerar o que é flama acesa do nosso génio numa superstição passiva sem dignidade nem grandeza.
Mas eu referia-me à sibila de Clunia – á fatídica puella, mencionada por Menéndez Pelayo. Não passou ela despercebida ao nosso infatigável Martins Sarmento. Em nota a pp. 273-274 dos seus Argonautas (Subsídios para a história antiga do Ocidente)consigna o doutíssimo arqueólogo: «Para completar a sua obra, não seria estranho que os druidas semeassem a promessa de um libertador. Não há notícias deste messianismo na Gália; mas vamos encontrá-lo na Espanha, na Cantábria, onde menos se esperava. Quando Galba subiu ao trono, viu-se nele o libertador do mundo, profetizado dois séculos antes por uma virgem cantábrica (Suetónio, Galba, IX)... O noroeste da Espanha foi talvez o refúgio de muitos Lígures da Gália e da Inglaterra. É de alguns destes países que vem o misterioso messianismo dos Cântabros?». Se Martins Sarmento atendesse à irmandade em costumes e instituições de Lusitanos, Galaicos, Astures e Cântabros, expressamente testemunhada por Estrabão, não carecia de formular a sua pergunta. A fatidica puella de Clunia insere-se no mesmo fundo étnico, de que derivou depois o Encoberto. E tão autóctone tal substracto se nos revela, que, relacionando-o com os primitivos cânticos galaicos, Menéndez Pelayo, para provar o indigenato destes, sublinha sabiamente nele uma ausência total de carácter bélico. Pretendo eu, por meu lado, sustentar que o Sebastianismo, como expressão de um determinado estado psíquico, seja afirmação exclusiva da árvore genealógica em que a grei portuguesa se entronca? De modo nenhum. Decerto que o Sebastianismo, propriamente dito, é apenas nosso, mercê da figura histórica que o corporizou. Mas a ânsia messianista que o inspira pertence ao património sentimental e místico da humanidade. Acontece porém que, se em muitos povos ou raças há excepcionalmente um herói salvador que, derrotado, volverá um dia, para resgate e apoteose dos seus – isto desde as fundas idades poéticas até as portas das eras contemporâneas –, em Portugal a crença no Encoberto torna-se a feição predominante de uma sociedade e de uma época, com aquele valor de condensação energética, conferido modernamente por Georges Sorel aos mitos, que se apressa a não confundir com as utopias».
Baseado na teoria de Georges Sorel, reflexiona Vilfredo Pareto: «Il n’existe dans l’histoire aucun peuple grand, fort, prospère, chez lequel on ne trouve les sentiments profonds et actifs qui se manifestent par un idéal, une religion, un mythe, une foi. Tout peuple – avança Pareto – où ces sentiments s’aflaiblissent est en voie de décadence. Bien des petits peuples sont devenues grands parce qu’ils avaient foi en eux-mêmes; un peuple qui perd cette foi est tout prés de la ruine.» O Sebastianismo, como mito nacionalista, não era, no momento agudo de Seiscentos, senão a fé exasperada da nação postuguesa em si própria. O que no Sebastianismo crepitasse de vesânia ou estultícia, como o regresso de D. Sebastião, forma tangível da «religião da Esperança» para o vulgar das gentes, nobre e logicamente o combateu o vigoroso espírito seiscentista. Nada melhor no-lo ensina do que a lápide famosa da Porta do Nó em Vila Viçosa, lápide comemorativa da aclamação de D. João IV. Reza a inscrição, transposta a vernáculo: «Esta é a fatal porta dos Nós. João poderoso livra-me com a espada do nó da Espanha. Desfaz Alexandre o nó para imperar como rei na redondeza da terra; o meu rei o desata para empunhar os ceptros do Rei Encoberto. Ano de 1654.» Tal é o sentido preciso, a definição histórica do mito sebástico. Portugal identifica-se ao rei perdido, mas imortal. D. João IV, retomando o lugar de D. Sebastião, dá realidade ao mito e volve-o em acto permanente e vivo. Com razão declara Vilfredo Pareto que «dans la vie des peuples, rien n’est aussi réel et pratique que l’idéal». Na vida do nosso povo, o Sebastianismo é a personificação desse ideal que o alimenta – ideal de que o milagre de Ourique traduz igualmente um outro aspecto, uma outra face.
Salienta ainda Vilfredo Pareto que «la realité de l’idéal ne se trouve pas en soi-même, mais dans les sentiments qu’il révèle», acrescentando que «le contenu logique de l’idéal importe peu. Ce qui importe beaucoup plus c’est l’état psychique qu’il révèle, dont il est un symptôme». Eis o problema do sebastianismo em relação ao século XVII. Rectificando a Oliveira Martins, pretende mestre Bruno no seu Encoberto que o historiador confundiu dois factores diferenciados diversificadamente: o do sebastianismo e o do messianismo em Portugal; o primeiro considerado irrisório e pertença de maniáticos; o segundo, reputado intangível, como inviolável timbre da dignidade colectiva. Um, além da adaptação de profecias estranhas, deriva das trovas de Bandarra; o outro fundamentava-se, além da tradição nacional, anónima, no juramento de D. Afonso Henriques. Enganava-se, porém, redondamente o afanoso publicista portuense! O messianismo é que, de uma maneira ou outra, representa no desenvolvimento de todos os povos um traço geral e comum. O «Sebastianismo», pelo contrário, determina a feição especial que semelhante fenómeno adquiriu em Portugal. Não há que separá-lo, portanto, da exaltação nacionalista que falsifica as actas de Almacave e utiliza mais tarde, nos combates diplomáticos da Restauração, as miragens eruditas de Frei Bernardo de Brito na sua Monarquia Lusitana.
Vimos já como a lápide de Vila Viçosa concretiza o significado oportunista do Encoberto. O mesmo propósito conduz à modificação da estrofe célebre do Bandarra:
«Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom foam:
Correrlheam o Pendam,
E o Guiam,
Poderoso & triumphante».
por
Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom Joam».
De resto, bem antes da Restauração, o cristão-novo Manuel Bocarro Francês não fugia de apregoar, como sebastianista confesso, que, embora D. Sebastião não tivesse morrido em Alcácer, Rei haveríamos nele, não na sua pessoa, «mas no sangue da sua raça». Tal é a linha dorsal do sebastianismo da Restauração, que no seu manifesto El príncipe encubierto Luís Marinho de Azevedo inclui na comparação feliz do Encoberto, abrangendo pela fórmula D. Sebastião ao D. João IV – ao «Deus ignoto» dos atenienses, em quem a gentilidade prestava culto antecipado à unidade do Deus Criador. Evidentemente que na massa avulsa da nação o Encoberto tomava aspectos de fetichismo baixo e depressivo. Não esqueçamos, para o explicar, o que de judaico se espalhara por entre a arraia miúda. Mas então com isso só se prova a filiação hebraica do Sebastianismo – gritarão, vitoriosos, os opositores da minha tese. Ora escutemos o senhor J. Lúcio de Azevedo na Evolução do Sebastianismo, discorrendo das profecias do Bandarra: «Ao fundo propriamente judaico se juntou o que da lenda de Merlim restava ainda na tradição popular, se é que não veio de Espanha com outros elementos, que o autor das Trovas igualmente utilizou.» Mas o que é para o senhor J. Lúcio de Azevedo o «fundo propriamente judaico» das Trovas? Ele nos responde: «Não é de estranhar o alvoroço que entre os Hebreus causavam as trovas proféticas, pejadas de reminiscências bíblicas, no sentido e na linguagem.» E o ilustre historiador esclarece: «Reconheciam no Bandarra um dos seus, se não pelo sangue, no afecto aos livros sagrados, que lhe inspiravam a grosseira musa.» Pelo sangue, seguramente que não, segundo o senhor J. Lúcio de Azevedo testifica com a certidão passada pelo Santo-Ofício – certidão que atesta não ter sido o Bandarra preso por culpas de judaísmo, mas por «fazer trovas sobre lugares da sagrada escritura». Os lugares da sagrada escritura, em que o sapateiro de Trancoso se apoiava, vinham-lhe, como já notámos da Bíblia, sim, mas pelo canal da mística cristã. Notarei ainda que se o messianismo é uma aspiração judaica, o que pensaremos do Cristianismo da «parusia», ou seja, do advento do reino de Deus, durante as idades apostólicas, sobretudo? Sucede também que aos Judeus repugnava visceralmente, tanto a ressurreição dos mortos, como a ideia de «imortalidade da alma». Lembrêmo-nos da tragédia mental de Uriel da Costa! E sem divagar, unicamente para assentarmos o nosso juízo, consinta-se-nos um recorte elucidativo da História de Cristo, do convertido italiano Giovanni Papini. Frisa-nos Papini a dificuldade com que os apóstolos e discípulos do Senhor acreditaram na sua ressurreição. Maria Madalena toma-o pelo jardineiro de José de Arimateia e os caminheiros de Emauz como qualquer outro viajante. Tem-se a impressão, ao lerem-se os Evangelhos, que os amigos de Cristo, bem longe de inventarem a sua volta, só a aceitaram constrangidos por uma triunfante evidência e depois de bastantes hesitações». É, numa palavra, o inverso, de quanto pretendem provar aqueles que os acusam de ingenuidade ou fraude. E Giovanni Papini interroga: «Mas porquê tais incertezas? Porque é que os ensinamentos de Jesus não tinham podido destruir, nessas almas lentas e indóceis, a antiga repugnância judaica à ideia da imortalidade? A crença na ressurreição dos mortos foi estranha por muitos séculos ao espírito todo temporal dos Hebreus. Encontramos rastos dela em raros profetas, em Oseias e Daniel, não aparecendo verdadeiramente explícita senão numa passagem da história dos Macabeus. Nos tempos de Cristo o povo possuia uma confusa noção, como de um milagre longínquo que entrava no plano dos apocalipses, mas que não se realizaria antes do dia da destruição suprema. Os Saduceus negavam terminantemente a ressurreição dos mortos; os Fariseus admitiam-na, não como o privilégio de um só, mas como a recompensa afastada e comum de todos os justos. Quando o supersticioso Antipas dizia de Jesus que ele era João ressuscitado de entre os mortos, queria dizer, servindo-se de uma imagem enérgica, que ele era «um outro João». Donde o concluir Papini legitimamente: «A relutância em admitir uma tão extraordinária infracção às leis da morte mostrava-se tão profunda entre os Judeus que os Discípulos mesmo do Ressurrector, que anunciara a sua própria ressurreição, não estiveram dispostos a reconhecê-la, sem primeiro se convencerem, por meio de provas e contraprovas». Se transpusermos para o mito sebástico, em que o messianismo judaico deve desaparecer diante da parusia cristã, as considerações de Papini, o que inferiremos nós? Que, embora a vinda do Encoberto exprima para Portugal a sua vitória no mundo, o seu máximo poderio (Portugal-Maior, diríamos hoje), e se possa aparentar por ai ao imperialismo moral dos judeus, no mito sebástico distingue-se, em todo o caso, um elemento – o elemento predominante, que rejeita os seus supostos antecedentes hebraicos. Morto ou não na batalha, D. Sebastião tornará um dia ampliado no tempo pelo dom de uma imortalidade, que, se não é eterna, é, pelo menos, histórica. Isto, quanto às origens poéticas do «mito», pois que a sua interpretação prática já sabemos em que termos lha deu o século XVI. Creio suficientemente indicado, por um trabalho de raciocínio, que o leitor suprirá no seu miúdo encadeamento, como o «sebastianismo», sinónimo de «encobertismo», é mais cristão do que judaico, e como brotou antes da autoctonia psíquica da nossa raça, do que de uma enxertia ou posterior imiscuência hebraica.
O carácter providencial de povo eleito, que o mito sebástico concede a Portugal, é que o assemelha, mas pelo lado dos teólogos e místicos do Cristianismo, à perdida dignidade de Israel como «nação escolhida». Socorrendo-se do «milagre de Ourique», Pedro de Sousa Pereira, no seu Maior triunfo de Monarquia Lusitana, na esteira de muitos outros autores, reclamaria para Portugal a «semelhança com o povo de Israel, de que se lhe transferiu domínio», porque «o reino de Portugal é de eleição divina e sucedeu a Israel, que o perdeu por seus pecados, e se deu às gentes que fizeram fruto nele de estender o nome de Deus até o Japão, que é o outro polo, confirmando nossa santa fé com suas vidas, apesar de tantos encontros dos infiéis e riscos de grade Oceano». Aqui se espelha bem a natureza universalista que o nacionalismo extremo do mito sebástico abrigava consigo. É o tema que preside às lucubrações de D. João de Castro – o comentador do Bandarra – quando nos convida a crer na vinda do Desejado, para realizar a monarquia universal de Cristo, coroado o nosso D. Sebastião imperador do mundo pelo Papa Angélico.
«O Papa Angélico – aclara D. João de Castro –, futuro contemporâneo de el-rei Nosso Senhor, constrangido pela atribulação grande que se erguera na Igreja, desamparará Roma e fugirá para França ou para os reinos seus comarcãos indo-se enfim refugiar a Portugal. No qual por expresso mandado de Deus coroará por Imperador a el-rei Dom Sebastião, traspassando o império da Alemanha, à Casa Real de Portugal.» E – detalhe curioso! –, que D. João de Castro, iluminado pela sua quimera, até aos detalhes desce: «Na coroação do Imperador Dom Sebastião Nosso Senhor (o Papa Angélico) o coroará com coroa de espinhos, por ele mesmo não querer que seja com a de ouro, senão com a tal reverência & memória de Cristo: pedindo isto mui afincadamente a sua Santidade, que por condescender com seu santo zelo e humildade, lho ortorgará.»
Provado fica que, tanto no seu nacionalismo como no seu aniversalismo, o mito sebástico é de perfeita conformação cristã. Originado certamente nas velhas lendas ocidentais, de que o Saturno, desterrado para uma ilha longínqua das tradições teogónicas, recolhidas por Diodoro Sículo, é, sem dúvida, a mais remota figuração, impossível será reconstituir-lhe a emaranhada genealogia até se corporizar em momentos de febre colectiva no moço herói, sumido para sempre na tarde congestionada de Alcácer. Mas as suas raízes mergulham no fundo étnico de que brotou o belo tema de Artur, descansando até ao retorno triunfal na misteriosa Avalon, convém não esquecer que a fatídica puella de Clúnia – a sibila cantábrica de que, a propósito de Galba, Suetónio nos fala acidentalmente – se nos desvenda como o elo solto de uma longa e interrompida cadeia. Antes de D. Sebastião, é em Castela, na monarquia de Carlos V, que o Encoberto nos surge, personificando, quem sabe, os protestos insofridos do espírito público contra Carlos de Gand e o seu séquito de flamengos. Correm, como de Santo Isidoro, diversas profecias. Aventa uma: «Sazón se hallegará que el Encubierto verrá en España cabalgando en caballo de madera: y aun estará acá, y de muchos no será creído.» Tentando explicar em rima para o vulgo os textos apócrifos atribuidos ao santo prelado de Sevilha, estampam-se em Valência, no ano de 1520, as Coplas de Frei Pedro de Frías, de que oferecemos amostra: «Esto será al mes de octubre, / Esta escritura no yerra. / Habrá la victoria en guerra / Un rey que no se descubre.»
Donde o justíssimo reparo do senhor J. Lúcio de Azevedo: «O Encoberto era pois achado anterior ao Bandarra, e já assumira o título um indivíduo misterioso, judeu, que capitaneava os sublevados de Valência em 1532, e pretendia passar pelo príncipe D. João, filho de Reis Católicos, anos antes falecidos. É provável fosse o livro de Pedro de Frias que suscitou a aparição e apelido do aventureiro. Morreu ele no patíbulo; teve, porém, sucessores, e cada um se dizia o próprio Encoberto redivivo. Aqui se encontra a lenda do sebastianismo em embrião.»
O caso do Encubierto de Valência tem servido para reforçar a opinião dos que reputam o encobertismo como uma florescência judaica. Perfeito equívoco, porque se o «Encubierto» de Valência era judeu, valeu-se de profecias nacionalistas, não em relação à sua grei, mas em relação a Castela, encapotando-se de mais a mais debaixo do disfarce do defunto herdeiro dos Reis-Católicos, sepultado e bem sepultado no seu magnífico túmulo de Ávila. Confundindo esse movimento de obscura crepitação colectiva com o seu particularismo messiânico, os judeus aproveitam-no, sem que o originem. As suas raízes, conforme esboçamos, derivavam do consórcio lírico – exprimamo-nos assim – das nossas velhas crenças naturalistas com o depósito deixado nas almas pela aspersão benéfica do Cristianismo. Se insistimos em tal ponto, é porque o entendemos de completa necessidade.
Ora o que ocorreu no país vizinho, sob o ceptro de Carlos V, ocorreu igualmente entre nós. Propagadas as «Trovas» do Bandarra, os judeus mexeram-se também, julgando nelas uma promessa inesperada ao seu pertinaz – tão pertinaz como cego – messianismo. Recorramos de novo ao senhor J. Lúcio de Azevedo: «Assim, pois, fora do que tomou ao judaísmo, o profeta nacional caminha em sendas já trilhadas. As Trovas dizia ele que as fizera em louvor de Deus e de el-rei; e o leão vinha a ser D. João III. Os cristãos-novos referiam-nas porém ao Messias e muitas circunstâncias a isso os incitavam. Isaac Abravanel, notável hebreu português, tão famoso como financeiro como pela ciência bíblica em que foi exímio, anunciara para 1503 a chegada do redentor prometido. Para cumprir o prognóstico é ainda o senhor J. Lúcio de Azevedo quem fala, apareceu em 1502 um aventureiro, em Ístria, a dar-se pelo Messias, e a notícia logo se divulgou em toda a Itália, com grande alvoroço da população judaica. Contemporâneo do Bandarra foi o alfaiate Luís Dias, de Setúbal, que a um grupo de crentes ingénuos logrou também persuadir que era o Messias. E, caso mais extraordinário que iludir a simplicidade de criaturas apaixonadas e incultas, do número dos crentes chegou a fazer parte um cristão velho, letrado, o doutor Gil Vaz Bugalho, juiz-de-fora em Évora e desembargador dos agravos, além de outras pessoas igualmente de consideração.»
Advertindo apenas que o senhor J. Lúcio de Azevedo considera equivocadamente como extraídos do judaísmo os elementos bíblicos de que Bandarra se inspirou nas suas «profecias», quando os recebeu, por certo, da mística cristã, a sua transcrição confirma-nos absolutamente no nosso parecer. Independente do mito judaico, o mito, nacional correu-lhe paralelo, enquanto o desastre de Alcácer o não definiu inteiramente, encarnando-o na pessoa de D. Sebastião. Hesitante nas trovas do sapateiro de Trancoso, avoluma-se e torna-se crença comum, com as desgraças da nacionalidade. Sebastianismo se passa então a chamar. E se para o profetismo supersticioso das camadas sociais em que o mestiço se incrustara formente num país, esgotado pela sangria ultramarina – e onde o poblema do trabalho rural se resolvia, principalmente, pela importação e massa de negros – se para esse profetismo D. Sebastião devia voltar bem cedo, o mito se classificou com o sentido positivo que a Restauração lhe fixa. Errava, por isso, Bruno ao considerar loucura de maníacos baixos o «sebastianismo», enquanto que tomava como sinal augusto de vitalidade pátria o messianismo, expresso nas actas de Almacave e no juramento de Afonso Henriques. Se, na esteira de Bruno, o «messianismo», como esperança num redentor, ou deus ou herói, é um património quase geral da humanidade, precisamante o «sebastianismo» individualiza-o e nacionaliza-o entre nós. De «mito» poético torna-se depressa em como que «teoria da nacionalidade». D. Francisco Manuel de Melo, no seu Tácito portugês, conta-nos que à proporção dos descontentes que fazia o governo castelhano, crescia o número de sebastianistas, e que as primeiras reuniões dos conjurados para a revolução se convocaram como práticas sobre o «sebastianismo». Religião do nosso irredentismo, porque tomar o mito sebástico como uma baba abastardante de manicómio? Tão grandes asas nos deu, que os panegiristas filipinos, depois do acto revolucionário de 1640, se insurgem contra a «simplicidade e superstição do povo português em afectar prodígios falsos para se amotinar contra seus príncipes». Com feliz penetração entrelaça Manuel Múrias o sebastianismo de Seicentos ao «suarismo», não o «suarismo» filosófico, mas o «suarismo político». Já abordaremos tão decisivo aspecto da questão. E não se me leve por exagero tamanho apego à explanação do mito sebástico. Ele é decisivo na constituição desse admirável estado de espírito, que animou o Portugal-Restaurado, enchendo de nacionalismo criador o caluniado século XVII. Século de prosa – de análise, portanto –, ele é, entre todos, o século da «cultura portuguesa». Bem haja Manuel Múrias por haver dissipado o véu que o entenebrecia. E porque o assunto nos merece mais alguma demora, a ele tornaremos, depois de uma pausa de repouso.
ele (século XVII), ao lado do século XV, é um século de puro e castiço lusitanismo. /// Aqui se acolheram os últimos defensores da "liberdade cristã" da Europa, numa hora em que o absolutismo real, ingressado pelos ventos da Renascença e da Reforma, estrangulava àvidamente as derradeiras franquias e privilégios, tanto localistas como corporativos, legados pela Idade Média.
Os nossos polemistas de Seiscentos ... combateram, contra o Direito Romano dominante, o conceito patrimonial do Estado, não nos aventuraremos a uma afirmação leviana se os saudarmos como os precursores das modernas correntes nacionalistas. Sustentavam já eles então (...) que "os Reis foram feitos para os povos, e não os povos para os Reis" ///////... Não ignoro que o livro do jesuíta Luís de Molina, professor da Universidade de Évora, sobre a concordância do Livro-arbítrio com a Graça, apareceu em Lisboa no ano de 1588. (...) quanto a mim, o século XVII, filho da Contra-Reforma, não é senão a demonstração de quanto se ajustaram à parte sã da alma portuguesa as direcções ditadas em Trento à catolicidade em crise. Ora o "molinismo" (...) corresponde inteiramente à mentalidade que dirigiria o nosso Seiscentismo.
Defensores da liberdade política contra a concentração absolutista, os Jesuítas mostraram-se da mesma maneira, e com a mesma veemência, defensores da "liberdade interior" - da "autonomia individual", seriamente ameaçada pelos excessos da doutrina da Predestinação, que suprimia toda a humana iniciativa. As teses de Molina honram a Companhia de Jesus e as nossas escolas.
[ António Sardinha, O Século XVII, Lusitania - Revista de Estudos Portugueses, Vol. II, Fasc. I, Setembro de 1924, pp. 57-78; reeditado em Da Hera nas Colunas - Novos Estudos, Coimbra, Atlântida, 1929, p. 241-278. ]
Refs.
- 1588 - Luís de Molina (1536-1600)
- 1768 - Dedução cronológico-analítica [Dedução Cronológico-analítica, Parte II, de José de Seabra da Silva, atribuída ao Marquês de Pombal pdf]
- 1880 - Marcelino Menendéz y Pelayo (1856-1912). Historia de los heterodoxos españoles [Menéndez y Pelayo - Historia de los heterodoxos españoles pdf]
- 1898 - Ferreira Deusdado (1858-1918), La philosophie thomiste en Portugal - I; La philosophie thomiste en Portugal - II.
- 1910 - Heinrich Boehmer (1869-1927), Les Jésuites [trad. de Gabriel Monod (1844-1912)]. [alternativo: heinrich_boehmer_the_jesuits_-_an_historical_study_-_4th_ed_1928.pdf]
- 1919 - Gonzague Truc (1877-1972), Le retour à la Scolastique [1919_-_gonzague_truc_-_le_retour_à_la_scolastique.pdf]
- 1922 - Léon Daudet (1867-1942), Défense des Humanités Gréco-Latines - discours prononcé à la Chambre des Députés le 27 juin 1922.
na Câmara dos Deputados, em 27 de Junho de 1922 [3ª República; XII Legislatura - Mandato de 16 de Novembro de 1919 a 31 Maio 1924; Departamento: Seine; Grupo: Independentes] - 1923 - Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal.
- José Silvestre Ribeiro, História dos estabelecimentos científicos e literários
- Joaquim de Vasconcelos
- Edgar Prestage
- J. Lúcio de Azevedo
Entre as mentiras convencionais da nossa história destaca-se o descrédito do século XVII como uma das mais universalmente aceites. (p. 57)
(...)
Motivam as presentes reflexões o volume, recentemente aparecido, - O Seiscentismo em Portugal, do dr. Manuel Múrias. (p. 57)
(...)
Aqui (em Portugal) se acolheram os últimos defensores da «liberdade cristã» da Europa, numa hora em que o absolutismo real, engrossado pelos ventos da Renascença e da Reforma, estrangulava avidamente as derradeiras franquias e privilégios, tanto localistas como corporativos, legados pela Idade-Média. Se, incontestavelmente, são castelhanos em parte os tratadistas que inspiram a agitação filosófica, que a política da Restauração (1640) utilizaria com ressonância e labareda, devemos, em todo o caso, acentuar que muitos deles, com o insigne Suarez (Francisco Suarez, 1548-1617) à frente, professaram em cátedras portuguesas, acrescendo ainda que, reavivado de S. Tomás e dos seus diligentes comentadores, o alto pensamento que os guiava, se pertencia ao património mental da Europa, só na Península encontrou o seu último reduto, - um reduto firme e consciente. Em face da galhardia com que os nossos polemistas de Seiscentos, educados em tão segura formação, combateram, contra o Direito Romano dominante, o conceito patrimonial do Estado, não nos aventuraremos a uma afirmação leviana se os saudarmos como os precursores das modernas correntes nacionalistas.
Sustentavam já eles então, contraditando as copiosas apologias filipinas, divulgadas por toda a Europa, que “os Reis foram feitos para os povos, e não os povos para os Reis”. E, por que outras não eram as lições e os ensinamentos dos Jesuitas, compreendemos agora porque, um século a seguir, o marquês de Pombal os expulsaria por “monarcómacos & sequazes dos republicanos”.
Os Jesuitas, sequazes dos republicanos, é de estarrecer, na verdade, Mr. Homais na sua botica em Rouen!
(…)
Podemos agradecer ao falecido e ilustre doutor Ferreira Deusdado (1858-1918) * o inventário da doutíssima atividade dos comentadores coimbrões no seu precioso opúsculo La philosophie thomiste en Portugal - I; La philosophie thomiste en Portugal - II. Mencionemos o jesuíta Pedro da Fonseca (1528-1599), que alguns apelidam de «novo Aristóteles» e que Menéndez y Pelayo nos indica como influindo grandemente na formação e na enunciação do “molinismo”. Na difusão e no comento do “Suarismo” nomearemos os padres Baltasar Teles (1596-1675), Manuel de Góis (1543-1597) e Sebastião do Couto (1567-1639), os dois últimos autores do célebre Curso de Artes, publicado pelo Colégio Conimbricense, sendo a Lógica de Couto e o demais de Manuel de Gois. Foi europeu o Curso de Artes e debaixo da designação geral de Commentari collegii Coninbrensis serviu de texto de ensino a toda a Europa culta. Mede-se já a importância de quanto nos roubou, falseando a interpretação exacta do século XVII, o anti-jesuitismo, contaminado por Pombal e pelo Enciclopedismo aos nossos pretensos críticos e historiadores. Ninguém ignora que, num desdém vexatório pelo latim, Inocêncio só registou no seu Dicionário bibliográfico os autores que escreveram em português. Repelíamos deste modo um jesuita como Manuel Álvares (1526-1583), a quem se deve o De Institutione Grammatica libri tres, - compêndio notabilissimo, igualmente espalhado por toda a Europa, e o mercedario fr. Serafim de Freitas (1570-1633), catedrático em Valladolid e eminente refutador de Grocio no seu De justo imperio Lusitanorum asiatico. Não falando nos orientalistas fr. Jerónimo de Azambuja (?-1563) (Oleaster) e fr. Francisco Foreiro (1522-1581), teólogos ao concílio de Trento e insignes tradutores dos sagrados textos hebraicos. Bem nos recordamos que cronologicamente fr. Francisco Foreiro e fr. Jerónimo de Azambuja são do século XVI, mas intelectualmente encorporam-se já na corrente culta que originou (--- p. 62 ---/--- p. 63---) e alimentou o nosso Seiscentismo. Tanto fr. Jerónimo de Azambuja, como fr. Francisco Foreiro, não se limitam nos seus trabalhos a uma versão rigorosa das Escrituras. Nos Commentarii in Pentateuchum Moysi, fr. Jerónimo Oleastro empenha-se em procurar o significado genuíno e primitivo de cada palavra hebraica, subindo às suas etimologias e corrigindo, inclusivamente, a versão dos Santos Padres em bastantes passos. Fr. Francisco Foreiro, na sua tradução das Profecias de Isaias, emprega processos idênticos, oferecendo-nos um notabilíssimo comentário filológico sobre os idiotismos da lingua hebraica. Adicionemos aos seus nomes o nome do crúzio Pedro de Figueiró (1523-1592), ao qual, pela sua perícia no domínio e cultivo das letras sacras, chamaram os seus contemporâneos «alter Hieronymus».
Com semelhante preparação e tais antecedentes compreendemos já sem custo a que elevação intelectual nós subimos no século XVII. Insisto pelo carácter tridentino do nosso Seiscentismo, - pela perfeita ortodoxia do seu pensamento e das suas tendências. Não porque me dirija agora qualquer intenção apologética. Mas, colocado em pleno critério objectivo, para que se destrua de vez o aleive injustificado que tem esse século como uma pausa humilhante na nossa história, acusando nêle os frutos duma longa e asfixiante tutela eclesiástica.
(...)
SEBASTIANISMO
(negritos acrescentados)
(...)
Motivo para extensas lucubrações, o Sebastianismo, como «religião da Esperança» e como «mito nacional», não merece os desdéns dos que objectiva e racionalisticamente se ocuparam dele, desde o confuso e babilónico José Pereira de Sampaio (Bruno) a J. Lúcio de Azevedo e António Sérgio. Urge, porém, que o ilibemos das constantes ampliações romanescas que a cada hora o adulteram, tornando-o em têta esfalfada duma não menos esfalfada bastardia lírica. Antes de tudo, no Sebastianismo revela-se, transfigura-se, a aptidão universalista do génio nacional. É semelhante aptidão o sinal peculiar e próprio da alma hispânica. Ainda recentemente Oswaldo Spengler, tão afamado pelas suas teorias catastróficas acerca do futuro da «civilização ocidental», asseverava que os «espanhóis», primeiro que ingleses e prussianos, souberam dar à civilização europeia ideias universais. Tais ideias resumem-se no ideal católico, que a Península desposou como seu, ditando-o e servindo-o como uma projecção da sua fisionomia espiritual. A designação de Spengler: - «espanhóis» é preciso corrigi-la por «hispânicos », para que, mais exacta, abranja assim «portugueses» e «castelhanos». Ora a tendência espontânea para a hegemonia mundial, equivalente ao ville zur Macht faustiano, que Oswaldo Spengler reconhece nos «hispânicos», entrega-nos a chave da concepção sebastianista.
Se o temperamento dogmático e seco do castelhano, como nascido e medrado nas solidões pensativas do Meseta, o empurra para manifestações exclusivamente individuais e individualistas, como o D. Quijote, as gentes da ribeira atlântica, dispondo duma outra sociabilidade e senhoras duma feição lírica inconfundível, encontrariam no relevo duma criação anónima o herói que lhes personificasse as aspirações, a um tempo comunitárias e imperialistas. A condição especial do Luso dentro da família peninsular, objecto de longos debates, fixa-se tipicamente no caso do Sebastianismo. Claro que "Sebastianismo" significa e importa um conjunto de sentimentos e de forças morais que excede a figura restrita de D. Sebastião, o qual foi o seu condensador. Entrelaçando agudamente a origem da crença sebástica com as entranhadas raízes do lirismo português, nota
[....p. 67..../...p. 68...]
algures Menéndez y Pelayo:- “No es vana la antigua tradición que pone en Portugal o en Galicia la cuna del Amadis y de la mayor parte de los primitivos libros de caballerias, derivación muy libre y muy españolisada de los cuentos galeses y armoricanos. Alli debieron nacer por la misma ley de misterioso atavismo celtico que llevó a los portugueses à la conquista del Mar Tenebroso, fascinados por el espejismo de las islas encantadas y de la leyenda de S. Brandam, y que à través de los siglos renueva hasta en sus minimos pormenores el mesianismo del Rey Artur, rex quondam resque futurus, en la esperanza nunca desfallecida y siempre renaciente, de los que todavia aguardan en dia de niebla por la foz del Tajo al Rey Don Sebastian, redentor de su raza y fundador del sexto (sic) imperio apocalyptico.”
O parentesco evidente do mito do Encoberto com o mito do Rei Artur obrigava Menéndez y Pelayo a recorrer para um recuado fundo étnico, que o insigne polígrafo qualificava de "céltico", forçado pelo celticismo erudito da época em que escrevia. Sem discutirmos agora qual a natureza desse substractum étnico, - se céltico, se ligure, ou se até ibérico, convém recordar que na sua Historia de los heterodoxos españoles, Menéndez y Pelayo, encostado a um passo célebre de Suetonio, nos fala duma sibila de Clunia, - fatidica puella, que prometera à sua tribu oprimida um salvador no futuro. Para os que se gastam a denunciar o Sebastianismo como uma afloração espúria do messianismo judaico, tanto às suas afinidades com o mito de Artur, como o facto apontado da fatídica puella de Clunia, emancipam-no prontamente dessa indicada ascendência israelita. Os elementos bíblicos que transitaram para a religião sebástica forneceu-lhos a mística cristã. Na hora de Seiscentos, em que aparecia o opúsculo de Lucindo Lusitano, (Luís Marinho de Azevedo), em favor de D. João IV, - El Principe encubierto, manifestado en quatro discursos políticos exclamados al rei D. Philippe IV de Castilla, Lisboa, 1642, corria também em Madrid El principe escondido (Meditaciones, de la vida oculta de Cristo, de los doce hasta los treinta años), por fr. Marcos Calderon, Geral dos Mercedários e Pregador de Felipe IV. A linguagem do nosso mito nacionalista ajusta-se, pois, à linguagem simbólica da Igreja. Não carecemos, por
[...p. 68.../ ...p. 69...]
isso, de degenerar o que é flama acesa do nosso génio numa superstição passiva sem dignidade nem grandeza.
Mas eu referia-me à sibila de Clunia, - à fatidica puella, mencionada por Menéndez y Pelayo. Não passou ela despercebida ao nosso infatigável Martins Sarmento (1833-1899). Em nota a pags. 273-274 dos seus Argonautas (Subsídios para a história antiga do Ocidente ) consigna o doutíssimo arqueólogo : - “Para completar a sua obra, não seria estranho que os druídas semeassem a promessa dum libertador. Não há notícias deste messianismo na Galia; mas vamos encontrá-lo na Espanha, na Cantabria, onde menos se esperava. Quando Galba subiu ao trono, viu-se nele o libertador do mundo, profetizado dois séculos antes por uma virgem cantábrica ( Suetonio, Galba, IX) ... O noroeste da Espanha foi talvez o refugio de muitos Ligures da Galia e da Inglaterra. ¿É de alguns destes países que vem o misterioso messianismo dos Cantabros.?” Se Martins Sarmento atendesse à irmandade em costumes e instituições de Lusitanos, Galaicos, Astures e Cantabros, expressamente testemunhada por Strabão, não carecia de formular a sua pergunta. A fatidica puella de Clunia insere-se no mesmo fundo étnico, de que derivou depois o Encoberto. E tão autóctone tal substractum se nos revela, que, relacionando-o com os primitivos cânticos galaicos, Menéndez y Pelayo, para provar o indigenato destes, sublinha sabiamente nele uma ausência total de carácter bélico. ¿Pretendo eu, por meu lado, sustentar que o Sebastianismo, como expressão dum determinado estado psíquico, seja afirmação exclusivada árvore genealógica em que a grei portuguesa se entronca? De modo nenhum. Decerto que Sebastianismo, propriamente dito, é apenas nosso, mercê da figura histórica que o corporizou. Mas a ânsia messianista que o inspira pertence ao património sentimental e místico da humanidade. Acontece, porém, que, se em muitos povos ou raças há excepcionalmente um herói salvador que, derrotado, volverá um dia, para resgate e apoteose dos seus,- isto desde as fundas idades poéticas até as portas da eras contemporâneas, em Portugal a crença no Encoberto torna-se a feição predominante duma sociedade e duma época, com aquele valor de condensação energética, conferido modernamente por Georges Sorel aos «mitos», que se apressa a não confundir com as «utopias». Baseado na teoria de Georges Sorel, reflexiona Vilfredo Pareto:
[...p. 69.../...p. 70]
- “Il n'existe dans l'histoire aucun peuple grand, fort, prospère, cher lequel on ne trouve les sentiments profonds et actifs qui se manifestent par un idéal, une religion, un mythe, une foi. Tout peuple, - avança Pareto - , ou ces sentiments s'affaiblissent est en voie de décadence. Bien des petits peuples sont devenues grandes parce qu'ils avaient foi en eux mêmes; un peuple qui perd cette foi est tout prés de la ruine.” O Sebastianismo, como mito nacionalista, não era, no momento agudo de Seiscentos, senão a fé exasperada da nação portuguesa em si própria. O que no Sebastianismo crepitasse de vesânia ou estultícia, como o regresso de D. Sebastião, - forma tangivel da «religião da Esperança » para o vulgar das gentes, nobre e logicamente o combateu o vigoroso espirito seiscentista. Nada melhor no-lo ensina do que a lápide famosa da «Porta do Nó» em Vila Viçosa, - lápide comemorativa da aclamação de D. João IV. Reza a inscrição, transposta a vernáculo: - “Esta é a fatal porta dos Nós. João poderoso livra-me com a espada do nó da Espanha. Desfaz Alexandre o nó para imperar como rei na redondeza da terra; o meu rei o desata para empunhar os scetros do Rei Encoberto. Ano de 1654.” Tal é o sentido preciso, - a definição histórica do mito sebástico. Portugal identifica-se ao rei perdido, mas imortal. D. João IV, retomando o lugar de D. Sebastião, dá realidade ao mito e volve-o em acto permanente e vivo. Com razão declara Vilfredo Pareto que "dans la vie des peuples, rien n'est aussi réel et pratique que l'idéal." Na vida do nosso povo, o Sebastianismo é a "personificação" desse ideal que o alimenta, - ideal de que o "milagre de Ourique" traduz igualmente um outro aspecto, uma outra face.
Salienta ainda Vilfredo Pareto que “la realité de l'idéal ne se trouve pas en soi-même, mais dans les sentiments qu'il révèle”, acrescentando que “le contenu logique de l'idéal importe peu. Ce qui importe beaucoup plus c'est l'étal psychique qu'il révèle, dont il est un symptôme.” Eis o problema do Sebastianismo em relação ao século XVII. Rectificando a Oliveira Martins, pretende mestre Bruno no seu Encoberto que o historiador confundiu “dois factores diferenciados diversificadamente: o do sebastianismo e o do messianismo em Portugal; o primeiro considerado irrisório e pertença de maniáticos; o segundo, reputado intangível, como
[...p 70.../...p. 71...]
inviolável timbre da dignidade colectiva. Um, além da adaptação de profecias estranhas, deriva das trovas de Bandarra; o outro fundamentava-se, além da tradição nacional, anónima, no juramento de D. Afonso Henriques.” Enganava-se, porém, redondamente o afanoso publicista portuense! O messianismo é que, duma maneira ou outra, representa no desenvolvimento de todos os povos um traço geral e comum. O Sebastianismo, pelo contrário, determina a feição especial que semelhante fenómeno adquiriu em Portugal. Não há que separá-lo, portanto, da exaltação nacionalista que falsifica as actas de Almacave e utiliza mais tarde, nos combates diplomáticos da Restauração, as miragens eruditas de fr. Bernardo de Brito na sua Monarquia Lusitana.
Vimos já como a lápide de Vila Viçosa concretiza o significado oportunista do Encoberto. O mesmo propósito conduz à modificação da estrofe célebre do Bandarra:
«Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom foam:
Correrlheam o Pendam,
E o Guiam,
Poderoso & triumphante. »
Por
«Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom Joam.»
De resto, bem antes da Restauração, o cristão-novo Manuel Bocarro Francês não fugia de apregoar, como sebastianista confesso, embora D. Sebastião que não tivesse morrido em Alcácer, Rei haveriamos nê-le, - não na sua pessoa, “mas no sangue da sua raça”. Tal é a linha dorsal do sebastianismo da Restauração, que no seu manifesto El principe encubierto Luís Marinho de Azevedo inclui na comparação feliz do Encoberto, abrangido pela fórmula - D. Sebastião ao D. João VI = ao Deus ignoto dos atenienses, em quem a gentilidade prestava culto antecipado à
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unidade do Deus Criador.”
Motivo para extensas lucubrações, o Sebastianismo, como «religião da Esperança» e como «mito nacional», não merece os desdéns dos que objectiva e racionalisticamente se ocuparam dele, desde o confuso e babilónico José Pereira de Sampaio (Bruno) a J. Lúcio de Azevedo e António Sérgio. Urge, porém, que o ilibemos das constantes ampliações romanescas que a cada hora o adulteram, tornando-o em têta esfalfada duma não menos esfalfada bastardia lírica. Antes de tudo, no Sebastianismo revela-se, transfigura-se, a aptidão universalista do génio nacional. É semelhante aptidão o sinal peculiar e próprio da alma hispânica. Ainda recentemente Oswaldo Spengler, tão afamado pelas suas teorias catastróficas acerca do futuro da «civilização ocidental», asseverava que os «espanhóis», primeiro que ingleses e prussianos, souberam dar à civilização europeia ideias universais. Tais ideias resumem-se no ideal católico, que a Península desposou como seu, ditando-o e servindo-o como uma projecção da sua fisionomia espiritual. A designação de Spengler: - «espanhóis» é preciso corrigi-la por «hispânicos », para que, mais exacta, abranja assim «portugueses» e «castelhanos». Ora a tendência espontânea para a hegemonia mundial, equivalente ao ville zur Macht faustiano, que Oswaldo Spengler reconhece nos «hispânicos», entrega-nos a chave da concepção sebastianista.
Se o temperamento dogmático e seco do castelhano, como nascido e medrado nas solidões pensativas do Meseta, o empurra para manifestações exclusivamente individuais e individualistas, como o D. Quijote, as gentes da ribeira atlântica, dispondo duma outra sociabilidade e senhoras duma feição lírica inconfundível, encontrariam no relevo duma criação anónima o herói que lhes personificasse as aspirações, a um tempo comunitárias e imperialistas. A condição especial do Luso dentro da família peninsular, objecto de longos debates, fixa-se tipicamente no caso do Sebastianismo. Claro que "Sebastianismo" significa e importa um conjunto de sentimentos e de forças morais que excede a figura restrita de D. Sebastião, o qual foi o seu condensador. Entrelaçando agudamente a origem da crença sebástica com as entranhadas raízes do lirismo português, nota
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algures Menéndez y Pelayo:- “No es vana la antigua tradición que pone en Portugal o en Galicia la cuna del Amadis y de la mayor parte de los primitivos libros de caballerias, derivación muy libre y muy españolisada de los cuentos galeses y armoricanos. Alli debieron nacer por la misma ley de misterioso atavismo celtico que llevó a los portugueses à la conquista del Mar Tenebroso, fascinados por el espejismo de las islas encantadas y de la leyenda de S. Brandam, y que à través de los siglos renueva hasta en sus minimos pormenores el mesianismo del Rey Artur, rex quondam resque futurus, en la esperanza nunca desfallecida y siempre renaciente, de los que todavia aguardan en dia de niebla por la foz del Tajo al Rey Don Sebastian, redentor de su raza y fundador del sexto (sic) imperio apocalyptico.”
O parentesco evidente do mito do Encoberto com o mito do Rei Artur obrigava Menéndez y Pelayo a recorrer para um recuado fundo étnico, que o insigne polígrafo qualificava de "céltico", forçado pelo celticismo erudito da época em que escrevia. Sem discutirmos agora qual a natureza desse substractum étnico, - se céltico, se ligure, ou se até ibérico, convém recordar que na sua Historia de los heterodoxos españoles, Menéndez y Pelayo, encostado a um passo célebre de Suetonio, nos fala duma sibila de Clunia, - fatidica puella, que prometera à sua tribu oprimida um salvador no futuro. Para os que se gastam a denunciar o Sebastianismo como uma afloração espúria do messianismo judaico, tanto às suas afinidades com o mito de Artur, como o facto apontado da fatídica puella de Clunia, emancipam-no prontamente dessa indicada ascendência israelita. Os elementos bíblicos que transitaram para a religião sebástica forneceu-lhos a mística cristã. Na hora de Seiscentos, em que aparecia o opúsculo de Lucindo Lusitano, (Luís Marinho de Azevedo), em favor de D. João IV, - El Principe encubierto, manifestado en quatro discursos políticos exclamados al rei D. Philippe IV de Castilla, Lisboa, 1642, corria também em Madrid El principe escondido (Meditaciones, de la vida oculta de Cristo, de los doce hasta los treinta años), por fr. Marcos Calderon, Geral dos Mercedários e Pregador de Felipe IV. A linguagem do nosso mito nacionalista ajusta-se, pois, à linguagem simbólica da Igreja. Não carecemos, por
[...p. 68.../ ...p. 69...]
isso, de degenerar o que é flama acesa do nosso génio numa superstição passiva sem dignidade nem grandeza.
Mas eu referia-me à sibila de Clunia, - à fatidica puella, mencionada por Menéndez y Pelayo. Não passou ela despercebida ao nosso infatigável Martins Sarmento (1833-1899). Em nota a pags. 273-274 dos seus Argonautas (Subsídios para a história antiga do Ocidente ) consigna o doutíssimo arqueólogo : - “Para completar a sua obra, não seria estranho que os druídas semeassem a promessa dum libertador. Não há notícias deste messianismo na Galia; mas vamos encontrá-lo na Espanha, na Cantabria, onde menos se esperava. Quando Galba subiu ao trono, viu-se nele o libertador do mundo, profetizado dois séculos antes por uma virgem cantábrica ( Suetonio, Galba, IX) ... O noroeste da Espanha foi talvez o refugio de muitos Ligures da Galia e da Inglaterra. ¿É de alguns destes países que vem o misterioso messianismo dos Cantabros.?” Se Martins Sarmento atendesse à irmandade em costumes e instituições de Lusitanos, Galaicos, Astures e Cantabros, expressamente testemunhada por Strabão, não carecia de formular a sua pergunta. A fatidica puella de Clunia insere-se no mesmo fundo étnico, de que derivou depois o Encoberto. E tão autóctone tal substractum se nos revela, que, relacionando-o com os primitivos cânticos galaicos, Menéndez y Pelayo, para provar o indigenato destes, sublinha sabiamente nele uma ausência total de carácter bélico. ¿Pretendo eu, por meu lado, sustentar que o Sebastianismo, como expressão dum determinado estado psíquico, seja afirmação exclusivada árvore genealógica em que a grei portuguesa se entronca? De modo nenhum. Decerto que Sebastianismo, propriamente dito, é apenas nosso, mercê da figura histórica que o corporizou. Mas a ânsia messianista que o inspira pertence ao património sentimental e místico da humanidade. Acontece, porém, que, se em muitos povos ou raças há excepcionalmente um herói salvador que, derrotado, volverá um dia, para resgate e apoteose dos seus,- isto desde as fundas idades poéticas até as portas da eras contemporâneas, em Portugal a crença no Encoberto torna-se a feição predominante duma sociedade e duma época, com aquele valor de condensação energética, conferido modernamente por Georges Sorel aos «mitos», que se apressa a não confundir com as «utopias». Baseado na teoria de Georges Sorel, reflexiona Vilfredo Pareto:
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- “Il n'existe dans l'histoire aucun peuple grand, fort, prospère, cher lequel on ne trouve les sentiments profonds et actifs qui se manifestent par un idéal, une religion, un mythe, une foi. Tout peuple, - avança Pareto - , ou ces sentiments s'affaiblissent est en voie de décadence. Bien des petits peuples sont devenues grandes parce qu'ils avaient foi en eux mêmes; un peuple qui perd cette foi est tout prés de la ruine.” O Sebastianismo, como mito nacionalista, não era, no momento agudo de Seiscentos, senão a fé exasperada da nação portuguesa em si própria. O que no Sebastianismo crepitasse de vesânia ou estultícia, como o regresso de D. Sebastião, - forma tangivel da «religião da Esperança » para o vulgar das gentes, nobre e logicamente o combateu o vigoroso espirito seiscentista. Nada melhor no-lo ensina do que a lápide famosa da «Porta do Nó» em Vila Viçosa, - lápide comemorativa da aclamação de D. João IV. Reza a inscrição, transposta a vernáculo: - “Esta é a fatal porta dos Nós. João poderoso livra-me com a espada do nó da Espanha. Desfaz Alexandre o nó para imperar como rei na redondeza da terra; o meu rei o desata para empunhar os scetros do Rei Encoberto. Ano de 1654.” Tal é o sentido preciso, - a definição histórica do mito sebástico. Portugal identifica-se ao rei perdido, mas imortal. D. João IV, retomando o lugar de D. Sebastião, dá realidade ao mito e volve-o em acto permanente e vivo. Com razão declara Vilfredo Pareto que "dans la vie des peuples, rien n'est aussi réel et pratique que l'idéal." Na vida do nosso povo, o Sebastianismo é a "personificação" desse ideal que o alimenta, - ideal de que o "milagre de Ourique" traduz igualmente um outro aspecto, uma outra face.
Salienta ainda Vilfredo Pareto que “la realité de l'idéal ne se trouve pas en soi-même, mais dans les sentiments qu'il révèle”, acrescentando que “le contenu logique de l'idéal importe peu. Ce qui importe beaucoup plus c'est l'étal psychique qu'il révèle, dont il est un symptôme.” Eis o problema do Sebastianismo em relação ao século XVII. Rectificando a Oliveira Martins, pretende mestre Bruno no seu Encoberto que o historiador confundiu “dois factores diferenciados diversificadamente: o do sebastianismo e o do messianismo em Portugal; o primeiro considerado irrisório e pertença de maniáticos; o segundo, reputado intangível, como
[...p 70.../...p. 71...]
inviolável timbre da dignidade colectiva. Um, além da adaptação de profecias estranhas, deriva das trovas de Bandarra; o outro fundamentava-se, além da tradição nacional, anónima, no juramento de D. Afonso Henriques.” Enganava-se, porém, redondamente o afanoso publicista portuense! O messianismo é que, duma maneira ou outra, representa no desenvolvimento de todos os povos um traço geral e comum. O Sebastianismo, pelo contrário, determina a feição especial que semelhante fenómeno adquiriu em Portugal. Não há que separá-lo, portanto, da exaltação nacionalista que falsifica as actas de Almacave e utiliza mais tarde, nos combates diplomáticos da Restauração, as miragens eruditas de fr. Bernardo de Brito na sua Monarquia Lusitana.
Vimos já como a lápide de Vila Viçosa concretiza o significado oportunista do Encoberto. O mesmo propósito conduz à modificação da estrofe célebre do Bandarra:
«Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom foam:
Correrlheam o Pendam,
E o Guiam,
Poderoso & triumphante. »
Por
«Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom Joam.»
De resto, bem antes da Restauração, o cristão-novo Manuel Bocarro Francês não fugia de apregoar, como sebastianista confesso, embora D. Sebastião que não tivesse morrido em Alcácer, Rei haveriamos nê-le, - não na sua pessoa, “mas no sangue da sua raça”. Tal é a linha dorsal do sebastianismo da Restauração, que no seu manifesto El principe encubierto Luís Marinho de Azevedo inclui na comparação feliz do Encoberto, abrangido pela fórmula - D. Sebastião ao D. João VI = ao Deus ignoto dos atenienses, em quem a gentilidade prestava culto antecipado à
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unidade do Deus Criador.”
(...)
E não se me leve por exagêro tamanho apêgo à explanação do mito sebástico. Ele é decisivo na constituição desse admirável estado de espírito, que animou o Portugal-Restaurado, enchendo de nacionalismo criador o caluniado século XVII. Século de prosa, - de análise, portanto, ele é, entre todos, o século da «cultura portuguesa».
E não se me leve por exagêro tamanho apêgo à explanação do mito sebástico. Ele é decisivo na constituição desse admirável estado de espírito, que animou o Portugal-Restaurado, enchendo de nacionalismo criador o caluniado século XVII. Século de prosa, - de análise, portanto, ele é, entre todos, o século da «cultura portuguesa».
(António Sardinha, "Século XVII", in Lusitania - Revista de Estudos Portugueses, Vol. II, Fasc. I, Setembro de 1924, pp. 57-78)
(*) António Manuel Ferreira Deusdado (Rio Frio, Bragança, 7 de Abril de 1858 – Lisboa, 21 de Dezembro de 1918). Em 1915, Ferreira-Deusdado saudou os jovens do Integralismo Lusitano, quando estes se lançaram contra as aspirações imperiais de Afonso XIII de Espanha, no ciclo de conferências da Liga Naval acerca da “Questão Ibérica”, com palavras muito efusivas: “O viridente lábaro hasteado pelo Integralismo Lusitano está formando legiões. O número cresce cada dia. Ontem era uma centúria, hoje é um manípulo, amanhá é uma coorte e a seguir será uma legião invencível". Em 1916, Ferreira Deusdado saudou também o livro Epopeia da Planície de António Sardinha, que lhe veio a dedicar o seu livro de ensaios: - Ao ritmo da Ampulheta (1924). Ferreira Deusdado e António Sardinha partilhavam o ideário monárquico e municipalista.
(*) António Manuel Ferreira Deusdado (Rio Frio, Bragança, 7 de Abril de 1858 – Lisboa, 21 de Dezembro de 1918). Em 1915, Ferreira-Deusdado saudou os jovens do Integralismo Lusitano, quando estes se lançaram contra as aspirações imperiais de Afonso XIII de Espanha, no ciclo de conferências da Liga Naval acerca da “Questão Ibérica”, com palavras muito efusivas: “O viridente lábaro hasteado pelo Integralismo Lusitano está formando legiões. O número cresce cada dia. Ontem era uma centúria, hoje é um manípulo, amanhá é uma coorte e a seguir será uma legião invencível". Em 1916, Ferreira Deusdado saudou também o livro Epopeia da Planície de António Sardinha, que lhe veio a dedicar o seu livro de ensaios: - Ao ritmo da Ampulheta (1924). Ferreira Deusdado e António Sardinha partilhavam o ideário monárquico e municipalista.