ESTUDOS PORTUGUESES
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
Search by typing & pressing enter

YOUR CART

Olhando o caminho

António Sardinha

RESUMO E NOTAS
Neste prefácio de "Ao Ritmo da Ampulheta", António Sardinha reflete sobre o papel da tradição religiosa e política na formação de Portugal, criticando o individualismo filosófico e o liberalismo. Relembra movimentos e figuras que resistiram à desagregação nacional desde o miguelismo até o início do século XX, defendendo a tradição como uma força dinâmica para renovar o país. Apesar das dificuldades históricas, expressa esperança na restauração dos valores espirituais e históricos como meio de fortalecer a identidade coletiva portuguesa.
  • Nota sobre a Dedicatória. António Sardinha dedica a obra ao Doutor Manuel Ferreira Deusdado, a quem reconhece como amigo e mestre. Sardinha afirma que Deusdado foi o primeiro, em Portugal, a reencontrar, pelos "caminhos perdidos da inteligência", a dupla verdade católica e monárquica da nação portuguesa. Este reconhecimento de Sardinha pela influência intelectual e espiritual de Deusdado, que teria mostrado o caminho de regresso às raízes religiosas e políticas definem a identidade nacional portuguesa.
  • Sobre o Judaísmo e o Plutocratismo. Sardinha refere-se, em tom crítico, a uma "sociedade de judeus, de cocainómanos e de banqueiros", que se sentiria atingida pelas "verdades fortes" defendidas pelo autor e seus companheiros [em Purgatório das Ideias, Sardinha esclareceu que, para ele, o termo "judaísmo" não assume um significado étnico ou religioso, mas sim moral e económico, sendo sinónimo de plutocratismo – ou seja, o domínio do dinheiro e do poder financeiro sobre a sociedade].
  • A “vida” e “via”. Ao mencionar o regresso à "via desacreditada da tradição", Sardinha observa, em nota editorial, que na primeira edição do livro o termo utilizado era "vida". Essa correção, sublinha a ideia de caminho (via), percurso ou orientação, em vez de mera existência (vida), reforçando o conceito de retorno a uma tradição ativa e orientadora.
  • Referências Literárias e Históricas. O texto faz referência a personagens de Eça de Queiroz – como o conde de Gouvarinho, o conselheiro Acácio, o cónego Dias, Pacheco, Palma Cavalão, Paulo dos Móveis e Fradique Mendes – para ilustrar a degradação dos valores nacionais e a predominância de tipos sociais caricaturais perante os grandes debates nacionais (monarquia, república, guerra). Sardinha utiliza estas figuras para criticar a superficialidade e falta de autenticidade da elite portuguesa da época.
  • Oliveira Martins e a Decomposição Nacional. Sardinha recorre aos escritos de Oliveira Martins, especialmente a História de Portugal, para fundamentar a ideia de uma crise profunda na identidade portuguesa. Oliveira Martins descreve um povo que perdeu o patriotismo, despreza as próprias tradições e admira o estrangeiro, o que, segundo Sardinha, dificulta qualquer esperança de futuro coletivo. Sardinha utiliza esta análise para sustentar a necessidade de um renascimento nacional.
  • O Liberalismo como Fator de Desagregação. Sardinha identifica o individualismo da Renascença e, especialmente, o Liberalismo, como causas principais da decadência nacional. As doutrinas liberais, ao serem adotadas como solução coletiva, agravaram a desagregação dos valores tradicionais e minaram as bases morais e sociais da pátria.
  • Genealogia da Contrarrevolução. Sardinha traça uma genealogia da contrarrevolução portuguesa, começando pelos panfletários do miguelismo (defensores da monarquia tradicionalista), passando por figuras como Herculano e Garrett, e chegando ao grupo da geração de 70 em torno de Antero de Quental. Destaca-se a busca por uma confirmação filosófica das ideias tradicionalistas e o papel dos "doutores" da contrarrevolução, que procuraram reconstituir a identidade nacional.
  • Antero de Quental e a Crítica ao Liberalismo. Antero de Quental é citado para ilustrar o estado de desorientação da sua geração, a primeira a afastar-se conscientemente da tradição. Também se destaca a sua crítica à influência da "bancocracia", do livre-câmbio e do constitucionalismo, aproximando o seu pensamento do de Proudhon e Balzac, que diagnosticavam os males sociais do século XIX.
  • Nacionalismo versus Liberalismo. Sardinha sublinha a oposição entre nacionalismo e liberalismo, referindo que o liberalismo é incompatível com o nacionalismo genuíno, cujas raízes são diferentes. Esta antinomia é central para compreender a crise portuguesa e a necessidade de um projeto nacional de reconstrução.
  • O Conceito de Tradição. Sardinha esclarece que o seu conceito de "tradição" não é estático nem saudosista, mas dinâmico e orientado para o futuro. A tradição é vista como continuidade e força vital, que deve ser adaptada às exigências do presente e do futuro, em vez de mera repetição do passado.
  • Jacques Maritain e a Nova Ordem. Sardinha cita Jacques Maritain para reforçar a ideia de que a sua luta nacionalista não visa restaurar uma ordem política e social preexistente, mas sim salvaguardar os elementos de justiça e de verdade que subsistem. Uma nova ordem é necessária para substituir o atual estado de desordem. Sardinha identifica-se com a rejeição tanto da "iniquidade revolucionário-burguesa" quanto da "iniquidade revolucionário-proletária", buscando um caminho alternativo para Portugal.




​OLHANDO O CAMINHO



​À MEMÓRIA DO DOUTOR MANUEL FERREIRA DEUSDADO, AMIGO E MESTRE QUERIDO QUE EM PORTUGAL FOI O PRIMEIRO A ENCONTRAR PELOS CAMINHOS PERDIDOS DA INTELIGÊNCIA A DUPLA VERDADE CATÓLICA E MONÁRQUICA DA NOSSA RAÇA
 
Talvez que à frente deste volume [Ao Ritmo da Ampulheta] devesse redigir a minha confissão intelectual. Filho dum século que envenenou a inteligência e perverteu a sensibilidade, eu posso levantar as mãos a Deus e agradecer-lhe, prostrado no átrio dos tempos novos, a graça de me haver tirado a alma do Egipto, levando-me a tocar com o dedo a mentira ignóbil dos ídolos em triunfo na praça pública. Bem cedo o sal que sobe à mesa do Senhor me ateou no espírito uma ânsia de repouso, de quietação, de síntese. Eu não descendia daqueles estranhos povos do fabulista que tinham apenas por única linguagem o terrível monossílabo — «Não!» No meu sangue gritava, e protestava, ouvindo a areia cair na ampulheta, um nobre desejo de durar, de construir. Sabia que o deserto era enorme, — que faltavam os roteiros e se ignorava o que estaria para além. Nem por isso o meu ardor desfaleceu, olhando a vastidão imensa do caminho a percorrer. Sou um homem de boa-vontade, — e como homem de boa-vontade me persigno e declaro. As páginas que se enfeixam no presente livro não são mais que marcos levantados a afirmar o meu esforço de soldado da contrarrevolução. Contrarrevolução religiosa e contrarrevolução política, pelo regresso, a um tempo humilde e desassombrado, à via [na 1ª ed., "vida"; nota da 2ª ed.] desacreditada da tradição. Quando parti para o combate, poucos mais encontrei na mesma fila. Hoje, na desordem criadora em que Portugal se debate, há já uma aragem de esperança, impregnada da energia iluminada com que iniciamos a cruzada - os meus pares e eu!

Pesa sobre nós — «anti-modernos» e «ultra-modernos», na bela definição de Jacques Maritain— pesa sobre nós o silêncio, que só nos dignifica, de uma sociedade de judeus, de cocainómanos e de banqueiros, a quem soavam como golpes de azorrague, as verdades fortes que nós surgimos a pregar, — as verdades fortes, as verdades duras, de que tanto falava o senhor de Bonald ["o judaísmo não assume para nós sinónimo diverso do de plutocratismo. É mais facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico ou confessional"; António Sardinha, Purgatório das Ideias, Lisboa, 1929, p. 164 (nota desta edição, para o Leitor bem-intencionado)]. Cabe-nos assim o destino de todos os renovadores. Profetizando a queda das babilónias marcadas pelo conúbio canalha do sabre e do dito, nós não agradaríamos decerto aos que vivem das fórmulas e das convenções, — aos que queimam incenso a Jehovah, mas depõem também oferendas nas aras de Belphegor. No meio da hostilidade lentejoulada dos carnets-mondains e dos apupos ignaros dos detentores tatuados da Opinião Pública, uma glória nos pertence, — una e indivisível: — a glória de havermos restituído Portugal à integridade da sua consciência histórica, ao sentimento adormecido da sua realidade eterna como Pátria.

As nossas campanhas nacionalistas desceram das Letras à Política, — subiram da Ação à atmosfera Diáfana das Ideias. Tudo se obliterara entre nós, — desde o instinto das nossas raízes seculares até à posição que nos tocava, como raça e como Estado, no drama agudíssimo das nações contemporâneas. Como se o solo sagrado da terra dos Avós se tivesse transformado num tablado ignominioso de títeres de feira, só passavam e repassavam diante dos nossos olhos doridos, como uma teoria de sombras inferiores, os personagens de Eça de Queiroz. A comédia, trágico-comédia, Senhor meu Deus! —, repartia-se em atos e jornadas. Restauração monárquica? Assomava logo, inevitável e decorativo, o conde de Gouvarinho, o conselheiro Acácio, a barriga do cónego Dias, a concavidade majestosa de Pacheco. Defesa da República, — intervenção na guerra? Imediatamente, como duma caixa de molas, rebentava-nos, estridente e salivosa, a pupilagem incontável do Palma Cavalão e do Paulo dos Móveis. Só o intelectualismo insatisfeito de Fradique Mendes se apagava numa penumbra discreta, refugiado na leitura de Taine, — mas no Taine das Origines de la France contemporaine.

Porque aparecemos nós então, — se nada já restava da grei antiga, na dissolução geral em que o Liberalismo abismava as mentalidades e os caracteres? Não sairá da minha pena a resposta, porque a outros cumpre, com mais tranquila segurança, ajuizar da função que fomos chamados a desempenhar, — no secreto e profundo providencialismo que rege a sorte dos homens e imprime directrizes aos povos. No entanto, se existe, como creio que existe, uma genealogia oculta de que nós somos a continuidade e a floração, para que melhor lhe surpreendamos o fio esclarecedor, recorramos aos últimos períodos de Oliveira Martins na sua História de Portugal. "Daí vem o caso — escreve ele —, talvez único na Europa, de um povo que, não só desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelos seus homens superiores, que não só vive de copiar, literária e politicamente, a França, de um modo servil e indiscreto, que não só não possui uma alma social, mas se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, sendo impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade colectiva". E o historiador, reagindo contra a dureza clínica do seu diagnóstico, acrescenta: — "Continua ainda a decomposição nacional, apenas interrompida de um modo aparente pelas ideias revolucionárias e pela restauração das forças económicas, fomentadas pelo militarismo universal? Ou presenciamos um fenómeno de obscura reconstituição, e sob a nossa indecisa fisionomia nacional, sob a nossa mudez patriótica, sob a desesperança por que toda a parte ri e geme, crepitará latente e ignota a chama de um pensamento indefinido ainda?"

Suspensa a interrogação de Oliveira Martins, verificamos agora que a decomposição nacional continuaria, passando por transes inesperados, sofrendo aspetos e modificações nunca imaginadas. Mas, latente e ignota, como num casulo de encanto, crepitava sem dúvida entre as cinzas da casa em ruína, a chama dum pensamento «indefinido ainda». Que pensamento era esse, — donde é que ele nos vinha? Era o último clarão do génio ancestral da Pátria, — vinha-nos instintivamente das próprias razões de ser, tanto territoriais, com morais, do Portugal bem-amado de todos nós. A dissolução começara com o individualismo solto da Renascença, somado às variadas influências desnaturalizadoras da nossa posição de cais da Europa. Fatalidade geográfica, que a mistura com gentes e costumes e tratos os mais desvairados agravaria, seguir o rumo das suas consequências mortíferas será instruir o processo da nossa decadência. Aproveitemos, porém, no atual momento o que mais diretamente importa ao fito das nossas considerações. E então reconheceremos que os gérmenes de desagregação com que afincadamente nos íamos dessorando e pulverizando, adquiriram um poder de incalculável virulência ao erigirem-se, com as doutrinas do Liberalismo, em método de salvação coletiva. A fase definitiva da enfermidade atingia-se assim plenamente, pela penetração decisiva nos órgãos sensíveis da vida da Nação de quanto se nos denunciava de mais antagónico com as longas e sábias aquisições do seu génio e experiência secular.

Pausadamente, numa vagarosa germinação, desenha-se também desde as avançadas do resgate. São protestos isolados, ainda sem a visão de uma linha de conjunto, — duma finalidade arquitetónica. Manifestam-se primeiro nos que eu chamarei «doutores» da nossa Contrarrevolução. São os panfletários do miguelismo, — os fiéis da realeza pura que, transitando para lá do campo da resistência sentimental, procuraram para os seus conceitos duma sociologia titubeante o fulgor mal entrevisto da confirmação filosófica. Acompanham-nos de perto tanto Herculano, como Garrett — o Garrett do Romanceiro e dos seus afervorados discursos municipalistas, e o Herculano dos Opúsculos, sobretudo, onde se encontra bem o rosto da verdadeira constituição e económica e social da nacionalidade.

Depois... Depois, o cortejo engrossa. Engrossam-no, embora com gritos estridentes de heresiarcas, os Sagitários admiráveis que formaram grupo em torno de Antero. "Achei-me sem direção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição" — declararia o poeta dos Sonetos na sua célebre carta autobiográfica a Wilhelm Storck. Batera a hora dolorosa da Análise, e através de Antero e por seus amigos Portugal incorporava-se na grande tragédia que para a inteligência foi o século que findou.

Afirmativo, Antero asfixiava-se na floresta de espesso subjetivismo que a mentira racionalista lhe interpusera no seu mundo interior, separando a Vontade da Razão, — a Acção do Pensamento. Da velha torre solarenga nada mais restava, senão à flor da terra o desenho vago dos alicerces. E o que fora até aí mero impulso de defesa ou voz alarmada de prevenção, volve-se em Antero e nos seus camaradas num apelo exasperado para a intervenção cirúrgica. Assim devemos compreender o árduo trabalho demolidor de um Eça, de um Oliveira Martins. Com o que eles não transigiam era com o aparato hipócrita do existente, era com o cache-nez do duque de Ávila ou com o senhor Melício do Jornal do Comércio — símbolos duma sociedade que se anquilosara, satisfeita e rechonchuda, na adoração da própria passividade. E bem se lhe pode aplicar, a essa gloriosa hoste de Antecipados, o que um Eça de Queiroz observaria de outro — Ramalho Ortigão: — "Na invasão asiática do Cristianismo — havia a legião dos iconoclastas, para derrubar os ídolos e, atrás, a coorte dos apóstolos, para fundar a Lei-Nova. As Farpas eram os iconoclastas: vinham para desmantelar os bustos olímpicos: deviam deixar aos S. Paulos o cuidado de plantar as cruzes."

O cuidado de plantar as cruzes! Quem as plantou, senão os desiludidos da quimera doida da Revolução, que Proudhon, ensinando-os a amá-la, lhes ensinaria também a desarticular, peça por peça, no seu combate incessante às estultas superstições liberalistas. Pondera Antero na sua Correspondência: — "Os romances de Balzac são uma verdadeira história íntima do nosso século, e tenho admirado como em certas coisas capitais (como a influência da bancocracia, a anarquia do livre-câmbio, as ilusões do constitucionalismo, etc.) a sua observação despreocupada da sociedade se encontra e concorda com a crítica sistemática do grande Proudhon." A crítica sistemática do grande Proudhon concordando com a moralidade dos romances de Balzac! E por aqui, pelo reconhecimento espontâneo, por parte de Antero, da identidade do filósofo revolucionário com o sociólogo de La comédie humaine, se nos denuncia o elo de ligação que a Pátria ancestral prendia tão intimamente os inadaptados das Conferências do Casino. Não é, deste modo, incongruência nenhuma que o mesmo Antero, dirigindo-se a Frederico Diniz Ayala, comentasse: — "A história que narra é, afinal, uma página mais, soez e grotesca se quiser, mas uma página do movimento político naturalista chamado das nacionalidades, que é uma das feições mais notáveis do nosso século. Por outro lado, a política antiportuguesa do partido regenerador nesta questão, é mais uma completa manifestação de incompatibilidade do liberalismo com o nacionalismo, cujas raízes e essência são muito outras."

Antero definia, em breves traços, a antinomia insolúvel do Nacionalismo com o Liberalismo. É que o fundo dramático de Oliveira Martins, no Portugal Contemporâneo, outro não é o ponto em que a nossa genealogia mental sobe da heterogeneidade das contribuições avulsas à plenitude de uma consciência própria. De então para cá, embora o período de reconstrução se adivinhe distante, nunca mais cessou em Portugal o combate à tara desorganizadora que envilecia a nacionalidade, a partir da Renascença, mas que o Romantismo-Político elevara à potencialidade extrema. O mal prosseguiria, é certo, na sua máxima curva, mas já as forças que no futuro o haviam de contra barreirar e dominar, porventura, entravam a conjugar-se, de aqui e de além, traduzindo o aflorar das reservas sãs da Terra e da Raça. Em tal conjunto de actividades, temos que contar com a energia desbravadora do republicanismo ideológico dos homens de 91. Houve neles uma intensa flama nacionalista, que jamais se conciliaria com o regímen de Judeus e de Mulatos em que o constitucionalismo conclui entre nós.

De diferentes derivações se vinha convergindo, pois, para a revelação do tal pensamento ainda indefinido, de que nos fala Oliveira Martins. O labor modesto dos folcloristas e arqueólogos somava-se prometedoramente ao renascimento intentado nos outros campos. O projeto de lei do Fomento rural é pedra que pertence ao mesmo edifício, para que a Portugália, — de dois republicanos, Rocha Peixoto e Ricardo Severo, — tão afanosamente e com tantos materiais concorreria. De Manuel da Silva Gaio a Afonso Lopes Vieira, o lusismo, ou seja, o neo-garrettianismo, desdobrava com voo rápido os seus primeiros ensaios. Só as realizações faltavam na obra de conjunto, embora não faltassem em detalhe, porque os morbos depositados no coração ingénuo da Pátria careciam de se expandir mais fortemente, para que a lição iluminasse a todos e a ninguém de boa fé se permitisse já o apelo para messianismos inconsistentes e ignaros.

Tal é a hereditariedade espiritual a que nos acolhemos filialmente, — nós que em 1914 pegámos do arado, lançando na herdade lusitana um sulco tão profundo que já não há vento daninho que o possa apagar. A nossa faina de semeadores não conheceu mais um minuto de descanso ou adormecimento.

Do que tem sido essa batalha, ou defrontando-nos com a anarquia que nos desagrega, ou fazendo face ao peso morto que ameaça sufocar, no seu pretenso conservantismo, o princípio de renovo em que Portugal parece querer florir, - do que tem sido essa batalha não é para aqui o contá-lo e comentá-lo. Basta que assinalemos com a maior humildade de propósitos o trajeto que já se andou, tanto em extensão como em intensidade. Na desordem geral, dos espíritos, sente-se, apalpa-se uma certeza, uma coesão que se desenha e robustece, e aumenta. Frutifica o sincero entusiasmo do reduzido grupo de vontades que em 1914 se meteu à empresa penosa de restaurar a alma da Pátria, voltando à senda esquecida da sua tradição.

E porque se escreve a palavra "tradição", entendemos dever precisar-lhe o sentido. Não se trata de um regresso — duma suspensão. Filosófica e historicamente o nosso conceito de "tradição" equivale a dinamismo e continuidade. Estamos, por isso, bem longe de nos confinarmos numa ideia saudosista da sociedade que foi ou das gerações que passaram. Pelo contrário, abertos às solicitações clamorosas deste instante de febre, olhamos o futuro com um alto desejo de o prepararmos, melhor e mais belo, do que é a atualidade, tão horizontal e espessa em que vivemos. Eis porque se nos ajustam inteiramente as considerações seguintes de Jacques Maritain. "De qualquer forma, uma coisa é clara para nós: não estamos lutando pela defesa e manutenção da atual "ordem" social e política. Lutamos para salvaguardar os elementos da justiça e da verdade, os restos do património humano, as reservas divinas que permanecem na terra, e para preparar e realizar a nova ordem que deve substituir a presente desordem".. [En tout cas une chose est claire à nos yeux : c'est que nous ne luttons pas pour la défense et le maintien de «l’ordre» social et politique actuel. Nous luttons pour sauvegarder les éléments de justice et de vérité, les restes du patrimoine humain, les réserves divines qui subsistent sur Ia terre, et pour préparer et réaliser l'ordre nouveau qui doit remplacer le présent désordre"] E, terminante, num período curto, em que a energia da frase se conjuga à energia das intenções, Jacques Maritain sintetiza o seu rumo de peregrino, em termos que se ajustam a nós perfeitamente, - "Portanto, odiamos a iniquidade revolucionário-burguesa que hoje envolve e vicia a civilização, como odiamos a iniquidade revolucionário-proletária que quer aniquilá-la." [“Nous haïssons donc l'iniquité révolutionnaire-bourgeoise qui enveloppe et vicie aujourd'hui la civilisation, comme nous haïssons l'iniquité révolutionnaire-prolétarienne qui veut l'anéantir."]

Refletindo no seu conflito o conflito da sociedade em geral, a sociedade portuguesa dissolve-se, vai-se, varrida pelo individualismo nas suas últimas e extremadas consequências. Serenos, no raciocínio das nossas convicções que a fé amplia num fundo de claridade invencível, não há desânimo que nos vença, nem tormenta que nos vergue. Salve-se o que subsista ainda de divino e de humano no amontoado de coisas sem nexo em que Portugal se subverte, incaracterizado e difamado. É obedecendo a tão religiosa obrigação para com Deus e para com a Pátria, criada à sua Semelhança e Imagem, que nós não desfalecemos nem um instante sequer na jornada empreendida, já se completaram nove anos, quando a mocidade nos punha nas veias fanfarras de triunfo. Semeou-se? Pois colher-se-á! E para que resulte em outras colheitas, e a seara cresça sempre, viçosa e farta, de novo entregamos à graça das Estações um pequeno punhado de grão, por acaso guardado no nosso pequeno celeiro.
​
Elvas, Quinta do Bispo, Janeiro de 1923.
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]