ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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Ao crepúsculo da Inteligência

António Sardinha
Análise crítica da fundação do Ateneu Popular (1917) e reflexões sobre o ensino operário

O semi-analfabetismo: o "demi-savant"
  • O Significado do Ateneu Popular. O texto inicia destacando a fundação, em Lisboa, do Ateneu Popular, uma instituição universitária voltada para a educação do povo. Esta iniciativa, inspirada em modelos franceses, como a ‘Corporação das Ideias’ de Georges Deherme, tem como objetivo declarado difundir a cultura e combater dogmas e preconceitos religiosos, económicos, políticos, morais e sociais, considerados entraves à realização das aspirações populares.
  • Crítica ao Espírito Preconcebido. Sardinha sublinha, ao transcrever parte do comunicado oficial, o caráter preconcebido e sectário que marca o início dos trabalhos do Ateneu Popular. Salienta que a sua crítica não é uma hostilidade pessoal ao núcleo generoso de dirigentes operários, mas sim uma advertência ao semi-intelectualismo perigoso que pode contaminar a obra desde o início. O autor distingue o seu posicionamento: não se opõe ao sindicalismo, que considera justo em essência, mas à abordagem escolhida para a educação popular, que julga inadequada e inconsequente.
  • Universidade Livre: Entre a Utopia e a Falsificação Pedagógica. O texto apresenta uma crítica contundente ao conceito de Universidade Livre. Para o autor, tais instituições partem de uma ideia antecipada que, inevitavelmente, resulta numa falsificação pedagógica, criando uma psicologia híbrida e superficial, ilustrada na figura do "demi-savant" — o racionalista que rejeita a alma e substitui a religião pela crença cega na ciência. Paul Bourget é citado para caracterizar estes indivíduos como aqueles que consideram liberdade de espírito a negação das verdades tradicionais e a aceitação acrítica de hipóteses recentes, fomentando uma indecisão de classes que enfraquece o proletariado.
  • O Aburguesamento Operário. Sardinha identifica uma das consequências mais nefastas do Ateneu Popular: a perda do vigor operário. Cita Georges Sorel para reforçar a ideia de que a tentativa de transformar as classes produtoras conduz ao seu aburguesamento, reduzindo os laços com a profissão e levando à decadência intelectual e moral do operariado, como observado na Inglaterra por Kautsky. O ensino deve concentrar-se em fortalecer o amor e a dignidade da profissão, valores outrora cultivados pelas corporações de ofício, e não na difusão superficial de ideias gerais.
  • O Perigo da Cultura Superficial. A crítica estende-se à cultura popular promovida pelas Universidades Livres, vista como uma promessa vã que não gera cultura genuína nem ciência verdadeira. Ao invés disso, perpetua uma erudição incompleta, baseada em hipóteses desacreditadas, comparadas a contos de fadas por Sorel. Esta ilusão resulta em radicalismo e na substituição de valores autênticos por ideias vagas e conceitos abstratos, levando à decadência social descrita por Bourget: uma sociedade repleta de indivíduos incapazes dos trabalhos comuns e desadaptados ao seu meio.
  • Os Frutos Amargos do Ensino Genérico. O autor observa que muitos dos formados por tais instituições tornam-se agitadores, escritores de ocasião e abandonam suas profissões originais, confirmando o aburguesamento operário. Flaubert é citado para ilustrar o empobrecimento intelectual resultante da massificação da leitura superficial, proporcionada pela imprensa, que dispensa o pensamento crítico. Assim, a cultura dirigida ao operariado acaba reduzida a discursos vazios e associações inócuas.
  • Missão dos Ateneus Populares: Uma Proposta Alternativa. Conclui-se que, ao se propor combater dogmas nas várias esferas, o Ateneu Popular se afasta tanto da cultura quanto da ciência, pois estas, longe de eliminar dogmas, contribuem para os examinar e sintetizar, defendendo-os quando necessário. O autor sugere que o verdadeiro caminho para os Ateneus Populares e para o sindicalismo reside no ensino técnico, que restaure a dignidade e o amor pela profissão. Este ensino prático, ao invés da cultura meramente teórica, formaria uma “espécie de intelectualidade” adaptada ao campo operário, equivalente ao génio nas esferas superiores, cumprindo, assim, a verdadeira missão educativa dessas instituições.
 



​Dão os jornais a notícia da constituição em Lisboa de um instituto de ensino universitário para educação do povo, denominado Ateneu Popular. É certamente inspirado nas instituições francesas do mesmo género, talvez até sobre a ‘Corporação das Ideias’, a que preside em Paris a mentalidade interessante do positivista Georges Deherme. Tem o Ateneu Popular por fim, segundo a nota fornecida à imprensa, «a difusão da cultura, combatendo a existência dos dogmas e preconceitos religiosos, económicos, políticos, morais e sociais em que se baseia a ignorância que retarda a realização das aspirações que norteiam os povos». Transcrevo quase na íntegra, como se vê, parte de um longo período em que se condensam os desígnios da nova Universidade Livre. E transcrevo-o para destacar o espírito preconcebido e sectário que encaminha a iniciação dos seus trabalhos preparatórios.
Quando assinalo esse espírito preconcebido e sectário, não quero com isso traduzir hostilidade para com o intuito, sem dúvida generoso, que leva a semelhante iniciativa um núcleo reduzido de dirigentes das nossas camadas operárias. Não! O que eu quero é destacar o semi-intelectualismo perigoso para os mesmos operários, que já está viciando de antemão a obra a que à sua Universidade Livre se destina. Ninguém nos pode acusar de adversos ao movimento sindicalista, a cada hora reconhecido por nós como justo na sua essência, embora violento e exagerado nos seus detalhes. É outro o problema que nos preocupa. E preocupa-nos não só debaixo do ponto de vista geral, mas ainda sob o aspecto mais particular de governanação dos próprios interessados.
Francamente, e sem mais rodeios, eu declaro-me, e comigo, creio, quantos se esforçam por alguma coisa de nobre e de proveitoso, contra a verdadeira inutilidade que é sempre uma Universidade Livre. Uma Universidade Livre supõe uma ideia antecipada que se resolve inevitavelmente numa falsificação pedagógica e inconsequente, criando a psicologia mestiça que mais de um escritor definiu e concretizou no demi-savant. O demi-savant é esse tipo caricatural do racionalista que não acredita na alma porque nunca a viu e que, confundindo o idealismo, o idealismo exautorado da Revolução, com as verdadeiras conquistas da inteligência, substituiu às religiões reveladas a religião de Ciência. Paul Borget caracteriza muito bem os demi-savants ao escrever que «eles tomam por liberdade de espírito a negação das verdades tradicionais e a adesão às hipóteses mais recentes, que consideram ingenuamente como sendo as do futuro. Este luxo intelectual, que não serve senão para generalizar a pior das perversões sociais, faz que a medida flutuante das populações urbanas não seja nem burguesa, nem operária, dando lugar a uma indecisão de classes, em que o proletário perde a parte mais viva da sua energia.
​
Eis aqui uma das consequências – e das mais funestas! –, da Democracia [para os integralistas, "democracia" é sobretudo sinónimo de oligarquia e de partidocracia] Georges Sorel, o grande mestre do pensamento sindicalista, em mais de uma passagem da sua obra notabilíssima a denuncia como tal. Assim, na sua Introduction à l’économie moderne, ele pondera com a incisão costumada: «Pode-se perguntar, se os esforços empregados até hoje para civilizar as classes produtoras darão bons resultados. Eu tenho muito receio que as não aburguesem e acho que com isso só se diminui a resistência dos laços que ligam os trabalhadores à sua profissão.» E Sorel, depois de acrescentar que, em vez de se submeter o operário aos caprichos da sua imaginação, o que convém é concentrá-lo no círculo das suas preocupações profissionais, reconhece que o aburguesamento do operariado inglês, que imita todos os rídiculos das classes superiores do seu país e que já Kautsky assinalara no Mouvement socialiste, representa para o mesmo operariado uma desgraçada decadência intelectual e moral.»

Não se pretende significar com esta atitude o desejo de que o operariado permaneça na ignorância das ideias gerais que se relacionam com a compreensão da vida e com o exercício da inteligência aplicado à sua profissão. Pelo contrário! Entendemos, porém, como mais imperioso que a educação do operariado se subordine principalmente a um fim imediato, já com a intenção de lhe facilitar e desenvolver os progressos técnicos, já com a mira de lhe incutir a valer o amor da Profissão. Porque, desgraçadamente, o amor da Profissão não existe, como não existe a dignidade dela! Antigamente, com as corporações de Artes-e-Ofícios, graças aos diversos graus por que o operário ascendia até ser mestre, a Profissão constituia uma espécie de nobreza, rodeada de privilégios e isenções, tão fortes e respeitados como os da outra, da nobreza política. Querem exemplo melhor que o da casa dos Vinte-e-Quatro, bradando ao enviado de el-rei D. Pedro II que, se aquela casa era de vinte e quatro, como é que lá haviam de caber vinte e cinco?

Infelizmente, tudo se subverteu com o advento da Democracia, até as vocações que tornavam por vezes verdadeiros génios na sua esfera os artífices de outrora. Contribuiu bastante para esse facto lamentável, não só a concorrência da máquina, que vein dispensar a intervenção da inteligência no trabalho operário, como também o desgosto da sua situação em que o arrivismo dos novos tempos lançou o produtor. A miragem ideológica da Perfectibilidade e da Ciência, uma prometendo o paraíso na terra, a outra desvendando todos os mistérios em que o enigma da existência se envolvia, agravaram o mal que continuou crescendo e que se mostrou quase incurável, quando o racionalismo se lembrou de suscitar um dia o operário para a panaceia da chamada ‘cultura popular’
.
O velho Proudhon, como um profeta clamando debalde no deserto, fartou-se de bradar aos ingénuos que corriam atrás de uma tal mentira. Desgarrou-se a sua voz nos tumultos cada vez mais avariados do século findo. Mas Georges Sorel ressuscita-a hoje, e ressuscita-a com o vigor de uma observação que é tão invencível como a sua dialéctica. Assim repara ele: «Pode-se afirmar que a democracia constitui um perigo para o futuro do proletariado, desde que ela ocupa o primeiro lugar nas preocupações do proletariado; porque a democracia confunde as classes e tende por conseguinte a fazer considerar as ideias de profissão como sendo indignas do homem esclarecido...» E ferindo sempre a mesma nota, Georges Sorel acrescenta noutra parte: «Em vez de se tornar a juventude simultaneamente consciente, artista e sábia em tudo quanto respeita à produção... dirige-se antes o ensino do povo como se não tratasse senão de cultivar o espírito de um proletariado intelectual.»

Ora outros não costumam ser os frutos de apregoadas Universidades Livres! Cultura, como cultura serena e desinteressada, não existe lá nunca. E quando existisse, mesmo que os auditórios a não deixassem no mais pacífico dos abandonos, sempre resultava estéril e até anti-social. Antes escolas técnicas – universidades profisssionais, se se deseja empregar o termo, que é impróprio. Porque nada que mais enraíze e perverta do que uma erudição a meio caminho, cheia das hipóteses semicientíficas, actualmente em descrédito, que Georges Sorel classifica de contos tão fantasmagóricos como os de fadas, marca Perrault & C., que eram as delícias dos serões do ancien-régime. As consequências dessa ilusão não demoram a verificar-se. Verificam-se no radicalismo fanático das multidões que a um Deus vivo substitui quanta divindade, Progresso, Humanidade, Cidade-Nova, lhe metem abusivamente pela cabeça adentro. É que quem pensa ‘profissão’ não pode nunca pensar ‘ideia’, dado o vago conceitualismo que o segundo pensamento traduz no campo puro do espírito quando comparado com o primeiro. Deriva daqui naturalmente o que Paul Bourget designa como decadência: «o estado de uma sociedade que produz um número excessivo de indivíduos impróprios para os trabalhos comuns».
Na realidade, os frequentadores de semelhantes círculos de educação proletária cedo se nos revelam inadaptáveis ao seu justo meio, «transitando depressa a meneurs encartados, agentes sistemáticos de agitação», a gazeteiros mesmo, e não tolerando por forma nenhuma a sua antiga profissão. Constata-se assim, e ruidosamente, o aburguesamento do operariado denunciado por Kautsky e tão temido por Sorel. Chega-se, numa palavra, àquele ponto, previsto já pelo romancista Flaubert na sua Correspondência: «Quando toda a gente souber ler o Petit Journal e o Figaro, não se lerá mais coisa nenhuma, porque o burguês, monsieur le riche, é tudo quanto lê. A imprensa é uma escola de embrutecimento, porque ela dispensa de pensar.» Efectivamente essa cultura para operários redunda sempre em artigos de fundo pouco mais ou menos, specimen Associação do Registo Civil ou do Livre-Pensamento.

Tais são as considerações que a fundação do Ateneu Popular de Lisboa me suscita. E elas são afinal legítimas quando é certo que, destinando-se, segundo as suas bases, a combater «a existência do dogma religioso, político, moral e social», o Ateneu já não faz obra nem de cultura nem de ciência.

A ciência examina os factos, formula as leis, enquanto a cultura arrecada e sintetiza o resultado desse exame. Nada mais convergente na actualidade para a defesa do que em verbologia revolucionária se alcunha de ‘dogmas’ do que a acção conjunta da ciência e da cultura! Chamo para isto a atenção dos sinceros que subscrevem as bases já publicadas no futuro Ateneu. E termino acentuando que ao Ateneu se abre um horizonte mais largo e sobretudo mais eficaz se, em vez de se consagrar a simples arremedos de cultura, procurar antes restituir, pelo ensino técnico ministrado segundo os melhores métodos conhecidos, a dignidade e o amor que os nossos operários estão bem longe de dispensar à Profissão. Obter-se-ia assim no meio do operariado, com vantagens e aplausos unânimes, essa ‘espécie de intelectualidade’ – é de Paul Bourget o conceito – toda de carácter profissional, que, adaptada a um âmbito estritamente prático... representa o equivalente, numa esfera mais modesta, do que se conhece por génio em outras esferas mais elevadas». Não deve ser outra a missão dos Ateneus populares. Não é outra a missão educadora que o Sindicalismo a si próprio se deve traçar, se não quiser desvirtuar as suas funções sociais, invadindo domínios que nem de longe, nem de perto lhe pertencem!
 

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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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