Meditação de Aljubarrota
António Sardinha
RESUMO
António Sardinha defende que a Batalha de Aljubarrota seja vista não como símbolo de divisão entre Portugal e Castela, mas como um marco do destino comum dos povos peninsulares. Para Sardinha, edificar uma nação exige mais do que nacionalismo, sendo fundamental equilibrar sentimento, razão e objetivos espirituais. Salienta os papéis contraditórios do povo e da nobreza na crise do século XIV e destaca Nun’Álvares Pereira como exemplo de coragem e de fé. A vitória em Aljubarrota afastou Portugal das disputas peninsulares e possibilitou os Descobrimentos. A vitória de Castela em Toro abriu caminho ao seu decisivo papel contra a heresia protestante e o avanço otomano. Os destinos complementares de Portugal e Castela, sugerem que a celebração de Aljubarrota inspire fraternidade e renovação espiritual face aos desafios do presente.
Nesta hora decisiva para a influência da Península nos destinos do mundo e da civilização, o aniversário da batalha de Aljubarrota oferece-nos tema largo para que destrincemos a parte que há-de sempre caber a Portugal, como nação independente, na finalidade comum, marcada por Deus aos dois grandes povos peninsulares.
Nunca é demais o acentuar-se que apenas nacionalismo não basta. Reconhecimento exclusivo da realidade inconfundível, ou de uma raça, ou de um povo, o nacionalismo, como regra única de conduta, pode tornar-se até num forte agente de perturbação e anarquia.
O princípio das nacionalidades, na sua profunda essência sentimental e romântica, é, tal como se está vendo, em consequências bem desastrosas, no exemplo que todos os dias nos apresenta a destruição da Europa-Central por obra das insignes mediocridades que tomaram repimpado assento na Conferência da Paz. Por isso o nacionalismo, elemento fecundo e imprescindível, sim, mas também instintivo e tumultuário, não logra jamais estabilizar-se numa construção consistente e duradoira, se nele não intervêm, como filosofia própria – como método positivo de ação – as disciplinas claras da inteligência, imprimindo personalidade consciente ao Estado e encaminhando para um desfecho, seguro e lógico, as forças cegas da História.
Pois o movimento da incontida explosão nacionalista que se coroa nos plainos de Aljubarrota com a nossa vitória sobre o exército castelhano, demonstra-nos largamente a verdade destas pequenas reflexões.
Noção ou conceito moral de Pátria não existia por então ainda, definido e ancorado nos espíritos. O que existia era como que o sentimento natural de uma diferença, a que o egoísmo privado da dinastia dava as linhas necessárias para se guardar e defender. Não é negar o arcaboiço rijo da Pátria Portuguesa! Na sua robusta unidade, é ela uma das mais antigas do nosso continente. Mas é salientar um facto que não pode nem deve escapar a todo aquele que não despreze, para compreensão do futuro, as lições terminantes do Passado.
Ora, ao findar o século XIV, com a crise aberta pela morte de D. Fernando, Portugal, não se furtando à lei geral da formação das nacionalidades modernas, dificilmente adquirira consciência da sua personalidade política, já bem individualizada, sem dúvida, mas não dispondo de outra expressão que não fosse a da identificação da legitimidade do Estado com a legitimidade do monarca. Na ideia medieval da honra, na ideia da fides recíproca, saída do pacto feudal, consistia a ética por que se pautavam os deveres do agregado para com o seu soberano e chefe supremo. Depois, o Direito Romano, em pleno florescimento, contribuía para imprimir à índole do Estado uma estrutura patrimonial ainda mais contornada. Assim, não foram traidores, no sentido corrente que à palavra se liga, os que, mantendo nos castelos a custódia da terra e o prestígio da autoridade, não acompanharam o partido revolto que pôs no trono o Mestre de Avis.
Precisamente, para não serem perjuros, para não traírem o seu juramento de filhos-de-algo, é que certos historiadores de vista curta costumam descrevê-los como vendidos a Castela e sacrificando a independência da Pátria às suas baixas e criminosas ambições. Passemos por cima do lugar-comum em que a dignidade da nossa história jaz há muito prostituída e amortalhada, recordando ligeiramente que, obedecendo a D. Beatriz, a nobreza de 1384 seguia os ditames das Cortes que a tinham jurado herdeira da coroa. Caem, pois, em pecado mortal de ignorância os que supõem que D. Fernando nos entregava de mãos atadas ao domínio odioso de Castela. Pelo contrário, D. Fernando acautelara com cuidado a nossa autonomia preceituando nitidamente que, enquanto D. Beatriz não tivesse filhos, governaria como regente do reino sua mãe, D. Leonor Teles, subindo ao trono, como monarca independente, o filho que viesse a nascer do ventre daquela pobre e apagada princesinha.
Tanto a solução quadrara bem na parte mais esclarecida da nacionalidade que o Mestre de Avis, segundo uma versão recolhida em mais de um cronista, seria o primeiro a mandar recado a D. João de Castela, para que acudisse a sustentar os direitos de sua esposa. O povo revoltara-se, em todo o caso, desde logo, revoltara-se o plasma poderoso da Nação, fermento nacionalista formidável, apesar de descoordenado e por vezes negativo. Mas o protesto dos reservatórios obscuros da raça só agravava as circunstâncias, já de si gravíssimas, pelo aspeto violento de jacquerie de que se revestia – assassinatos de bispos, ataques à propriedade, incêndios de igrejas e fortalezas.
Com a mentalidade e psicologia de todos os tempos, dificilmente se poderia estar com a gente da rua. No entanto, no clamor da rua residia, confusa e epilética, a diretriz vital da nacionalidade.
Época dolorosa de transição, como são sempre as épocas de transição, ela mostrava-nos, palpável e dramático, o conflito entre o vento novo que irrompia, tumultuando, e os interesses criados, os eternos interesses criados! – sempre custosos de se removerem. «Seja tudo contra Portugal e Portugal contra si mesmo!», exclamava em Alenquer melancolicamente o conde João Afonso Telo. Mas como ficar com «dois sapateiros, dois alfaiates», que em nada mais, para a moral altiva da classe nobiliária, consistia a reação fecunda em que Portugal se abrasava de alto a baixo? A mesma interrogação sentia o Mestre, tímido, hesitante, ignorando ainda a admirável personalidade que dormia dentro dele.
Vimo-lo mandando recados para Castela. Vemo-lo agora pretendendo para mulher a rainha viúva, que o repele energicamente. O facho da discórdia crescia e crescia, num torvelinho de destruição – labareda de ódios devorando Portugal intestinamente e facilitando com isso a invasão já próxima das massas armadas de Castela. É essa a altura em que o homem predestinado surge, em que surge o varão mandado por Deus.
Mais que nos prodígios de que lhe anda constelada a crónica piedosa, mais que na humildade e no ascetismo da sua renúncia admirável, é onde eu vejo o sinal inconfundível da vocação sobrenatural do Condestabre: é no arremesso incondicionado e aberto com que ele – um feudal, um homem da Cavalaria – se coloca à frente do populacho das ruas, e da desordem – alastrando, raivosa e impotente – consegue tirar o penhor seguro da vitória e da grandeza da pátria de amanhã. Visto de longe, nos frutos abençoados do seu esforço, dificilmente se compreende como o Condestabre é excecional, quase único. Saído das camadas aristocráticas, houve que vencer-se a si mesmo, lutar contra a família, contra os sentimentos da própria honra, contra o que então constituiria o que hoje chamamos «dever patriótico». Não hesita Nun’Álvares – embora triunfe por virtude do medievalismo de toda a sua imaculada figura – em combater contra o medievalismo que estrebucha, agonizante, e que o ascenso do Mestre ao trono matará definitivamente entre nós. Estranha e paradoxal contradição que só nos revela como Nun’Álvares, pelo carácter providencial da sua missão, teria de terminar sobre os altares, oferecendo a Deus, com a sua espada, o lírio imarcescível da sua clara alma de Galaaz! E qual é o ensinamento, qual é a inspiração, que, perante a atitude do Condestabre, no momento atual se impõe ao nosso patriotismo alarmado? Antes de mais nada, precisamos de reconhecer no caso de Nun’Álvares que, se Deus prepara e cria os acontecimentos, é sempre à vontade humana que cabe efetivá-los e completá-los. De outro modo, um fatalismo brutal conduziria a marcha da história, negando totalmente a intervenção deliberada das iniciativas do homem, sem o quê a nossa liberdade interior não passaria nunca de uma névoa, de uma fórmula vã. E se pensarmos um pouco mais em toda a vida magnífica do Condestabre, vir-nos-ia, como bons portugueses, o desejo de escrevermos uma Imitação de São Frei Nuno – espécie de breviário quotidiano para a nossa dupla fé católica e lusitanista.
Raison et bon sens ne suffisent pas ! – observou uma vez Renan, o cético, exatamente, quando nos degraus da Acrópole, invocava em Palas-Athenea a claridade serena da sabedoria antiga. Porque, na verdade, raison et bon sens ne suffisent pas, é que Nun’Álvares, colocando-se fora do existente, voltando esplendidamente as costas aos Mitos, às Normas, às urnas vazias já de toda a essência e de todo o conteúdo, venceu unicamente pelo poder supremo do Espírito. Rapaz e cabeça de um partido de rapazes, com as suas rapaziadas inconcebíveis, acendendo fogos no alto dos montes, tocando trombetas por entre a bruma cerrada, escavacando galhardamente távolas de festim, aprendamos em Nun’Álvares o segredo da nossa crença nacionalista que une ao gesto rebelde, que destrói e purifica, o gesto que tanto nos afila as mãos para o Céu, como no-las enclavinha, justiceiras e frementes, na coronha de uma espingarda. E o resto acontecerá, por graça de Deus, desde que, em plena vontade nossa, saibamos querer o que Ele no seu plano eterno já concebeu e já quis!
Nunca é demais o acentuar-se que apenas nacionalismo não basta. Reconhecimento exclusivo da realidade inconfundível, ou de uma raça, ou de um povo, o nacionalismo, como regra única de conduta, pode tornar-se até num forte agente de perturbação e anarquia.
O princípio das nacionalidades, na sua profunda essência sentimental e romântica, é, tal como se está vendo, em consequências bem desastrosas, no exemplo que todos os dias nos apresenta a destruição da Europa-Central por obra das insignes mediocridades que tomaram repimpado assento na Conferência da Paz. Por isso o nacionalismo, elemento fecundo e imprescindível, sim, mas também instintivo e tumultuário, não logra jamais estabilizar-se numa construção consistente e duradoira, se nele não intervêm, como filosofia própria – como método positivo de ação – as disciplinas claras da inteligência, imprimindo personalidade consciente ao Estado e encaminhando para um desfecho, seguro e lógico, as forças cegas da História.
Pois o movimento da incontida explosão nacionalista que se coroa nos plainos de Aljubarrota com a nossa vitória sobre o exército castelhano, demonstra-nos largamente a verdade destas pequenas reflexões.
Noção ou conceito moral de Pátria não existia por então ainda, definido e ancorado nos espíritos. O que existia era como que o sentimento natural de uma diferença, a que o egoísmo privado da dinastia dava as linhas necessárias para se guardar e defender. Não é negar o arcaboiço rijo da Pátria Portuguesa! Na sua robusta unidade, é ela uma das mais antigas do nosso continente. Mas é salientar um facto que não pode nem deve escapar a todo aquele que não despreze, para compreensão do futuro, as lições terminantes do Passado.
Ora, ao findar o século XIV, com a crise aberta pela morte de D. Fernando, Portugal, não se furtando à lei geral da formação das nacionalidades modernas, dificilmente adquirira consciência da sua personalidade política, já bem individualizada, sem dúvida, mas não dispondo de outra expressão que não fosse a da identificação da legitimidade do Estado com a legitimidade do monarca. Na ideia medieval da honra, na ideia da fides recíproca, saída do pacto feudal, consistia a ética por que se pautavam os deveres do agregado para com o seu soberano e chefe supremo. Depois, o Direito Romano, em pleno florescimento, contribuía para imprimir à índole do Estado uma estrutura patrimonial ainda mais contornada. Assim, não foram traidores, no sentido corrente que à palavra se liga, os que, mantendo nos castelos a custódia da terra e o prestígio da autoridade, não acompanharam o partido revolto que pôs no trono o Mestre de Avis.
Precisamente, para não serem perjuros, para não traírem o seu juramento de filhos-de-algo, é que certos historiadores de vista curta costumam descrevê-los como vendidos a Castela e sacrificando a independência da Pátria às suas baixas e criminosas ambições. Passemos por cima do lugar-comum em que a dignidade da nossa história jaz há muito prostituída e amortalhada, recordando ligeiramente que, obedecendo a D. Beatriz, a nobreza de 1384 seguia os ditames das Cortes que a tinham jurado herdeira da coroa. Caem, pois, em pecado mortal de ignorância os que supõem que D. Fernando nos entregava de mãos atadas ao domínio odioso de Castela. Pelo contrário, D. Fernando acautelara com cuidado a nossa autonomia preceituando nitidamente que, enquanto D. Beatriz não tivesse filhos, governaria como regente do reino sua mãe, D. Leonor Teles, subindo ao trono, como monarca independente, o filho que viesse a nascer do ventre daquela pobre e apagada princesinha.
Tanto a solução quadrara bem na parte mais esclarecida da nacionalidade que o Mestre de Avis, segundo uma versão recolhida em mais de um cronista, seria o primeiro a mandar recado a D. João de Castela, para que acudisse a sustentar os direitos de sua esposa. O povo revoltara-se, em todo o caso, desde logo, revoltara-se o plasma poderoso da Nação, fermento nacionalista formidável, apesar de descoordenado e por vezes negativo. Mas o protesto dos reservatórios obscuros da raça só agravava as circunstâncias, já de si gravíssimas, pelo aspeto violento de jacquerie de que se revestia – assassinatos de bispos, ataques à propriedade, incêndios de igrejas e fortalezas.
Com a mentalidade e psicologia de todos os tempos, dificilmente se poderia estar com a gente da rua. No entanto, no clamor da rua residia, confusa e epilética, a diretriz vital da nacionalidade.
Época dolorosa de transição, como são sempre as épocas de transição, ela mostrava-nos, palpável e dramático, o conflito entre o vento novo que irrompia, tumultuando, e os interesses criados, os eternos interesses criados! – sempre custosos de se removerem. «Seja tudo contra Portugal e Portugal contra si mesmo!», exclamava em Alenquer melancolicamente o conde João Afonso Telo. Mas como ficar com «dois sapateiros, dois alfaiates», que em nada mais, para a moral altiva da classe nobiliária, consistia a reação fecunda em que Portugal se abrasava de alto a baixo? A mesma interrogação sentia o Mestre, tímido, hesitante, ignorando ainda a admirável personalidade que dormia dentro dele.
Vimo-lo mandando recados para Castela. Vemo-lo agora pretendendo para mulher a rainha viúva, que o repele energicamente. O facho da discórdia crescia e crescia, num torvelinho de destruição – labareda de ódios devorando Portugal intestinamente e facilitando com isso a invasão já próxima das massas armadas de Castela. É essa a altura em que o homem predestinado surge, em que surge o varão mandado por Deus.
Mais que nos prodígios de que lhe anda constelada a crónica piedosa, mais que na humildade e no ascetismo da sua renúncia admirável, é onde eu vejo o sinal inconfundível da vocação sobrenatural do Condestabre: é no arremesso incondicionado e aberto com que ele – um feudal, um homem da Cavalaria – se coloca à frente do populacho das ruas, e da desordem – alastrando, raivosa e impotente – consegue tirar o penhor seguro da vitória e da grandeza da pátria de amanhã. Visto de longe, nos frutos abençoados do seu esforço, dificilmente se compreende como o Condestabre é excecional, quase único. Saído das camadas aristocráticas, houve que vencer-se a si mesmo, lutar contra a família, contra os sentimentos da própria honra, contra o que então constituiria o que hoje chamamos «dever patriótico». Não hesita Nun’Álvares – embora triunfe por virtude do medievalismo de toda a sua imaculada figura – em combater contra o medievalismo que estrebucha, agonizante, e que o ascenso do Mestre ao trono matará definitivamente entre nós. Estranha e paradoxal contradição que só nos revela como Nun’Álvares, pelo carácter providencial da sua missão, teria de terminar sobre os altares, oferecendo a Deus, com a sua espada, o lírio imarcescível da sua clara alma de Galaaz! E qual é o ensinamento, qual é a inspiração, que, perante a atitude do Condestabre, no momento atual se impõe ao nosso patriotismo alarmado? Antes de mais nada, precisamos de reconhecer no caso de Nun’Álvares que, se Deus prepara e cria os acontecimentos, é sempre à vontade humana que cabe efetivá-los e completá-los. De outro modo, um fatalismo brutal conduziria a marcha da história, negando totalmente a intervenção deliberada das iniciativas do homem, sem o quê a nossa liberdade interior não passaria nunca de uma névoa, de uma fórmula vã. E se pensarmos um pouco mais em toda a vida magnífica do Condestabre, vir-nos-ia, como bons portugueses, o desejo de escrevermos uma Imitação de São Frei Nuno – espécie de breviário quotidiano para a nossa dupla fé católica e lusitanista.
Raison et bon sens ne suffisent pas ! – observou uma vez Renan, o cético, exatamente, quando nos degraus da Acrópole, invocava em Palas-Athenea a claridade serena da sabedoria antiga. Porque, na verdade, raison et bon sens ne suffisent pas, é que Nun’Álvares, colocando-se fora do existente, voltando esplendidamente as costas aos Mitos, às Normas, às urnas vazias já de toda a essência e de todo o conteúdo, venceu unicamente pelo poder supremo do Espírito. Rapaz e cabeça de um partido de rapazes, com as suas rapaziadas inconcebíveis, acendendo fogos no alto dos montes, tocando trombetas por entre a bruma cerrada, escavacando galhardamente távolas de festim, aprendamos em Nun’Álvares o segredo da nossa crença nacionalista que une ao gesto rebelde, que destrói e purifica, o gesto que tanto nos afila as mãos para o Céu, como no-las enclavinha, justiceiras e frementes, na coronha de uma espingarda. E o resto acontecerá, por graça de Deus, desde que, em plena vontade nossa, saibamos querer o que Ele no seu plano eterno já concebeu e já quis!
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Interpretada assim a broxadas largas a figura do Condestabre, é imperioso que interpretemos igualmente o significado histórico da batalha de Aljubarrota. Por honra nossa e do sangue que nos queima as artérias, que nunca Aljubarrota seja uma data que divida, um grito que separe! Não hasteemos o pendão do Condestabre, como bandeira de qualquer filarmónica de patrioteirice – como diria Eça –, onde a pátria, tornada tema de pura retórica, perca o seu sentido positivo e orgânico e não seja mais que um nome abstrato, destinado a não hostilizar aquilo que é contrário e adverso à sua estrutura inalienável. Entendidos, não é verdade? Ora, da mesma forma não tomemos Aljubarrota como um simples ato guerreiro, desprendido de toda a sequência e toda a relação com a vida posterior de Portugal. Há que admitir na existência dos povos uma finalidade, uma vocação, mais ou menos correspondente àquela ideia-diretriz, que já Claude Bernard assinalava como presidindo ao desenvolvimento íntimo dos seres. O essencial na história – escreve, no seu Idearium Español, Ángel Ganivet – reside na ligação que prende os factos ao espírito do país em que tiveram lugar. Assim é, com efeito. E Aljubarrota, ao desenlaçar-se a crise do Estado Lusitano, já consolidado e agora aberto para os horizontes largos da sua expansão, foi a garantia segura e indispensável para que os Descobrimentos se realizassem e Portugal, nação do litoral, se metesse à empresa vasta das Descobertas.
Nas Descobertas se concentra, não só a base da nossa vitalidade nacional, mas a característica imorredoira do nosso génio de povo. De dois acontecimentos deriva a civilização moderna em todo o seu alto significado construtivo: do Cristianismo e das Descobertas. Os Descobrimentos deslocaram o eixo da cultura humana de um mar interior, o Mediterrâneo para a bacia imensa do Atlântico. Esse esforço sem igual, que fez filhas de Portugal as idades vindoiras do Mundo, não seria possível sem Aljubarrota.
E porquê? Porque, unido Portugal com Castela, ou Castela seguia o pendor da vertente atlântica e abalava connosco ao domínio do Mar, deixando pelas espaldas o Aragão, a política do Mediterrâneo e com ela o pesadelo do Turco e do Luteranismo, ameaçando subverter dentro de século e meio a ordem cristã na Europa, e a epopeia ultramarina da Península resultaria incompleta, deficiente e mesmo estéril; ou então, cedendo ao impulso da vertente mediterrânea, o atalaiado reino da meseta volver-se-ia unicamente para os problemas internos do continente, incapacitando Portugal, anexado e amordaçado, de chegar até onde chegou na dilatação da Fé e do Império.
Sejamos calmos! E na hora grave que passa – insisto –, que nunca a data de Aljubarrota se celebre como um motivo truculento de divisão e de discórdia entre dois países, cuja obra é comum nos seus lineamentos eternos de civilização e apostolado!
Num dos seus mais belos discursos, disse de uma vez Vázquez de Mella que sentira um intenso afecto al pueblo hermano, ao visitar o mosteiro da Batalha, «donde descansan los restos del vencedor de Aviz y del vencido de Toro, como si él fuese levantado, más que a discordia entre Castilla e Portugal, a una unidad superior a las dos». Igual sentimento me tomou por completo, quando em Toledo, na capela dos Reyes-Nuevos e junto do túmulo do monarca destroçado em Aljubarrota, contemplei o estandarte, arrancado em Toro ao nosso Alferes-Mor e que a mão varonil de Isabel-a-Católica suspendera do alto das abóbodas. A unidade superior a Portugal e Castela, em que ambas as pátrias se confundem e irmanam para a realização de um destino grandioso, essa unidade, de que fala Vázquez de Mella, Toledo ma revelou, como a Batalha a revelara ao ilustre tribuno tradicionalista. É que nós fomos vencidos em Toro pela razão oculta e sagrada porque fôramos vencedores em Aljubarrota!
A hegemonia de Castela na Península, como Estado interior, duraria enquanto durasse a Reconquista. Para lhe resistir à tendência absorvente, o Aragão procurara na Itália e no domínio do Mediterrâneo ocidental tanto como oriental, o seu eixo de apoio.
Outro tanto sucederia ao nosso país, evitando a consolidação do bloco castelhano, primeiro pela política inteligente, embora infeliz, de D. Fernando, e a seguir pela constituição do nosso poder naval. Passada a Reconquista, Castela, como uma grande nau balanceando, teria de escolher um dos dois caminhos marítimos – o do Mediterrâneo, ou o do Atlântico, para que não se sufocasse na sua clausura.
A própria conquista de Granada não se lhe tornava possível, sabidas as pretensões da coroa de Aragão, ou sem se unir a este, ou sem lhe opor um elemento que pesasse tanto como ele. Colocada em tão apertado dilema, o juízo de Deus pronunciou-se em Toro, como já se pronunciara em Aljubarrota. Venceu o partido que se inclinava para o Aragão. E casada agora à monarquia oriental da Península, Castela terminava a demanda secular da Reconquista, interrompida desde os tempos de São Fernando, e envolvendo-se na política europeia que o Aragão lhe trazia com a posse das Duas Sicílias, cumpria as secretas vias da Providência, por cujo supremo ditame a Europa se havia de salvar depois, com Carlos V, da heresia protestante e do perigo otomano avançando até às portas de Viena. Guardai-o bem com vós outros: é preciso amar a Castela, porque Castela é, como Portugal, o pelicano sangrando!
Se, diversamente, nós tivéssemos triunfado em Toro, isso equivaleria a perdermos Aljubarrota. Já com as Descobertas a desenrolarem a sua estrote ondulada, já com o domínio da África assente em posições numerosas, ver-nos-íamos de súbito envolvidos nas lutas caseiras da Península, com o Aragão a submeter, com o moiro de Granada ainda de pé, e decerto que os Lusíadas não se haveriam escrito, cantando a ação máxima do Peito Lusitano, em que por momentos descansou sublimemente a sorte ameaçada da civilização. Deus reservava-nos a cruzada do Mar, como reservava para Castela a cruzada da Terra. Sorrisse-nos a vitória em Toro, e nem a ulterior política europeia de Castela arrancaria a Europa ao caos da desordem religiosa e social, nem nós, «por mares nunca dantes navegados», levaríamos tão largo a semente incorruptível de Cristo. Eis porque Toro é o natural complemento de Aljubarrota. E outra não é a unidade superior a Portugal e a Castela que Vásquez de Mella admiravelmente surpreendeu debaixo das arcarias da Batalha e que, na minha amargura de exilado, me constelou o espírito de visões de grandeza, ajoelhado nas pedras da capela dos Reyes-Nuevos em Toledo.
Selada pelos desígnios soberanos de Deus, essa unidade patenteia-se-nos assombrosamente na circunstância de Isabel-a-Católica, vencedora em Toro, ser tanto bisneta do desbaratado de Aljubarrota, como de São Frei Nuno e do Mestre de Avis. Filha de portuguesa, na dinastia débil e verdadeiramente incapaz, dos Trastâmaras ela constitui uma súbita afloração de génio e de vontade, em que o sangue dos altos Infantes, transportado ao trono de Castela, mais uma vez se afirmava nas virtudes magníficas da sua magnífica hereditariedade. E será ainda o mesmo sangue que frutificará na pessoa de Carlos V, neto de Isabel, que, pela linha paterna, herdara também de Carlos-o-Temerário o atavismo excecionalmente dotado dos descendentes do Rei de Boa-Memória. É desde então que o Tosão-de-Oiro circunda o escudo da Espanha unificada. E o que é o Tosão-de-Oiro, senão o enlace simbólico da casa de Borgonha com a dinastia que se fundou em Aljubarrota e que cavou para sempre, como individualidades políticas autónomas, a separação de Portugal e de Castela?!
Nas Descobertas se concentra, não só a base da nossa vitalidade nacional, mas a característica imorredoira do nosso génio de povo. De dois acontecimentos deriva a civilização moderna em todo o seu alto significado construtivo: do Cristianismo e das Descobertas. Os Descobrimentos deslocaram o eixo da cultura humana de um mar interior, o Mediterrâneo para a bacia imensa do Atlântico. Esse esforço sem igual, que fez filhas de Portugal as idades vindoiras do Mundo, não seria possível sem Aljubarrota.
E porquê? Porque, unido Portugal com Castela, ou Castela seguia o pendor da vertente atlântica e abalava connosco ao domínio do Mar, deixando pelas espaldas o Aragão, a política do Mediterrâneo e com ela o pesadelo do Turco e do Luteranismo, ameaçando subverter dentro de século e meio a ordem cristã na Europa, e a epopeia ultramarina da Península resultaria incompleta, deficiente e mesmo estéril; ou então, cedendo ao impulso da vertente mediterrânea, o atalaiado reino da meseta volver-se-ia unicamente para os problemas internos do continente, incapacitando Portugal, anexado e amordaçado, de chegar até onde chegou na dilatação da Fé e do Império.
Sejamos calmos! E na hora grave que passa – insisto –, que nunca a data de Aljubarrota se celebre como um motivo truculento de divisão e de discórdia entre dois países, cuja obra é comum nos seus lineamentos eternos de civilização e apostolado!
Num dos seus mais belos discursos, disse de uma vez Vázquez de Mella que sentira um intenso afecto al pueblo hermano, ao visitar o mosteiro da Batalha, «donde descansan los restos del vencedor de Aviz y del vencido de Toro, como si él fuese levantado, más que a discordia entre Castilla e Portugal, a una unidad superior a las dos». Igual sentimento me tomou por completo, quando em Toledo, na capela dos Reyes-Nuevos e junto do túmulo do monarca destroçado em Aljubarrota, contemplei o estandarte, arrancado em Toro ao nosso Alferes-Mor e que a mão varonil de Isabel-a-Católica suspendera do alto das abóbodas. A unidade superior a Portugal e Castela, em que ambas as pátrias se confundem e irmanam para a realização de um destino grandioso, essa unidade, de que fala Vázquez de Mella, Toledo ma revelou, como a Batalha a revelara ao ilustre tribuno tradicionalista. É que nós fomos vencidos em Toro pela razão oculta e sagrada porque fôramos vencedores em Aljubarrota!
A hegemonia de Castela na Península, como Estado interior, duraria enquanto durasse a Reconquista. Para lhe resistir à tendência absorvente, o Aragão procurara na Itália e no domínio do Mediterrâneo ocidental tanto como oriental, o seu eixo de apoio.
Outro tanto sucederia ao nosso país, evitando a consolidação do bloco castelhano, primeiro pela política inteligente, embora infeliz, de D. Fernando, e a seguir pela constituição do nosso poder naval. Passada a Reconquista, Castela, como uma grande nau balanceando, teria de escolher um dos dois caminhos marítimos – o do Mediterrâneo, ou o do Atlântico, para que não se sufocasse na sua clausura.
A própria conquista de Granada não se lhe tornava possível, sabidas as pretensões da coroa de Aragão, ou sem se unir a este, ou sem lhe opor um elemento que pesasse tanto como ele. Colocada em tão apertado dilema, o juízo de Deus pronunciou-se em Toro, como já se pronunciara em Aljubarrota. Venceu o partido que se inclinava para o Aragão. E casada agora à monarquia oriental da Península, Castela terminava a demanda secular da Reconquista, interrompida desde os tempos de São Fernando, e envolvendo-se na política europeia que o Aragão lhe trazia com a posse das Duas Sicílias, cumpria as secretas vias da Providência, por cujo supremo ditame a Europa se havia de salvar depois, com Carlos V, da heresia protestante e do perigo otomano avançando até às portas de Viena. Guardai-o bem com vós outros: é preciso amar a Castela, porque Castela é, como Portugal, o pelicano sangrando!
Se, diversamente, nós tivéssemos triunfado em Toro, isso equivaleria a perdermos Aljubarrota. Já com as Descobertas a desenrolarem a sua estrote ondulada, já com o domínio da África assente em posições numerosas, ver-nos-íamos de súbito envolvidos nas lutas caseiras da Península, com o Aragão a submeter, com o moiro de Granada ainda de pé, e decerto que os Lusíadas não se haveriam escrito, cantando a ação máxima do Peito Lusitano, em que por momentos descansou sublimemente a sorte ameaçada da civilização. Deus reservava-nos a cruzada do Mar, como reservava para Castela a cruzada da Terra. Sorrisse-nos a vitória em Toro, e nem a ulterior política europeia de Castela arrancaria a Europa ao caos da desordem religiosa e social, nem nós, «por mares nunca dantes navegados», levaríamos tão largo a semente incorruptível de Cristo. Eis porque Toro é o natural complemento de Aljubarrota. E outra não é a unidade superior a Portugal e a Castela que Vásquez de Mella admiravelmente surpreendeu debaixo das arcarias da Batalha e que, na minha amargura de exilado, me constelou o espírito de visões de grandeza, ajoelhado nas pedras da capela dos Reyes-Nuevos em Toledo.
Selada pelos desígnios soberanos de Deus, essa unidade patenteia-se-nos assombrosamente na circunstância de Isabel-a-Católica, vencedora em Toro, ser tanto bisneta do desbaratado de Aljubarrota, como de São Frei Nuno e do Mestre de Avis. Filha de portuguesa, na dinastia débil e verdadeiramente incapaz, dos Trastâmaras ela constitui uma súbita afloração de génio e de vontade, em que o sangue dos altos Infantes, transportado ao trono de Castela, mais uma vez se afirmava nas virtudes magníficas da sua magnífica hereditariedade. E será ainda o mesmo sangue que frutificará na pessoa de Carlos V, neto de Isabel, que, pela linha paterna, herdara também de Carlos-o-Temerário o atavismo excecionalmente dotado dos descendentes do Rei de Boa-Memória. É desde então que o Tosão-de-Oiro circunda o escudo da Espanha unificada. E o que é o Tosão-de-Oiro, senão o enlace simbólico da casa de Borgonha com a dinastia que se fundou em Aljubarrota e que cavou para sempre, como individualidades políticas autónomas, a separação de Portugal e de Castela?!
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Meditação de Aljubarrota, meditação da Esperança, profunda e ardente... Faltaríamos à unidade superior, em que Deus congregou e abraça Portugal e Castela, se a comemoração da gloriosa data não assumisse para nós o carácter de um verdadeiro mandato imperativo – o de cumprirmos irmãmente, portugueses e espanhóis, aquele alto destino que o futuro nos reserva na história imortal. É doloroso de incerteza o instante que corre, bem o sabemos. Nos seus fundamentos a cidade tradicional parece estremecer ao arranco dos novos bárbaros. Não tardará que a Cruzada surja outra vez, como na Idade Média, e que tenha de ser pela Tiara e pelo Cetro o que for, sem mais palavras, simplesmente, pela civilização. Situada entre a Europa e a América, senhora das portas de dois mares, a Península necessita de devolver-se à sua comunhão espiritual perdida, ao senso perdido da sua vocação secular. Que São Frei Nuno esteja connosco, como estava em Aljubarrota ao lado do Mestre, como esteve em Granada batendo nas veias de Isabel, como pulsou em Lepanto animando o coração heroico de D. João de Áustria! E o Portugal Maior regressará à posse dos seus antigos roteiros, para que a energia da raça volte a salvar a beleza do mundo, já meio apagada no longo crepúsculo que sobre ela tragicamente anoitece...
Agosto, 1920.
António Sardinha, 1887-1925
[ "Meditação de Aljubarrota" in Ao princípio era o Verbo, 2ª ed., Edições Gama, 1940.]
Agosto, 1920.
António Sardinha, 1887-1925
[ "Meditação de Aljubarrota" in Ao princípio era o Verbo, 2ª ed., Edições Gama, 1940.]