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O PAn-Hispanismo

António Sardinha
 [ António Sardinha, O Pan-Hispanismo, Contemporânea, nº 2, Junho de 1922, pp. 49-51. ]

António Sardinha discute aqui a relação histórica entre Portugal e Espanha, destacando a importância de uma colaboração peninsular baseada em afinidades culturais e históricas, em vez de uma unidade política forçada. Defende que a cooperação entre ambos os países pode ser expandida para o pan-hispanismo, incluindo também o Brasil, como forma de recuperar a influência global das nações de origem hispânica e enfrentar desafios modernos com união e solidariedade.


​O PAN-HISPANISMO


​​É a 12 de outubro que passa a comemoração da descoberta da América pelas caravelas de Colombo. Já a Espanha consagrou esse dia como o dia da Raça», -como o dia da festa da sua civilização. Evidentemente que «raça» se não toma aqui num restrito significado étnico. Enche-se antes dum amplo sentido cultural e histórico em que Portugal e o Brasil cabem perfeitamente, sem ofensa aos seus velhos pergaminhos nacionalistas.
 
Na verdade, desde que a Espanha, solenizando o 12 de outubro, procura restaurar a antiga lareira espiritual em que se aqueceram e tomaram o ser os semeadores de tantos povos de alem do Atlântico e que do outro lado do mar a grande madre ibérica encontra eco prolongado e caloroso, eu pregunto por que motivo, brasileiros e portugueses, não hão de corresponder ao mesmo sentimento, incorporando-se com entusiasmo na caravana que de dia para dia vai engrossando?
 
Um equívoco secular, que hoje já mal resiste ao exame da inteligência, vincou um longo e doloroso divorcio entre as duas prestigiosas pátrias da Península. No entanto, se escutarmos bem as vozes profundas da nossa tradição, logo veremos que as lutas de Portugal com Castela são lutas de família, que em família sempre se resolveram. 
 
Filha de portuguesa e como tal descendente do mestre de Avis e do Santo Condestabre, Isabel-a-Católica venceu em Toro seu primo Afonso V, que, por sua vez, descendia de D. Juan I, — o monarca derrotado em Aljubarrota. Daí uma circunstância que vale como um símbolo, porque parece ditar-nos a regra de conduta em que Portugal necessita de inspirar o conceito das suas relações com Espanha.
 
Houve— e ninguém o contesta parêntesis de luto e de sangue a cavarem separações que não deveriam deixar mais vestígios que os de uma proveitosa experiência. Mas, por sobre eles, dominadora como as verdades que por si próprias se impõem, resplandece a unidade moral duma civilização que, tendo na Península o seu berço original, é obra comum de espanhóis e de portugueses.
 
O engano foi supor-se que essa «unidade moral» exigia uma consequente «unidade política», quando desde as indicações de geografia às indicações da história, naturalmente a Península se mostrava conformada para a coexistência de dois Estados, - um, Portugal, aberto às influências do mar, o outro, Castela, como Estado mais territorial que marítimo, reservado, por conseguinte, para a conquista da hegemonia continental. De resto, é o que sucede na época de mais fastígio para ambas as nacionalidades, com Carlos V e Felipe II dum lado, dispondo quase da sorte da Europa e com D. Manuel I e D. João III no pequeno canto lusitano, fundando com o poder-naval aquele admirável império de que os Lusíadas são a ressonância eterna. ‹Durante este período, que é o de maior prosperidade e grandeza dos povos peninsulares, — escreve o malogrado Moniz Barreto
-, a consciência da força própria suprime desconfiança e temores, e a identidade de aspirações e sentimentos cimenta as bases duma aliança em que compartilhamos com a Espanha a hegemonia no Mediterrâneo ocidental e nos dois Oceanos».
 
Mas a lembrança de tão glorioso paralelismo não conseguiu evitar que espanhóis e portugueses viessem a conhecer a decadência e o esquecimento, quando tiveram verdadeiramente nas suas mãos os destinos do mundo inteiro. Ora inventariarei aqui o longo rosário de desgraças e humilhações que tanto para portugueses, como para espanhóis, tem representado o seu criminoso desentendimento. Mutilada, dividida, a história da Península tornou-se como o lenço da Veronica a sangrenta efigie da nossa alma — aplicando uma imagem inolvidável de Moniz Barreto. - E, todavia, pela sua posição excecional, senhora do Estreito que devia ser e terraço lançado sobre as águas do Atlântico ao encontro da América, que missão não assinalou Deus à Península, se nós a quiséssemos e a soubéssemos cumprir!
 
Pois a hora presente é-nos, como nunca propicia! «Na opinião geral, - escrevia há já bastantes anos o general Rodrigues de Quijano -, só Espanha e Portugal pelos seus precedentes e índole especial de raça, podem chegar a ser o verdadeiro laço de união entre a Europa, a América e a Africa...› Em sucintas palavras, se condensa todo o futuro das duas pátrias peninsulares, se olhando para a frente com coragem e iniciativa, nos resolvermos a executar tão belo programa de ação, para o qual, antes de tudo se estabelece como primeiro passo, a necessária aproximação de Portugal e Espanha. Assim, o desacreditado iberismo, de evidente marca maçónica e revolucionaria, será vencido pelo peninsularismo cujas raízes na geografia e na história, exigem logo de entrada, como condição prévia, que a tolerância política e económica dos dois Estados da Península seja integralmente respeitada.
 
Mas o peninsularismo não é senão a jornada inicial! Na margem oposta do Oceano - do Oceano que nós tornámos algum dia como mare nostrum, num perfeito lago familiar—, outras pátrias existem que falam a nossa língua e que não ficam insensíveis ao nosso apelo. O pan-hispanismo nos surge daqui, como conclusão lógica, constituído por dois elementos estruturais, - o espanholismo e o lusitanismo «Voz clamorosa de la sangre, contra el pan-americanismo, — foi como definiu o pan-hispanismo o ano passado, por ocasião da Festa de Raça, no seu formoso discurso do Teatro Real de Madrid o conde de la Montera, D. Gabriel Maura Gamajo, acrescentando em seguida que «los pueblos que no se agrupen en organizaciones más amplias que la sociedad nacional, sucumbirán bajo el imperialismo».
 
Suponho suficientemente enunciadas as razões que nos levam a nós, portugueses, a não permanecer indiferentes perante o significado atualíssimo do pan-hispanismo.
 
Prefaciando o estudo recente de Marius André sobre colonização espanhola na América, o próprio Charles Maurras acaba de reconhecer sem vacilações a sua extraordinária importância. E o Brasil, que não esqueceu por certo os avisos de Eduardo Prado no seu livro A ilusão americana, não vão abdicar das suas justas ambições de poderio e desenvolvimento, que só na liga das nacionalidades hispânicas acharão garantia solida e perfeita. Lancemo-nos, por isso, à vanguarda de uma civilização que é nossa e que hoje diríamos sonâmbula, como que vivendo as formas mumificadas do tempo que já não volta. O que é essencialíssimo é que os povos, de derivação peninsular, readquiram a consciência da sua finalidade superior e que o exemplo parta da Península, - sua casa paterna e solar venerando. E por muito que o problema se nos afigure emaranhado e difícil, é em cada um de nós que a sua solução reside. «Las naciones de origen hispánica, - observa novamente o conde de la Montera -, se decidirán talvez muy pronto a buscar en la unión efusiva y fraternal con las de más hijas de la madre común, la fuerza misma que las otras les ofrecen, mediante artificiosas combinaciones diplomáticas o económicas». Prepare-se Portugal, pela sua parte, reorganizando-se como nação forte e estreitando cada vez mais os vínculos da sua amizade com a Espanha, nossa irmã, e com o Brasil, nosso filho primogénito. E como numa primavera nunca vista, a flor do internacionalismo hispânico abrirá as suas pétalas de maravilha, ressuscitando a manhã longínqua em que a América se revelou em toda a sua magnifica adolescência, aos pilotos de Cristóvão Colombo e à marujada de Pedro Alvares Cabral!
 
ANTÓNIO SARDINHA.

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Evidentemente que "raça" se não toma aqui num restrito sentido étnico. Enche-se antes de um amplo sentido cultural e histórico em que Portugal e o Brasil cabem perfeitamente, sem ofensa aos seus velhos pergaminhos nacionalistas.
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Citando Moniz Barreto, referindo-se ao paralelismo de Quinhentos: "Durante este período, que é o de maior prosperidade e grandeza dos povos peninsulares, a consciência da força própria suprime desconfiança e temores, e a identidade de aspirações e sentimentos cimenta as bases de uma aliança em que compartilhamos com a Espanha a hegemonia no Mediterrâneo ocidental e nos dois Oceanos."
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E o Brasil, que não esqueceu por certo os avisos de Eduardo Prado no seu livro "A ilusão americana", não vai abdicar das suas justas ambições de poderio e desenvolvimento, que só na liga das nacionalidades hispânicas acharão garantia sólida e perfeita"


​Moniz Barreto; Os Lusíadas; Rodrigues de Quijano; pan-hispanismo = espanholismo + lusitanismo; Gabriel Maura Gamajo.

Relacionado
  • 1893 - Eduardo Prado, A ilusão americana -  livro proibido pela república brasileira
  • 1915 - O Território e a Raça, Conferência realizada na Liga Naval Portuguesa, em 7 de Abril de 1915.
  • 1922 - O Pan-hispanismo, Contemporânea, nº 2, Junho de 1922, pp. 49-51.
  • ​1922 - La Unidad Hispánica, in Unión Ibero-Americana, Julio y Agosto de 1922, pp. 67-73.
  • ​1924 - Madre-Hispânia.
  • 1924 - A Aliança Peninsular.
  • 1930 - A Aliança Peninsular - Antecedentes & Possibilidades, 2ª edição, Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde la Mortera, Porto, Livraria Civilização.
  • 1930 - La Alianza Peninsular, Prólogo de Ramiro de Maeztu, tradução de marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Río, Madrid, 1930; 
  • 1939 -  La Alianza Peninsular, 2ª edição em espanhol, tradução e prólogo de marquês de Quintanar, prólogo da 1ª edição espanhola de Ramiro de Maeztu, e "Unidad y Dualismo Peninsular", estudio de José Pequito Rebelo, Segovia, El Adelantado, 1939.
  • 1943 - À Lareira de Castela - Estudos Peninsulares, Lisboa.
  • 1972 - Aliança Peninsular, 3ª edição, Lisboa, Biblioteca do Pensamento Político, com nota prévia de Mário Saraiva (4ª edição, Lisboa, 1974).
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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